



KEN FOLLETT



CDIGO EXPLOSIVO





Traduo
HAROLDO NETTO







































Ttulo original
CODE TO ZERO

Copyright  Ken Follett, 2000
Todos os direitos reservados.


Esta  uma obra de fico. Nomes, personagens,
localidades e incidentes so produtos da imaginao
do autor ou so usados de forma ficcional, e qualquer
semelhana com pessoas reais, vivas ou no,
estabelecimentos comerciais, acontecimentos
ou lugares  mera coincidncia.


Direitos para a lngua portuguesa reservados
com exclusividade para o Brasil 
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Printed in Brazil/lmpresso no Brasil


preparao de originais
MNICA MARTINS FIGUEIREDO



http://groups.google.com/group/digitalsource



CIP-Brasil. Catalogao-na-fonte
Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

           Follett, Ken, 1949-
F724c           Cdigo explosivo / Ken Follett; traduo de Haroldo Netto.  Rio de Janeiro: Rocco, 2001

               Traduo de: Code to zero 
               ISBN 85-325-1281-X

               1. Fico inglesa. I. Haroldo Netto. II. Ttulo.

01-0816                                                                                       CDD-823
                                                                       CDU-820-3

CONTRA CAPA
      Um homem acorda e percebe que est deitada na cho de uma estao ferroviria. Ele no se lembra de como chegou ali. Esqueceu onde mora. No tem a mnima idia 
de qual seja seu nome.
      Assim comea Cdigo explosivo, uma arrebatadora histria de intriga, espionagem e conspirao que Ken Follett escreveu baseada em um evento real: o inexplicvel 
adiamento do lanamento do Explorer I, em 1958.
      
ORELHAS DO LIVRO
      Janeiro de 1958  ano negro da Guerra Fria e do prematuro amanhecer da Corrida Espacial. Em Cabo Canaveral, uma contagem regressiva est comeando. Na plataforma 
de lanamento 26B est o Explorer I, a maior esperana dos Estados Unidos de recuperar a liderana na conquista do espao, competindo com o Sputinik.
      Certa manh, o Dr. Claude Lucas acorda na Union Station, Washington D.C., vestido como um mendigo. Vtima de amnsia, Luke, como era geralmente chamado, no 
faz idia de que  uma pea chave no lanamento do Explorer I. A medida que ele desvenda as pistas que levam  sua identidade, a CIA segue seu prprio itinerrio. 
A agncia, dirigida por Anthony Carroll, um velho amigo de Luke, dos tempos de faculdade, tem tenebrosas razes para esperar Luke recuperar-se da amnsia e at mesmo 
mat-lo, caso ele tente interferir no lanamento do foguete.  imprescindvel, portanto, que Luke descubra aquilo que algum deliberadamente desejou que ele esquecesse, 
para que seja capaz de salvar a decolagem do Explorer e, com isso, o prprio futuro dos Estados Unidos.
      Dinmico, temperado com boas doses de romantismo e sem ser mais cerebral do que necessrio, este thriller de espionagem apresenta Ken Follett em sua melhor 
forma.
        KEN FOLLETT nasceu no Pas de Gales e comeou sua vida profissional como reprter do jornal London Evening News. Seu primeiro sucesso como escritor veio 
com O buraco da agulha (1978), vencedor do prmio Edgar Allan Poe, de melhor romance de mistrio do ano.
      Do autor, que  casado e vive em Londres, a Rocco publicou Os pilares da terra, Um lugar chamado liberdade, O terceiro gmeo e O martelo do den.
       
       

NOTA HISTRICA: O lanamento do primeiro satlite espacial americano, o Explorer I, foi originalmente previsto para 29 de janeiro de 1958, quarta-feira. Ao final 
daquela tarde, foi adiado para o dia seguinte. A razo apresentada foram as condies atmosfricas. Observadores em Cabo Canaveral ficaram intrigados j que era 
um perfeito dia ensolarado, tpico da Flrida. Mas o Exrcito declarou que um vento de altitude elevada chamado jet stream era desfavorvel.
      Na noite seguinte houve novo adiamento e a mesma razo foi apresentada.
      O lanamento finalmente foi realizado na sexta-feira, 31 de janeiro.

Desde seu incio, em 1947, a Central Intelligence Agency... tem gasto milhes de dlares em um grande programa destinado a descobrir drogas e outros mtodos esotricos 
que faam com que pessoas comuns, tanto voluntria quanto involuntariamente, ajam, falem, revelem e at mesmo esqueam seus mais preciosos segredos, a comando e 
sob o completo controle de outrem.
      
       John Marks
        The Search for the Manchurian Candidate: 
        The CIA and Mind Control, 1979

PARTE UM

5:00

O missil Jupiter C se encontra na plataforma de lanamento do Complexo 26, em Cabo Canaveral. Por motivos de segurana est envolto em imensos mantos de lona que 
escondem tudo, menos a cauda, que  a do Redstone, o conhecido foguete do Exrcito. O resto, encoberto sob a capa,  absolutamente nico...
Ele acordou assustado.
      Pior: aterrorizado. O corao batia com fora, a respirao vinha aos arrancos e o corpo estava retesado. Era como um pesadelo, s que acordar no lhe deu 
qualquer sensao de alvio. Sentia que algo terrvel acontecera, mas no sabia o que era.
      Abriu os olhos. A luz fraca que vinha do outro quarto iluminava timidamente o ambiente, e foi possvel distinguir vagas formas, familiares mas sinistras. Em 
algum ponto nas proximidades, escorria gua em uma cisterna.
      Procurou acalmar-se. Engoliu, respirou com regularidade e tentou pensar direito. Deitado em um cho duro, todo o seu corpo doa e a impresso que tinha era 
de que estava de ressaca, com dor de cabea, boca seca e sensao de nusea.
      Sentou direito, tremendo de medo. Sentiu o odor desagradvel de piso mido lavado com desinfetante forte. Reconheceu o contorno de uma srie de pias.
      Estava em um toalete pblico.
      Que nojo... Dormira no cho de um banheiro masculino. O que diabo lhe acontecera? Concentrou-se. Estava totalmente vestido, usando sobretudo e botas pesadas, 
embora sentisse que as roupas que trajava no eram suas. O pnico foi cedendo, mas em seu lugar veio um medo mais profundo, menos histrico, mais racional. O que 
lhe acontecera era muito ruim.
      Precisava de luz.
      Levantou-se. Olhou em torno, tentando enxergar atravs da penumbra e procurou adivinhar onde seria a porta. Levantando os braos  frente do corpo para evitar 
possveis obstculos invisveis, andou at uma parede. Da em diante andou de lado, explorando com as mos. Encontrou uma superfcie lisa e fria que devia ser um 
espelho, depois veio um cabide para toalhas e uma caixa de metal que podia ser uma mquina caa-nqueis. Finalmente seus dedos tocaram num interruptor, que foi acionado.
      Uma luz clara inundou as paredes de azulejos brancos, o piso de concreto e a linha de toaletes com as portas dos reservados abertas. Em um canto havia o que 
parecia ser uma pilha de roupas velhas. Perguntou-se como chegara ali. Concentrou-se ao mximo. O que acontecera na noite anterior? No conseguiu lembrar.
      O medo histrico comeou a retomar quando percebeu que no conseguia lembrar-se de coisa alguma.
      Cerrou os dentes para impedir-se de gritar. Ontem... anteontem... nada. Qual era seu nome? No sabia.
      Virou-se para a fileira de pias. Acima delas havia um espelho comprido. No espelho viu um vagabundo srdido, vestido de farrapos, com o cabelo emaranhado, 
cara suja e uma expresso louca nos olhos esbugalhados. Contemplou o vagabundo por um instante e ento foi atingido por uma terrvel revelao. Recuou um pouco, 
com um grito de choque, e o homem do espelho fez a mesma coisa. O vagabundo era ele prprio.
      No podia mais conter a onda de pnico. Abriu a boca e, numa voz trmula de terror, gritou:
       Quem sou eu?
      
> > > < < <
      
A pilha de roupas velhas mexeu-se. Rolou sobre si prpria, um rosto apareceu e uma voz resmungou:
       Voc parece um vagabundo, Luke, cala a boca. 
      Seu nome era Luke.
      Sentiu-se pateticamente agradecido por saber. Um nome no era muito, mas lhe dava um foco. Fixou os olhos no companheiro. O homem usava um palet de tweed 
todo rasgado, com barbante na cintura como se fosse um cinto. O rosto jovem e sujo tinha uma expresso astuta. O homem esfregou os olhos e resmungou:
       Minha cabea di.
      Luke perguntou: 
       Quem  voc?
       Sou Pete, seu retardado, no est vendo?
       No consigo  Luke engoliu em seco, contendo o pnico.  Perdi a memria!
       No me espanto. Bebeu uma garrafa quase inteira ontem.  um milagre que no tenha perdido toda a cabea.
      Ele lambeu os lbios.
       A mim no coube quase nada daquele maldito bourbon. 
      Bourbon explicaria a ressaca, pensou Luke.
       Mas por que eu iria beber toda uma garrafa? 
      Pete riu zombeteiramente.
       Esta  a pergunta mais idiota que j ouvi. Para ficar de porre, claro!
      Luke ficou estarrecido. Ele era um vagabundo bbado que dormia em toaletes pblicos.
      Sentiu uma sede infernal. Debruou-se numa pia, abriu a gua fria e bebeu direto da torneira. Sentiu-se melhor. Esfregou as mos e obrigou-se a olhar de novo 
para o espelho.
      O rosto estava mais calmo agora. A expresso de maluco se fora, substituda por outra, de desorientao e medo. No espelho, seu reflexo era de um homem com 
mais de trinta anos, cabelos escuros e olhos azuis. No tinha barba ou bigode, s o plo crescido da barba por fazer, densa e escura.
      Virou-se para o companheiro.
       Luke de qu?  perguntou.  Qual  meu sobrenome?
       Luke... Luke qualquer coisa, como diabos vou saber? 
      Luke percebeu que estava com fome. Perguntou-se se teria dinheiro. Revistou os bolsos: capa de chuva, palet, calas. Tudo vazio. No tinha dinheiro, carteira, 
nem mesmo leno. Nada de valor, e tampouco de indcios.
       Acho que estou duro  falou.
       No brinca  retrucou Peter, sarcstico.  Vamos. 
      Tropeando, saiu porta afora.
      Luke o seguiu.
      Quando saiu na luz, sofreu outro choque. Estava em um templo imenso, vazio e misteriosamente silencioso. Fileiras de bancos de mogno alinhavam-se sobre o piso 
de mrmore, como bancos de igreja esperando uma congregao fantasma. Em torno do vasto salo, no alto lintel de pedra que encimava as fileiras de colunas, surreais 
guerreiros de pedra, com capacetes e escudos, montavam guarda ao lugar sagrado. Muito acima de suas cabeas, ficava o teto abobadado ricamente decorado com octgonos 
dourados. Passou pela cabea de Luke que tinha sido vtima de um sacrifcio em um misterioso ritual que o deixara sem memria.
      Apavorado, perguntou:
       Que lugar  este aqui?
       Union Station, Washington, D.C.  respondeu Pete. 
      Um circuito eltrico se fechou dentro da cabea de Luke e a coisa toda fez sentido. Foi com alvio que ele viu a imundcie nas paredes, os chicletes esmagados 
no piso de mrmore e as embalagens de balas e maos de cigarros nos cantos, e se sentiu ridculo. Encontrava-se em uma grandiosa estao ferroviria, de manh bem 
cedo, antes dela se encher de passageiros. Assustara a si prprio como uma criana imaginando monstros no quarto escuro.
      Pete seguiu para um arco triunfal onde estava escrito SADA, e Luke apressou-se a acompanh-lo.
      Ouviram uma voz agressiva:
       Ei, vocs! Vocs dois a!
       Oh-oh  fez Pete, apressando o passo.
      Um homem corpulento, vestindo um uniforme apertado da estrada de ferro, lanou-se sobre eles, cheio de justa indignao.
       De onde vieram, seus vagabundos?
       Estamos saindo, estamos saindo  choramingou Pete.
      Luke sentiu-se humilhado por estar sendo expulso de uma estao de estrada de ferro por um funcionrio gordo. 
      O homem no ficou satisfeito por se livrar deles.
       Dormiram aqui, no foi?  protestou, seguindo-os praticamente nos seus calcanhares.  Sabem que no  permitido.
      Luke enfureceu-se por levar um sermo como um garoto de escola, embora achasse que merecia. Tinha mesmo dormido em um maldito banheiro masculino. Conteve uma 
resposta e apertou o passo.
       Isto aqui no  uma penso barata!  continuou o homem.  Malditos vagabundos, sumam!
      Ele empurrou Luke pelo ombro.
      Luke virou-se subitamente e confrontou o homem.
       No encosta a mo  disse, surpreso com a ameaa oculta em sua voz. O guarda deteve-se.  Estamos indo embora, de modo que no precisa fazer ou dizer mais 
nada, est claro?
      O homem deu um grande passo para trs, parecendo assustado.
      Pete pegou o brao de Luke.
       Vamos.
      Luke sentiu-se envergonhado. O sujeito era um idiota intrometido, mas Luke e Pete eram vagabundos e um empregado de estrada de ferro tinha o direito de expuls-los 
da estao. Luke no tinha nada que intimid-lo.
      Passaram atravs do arco majestoso para enfrentar o escuro do lado de fora. Havia uns poucos carros estacionados em torno da praa circular em frente  estao, 
mas as ruas estavam em silncio. O frio era cortante e Luke agasalhou-se melhor com suas roupas rasgadas. Era inverno, uma frgida manh em Washington, talvez janeiro 
ou fevereiro.
      Gostaria de saber o ano.
      Pete virou para a esquerda, aparentemente sabendo para onde ia. Luke seguiu.
       Para onde estamos indo?  perguntou.
       Conheo um lugar na rua H onde podemos ganhar um caf da manh de graa, desde que voc no se incomode de cantar um ou dois hinos religiosos.
       Estou morrendo de fome. Canto um hinrio inteiro.
      Pete seguiu, confiante, uma rota em ziguezague pelo bairro pobre. A cidade ainda no tinha acordado. As casas estavam s escuras e as janelas cerradas, os 
botecos e bancas de jornal ainda fechados. Vendo uma janela de quarto onde havia uma cortina barata, Luke imaginou um homem l dentro, dormindo profundamente sob 
uma pilha de cobertores, a mulher bem aquecida ao seu lado, e sentiu uma pontada de inveja. A impresso que tinha era de que seu lugar era do lado de fora, na comunidade 
dos homens e mulheres que se aventuravam nas ruas glaciais antes do raiar do dia, enquanto a maioria das pessoas continuava a dormir: o homem em roupas de trabalho 
que ia pegar a conduo para se dirigir ao emprego, o rapaz de bicicleta embrulhado num xale e luvas; a mulher solitria fumando no interior muito iluminado de um 
nibus.
      Sua cabea fervilhava de perguntas ansiosas. H quanto tempo era um bbado? J tentara alguma vez deixar de beber? Tinha famlia que pudesse ajud-lo? Onde 
tinha encontrado Pete? Onde conseguia a bebida? Onde bebia? Mas Pete estava taciturno e Luke controlou sua impacincia esperando que o outro se mostrasse mais socivel 
quando tivesse um pouco de comida dentro da barriga.
      Chegaram a uma igrejinha situada desafiadoramente entre um cinema e uma tabacaria. Entraram pela porta lateral e desceram um lance de escadas at o poro. 
Luke viu-se em uma sala comprida de teto baixo  uma capela subterrnea, ele diria. Em uma ponta havia um piano de armrio e um pequeno plpito. Na outra, um fogo 
de cozinha. Entre uma e outra, trs fileiras de mesas sustentadas por cavaletes e os respectivos bancos. Havia trs vagabundos sentados, um em cada mesa, olhos perdidos 
no espao. No lado da cozinha, uma mulher gorda e baixa mexia uma panela grande. A seu lado, um homem de colarinho clerical ergueu os olhos de um bule de caf e 
sorriu:
       Entrem, entrem!  exclamou, animado.  Venham para o quentinho.
      Luke dirigiu-lhe um olhar desconfiado, perguntando-se se aquele tipo seria mesmo real.
      O fato  que estava quente de verdade, at mesmo abafado depois da temperatura glacial l fora. Luke desabotoou a capa de chuva imunda.
      Foi Pete quem falou:
       Bom dia, pastor Lonegan. 
      O pastor disse:
       Voc j esteve aqui? Esqueci seu nome.
       Sou Pete, ele  Luke.
       Dois apstolos!  a satisfao pareceu genuna.   um pouco cedo para comer, mas j temos caf fresco.
      Luke gostaria de saber como Lonegan mantinha o bom humor tendo que levantar to cedo para servir caf da manh a uma sala cheia de malandros catatnicos.
      O pastor serviu o caf em duas canecas de loua grossa.
       Leite e acar?
      Luke no sabia se queria leite e acar no seu caf.
       Sim, obrigado  respondeu, tentando adivinhar. 
      Aceitou a caneca e tomou um gole. O sabor era enjoativamente doce e cremoso. Normalmente devia tomar caf preto. Mas o caf amenizou sua fome, e ele tomou 
tudo depressa.
       Teremos uma palavra de orao em poucos minutos  disse o pastor.  Quando tivermos terminado, o famoso mingau de aveia da sra. Lonegan dever estar cozido 
 perfeio.
      Luke concluiu que sua suspeita fora infundada. O pastor Lonegan era o que parecia ser, um sujeito jovial que gostava de ajudar os outros.
      Luke e Pete se sentaram a uma das mesas rsticas de cavalete, e Luke estudou o companheiro. At agora tinha reparado apenas no rosto sujo e nas roupas rasgadas. 
Via agora que Pete no tinha as marcas do bbado antigo: veias rompidas, pele seca descascando, cortes ou contuses. Talvez porque fosse muito jovem  no mais que 
vinte e cinco anos, no palpite de Luke. Mas era ligeiramente desfigurado. Tinha uma marca vermelha-escura de nascena que ia da orelha direita  linha do queixo. 
Os dentes eram desiguais e descoloridos. O bigode escuro provavelmente servia para desviar a ateno dos dentes ruins, isto,  claro, quando se preocupava com a 
aparncia. Luke sentiu nele uma certa raiva contida. Pete devia ter ressentimento contra o mundo, talvez por t-lo feito feio, talvez por alguma outra razo. Provavelmente 
tinha uma teoria de que o pas estava sendo arruinado por um dos grupos que odiava: imigrantes chineses, negros presunosos, ou algum clube secreto dos dez homens 
ricos que controlavam o mercado de aes sem que ningum soubesse.
       O que est olhando?  indagou Pete.
      Luke deu de ombros e no respondeu. Em cima da mesa havia um jornal dobrado aberto nas palavras cruzadas e um toco de lpis. Luke deu uma olhada no que j 
estava resolvido, pegou o lpis e comeou a preencher os brancos.
      Mais vagabundos foram aparecendo. A sra. Lonegan trouxe uma pilha de tigelas pesadas e colheres. Luke acertou todas as palavras cruzadas menos uma  pequeno 
lugar na Dinamarca. O pastor deu uma olhada no desenho praticamente todo preenchido e comentou baixinho com a mulher, Oh, que nobre mente foi aqui lanada.
      Luke imediatamente descobriu a palavra que faltava  HAMLET  e escreveu.
      Desdobrou o jornal e procurou a data na primeira pgina: quarta-feira, 29 de janeiro de 1958. Seu olhar foi atrado pela manchete: LUA AMERICANA PERMANECE 
NA TERRA. Continuou lendo:
Cabo Canaveral. Tera-feira: A Marinha dos Estados Unidos abandonou uma segunda tentativa para lanar seu foguete espacial, Vanguard, aps mltiplos problemas tcnicos.
       A deciso foi tomada dois meses depois que o primeiro lanamento do Vanguard terminou em desastre humilhante, com o foguete explodindo dois segundos aps 
a ignio.
       As esperanas americanas de lanar um satlite espacial para rivalizar com o satlite russo Sputnik agora dependem exclusivamente do foguete do Exrcito, 
de nome Jpiter.
      Do piano veio um acorde estridente e Luke levantou a cabea. A sra. Lonegan tocava a introduo de um hino conhecido. Ela e o marido comearam a cantar, Oh, 
que Grande Amigo temos em Jesus e Luke comeou tambm, satisfeito por conseguir se lembrar da msica.
      O bourbon teve um efeito estranho, pensou. Era capaz de fazer palavras cruzadas e cantar um hino religioso de memria, mas no sabia como se chamava a prpria 
me. S se estava bebendo durante anos e o lcool lhe danificara o crebro. No sabia como podia ter deixado acontecer uma coisa dessas.
      Depois do hino o pastor Lonegan leu alguns versculos da Bblia, quando disse a todos os presentes que podiam ser salvos. Ali estava um grupo que realmente 
precisava ser salvo, pensou Luke. Mesmo assim, no se sentia tentado a arriscar sua f em Jesus. Precisava descobrir primeiro quem era.
      O pastor improvisou uma orao, cantaram graas e em seguida os homens entraram em fila e a sra. Lonegan serviu mingau de aveia com xarope. Luke tomou trs 
tigelas, depois do que se sentiu muito melhor. A ressaca estava cedendo bem depressa.
      Impaciente para retomar suas indagaes, abordou o pastor.
       O senhor j me viu aqui antes? Perdi a memria. 
      Lonegan o encarou atentamente.
       Sabe, acredito nunca ter visto voc. Mas vejo centenas de pessoas todas as semanas e posso estar enganado. Que idade voc tem?
       No sei  respondeu Luke, sentindo-se bobo.
       Eu diria uns trinta e muitos. Voc no vem vivendo com dificuldade h muito tempo. O preo que se paga  muito alto. Mas voc ainda tem elasticidade no seu 
passo, sua pele  clara por baixo da sujeira e ainda est alerta o bastante para resolver um problema de palavras cruzadas. Deixe de beber agora e ser capaz de 
viver uma vida normal novamente.
      Luke gostaria de saber quantas vezes o pastor j dissera aquelas palavras.
       Vou tentar  prometeu.
       Se precisar de ajuda, basta pedir. 
      Um rapaz que parecia ser deficiente mental batia persistentemente no brao de Lonegan, que se virou para ele com um sorriso paciente.
      Luke se dirigiu para Pete.
       H quanto tempo voc me conhece?
       No sei, voc j circula por a h um bocado.
       Onde passamos a noite de anteontem?
       Calma, est bem? Sua memria voltar mais cedo ou mais tarde.
       Tenho que descobrir de onde sou. 
      Pete hesitou.
       O que precisamos  de uma cerveja. Ajuda a pensar direito. 
      Ele se virou na direo da porta.
      Luke agarrou-lhe o brao.
       No quero cerveja  disse, decididamente.
      Tudo indicava que Pete no queria que ele investigasse o passado. Talvez tivesse medo de perder o companheiro. Bem, azar o dele. Luke tinha coisas mais importantes 
para fazer do que bancar a bab de Pete.
       Na verdade  disse Luke  acho que eu gostaria de ficar sozinho por uns tempos.
       Quem  voc, a Greta Garbo?
       Estou falando srio.
       Voc precisa de mim para tomar conta das coisas. No. Droga, no vai conseguir sozinho. No consegue sequer se lembrar da idade!
      Pete tinha uma expresso de desespero no olhar, mas Luke no se comoveu.
       Agradeo sua preocupao, mas voc no est me ajudando a descobrir quem sou eu.
      Aps um momento, Pete deu de ombros.
       Voc tem o direito  ele virou-se para a porta de novo.  Vejo voc por a, talvez.
       Talvez.
      Pete saiu. Luke apertou a mo do pastor Lonegan.
       Muito obrigado por tudo.
       Espero que encontre o que procura  disse o pastor.
      Luke subiu a escada e saiu na rua. Pete estava na outra quadra, falando com um homem de capa de chuva verde de gabardine e chapu igual  esmolando o dinheiro 
da cerveja, sups Luke. Andou na direo contrria e virou na primeira esquina.
      Ainda estava escuro. Luke sentiu frio nos ps e viu que no usava meias. Ao acelerar o passo, comeou a nevar. Aps alguns minutos diminuiu o ritmo. No tinha 
razo para correr. No fazia diferena se caminhasse depressa ou devagar. Parou e procurou abrigo em um portal.
      No tinha aonde ir.

6:00

O foguete  cercado em trs lados pela armao de servio que o sustenta, com sua estrutura de ao. A armao, na verdade,  uma torre petrolfera convertida e montada 
sobre dois conjuntos de rodas que rolam sobre trilhos de bitola larga. A estrutura completa de servio, maior que uma casa, graas a essas rodas ser empurrada . 
para trs 300 vezes antes do lanamento.
Elspeth acordou preocupada com Luke.
      Deixou-se ficar deitada na cama por mais alguns instantes, o corao pesado de preocupao com o homem a quem amava. Em seguida acendeu a luz da mesinha-de-cabeceira 
e sentou.
      Seu quarto de motel era decorado com um tema do programa espacial. O abajur de p tinha a forma de um foguete e os quadros nas paredes mostravam planetas, 
luas crescentes e trajetrias orbitais em um cu noturno loucamente irrealista. O Starlite era um dos novos motis que tinham brotado entre as dunas na rea da praia 
de Cocoa, na Flrida, a cerca de quinze quilmetros de Cabo Canaveral, para acomodar o fluxo de visitantes. O decorador obviamente achara que o tema espacial seria 
o mais adequado, mas fazia Elspeth se sentir como se estivesse no quarto de um menino de dez anos de idade.
      Pegou o telefone em cima da mesa-de-cabeceira e discou o nmero do escritrio de Anthony Carroll em Washington, D.C. Do outro lado da linha, o telefone tocou 
sem que ningum atendesse. Tentou o nmero da casa dele com o mesmo resultado. Teria alguma coisa sado errado? Elspeth sentiu-se doente de tanto medo. Procurou 
convencer-se de que Anthony deveria estar a caminho do escritrio. Telefonaria de novo em meia hora. Ele no podia levar mais de trinta minutos no trajeto para o 
trabalho.
      Enquanto tomava banho, pensou em Luke e Anthony quando os conhecera. Eles estudavam em Harvard e ela em Radcliffe, antes da guerra. Os rapazes eram membros 
do Harvard Glee Club; Luke tinha uma bela voz de bartono e Anthony de tenor. Elspeth funcionava como diretora do coral de Radcliffe e organizara um concerto conjunto 
com o Glee Club.
      Amicssimos, Luke e Anthony constituam uma estranha dupla. Ambos eram altos e atlticos, mas a semelhana terminava a. As garotas de Radcliffe os chamavam 
de o Belo e a Fera. Luke era o Belo, com seu cabelo negro ondulado e roupas elegantes. Anthony no era bonito, com seu nariz grande e queixo comprido, e sempre dava 
a impresso de estar usando o terno de outro, mas as garotas eram atradas pela sua energia e entusiasmo.
      Elspeth tomou um banho rpido de chuveiro e sentou-se de robe diante da penteadeira para se pintar. Ps o relgio de pulso ao lado do delineador para saber 
quando tinham se passado trinta minutos.
      Tambm estava sentada de roupo de banho diante do espelho da penteadeira quando, pela primeira vez na vida, falara com Luke. Foi durante o que chamavam de 
incurso de calcinhas. Um grupo de rapazes de Harvard, alguns deles bbados, entrou no dormitrio delas, em Radcliffe, uma noite, j bem tarde, pulando uma janela 
do trreo. Agora, quase vinte anos depois, Elspeth achava incrvel que ela e as outras no tivessem receado nada pior que terem a roupa de baixo roubada. Ser que 
o mundo era mais inocente naquele tempo?
      Por acaso, Luke entrara no seu quarto. Ele estava se especializando em matemtica, como a prpria Elspeth. Embora usasse mscara, ela reconheceu suas roupas. 
Um palet cinza-claro de tweed irlands, com um leno de algodo sarapintado de vermelho enfiado na lapela. Uma vez sozinho com ela, Luke pareceu embaraado, como 
se s ento lhe ocorresse que o que estava fazendo era tolice. Elspeth sorrira, apontara para a cmoda e dissera:
       Gaveta de cima.
      Luke pegou duas lindas calcinhas brancas com enfeite de renda e Elspeth sentiu uma dor no corao  eram bastante caras. Mas no dia seguinte ele lhe pediu 
um encontro.
      Tentou concentrar-se na maquiagem. A tarefa era mais difcil que o normal, porque dormira mal. A base alisou-lhe o rosto e o batom cor de salmo alegrou-lhe 
a boca. Era formada em matemtica por Radcliffe, mas ainda esperavam que fosse trabalhar com a aparncia de um manequim.
      Escovou o cabelo. Era castanho-avermelhado e cortado como a moda mandava, vindo at a altura do queixo e virado para baixo atrs. Enfiou rapidamente um vestido 
chemisier sem mangas, de algodo, com listras verdes e cor de canela e finalizou com um cinto de couro largo castanho-escuro.
      Vinte e nove minutos tinham se passado desde a ltima vez que ligara para Anthony.
      Para passar o ltimo minuto, pensou no nmero 29. Era primo  ou seja, no podia ser dividido por nenhum outro nmero, exceto o 1  mas a no ser por isso 
no era muito interessante. A nica outra coisa pouco usual a respeito dele era que 29 mais 2x2 era um nmero primo para todos os valores de x at o 28. Calculou 
a srie de cabea: 29, 31, 37, 47, 61, 79, 101, 127...
      Pegou o telefone e discou de novo o nmero do telefone do escritrio de Anthony.
      Ningum atendeu.
               
1941
Elspeth Twomey se apaixonou por Luke na primeira vez que ele a beijou.
      A maioria dos rapazes de Harvard no tinha idia de como beijar. Ou machucavam os lbios da menina com um brutal beijo estalado, ou abriam tanto a boca que 
voc se sentia como na cadeira do dentista. Quando Luke a beijou, faltando cinco minutos para a meia-noite, nas sombras do dormitrio, o Radcliffe Dormitory Quad, 
o beijo foi apaixonado e ainda assim, terno. Os lbios dele moveram-se o tempo todo, no s sobre seus lbios, como tambm sobre seu rosto, plpebras e pescoo. 
A ponta da lngua dele sondou, delicada, por entre seus lbios, pedindo, polidamente, permisso para entrar e ela nem sequer se deu ao trabalho de fingir que hesitava. 
Depois, sentada em seu quarto, olhara no espelho e murmurara para a sua imagem, Acho que eu o amo.
      Isso fora seis meses atrs e o amor s fizera crescer desde ento. Agora via Luke quase que todos os dias. Ambos cursavam o ltimo ano. Diariamente se encontravam 
para o almoo ou estudavam juntos por umas duas horas. Nos fins de semana passavam juntos quase que o tempo todo.
      No era raro que as garotas de Radcliffe ficassem noivas, no ltimo ano, de um rapaz de Harvard ou de um jovem professor. Casavam-se no vero, saam em uma 
longa viagem de lua-de-mel e se mudavam para um apartamento quando voltavam. Comeavam a trabalhar e um ou dois anos depois tinham seu primeiro filho.
      Mas Luke nunca abrira a boca para falar sobre casamento.
      Olhou para ele, sentado em um reservado nos fundos do Flanagans Bar, discutindo com Bern Rothsten, um estudante graduado de estatura elevada com um denso 
bigode preto e uma expresso de teimosia no olhar. O cabelo negro de Luke insistia em cair sobre seus olhos, e ele o empurrava de volta com a mo esquerda, num gesto 
familiar. Quando ficasse mais velho e tivesse um emprego com responsabilidade, iria passar gel no cabelo para conserv-lo no lugar, e ento no seria mais to sexy.
      Bern era comunista, como muitos outros estudantes e professores de Harvard.
       Seu pai  banqueiro  disse ele para Luke, com desdm.  Voc tambm ser banqueiro. Claro que tem que achar o capitalismo timo.
      Elspeth viu o rubor subir ao pescoo de Luke. O pai dele tinha aparecido recentemente em um artigo da revista Time como um dos dez homens que tinham se tornado 
milionrios depois da Depresso. Mas ela adivinhava que ele estaria corando no porque fosse um garoto rico, mas porque gostava da famlia e se ressentia com a crtica 
implcita ao pai. Sentindo-se furiosa por ele, exclamou, indignada:
       No julgamos as pessoas pelos seus pais, Bern! 
      Luke disse:
       De qualquer modo, trabalhar em banco  uma coisa honrada. Os banqueiros ajudam as pessoas a comearem seus prprios negcios e geram empregos.
       Como fizeram em mil novecentos e vinte e nove.
       Eles cometem erros. s vezes ajudam as pessoas erradas. Soldados cometem erros  atiram nas pessoas erradas  mas no acuso voc de ser um assassino.
      Foi a vez de Bern acusar o golpe. Ele tinha combatido na guerra civil espanhola  era mais velho uns trs ou quatro anos que os demais  e Elspeth imaginou 
que estivesse agora relembrando algum erro trgico.
      Luke acrescentou:
       De qualquer forma no quero ser banqueiro.
      A desleixada namorada de Bern, Peg, inclinou-se para a frente, interessada. Como Bern, era intensa em suas convices, s no tinha a lngua sarcstica dele.
       O que, ento?
       Um cientista.
       De que tipo?
      Luke apontou para cima.
       Quero explorar o espao sideral. 
      Bern deu uma risada sarcstica.
       Foguetes espaciais! Uma fantasia de menino de escola. 
      Elspeth saltou de novo em defesa de Luke.
       Deixa disso, Bern, voc no sabe do que est falando.
      O assunto de Bern era literatura francesa. 
      Luke, contudo, no parecia ter sido agredido pelo escrnio de Bern. Talvez estivesse acostumado a que rissem do seu sonho.
       Acho que vai acontecer  disse ele.  E vou lhe dizer mais uma coisa. Acredito que a cincia far mais que o comunismo pela gente comum durante nossas vidas.
      Elspeth estremeceu. Amava Luke, mas achava que ele era ingnuo no que dizia respeito  poltica.
       Muito simples  disse para ele.  Mas os benefcios da cincia so restritos a uma elite privilegiada.
       Isto simplesmente no  verdade. Os navios a vapor tornam melhor tanto a vida dos marinheiros quanto dos passageiros dos transatlnticos.
       Voc j esteve alguma vez na sala de mquinas de um desses transatlnticos?
       Estive, e no vi ningum morrendo de escorbuto. 
      Um vulto alto projetou sua sombra em cima da mesa.
       Vocs, garotos, tm idade suficiente para tomar bebida alcolica em pblico?
      Era Anthony Carroll, envergando um terno azul de sarja com que parecia ter dormido. Com ele estava algum to surpreendente que Elspeth deixou escapar um involuntrio 
murmrio de surpresa. Era uma garota pequena, do tipo mignon, vestida conforme a moda com uma jaqueta vermelha e uma saia preta folgada, com cachos do cabelo escuro 
escapando do chapu vermelho com uma pala.
       Esta aqui  Billie Josephson  disse Anthony.
       Voc  judia?  perguntou Bern Rothsten. 
      Ela ficou assustada com a pergunta to direta.
       Sou  respondeu.
       Quer dizer ento que pode se casar com Anthony, mas no pode ser scia do country clube dele.
      Anthony protestou.
       No sou scio de nenhum country clube.
       Ser, Anthony. Ser  garantiu Bern.
      Luke levantou-se para cumprimentar, bateu na mesa com as coxas e derrubou um copo. No era natural para ele ser desajeitado e Elspeth percebeu, com uma pontada 
de aborrecimento, que tinha instantaneamente gostado da srta. Josephson.
       Estou surpreso  disse, dando a ela seu sorriso mais encantador.  Quando Anthony falou que sua namorada se chamava Billie, imaginei algum com um metro 
e oitenta de altura e o corpo de um lutador.
      Billie riu alegremente e acomodou-se no reservado ao lado de Luke.
       Meu nome  Bilhah  disse.  Da Bblia. Era a criada de Rachel e me de Dan. Mas fui criada em Dallas, onde me chamavam de Billie-Jo.
      Anthony sentou-se ao lado de Elspeth e disse baixinho:
       Ela no  bonita?
      Billie no era exatamente bonita, pensou Elspeth. Tinha o rosto estreito, nariz afilado e olhos castanhos escuros grandes e intensos. O conjunto  que era 
impressionante: o batom vermelho, o ngulo do chapu, o sotaque do Texas e, acima de tudo, sua animao. Enquanto falava com Luke, contando-lhe alguma histria de 
Dallas, sorria, franzia a testa e expressava com gestos todos os tipos de emoo.
       Ela  bonitinha  disse Elspeth a Anthony.  No sei por que nunca a notei antes.
       Trabalha o tempo todo, no vai a muitas festas.
       Ento como foi que a conheceu?
       Reparei nela no museu Fogg. Usava um casaco verde com botes de metal e uma boina. Achei que parecia um soldadinho de brinquedo recm-sado da caixa.
      Billie no era desse tipo de brinquedo, pensou Elspeth. Era mais perigosa que isso. Billie riu de algo que Luke dissera e bateu no brao dele, numa falsa reprimenda. 
Um gesto sedutor, pensou Elspeth. Irritada, interrompeu-os e perguntou a Billie:
       Voc est planejando desobedecer ao toque de recolher hoje  noite?
      Esperava-se que as garotas de Radcliffe estivessem de volta a seus dormitrios s dez horas. Podiam conseguir permisso para ficar fora at mais tarde, mas 
tinham que assinar um livro, com detalhes de onde planejavam ir e da hora em que tencionavam voltar, hora esta que seria verificada. No entanto, eram mulheres inteligentes 
e as regras complexas a que estavam submetidas s serviam para serem engenhosamente burladas.
       Minha previso  passar a noite com uma tia que est hospedada no Ritz. Qual  a sua histria?
       No tenho histria, s uma janela do trreo que fica aberta a noite inteira.
      Billie abaixou a voz.
       Na verdade, vou ficar com amigos de Anthony em Fenway.
      Anthony ficou envergonhado.
       Uns conhecidos de minha me, que moram em um apartamento grande  disse para Elspeth.  No me venha com esse olhar antiquado, eles so terrivelmente respeitveis.
       Eu certamente esperaria que fossem  disse Elspeth afetadamente, tendo a satisfao de ver Billie corar. Virando-se para Luke, ela perguntou:
       Querido, a que horas  o cinema?
      Ele deu uma olhada no relgio de pulso.
       Temos que ir  disse.
      Luke tinha pedido emprestado um carro para o fim de semana. Era um Ford de dois lugares, modelo A. Um roadster com dez anos de fabricao cujo formato  carro 
aberto e mala na parte de trs  parecia antiquado ao lado dos carros aerodinmicos dos primeiros anos da dcada de 1940.
      Luke manejava o carro com habilidade, obviamente deleitando-se. Foram para Boston. Elspeth perguntou-se se no teria sido agressiva com Billie. Talvez, um 
pouco, decidiu, mas no ia derramar lgrimas.
      Foram ver o ltimo filme de Hitchcock, Suspeita, no Loews State Theatre. No escuro, Luke passou o brao pelos ombros de Elspeth, e ela encostou a cabea no 
seu ombro. Achou uma pena que tivessem ido ver um filme sobre um casamento desastroso.
      Por volta da meia-noite retornaram a Cambridge e pararam no Memorial Park, diante do rio Charles, ao lado da garagem de barcos. O carro no tinha aquecimento 
e Elspeth desvirou a gola de pele do casaco e encostou-se em Luke para se esquentar.
      Conversaram sobre o filme. Elspeth achava que na vida real o personagem de Joan Fontaine, uma garota reprimida criada por pais austeros, jamais seria atrado 
a um irresponsvel como o representado por Cary Grant. Ao que Luke retrucou:
       Mas  exatamente por isso que ela se apaixonou por ele  porque era um homem perigoso.
       As pessoas perigosas so atraentes?
       Claro que so!
      Elspeth desviou os olhos e contemplou o reflexo da lua na superfcie irrequieta da gua. Billie Josephson era perigosa, pensou.
      Luke sentiu o aborrecimento de Elspeth e mudou de assunto.
       O prof. Davies me disse hoje de tarde que eu posso fazer meu mestrado aqui mesmo em Harvard, se quiser.
       O que o fez dizer isso?
       Eu mencionei minha esperana de ir para Columbia. Ele disse, Para qu? Fique aqui! Expliquei que minha famlia  de Nova York e ele disse, Famlia. H! 
Assim mesmo. Como se eu no pudesse ser um matemtico srio se me preocupasse em ver minha irm mais nova.
      Luke era o mais velho de quatro irmos. Sua me era francesa. O pai a conhecera em Paris ao trmino da Primeira Grande Guerra. Elspeth sabia que Luke gostava 
dos dois irmos adolescentes e era louco por sua irm de onze anos.
       O prof. Davies  solteiro  disse ela.  Vive para o trabalho.
       Voc pensou em fazer mestrado? 
      O corao de Elspeth falhou.
       Devo pensar?
      Estaria Luke pedindo que fosse para Columbia com ele?
       Voc  melhor matemtica que a maioria dos homens de Harvard.
       Eu sempre quis trabalhar no Departamento de Estado.
       O que significaria morar em Washington.
      Elspeth tinha certeza de que Luke no planejara aquela conversa. Estava apenas pensando em voz alta. Coisa tpica de homem, falar sem pensar sobre questes 
que afetam toda sua vida. Mas parecia alarmado com o fato de eles poderem se mudar para cidades diferentes. A soluo do dilema devia ser to bvia para ele quanto 
para ela, pensou Elspeth alegremente.
       Voc j se apaixonou?  perguntou ele subitamente. Percebendo que tinha sido brusco, acrescentou:
        uma pergunta muito pessoal. No tenho o direito de perguntar isso.
       Tudo bem  disse Elspeth. A qualquer hora que ele quisesse falar de amor estava timo para ela.  Alis, j me apaixonei.
      Observou o rosto de Luke iluminado pelo luar e ficou satisfeita por ver a sombra do desprazer surgir por um instante em sua expresso.
       Quando eu tinha dezessete anos, houve uma disputa na indstria siderrgica de Chicago. Eu era muito politizada naquele tempo. Fui ajudar, como voluntria, 
carregando mensagens e fazendo caf. Trabalhei para um jovem organizador chamado Jack Largo e me apaixonei por ele.
       E ele por voc?
       Pelo amor de Deus, no! Ele tinha vinte e cinco anos, me achava uma menina. Era bom para mim, e encantador, mas era assim com todo mundo. 
      Ela hesitou.
       Mas um dia Jack me beijou.
      No sabia se devia contar aquilo para Luke, mas sentiu necessidade de se abrir.
       Estvamos sozinhos no quarto dos fundos, arrumando folhetos em caixas e eu disse qualquer coisa que o fez rir. No me lembro o que foi. Voc  uma prola, 
Ellie, disse ele  Jack era um desses homens que tratam todo mundo pelo diminutivo. Com certeza teria chamado voc de Lou. Depois me beijou. Nos lbios. Quase morri 
de alegria. Mas ele continuou arrumando folhetos como se nada tivesse acontecido.
       Acho que se apaixonou por voc.
       Talvez.
       Ainda tem contato com ele? 
      Ela sacudiu a cabea.
       Ele morreu.
       To jovem!
       Foi assassinado  ela lutou para conter lgrimas inesperadas. A ltima coisa que queria era que Luke pensasse que ainda estava apaixonada pela lembrana 
de Jack.  Dois policiais de folga, contratados por siderrgicos, pegaram-no em um beco e o mataram de pancada com barras de ferro.
       Jesus Cristo!  Luke olhou espantado para ela.
       Todo mundo na cidade sabia quem tinha feito aquilo, mas ningum foi preso.
      Ele pegou a mo de Elspeth.
       J li coisas assim nos jornais, mas nunca me pareceram de verdade.
       Mas  verdade. Os altos-fornos precisam continuar acesos. 
      Quem quer que se meta no caminho tem que desaparecer.
       Voc fala de um jeito que parece que a indstria no  melhor que o crime organizado.
       No vejo muita diferena. Mas no me envolvo mais. Chega.
      Luke tinha comeado a falar de amor, mas ela, burramente, desviara o assunto para poltica. Recuou.
       E voc? Alguma vez j se apaixonou?
       No sei ao certo  ele disse, hesitante.  No tenho certeza se sei direito o que  o amor.
      Uma tpica resposta masculina. Em seguida beijou-a e ela relaxou.
      Elspeth gostava de toc-lo com a ponta dos dedos quando se beijavam, acariciando-lhe as orelhas e a linha do queixo, o cabelo e a nuca. De vez em quando ele 
parava para fit-la, estudando-a com a sugesto de um sorriso, fazendo-a pensar na Oflia de Hamlet dizendo: Ele se queda a estudar meu rosto, como se fosse desenh-lo. 
E ento beijava-a de novo. O que a fazia sentir-se to bem era a idia dele gostar tanto dela.
      Aps algum tempo Luke se afastou e suspirou pesadamente.
       Eu queria saber como as pessoas casadas se entediam  disse.  Nunca tm que parar.
      Ela gostou da referncia a casamento.
       Os filhos os fazem parar, eu acho  disse, com uma risada.
       Voc quer ter filhos, um dia?
      Ela sentiu a respirao se acelerar. O que ele estava perguntando?
       Claro que quero.
       Eu gostaria de ter quatro filhos. 
      O mesmo que os pais dele.
       Meninos ou meninas?
       Misturado.
      Houve uma pausa. Elspeth teve medo de falar. O silncio prolongou-se. Ao cabo de mais algum tempo ele se virou para ela com uma expresso sria.
       Como voc se sentiria a esse respeito? Ter quatro filhos? 
      Era a deixa pela qual tinha esperado. 
      Ela sorriu alegremente.
       Se fossem seus, eu adoraria  disse. 
      Ele beijou-a de novo
      Em pouco tempo ficou frio demais para permanecerem onde estavam, e, relutantemente, voltaram para Radcliffe.
      Quando passavam pela praa Harvard, um vulto acenou do lado da rua.
        o Anthony?  perguntou Luke, incrdulo. 
      Era, Elspeth viu que era. Billie estava com ele.
      Luke encostou o carro e Anthony aproximou-se da janela.
       Que bom que eu tenha visto vocs  disse.  Preciso de um favor.
      Billie estava atrs de Anthony, tremendo no ar frio da noite, parecendo furiosa.
       O que  que vocs esto fazendo aqui?  Elspeth perguntou a Anthony.
       Houve uma confuso. Meus amigos de Fenway foram passar o fim de semana fora  devem ter trocado as datas. Billie no tem para onde ir.
      Billie mentira sobre onde ia passar a noite, recordou Elspeth. Agora no podia voltar para o dormitrio sem revelar a burla.
       Levei-a para a casa  Anthony se referia a Cambridge House, onde ele e Luke moravam. Os dormitrios masculinos de Harvard eram chamados de casas.  Pensei 
que poderia dormir no nosso quarto e que Luke e eu iramos passar a noite na biblioteca.
      Elspeth disse:
       Voc est louco. 
      Luke interveio.
       J foi feito antes. O que saiu errado?
       Ns fomos vistos.
       Oh, no!  exclamou Elspeth. Para uma garota ser encontrada no quarto de um homem era uma transgresso sria, especialmente  noite. Tanto o homem quanto 
a mulher podiam ser expulsos da universidade.
       Quem viu?  perguntou Luke.
       Geoff Pigeon e um bando de homens.
       Bem, Geoff no tem problema, mas quem estava com ele?
       No tenho certeza. Estava escuro e todos tinham bebido muito. Falarei com eles de manh.
      Luke concordou, balanando a cabea.
       O que vo fazer agora?
       Billie tem um primo que mora em Newport, Rhode Island  respondeu Anthony.  Voc a levaria l?
       O qu?  estranhou Elspeth.  So oitenta quilmetros de distncia!
       Levar ento uma ou duas horas  disse Anthony, fazendo pouco da objeo.  O que voc diz, Luke?
       No tem problema  foi a resposta de Luke.  Ou melhor, h um problema. O carro s tem dois lugares.
      Elspeth abriu a porta e saltou.
       Fique  vontade  disse, irritada. Mas se sentia envergonhada por ser to mal-humorada. Luke estava certo ao socorrer um amigo encrencado. Mas ela odiava 
a idia de v-lo passar duas horas naquele carrinho com a sexy Billie Josephson.
      Luke percebeu o desprazer dela e disse:
       Elspeth, senta de novo. Eu a levarei em casa primeiro. 
      Ela tentou ser generosa.
       No precisa  disse.  Anthony pode andar comigo at a cidade. E Billie parece que vai morrer de frio.
       OK, se voc tem certeza  cedeu Luke.
      Elspeth gostaria que ele no tivesse concordado to depressa.
      Billie beijou o rosto de Elspeth.
       No sei como agradecer  disse. Entrou no carro e fechou a porta sem dizer adeus a Anthony.
      Luke acenou e seguiu.
      Anthony e Elspeth subiram e ficaram observando o carro sumir na escurido.
       Droga  exclamou Elspeth.

6:30

Pintada do lado do foguete branco est a designao UE, em imensas letras pretas. Trata-se de um cdigo simples  
       
H
U
N
T
S
V
I
L
E
X
1
2
3
4
5
6
7
8
9
0


 de modo que UE  o mssil de nmero 29. O propsito deste cdigo  no dar indicaes de quantos msseis j foram produzidos.
A luz do dia esgueirou-se furtivamente sobre a cidade fria. Homens e mulheres saram de suas casas estreitando os olhos e contraindo os lbios para se defenderem 
do vento cortante e caminharam apressadamente pelas ruas cinzentas, ansiando pelo calor e pelas luzes claras dos escritrios e lojas, hotis e restaurantes onde 
trabalhavam.
      Luke no tinha destino: uma rua era to boa quanto qualquer outra, quando nenhuma tinha significado. Talvez, pensava ele, virasse a prxima esquina e soubesse, 
numa revelao sbita, que estava em um lugar conhecido  a rua onde fora criado ou um prdio em que tinha trabalhado. Mas todas as esquinas o desapontavam.
       medida que a luz melhorava, ele comeou a estudar as pessoas que passavam. Uma delas podia ser seu pai, sua irm, at mesmo seu filho. Ficou na esperana 
de que algum o encarasse, abraando-o, e dissesse, Luke, que foi que aconteceu com voc? Venha para casa comigo, deixe-me ajud-lo! Mas talvez um parente o fitasse 
com frieza e passasse direto. Podia ter feito qualquer coisa que ofendesse a famlia. Ou os parentes podiam morar em outra cidade.
      Comeou a sentir que no ia ter sorte. Nenhum passante ia abra-lo com gritos de alegria e ele no ia subitamente reconhecer a rua em que morava. Caminhar 
por ali, fantasiando um golpe de sorte, no era uma estratgia. Precisava de um plano. Tinha que haver um modo de descobrir sua identidade.
      Gostaria de saber se era uma Pessoa Desaparecida. Havia uma lista, tinha certeza, de pessoas desaparecidas, com a descrio de cada uma delas. Quem tomava 
conta dessa lista? S podia ser a polcia.
      Tinha a impresso de que passara por uma delegacia havia poucos minutos. Virou-se abruptamente para voltar. Ao faz-lo, bateu num jovem de capa de chuva de 
gabardine verde-oliva e chapu da mesma cor. Teve a sensao de j t-lo visto antes. Seus olhos se encontraram e por um momento esperanoso Luke achou que talvez 
tivesse sido reconhecido, mas o homem desviou os olhos, embaraado, e seguiu direto.
      Engolindo o desapontamento, Luke tentou retraar seus passos. Era difcil, porque tinha virado esquinas e atravessado ruas mais ou menos aleatoriamente. Mesmo 
assim, mais cedo ou mais tarde ia passar diante de outra delegacia.
      Enquanto caminhava, tentou deduzir informaes a seu prprio respeito. Viu um homem alto, de chapu de feltro cinzento, acender um cigarro e puxar uma tragada 
longa e cheia de satisfao, mas no sentia desejo de fumar. Com certeza no fumava. Olhando para os carros, soube que os modelos esportivos e rebaixados que achara 
atraentes eram novos. Decidiu que gostava de carros rpidos e que sabia dirigir. Sabia tambm a marca e o nome do modelo da maioria dos automveis que via. Era esse 
o tipo de informao que retivera, juntamente com a capacidade de falar ingls.
      Quando vislumbrava o reflexo de sua imagem nas vitrinas das lojas, o que via era um vagabundo de idade indeterminada. Mas quando prestava ateno nos transeuntes, 
era capaz de dizer se tinham vinte, trinta, quarenta anos ou se eram mais velhos. E tambm classificava automaticamente as pessoas como mais velhas ou mais jovens 
do que ele prprio. Podia assegurar que as pessoas de vinte anos pareciam mais jovens do que ele e as de quarenta mais velhas. De modo que ele tinha de estar em 
algum ponto entre vinte e quarenta.
      Estas insignificantes vitrias sobre a amnsia lhe deram uma sensao desmedida de triunfo.
      Mas perdera por completo seu rumo. Estava agora em uma rua de comrcio barato, viu com descontentamento: lojas de roupas com as vitrinas entupidas de ofertas, 
mveis usados, penhores e mercearias que aceitavam tquetes de alimentao. Parou subitamente e olhou para trs, imaginando o que fazer. Trinta metros atrs viu 
um homem metido em uma capa de chuva verde-oliva com chapu da mesma cor, assistindo  televiso numa vitrina.
      Luke franziu a testa, pensando:
       Ser que esse sujeito est me seguindo?
      Um sujeito que segue outro sempre est sozinho, raramente carrega uma pasta ou uma sacola de compras e inevitavelmente parece estar vadiando, ao invs de caminhando 
com um propsito definido. O homem da capa se ajustava a estas especificaes.
      Era bastante fcil verificar.
      Luke caminhou at o fim do quarteiro, atravessou a rua e voltou pelo outro lado. Quando chegou na ponta, parou no meio-fio e olhou em ambas as direes. A 
capa verde-oliva estava trinta metros atrs. Luke atravessou de novo. Para afastar suspeitas, examinou as portas pelas quais passava, como se procurasse um determinado 
endereo. Continuou caminhando at voltar ao ponto de partida.
      A capa verde-oliva o seguiu.
      Luke ficou assombrado, mas seu corao pulou esperanoso. O homem que o seguia tinha que saber algo a seu respeito  talvez at mesmo sua identidade.
      Para ter certeza de que estava sendo seguido, precisava viajar em um veculo, forando seu seguidor a fazer o mesmo.
      A despeito do entusiasmo, um frio observador instalado num canto de sua mente ps-se a perguntar: Como  que voc sabe exatamente o que fazer para verificar 
se est ou no sendo seguido? O mtodo pipocara na sua cabea prontamente. Ser que tinha algum tipo de trabalho clandestino antes de se tornar um vagabundo?
      Pensaria nisso mais tarde. Agora precisava do dinheiro para o nibus. No havia nada nos bolsos dos seus trapos; devia ter gastado at o ltimo centavo em 
bebida. Mas isso no era problema. Havia dinheiro nos bolsos de todo mundo, nas lojas, txis e casas.
      Comeou a avaliar as redondezas com olhos diferentes. Viu bancas de jornal prontas para serem roubadas, bolsas que podiam ser arrancadas das mos de suas donas. 
Deu uma olhada em um caf onde havia um homem atrs do balco e uma garonete servia as mesas. Era um lugar to bom quanto qualquer outro. Entrou.
      Varreu com o olhar as mesas, procurando troco deixado como gorjeta, mas no ia ser to fcil assim. Aproximou-se do balco. Um rdio transmitia o noticirio. 
Peritos em foguetes afirmam que esta  a ltima chance que os Estados Unidos tm para alcanar os russos na corrida espacial. O balconista estava fazendo caf 
expresso, o vapor se desprendia de uma mquina reluzente, e a fragrncia deliciosa dilatou as narinas de Luke.
      O que diria um vagabundo?
       Alguma rosquinha velha?  perguntou.
       D o fora  ordenou o homem, rudemente.  E no volte! 
      Luke avaliou a hiptese de pular o balco e abrir a caixa registradora, mas lhe pareceu uma medida por demais extrema quando s precisava de uns trocados para 
o nibus. Ento viu o que precisava. Ao lado da gaveta, ao alcance da mo, havia uma lata com uma fenda em cima. O rtulo tinha o retrato de uma criana e o dstico 
Lembre-se dos que no podem ver. Luke deslocou-se de tal modo que seu corpo escondeu a lata dos fregueses e da garonete. Agora s tinha que distrair o homem do 
balco.
       Me d uma moeda?
       OK  disse o homem , voc acaba de ganhar o tratamento especial para vagabundos.
      Ele largou uma caneca ruidosamente em cima do balco e enxugou as mos no avental. Teve que mergulhar sob o balco para poder sair, e por um segundo no pde 
ver Luke.
      Luke aproveitou o momento para pegar a lata, que enfiou dentro do casaco. Estava desapontadoramente leve, mas como chocalhou um pouco, pelo menos no estava 
vazia.
      O homem do balco agarrou Luke pelo colarinho e o empurrou rapidamente atravs do caf. Luke no resistiu at que, na porta, ele lhe deu um doloroso pontap 
no rabo. Esquecendo o papel que representara, Luke girou, pronto para brigar. O sujeito repentinamente ficou com medo e recuou.
      Luke perguntou-se que motivo tinha para se zangar. Entrara no caf mendigando, e no sara quando lhe pediram. Tudo bem, o pontap fora desnecessrio, mas 
ele merecera  roubara o dinheiro das crianas cegas!
      Assim mesmo, foi preciso esforo para ele engolir o orgulho, virar-se e fugir como um cachorro com o rabo entre as pernas.
      Entrou numa viela, achou uma pedra aguada e atacou a lata, dando vazo  sua ira. Logo conseguiu abri-la. O dinheiro que continha, quase todo em moedas de 
cinco centavos, somava uns dois ou trs dlares, calculou. Ps o dinheiro no bolso do casaco e retornou  rua. Agradeceu aos cus pela caridade e fez uma promessa 
silenciosa de dar trs dlares aos cegos, se um dia conseguisse se acertar.
      Est bem, pensou, trinta pratas.
      O homem da capa verde-oliva estava ao lado de uma banca, lendo um jornal.
      Um nibus parou a poucos metros de distncia. Luke no tinha idia de qual seria seu destino, mas isso no importava. Embarcou. O motorista olhou feio para 
ele mas no o lanou porta afora.
       Quero andar trs pontos.
       No importa aonde queira ir, a passagem  dezessete centavos, a menos que voc tenha uma ficha.
      Luke pagou com o dinheiro que tinha roubado.
      Talvez no estivesse sendo seguido. Enquanto se dirigia para a parte de trs do nibus, olhou ansiosamente pela janela. O homem da capa verde estava se afastando 
com o jornal enfiado debaixo do brao. Luke franziu a testa. O homem deveria estar tentando pegar um txi. Talvez no o estivesse seguindo, pensou Luke, desapontado.
      O nibus saiu e Luke se sentou.
      Mais uma vez perguntou-se como saberia de tudo aquilo. Devia ter sido treinado em trabalho clandestino. Mas com que finalidade? Seria um policial? Talvez tivesse 
ligao com a guerra. Sabia que tinha havido uma guerra. Os Estados Unidos combateram a Alemanha e a Itlia na Europa e os japoneses no Pacfico. Mas no conseguia 
se lembrar se tinha participao nisso.
      Na terceira parada saltou do nibus com um punhado de outros passageiros. Olhou para os dois lados da rua. No havia txis  vista nem sinal do homem da capa 
verde-oliva. Luke hesitou, e nesta hora notou que um dos passageiros que saltara com ele tinha parado na porta de uma loja e procurava qualquer coisa nos bolsos. 
Enquanto Luke olhava, ele acendeu um cigarro e deu uma tragada longa e cheia de satisfao.
      Era um homem alto, com um chapu de feltro cinzento.
      Luke lembrou que o tinha visto antes.

7:00

A plataforma de lanamento  uma simples mesa de ao com quatro pernas e um buraco no meio atravs do qual passa o jato do foguete. Um defletor cnico mais abaixo 
difunde o jato horizontalmente.
Anthony Carroll seguia pela Constitution Avenue dirigindo o Cadillac Eldorado de cinco anos que pertencia  sua me. Ele o tinha pedido emprestado um ano atrs para 
ir para Washington, saindo da casa dos seus pais na Virgnia, e nunca conseguira dar um jeito de devolv-lo. A essa altura sua me provavelmente comprara outro carro.
      Entrou no estacionamento do Prdio Q do Alphabet Row, uma fileira de estruturas que lembravam barracas e que tinham sido construdas rapidamente durante a 
guerra, num parque perto do Lincoln Memorial. Tudo muito feio, sem dvida, mas ele gostava, pois tinha passado grande parte da guerra ali, trabalhando para o rgo 
precursor da CIA, o OSS  Office of Strategic Services. Bons tempos aqueles, quando uma agncia clandestina podia fazer mais ou menos qualquer coisa e no tinha 
que prestar contas a ningum, exceto ao Presidente.
      A CIA era a organizao burocrtica que mais crescia em Washington e um imenso quartel-general de muitos milhes de dlares estava sendo construdo do outro 
lado do rio Potomac, em Langley, Virginia. Quando ficasse pronto, Alphabet Row seria posto abaixo.
      Anthony lutara com todas as foras contra a sede nova de Langley, e no apenas porque o Q Building tinha memrias to agradveis. A CIA tinha atualmente escritrios 
em trinta e um prdios no bairro do centro da cidade dominado por rgos do governo e conhecido como Foggy Bottom. Era assim que devia ser, Anthony argumentara aos 
gritos. Era muito difcil para os agentes estrangeiros avaliar o tamanho e poder da Agncia quando suas instalaes eram espalhadas e misturadas com outros rgos 
governamentais. Quando Langley fosse inaugurada, qualquer um seria capaz de estimar seus recursos, efetivo e at mesmo oramento s de passar de carro em frente.
      Ele tinha perdido essa discusso. As pessoas em cargos de chefia estavam determinadas a administrar a CIA com mais rigor. Anthony acreditava que o servio 
secreto era para loucos e aventureiros. Como tinha sido durante a guerra. Agora era dominado por burocratas e contadores.
      Havia uma vaga reservada para ele, com uma placa na qual se lia Chefe dos Servios Tcnicos, mas ele ignorou-a e parou em frente  porta principal. Contemplando 
o feio edifcio, perguntou-se se a iminente demolio significaria o fim de uma era. Estava perdendo a maioria das batalhas burocrticas atualmente, embora ainda 
fosse uma figura muitssimo poderosa dentro da Agncia. Servios Tcnicos na verdade era um eufemismo para roubos, grampeamento de telefones, teste de drogas e 
outras atividades ilegais. O apelido da diviso era Dirty Tricks  Truques Sujos. A posio de Anthony era baseada em sua folha corrida de heri de guerra e uma 
srie de golpes desfechados durante a Guerra Fria. Mas algumas pessoas queriam transformar a CIA naquilo que o pblico imaginava que fosse: uma simples agncia de 
coleta de informaes.
      S se passarem por cima do meu cadver, pensou ele.
      No entanto, ele tinha inimigos: superiores a quem ofendera com suas maneiras insolentes, agentes fracos e incompetentes a cuja promoo se opusera, burocratas 
que no gostavam da idia do governo realizando operaes secretas. Estavam prontos para destru-lo assim que cometesse um engano.
      E hoje seu pescoo estava mais fcil de ser atingido do que nunca.
      Quando entrou no prdio, ps deliberadamente de lado suas preocupaes gerais e concentrou-se no problema do dia: o dr. Claude Lucas, conhecido como Luke, 
o homem mais perigoso dos Estados Unidos, o homem que ameaava tudo aquilo pelo que Anthony vivera.
      Ele passara no escritrio quase a noite toda e fora para casa apenas fazer a barba e trocar de camisa. O guarda no saguo ficou espantado quando o viu.
       Bom dia, sr. Carroll  j est de volta?
       Um anjo me apareceu em sonhos e disse, Volte para o trabalho, seu filho da me preguioso. Bom dia.
      O guarda riu.
       O sr. Maxell est no seu escritrio, senhor.
      Anthony ficou preocupado. Pete Maxell deveria estar com Luke. Teria alguma coisa sado errado?
      Subiu correndo a escada.
      Pete estava sentado  mesa de Anthony, ainda vestido de molambos, uma mancha de sujeira cobrindo parcialmente a mancha de nascena que ele tinha no rosto. 
Quando Anthony entrou, ele deu um pulo, parecendo assustado.
       O que aconteceu?  perguntou Anthony.
       Luke decidiu que queria ficar sozinho. 
      Aquilo constava dos planos de Anthony.
       Quem assumiu?
       Steve Simons o tem sob vigilncia e Betts est l como reforo.
      Anthony balanou a cabea pensativamente. Luke tinha se livrado de um agente, podia se livrar de outro.
       E a memria de Luke?
       Completamente perdida.
      Anthony tirou o palet e sentou-se  sua mesa. Luke estava causando problemas, mas Anthony os esperara e estava pronto.
      Olhou para o homem na sua frente. Pete era um bom agente, competente e cuidadoso, mas inexperiente. Era, contudo, fanaticamente leal a Anthony. Todos os jovens 
agentes sabiam que Anthony tinha organizado pessoalmente um assassinato: a morte do lder francs de Vichy, o almirante Darlan, em Argel, na vspera do Natal de 
1942. Os agentes da CIA matavam, claro, mas no com freqncia. Pete, contudo, tinha uma dvida especial com Anthony. No formulrio com que se candidatara ao emprego 
ele mentira, dizendo que nunca tivera problemas com a lei, e Anthony mais tarde descobrira que fora multado por abordar uma prostituta nos seus tempos de estudante 
em San Francisco. Pete devia ter sido despedido por isso, mas Anthony guardara segredo e Pete ficara eternamente grato.
      Pete se sentia deprimido e envergonhado, achando que desapontara Anthony.
       Calma  disse Anthony, adotando um tom paternal.  Conte-me exatamente o que aconteceu.
      Pete pareceu ficar agradecido e sentou-se de novo.
       Ele acordou maluco  comeou.  Gritava Quem sou eu? e coisas assim. Consegui que se acalmasse... mas cometi um erro. Chamei-o de Luke.
      Anthony dissera a Pete para observar Luke, mas no lhe dar qualquer informao.
       No faz mal  no  o nome verdadeiro dele.
       A ele perguntou quem eu era e eu disse que me chamava Pete. Saiu sem querer, to preocupado eu estava em fazer com que ele parasse de gritar.
      Pete estava mortificado ao confessar essas tolices, mas na verdade no eram erros to graves assim e Anthony rejeitou seus pedidos de desculpas com um gesto.
       E depois, o que foi que aconteceu?
       Eu o levei para o pastor, exatamente como tnhamos planejado. Mas ele fez perguntas astutas. Queria saber se o pastor j o tinha visto antes.
      Anthony assentiu com um movimento de cabea.
       No deveramos nos surpreender. Na guerra ele foi o melhor agente que tivemos. Perdeu a memria, mas no os instintos.
      Ele esfregou o rosto com a mo direita, sentindo todo o cansao da falta de sono.
      Tentei desvi-lo de ficar fazendo perguntas sobre o passado, mas acho que ele percebeu o que eu estava fazendo e acabou por me dizer que queria ficar sozinho.
       Ele conseguiu algum indcio? Aconteceu alguma coisa que poderia lev-lo  verdade? 
       No. Ele leu um artigo no jornal sobre o programa espacial, mas no pareceu lhe conferir significado especial.
       Algum notou qualquer coisa de especial nele?
       O pastor ficou espantado de ver que Luke conseguia fazer palavras cruzadas. A maioria dos vagabundos nem sabe ler.
      Ia ser difcil, mas manejvel, como Anthony antecipara.
       Onde est Luke agora?
       No sei, senhor. Steve vai ligar assim que tiver uma chance.
       Quando ele ligar, v at l e junte-se a ele. Seja o que for que acontea, Luke no dever se afastar de ns.
       Est bem.
      O telefone branco em cima da mesa de Anthony tocou, sua linha direta. Ficou olhando para ele por um instante. No era muita gente que tinha aquele nmero.
      Pegou o aparelho.
       Sou eu  disse a voz de Elspeth.  O que aconteceu?
       Relaxe, tudo est sob controle.

7:30

O mssil tem 20 metros e 90 centmetros de altura,  mais alto que uma casa, e pesa 29 mil e trinta quilos na plataforma de lanamento  mas a maior parte  combustvel. 
O satlite propriamente dito tem apenas oitenta e seis centmetros de comprimento e s pesa 8 quilos e 165 gramas. 
O sujeito seguiu Luke por uns quinhentos metros quando ele virou para o sul na Eight Street.
      O dia raiara por completo, e, embora a rua estivesse movimentada, Luke seguia facilmente o rastro do chapu de feltro cinza, subindo e descendo entre as demais 
cabeas nas aglomeraes formadas nas esquinas e nos pontos de nibus. Mas depois que atravessou a Pennsylvania Avenue, desapareceu de vista. Mais uma vez perguntou-se 
se poderia estar imaginando coisas. Tinha acordado em um mundo desconcertante onde qualquer coisa podia ser verdade. Talvez a prpria idia de que estava sendo seguido 
fosse apenas uma fantasia. Mas no acreditava realmente nisso e, um minuto mais tarde, reconheceu a capa verde-oliva saindo de uma padaria.
       Toi, encore  disse ele, baixinho.  Voc, de novo. Por um segundo ficou curioso com o fato de ter falado em francs, mas logo expulsou o pensamento da cabea. 
Tinha preocupaes mais prementes. No havia espao para dvida: duas pessoas o estavam seguindo numa operao de revezamento executada com facilidade. Tinham que 
ser profissionais.
      Tentou imaginar o que aquilo podia significar. Chapu de Feltro e Capa de Chuva talvez fossem policiais  ele podia ter cometido um crime, matado algum enquanto 
bbado. Podiam ser espies, KGB ou CIA, embora parecesse pouco provvel que um morto de fome como ele pudesse estar envolvido em espionagem. O mais provvel era 
que tivesse uma mulher a quem deixara muitos anos atrs e que, querendo se divorciar agora, contratara detetives particulares para provar que estava vivo. (Talvez 
fosse francesa.)
      Nenhuma das opes era atraente. E, no entanto, sentia-se animado. Aquelas pessoas provavelmente sabiam quem ele era. Qualquer que fosse a razo para o estarem 
seguindo, deviam saber alguma coisa a seu respeito. No mnimo, sabiam mais que ele.
      Decidiu dividir a equipe e confrontar o mais moo dos dois.
      Entrou em uma tabacaria e comprou um mao de Pall Mall, pagando com um pouco do troco que roubara. Quando saiu, Chapu de Feltro tinha desaparecido e Capa 
de Chuva assumira de novo. Caminhou at o fim do quarteiro e virou a esquina.
      Um caminho da Coca-Cola estava estacionado e o motorista descarregava engradados que carregava para um restaurante. Luke desceu para a rua e caminhou at 
o lado mais distante do caminho, posicionando-se onde podia vigiar a rua sem ser visto por quem contornasse a esquina.
      Depois de um minuto Chapu de Feltro apareceu, andando depressa, examinando os portais e as vitrinas, procurando Luke.
      Luke abaixou-se e rolou para debaixo do caminho. Quando olhou para a calada ao nvel do cho, logo reconheceu as calas do terno azul e os sapatos marrons 
do homem que o seguia.
      Chapu de Feltro apertou o passo, presumivelmente preocupado com a possibilidade de Luke ter desaparecido. Depois se virou e voltou. Entrou no restaurante 
e saiu no minuto seguinte. Contornou o caminho, voltou para a calada e continuou a busca. Um momento depois, saiu correndo.
      Luke ficou satisfeito. No sabia como aprendera aquele jogo, mas parecia ser bom nele. Rastejou at a frente do caminho e ps-se de p. Deu uma olhada em 
torno protegido pelo pra-lama mais prximo. Chapu de Feltro ainda estava correndo.
      Luke atravessou a calada e virou a esquina. Parou no portal de uma loja de artigos eltricos. Olhando para um toca-discos de oitenta pratas, abriu o mao 
de cigarros, tirou um e esperou, de olho na rua.
      Capa de Chuva apareceu.
      Ele era alto  mais ou menos da altura de Luke  e atltico, mas tinha uns dez anos a menos e era evidente a ansiedade no seu rosto. O instinto de Luke lhe 
disse que no era um homem experiente.
      Capa de Chuva localizou Luke e teve um sobressalto, nervoso. Luke o encarou diretamente nos olhos. O homem desviou o rosto e continuou andando, desviando-se 
para a parte de fora da calada, como teria feito qualquer pessoa que quisesse evitar contato com um vagabundo.
      Luke adiantou-se, colocando-se no caminho dele. Ps o cigarro na boca e disse:
       Tem fogo a, companheiro?
      Capa de Chuva no soube o que fazer. Hesitou, parecendo preocupado. Por um momento Luke pensou que seguiria em frente sem falar; mas depois tomou uma deciso 
rpida e parou.
       Claro  disse, tentando parecer natural. Meteu a mo no bolso da capa, tirou uma carteia de fsforos e riscou um.
      Luke tirou o cigarro da boca e disse:
       Voc sabe quem eu sou, no sabe?
      O rapaz pareceu assustado. Seu curso de treinamento no o preparara para quando a pessoa a quem seguia comeasse a question-lo. Ficou olhando para Luke, chocado, 
at que o fsforo se consumiu por completo. Deixou-o cair e disse:
       No sei de que voc est falando, companheiro.
       Voc est me seguindo. Voc tem que saber quem sou eu. 
      Capa de Chuva continuou a bancar o inocente.
       Voc est vendendo alguma coisa?
       Estou vestido como um vendedor? Deixa disso, seja franco.
       No estou seguindo ningum.
       Voc andou atrs de mim nesta ltima hora e eu estou perdido!
      Capa de Chuva tomou uma deciso.
       Voc est maluco  disse. E tentou seguir em frente. 
      Luke moveu-se de lado, bloqueando seu caminho.
       Com licena, por favor  disse Capa de Chuva.
      Luke no estava querendo deixar o homem ir. Agarrou-o pela lapela da capa e o sacudiu de encontro  vitrina da loja, batendo no vidro. A frustrao e a raiva 
que sentia transbordaram.
       Putain de merde!  gritou.
      Capa de Chuva era mais jovem e estava em melhor condio atltica que Luke, mas no ofereceu resistncia.
       Tire as mos de cima de mim  disse ele, sem levantar a voz.  Eu no o estou seguindo.
       Quem sou eu?  Luke berrou com ele.  Vamos, quem sou eu?
       Como  que vou saber?
      Ele agarrou Luke pelos pulsos, tentando fazer com que largasse a lapela da capa.
      Luke mudou a posio das mos e agarrou-lhe o pescoo.
       No vou aceitar suas mentiras  afirmou, a voz spera.  Vai ter que me dizer o que est acontecendo.
      Capa de Chuva perdeu o controle, os olhos arregalados de medo. Lutou para afrouxar a presso de Luke no seu pescoo. No conseguindo, ps-se a socar as costelas 
de Luke. O primeiro golpe doeu, e Luke recuou, mas reteve a pegada e adiantou-se, para que os demais socos perdessem a fora. Apertou os polegares na goela do oponente, 
sufocando-o. O terror da morte apareceu nos olhos do homem quando ficou sem poder respirar.
      Atrs de Luke, a voz assustada de um transeunte interveio:
       Ei, o que est acontecendo aqui?
      De repente, Luke ficou chocado consigo prprio. Estava matando o sujeito! Relaxou a pegada. O que estava havendo com ele? Ser que era um assassino?
      Capa de Chuva livrou-se das mos de Luke, que estava assombrado com sua prpria violncia. Deixou os braos carem do lado do corpo.
      O sujeito recuou.
       Seu filho da me maluco  disse. O medo desapareceu dos seus olhos.  Voc est maluco. Tentou me matar!
       S quero a verdade e sei que voc pode me contar a verdade.
      Capa de Chuva esfregou o pescoo.
       Seu panaca! Voc est maluco! 
      Luke teve novo ataque de fria.
       Voc est mentindo!  gritou. E esticou o brao para pegar o homem de novo.
      Capa de Chuva virou-se e saiu correndo.
      Luke poderia t-lo perseguido, mas hesitou. De que adiantava? O que faria se pegasse o sujeito  iria tortur-lo?
      Mas a j era tarde demais. Trs passantes tinham parado para observar a briga e se mantinham a uma distncia segura, olhos fixos em Luke. Aps um momento, 
saiu andando no rumo oposto a seus dois seguidores.
      Sentiu-se pior que nunca, trmulo aps a exploso violenta e desapontado com o resultado. Encontrara duas pessoas que provavelmente sabiam quem ele era e no 
conseguira nenhuma informao.
       Grande trabalho, Luke  disse para si prprio.  Conseguiu precisamente nada.
      E ficou sozinho de novo.

8:00

O mssil Jupiter C tem quatro estgios. A parte maior  uma verso de alto desempenho do mssil balstico Redstone.  o booster, ou primeiro estgio, um motor enormemente 
poderoso que tem a tarefa colossal de libertar o mssil da fora de gravidade terrestre.
A dra. Billie Josephson estava atrasada.
      Fez a me se levantar, ajudou-a a vestir o roupo acolchoado, conseguiu que pusesse o aparelho de audio e sentou-a na cozinha para o caf. Acordou tambm 
Larry, o filho de sete anos, elogiou-o por no ter molhado a cama e lhe disse que mesmo assim tinha que tomar banho. Depois retornou  cozinha.
      Sua me, uma gorducha de setenta anos conhecida como Becky-Ma, ouvia o rdio em alto volume. Perry Como cantava Catch a Falling Star. Billie ps fatias de 
po na torradeira e s ento arrumou a mesa com manteiga e gelia de uva para Becky-Ma. Para Larry derramou flocos de milho numa tigela, fatiou uma banana por cima 
do cereal e encheu um caneco com leite.
      Fez um sanduche de manteiga de amendoim e gelia e colocou-o na lancheira de Larry juntamente com uma ma, uma barra de chocolate e um frasco pequeno de 
suco de laranja. Ps a lancheira dentro da mochila da escola e acrescentou o livro de leitura e a luva de beisebol que ganhara de presente do pai.
      No rdio, um reprter entrevistava pessoas que estavam na praia perto de Cabo Canaveral na esperana de verem o lanamento do foguete.
      Larry entrou na cozinha com os cordes dos sapatos desamarrados e os botes da camisa abotoados incorretamente. Ela endireitou os botes, fez com que se sentasse 
diante da tigela de flocos de milho e comeou a preparar ovos mexidos.
      Eram oito e quinze e Billie j tinha praticamente recuperado o atraso. Amava o filho e a me, mas uma parte secreta dela se ressentia do trabalho penoso que 
era tomar conta dos dois.
      O reprter agora estava entrevistando um porta-voz do Exrcito.
       Esses curiosos no esto em perigo? E se o foguete sair do curso e vier cair aqui mesmo na praia?
       No h perigo de acontecer isso, senhor  veio a resposta.  Cada foguete tem um mecanismo de autodestruio. Se ele sair da rota, ser explodido em pleno 
ar.
       Mas como ser possvel explodi-lo se ele j levantou vo?
       O mecanismo explosivo  detonado por um sinal de rdio enviado pelo encarregado de segurana da zona de lanamento.
       Isso parece perigoso por si s. Um radioamador qualquer pode acidentalmente detonar o foguete.
       O mecanismo s responde a um sinal complexo, como um cdigo. Esses foguetes so muito caros, no assumimos qualquer risco.
      Larry falou:
       Tenho que fazer um foguete espacial hoje. Posso levar o copo de iogurte para a escola?
       No, no pode. Est meio cheio.
       Mas tenho que levar umas embalagens! A srta. Page vai ficar furiosa se eu no levar.
      Ele estava prestes a cair no choro, com a subitaneidade prpria dos meninos de sete anos.
       Para que voc precisa das embalagens?
       Para fazer um foguete espacial! Ela nos falou na semana passada.
      Billie suspirou.
       Larry, se voc tivesse me falado na semana passada, eu teria guardado um monte desses troos para voc. Quantas vezes devo lhe pedir para no deixar tudo 
para o ltimo minuto?
       Mas mame, o que  que eu vou fazer?
       Eu encontro alguma coisa. Poremos o iogurte numa tigela grande e, que tipo de embalagens voc quer?
       Que tenham formato de foguete.
      Billie gostaria de saber se as professoras alguma vez pensavam sobre a quantidade de trabalho que criavam para mes ocupadas quando, alegremente, instruam 
as crianas para levarem coisas de casa. Ela serviu torradas com manteiga em trs pratos e acrescentou os ovos mexidos, mas no comeu o dela. Deu uma volta pela 
casa e conseguiu um recipiente de papelo para um detergente, um frasco plstico de sabo lquido, uma caixa de sorvete e uma caixa de bombons em forma de corao.
      A maior parte das embalagens mostrava famlias usando os produtos  geralmente uma bonita dona-de-casa, duas crianas alegres e um pai fumando cachimbo no 
fundo. Ser que as outras mulheres se ressentiam tanto contra aquele esteretipo quanto ela? Nunca tivera uma famlia daquelas. Seu pai, um pobre alfaiate em Dallas, 
morrera quando ela era ainda um beb, e sua me criara cinco filhos na mais extrema pobreza. A prpria Billie se divorciara quando Larry tinha dois anos. Havia um 
sem-nmero de famlias sem homem, em que a me era viva, divorciada ou o que se costumava chamar antigamente de mulheres-da-vida. Mas no aparecem famlias desse 
tipo nas caixas de flocos de milho.
      Ps todas as embalagens dentro de uma sacola de compras para Larry carregar para a escola.
       Puxa vida, aposto como tenho mais que todo mundo!  disse ele.  Obrigado, mame.
      O caf dele esfriou, mas Larry estava feliz.
      Uma buzina soou em frente  casa, e Billie rapidamente checou sua aparncia no vidro da porta do guarda-comidas. Seu cabelo preto encaracolado fora penteado 
rapidamente, no tinha maquiagem exceto a pintura dos olhos que no removera na noite anterior e vestira uma suter cor-de-rosa bem grande... mas o efeito era meio 
sexy.
      A porta dos fundos abriu-se e Roy Brodsky entrou. Roy era o melhor amigo de Larry e os dois se cumprimentaram alegremente, como se estivessem afastados h 
um ms, em vez de poucas horas. Billie notara que atualmente todos os amigos de Larry eram meninos. No jardim de infncia fora diferente, com meninos e meninas brincando 
juntos indiscriminadamente. Gostaria de saber que mudanas psicolgicas tinham lugar, por volta dos cinco anos de idade, que faziam as crianas preferirem amigos 
do mesmo sexo.
      Roy foi seguido do pai, Harold, um tipo de boa aparncia e suaves olhos castanhos. Harold Brodsky era vivo: a me de Roy tinha morrido num desastre de carro. 
Harold ensinava qumica na George Washington University. Billie e Harold namoravam. Ele lhe dirigiu um olhar de adorao e disse:
       Meu Deus, voc est maravilhosa. 
      Ela sorriu e beijou-o no rosto.
      Como Larry, Roy tinha uma sacola cheia de embalagens de papelo.
      Billie perguntou a Harold:
       Voc teve que esvaziar metade das caixas da sua cozinha?
       Tive. Tenho poucas tigelas de flocos de sabo, chocolates e queijo derretido. E seis rolos de papel higinico sem o cilindro de papelo no meio. 
       Droga, no me lembrei dos rolos de papel! 
      Ele riu.
       Ei, quer jantar l em casa hoje? 
      Ela ficou espantada.
       Voc vai cozinhar?
       No exatamente. Pensei em pedir  sra. Riley para fazer uma cassrole que eu possa aquecer no forno.
       Certo  concordou Billie. Nunca jantara na casa dele. Geralmente iam ao cinema, a concertos de msica clssica ou a coquetis nas casas de outros professores 
da universidade. Gostaria de saber o que o fizera convid-la agora.
       Roy vai  festa de aniversrio de um primo e vai dormir l. Teremos uma chance de conversar sem interrupo.
       OK  disse Billie, pensativa. Podiam conversar sem interrupo num restaurante,  claro. Harold tinha outra razo para convid-la para sua casa quando o 
filho passaria a noite fora. Olhou para ele. Sua expresso era franca e cndida  sabia o que ela estava pensando.
       Ser timo  disse.
       Pego voc l pelas oito. Vamos, garotos!
      Ele comboiou as crianas para fora pela porta dos fundos. Larry saiu sem se despedir, o que Billie viera a aprender que se tratava de um sinal de que tudo 
ia bem. Quando se sentia ansioso com alguma coisa ou comeava a cair doente com uma infeco, ficava para trs e se pendurava na me.
       Harold  um bom homem  disse a me de Billie.  Voc devia se casar com ele antes que mude de idia.
       Ele no vai mudar de idia.
       S no decida nada antes dele abrir o jogo. 
      Billie sorriu para a me.
       Voc no deixa passar nada, hem, mame? 
       Sou velha, mas no sou burra.
      Billie tirou a mesa e jogou seu desjejum no lixo. Correndo, tirou a roupa de cama dela, de Larry e da me e fez uma trouxa, que mostrou a Becky-Ma, e disse:
       Lembre-se, tudo o que voc tem a fazer  dar esta trouxa ao homem da lavanderia quando ele vier. OK, Ma?
       Acabaram as minhas plulas do corao  disse a me dela.
       Jesus Cristo.
      Raramente praguejava na frente da me, mas estava no fim da sua pacincia.
       Me, tenho um dia cheio hoje e no vou ter tempo para ir  maldita farmcia!
       No posso fazer nada. Elas acabaram.
      O que mais irritava em Becky-Ma era como de repente deixava de ser uma me perspicaz e se transformava em filha desamparada.
       Voc podia ter dito ontem que estavam acabando  eu fiz compras ontem! No posso fazer compras todos os dias, tenho um emprego.
      Billie na mesma hora ficou com pena.
       Desculpe, Ma.
      Becky-Ma chorava fcil, como Larry. Cinco anos atrs, quando os trs foram morar juntos, Ma tinha ajudado a cuidar do menino. Hoje em dia mal conseguia cuidar 
dele por duas horas, quando chegava da escola. Billie esperava que as coisas melhorassem quando se casasse com Harold.
      O telefone tocou. Deu um tapinha no ombro da me e atendeu. Era Bern Rothsten, seu ex-marido. Billie se dava bem com ele, a despeito do divrcio. Aparecia 
duas ou trs vezes por semana para ver Larry, e contribua de boa vontade com a sua parte nos custos da criao do menino. Billie j tivera seus momentos de raiva 
dele, mas isso fora h muito tempo.
       Oi, Bern, acordou cedo hoje.
       . Soube do Luke? 
      Ela ficou espantada.
       Luke Lucas? Recentemente? No  algo de errado? 
       No sei, talvez.
      Bern e Luke compartilhavam a intimidade de rivais. Quando jovens discutiam interminavelmente. As discusses pareciam speras e, no entanto, continuaram amigos 
ntimos tanto na faculdade quanto durante toda a guerra.
       O que foi que aconteceu?  perguntou Billie.
       Luke me telefonou na segunda-feira. Fiquei meio surpreso, porque no tenho notcias dele com freqncia.
       Nem eu.
      Billie esforou-se para se lembrar.
       A ltima vez que o vi j tem uns dois anos, acho eu. 
      Percebendo quanto tempo se passara, ela perguntou-se por que teria deixado a amizade de Luke esmorecer. Devia ser porque estava ocupada o tempo todo. Uma pena.
       Recebi um bilhete dele no vero passado  disse Bern.  Andava lendo meus livros para os filhos da sua irm.
      Bern era o autor de Os gmeos terrveis, uma srie de livros infantis que fez muito sucesso.
       Disse que os livros faziam as crianas rirem. Foi uma cartinha legal.
       Por que ele telefonou na segunda-feira?
       Disse que estava vindo a Washington e queria me ver. Acontecera algo.
       Ele lhe disse o qu?
       Na verdade, no. S disse que era algo como o que a gente fazia durante a guerra.
      Billie franziu as sobrancelhas, ansiosa. Luke e Bern tinham integrado a OSS durante a guerra, trabalhando atrs das linhas inimigas, ajudando a resistncia 
francesa. Mas tinham se afastado desse mundo desde 1946  ou no?
       O que voc acha que ele estava querendo?
       No sei. Ele disse que telefonava quando chegasse a Washington. Hospedou-se no Carlton Hotel na segunda de noite. Hoje j  quarta e ele ainda no telefonou. 
E ningum dormiu na cama dele na noite passada.
       Como foi que descobriu? 
      Bern fez um rudo impaciente.
       Billie, voc tambm esteve na OSS. O que teria feito?
       Acho que eu teria dado um dinheirinho a uma arrumadeira.
       Certo. Quer dizer que ele passou toda a noite fora e ainda no voltou.
       Talvez tenha cado na farra. Mulheres.
       E talvez o reverendo Billy Graham fume haxixe, mas acho que no. E voc?
      Bern tinha razo. Luke tinha uma poderosa pulso sexual, mas queria sempre intensidade, no variedade. Billie sabia disso.
       No, acho que no  disse ela.
       Telefone se tiver notcias dele, sim?
       Sim, claro.
       At logo.
       At.
      Billie desligou.
      Ela se deixou ficar sentada  mesa da cozinha, seus trabalhos esquecidos, pensando em Luke.
               
1941
A Rota 138 seguia, sinuosa, para o sul, atravessando Massachusetts na direo de Rhode Island. No havia nuvens, e a luz brilhava nas estradas rurais. O velho Ford 
no tinha aquecimento. Billie estava agasalhada, com casaco, cachecol e luvas, mas tinha os ps dormentes. Na verdade, no se importava. No era grande sofrimento 
passar algumas horas em um carro sozinha com Luke Lucas, mesmo que ele fosse namorado de outra garota. Na sua experincia os homens bonitos eram tediosamente vaidosos, 
mas aquele parecia ser uma exceo.
      Era muito demorado o trajeto de carro at Newport, mas Luke parecia estar gostando da longa viagem. Alguns dos homens de Harvard ficavam nervosos com mulheres 
atraentes, e fumavam sem parar ou tomavam longos goles de bebida em seus frascos portteis, alisavam o cabelo ou endireitavam as gravatas. Luke era tranqilo, dirigindo 
sem esforo aparente e tagarelando. Havia pouco trfego e ele olhava para ela tanto quanto para a estrada.
      Conversaram sobre a guerra. Naquela manh, em Radcliffe Yard, grupos rivais de estudantes montaram barracas e panfletaram, os Intervencionistas defendendo 
apaixonadamente a idia de que os Estados Unidos deviam entrar na guerra e os America Firsters (Amrica em Primeiro Lugar) se batendo pela idia oposta com igual 
fervor. Reunira-se uma multido, homens e mulheres, estudantes e professores. O conhecimento de que os rapazes de Harvard estariam entre os primeiros a morrer tornara 
as discusses altamente emocionais.
       Tenho primos em Paris  disse Luke.  Gostaria de ir l e salv-los. Mas isso  o tipo da razo pessoal.
       Tambm tenho uma razo pessoal  dissera Billie.  Sou judia.  Mas em vez de mandar americanos morrerem na Europa, eu abriria nossas portas para refugiados. 
Salvar vidas, ao invs de matar gente.
        no que Anthony cr.
      Billie ainda estava furiosa com o vexame da noite.
       No tenho como lhe dizer o quanto estou furiosa com Anthony  disse ela.  Ele devia ter se assegurado de que podamos ficar no apartamento do seu amigo.
      Esperava contar com a solidariedade de Luke, mas ele a desapontou.
       Acho que vocs dois foram um tanto negligentes a respeito da coisa toda.
      Ele falou com um sorriso amistoso, mas no havia como no perceber o tom de censura.
      Billie ficou mordida. Mas como estava devendo a Luke aquela carona, engoliu o revide que lhe veio aos lbios.
       Voc est defendendo seu amigo, o que  timo  disse ela, delicadamente.  Mas acho que ele tinha o dever de proteger minha reputao.
       Sim, mas foi exatamente isso que voc fez.
      Billie ficou surpresa por Luke ser to crtico. At aquele instante ele tinha sido s charme.
       Voc parece pensar que a culpa foi minha!
       Foi, principalmente, falta de sorte. Mas Anthony a colocou numa posio onde um pouco de falta de sorte era capaz de lhe causar muitos danos.
       Esta  a verdade.
       E voc permitiu.
      Ela ficou horrorizada com a desaprovao dele. Queria que fizesse um bom juzo a seu respeito  embora no soubesse por que se importava com isso.
       De qualquer forma nunca farei aquilo de novo, com homem nenhum  garantiu, veemente.
       Anthony  um grande sujeito, muito inteligente, um tanto excntrico.
       Faz com que as garotas queiram tomar conta dele, escovar seu cabelo, passar seu terno e preparar-lhe uma canja de galinha.
      Luke riu.
       Posso fazer uma pergunta pessoal, Billie?
       Pode tentar.
      Ele a encarou nos olhos por um momento.
       Voc est apaixonada por ele?
      A pergunta foi feita de chofre, mas ela gostava de homens capazes de surpreend-la, de modo que respondeu com sinceridade.
       No, eu gosto dele. Gosto de sua companhia, mas no o amo.
      Ela pensou na namorada de Luke. Elspeth era a mais destacada beleza do campus, uma mulher alta com cabelo cor de cobre comprido e o rosto plido e resoluto 
de uma rainha nrdica.
       E o que me diz de voc? Est apaixonado por Elspeth? 
      Ele desviou o olhar para a estrada.
       No creio que eu saiba o que seja o amor.
       Resposta evasiva.
       Tem razo  ele lhe dirigiu um olhar especulativo e pareceu chegar  concluso de que podia confiar nela.  Bem, para ser sincero, isto  o mais perto do 
amor a que j cheguei, mas ainda no sei se  a coisa verdadeira.
      Ela sentiu uma pontada de culpa.
       S queria saber o que Anthony e Elspeth iam pensar de ns tendo esta conversa.
      Luke tossiu, envergonhado, e mudou de assunto.
       Foi uma pena que voc tenha encontrado aqueles homens no dormitrio masculino.
       Espero que Anthony no venha a ser encontrado. Pode ser expulso. 
       Ele no  o nico. Voc poderia ficar encrencada tambm. 
      Ela vinha tentando no pensar nisso.
       No creio que algum ali soubesse quem eu era. Ouvi um deles dizer prostituta.
      Ele lhe dirigiu um olhar de espanto. 
      Billie adivinhou que Elspeth no diria aquela palavra e desejou que no a tivesse pronunciado.
       Suponho que mereci  acrescentou.  Eu estava num dormitrio masculino  meia-noite.
       Acho que nada justifica a falta de modos.
      Era uma reprimenda a ela tanto quanto ao homem que a insultara, pensou Billie, aborrecida. Luke tinha um jeito cortante. Ele a estava enfurecendo  mas isso 
o tornava interessante. Billie decidiu sair para a briga.
       Voc est sendo muito moralista a respeito de Anthony e de mim, no  mesmo? Mas no colocou Elspeth em uma situao vulnervel nesta noite, conservando-a 
no seu carro at de madrugada?
      Para surpresa de Billie, ele deu uma boa risada.
       Tem razo, e eu no passo de um idiota pomposo. Todos ns nos arriscamos.
        verdade  ela estremeceu.  No sei o que eu faria se fosse expulsa.
       Estudaria em qualquer outro lugar, acho eu. 
      Ela sacudiu a cabea.
       Tenho uma bolsa de estudos. Meu pai j morreu e minha me  uma viva sem um centavo. E se eu fosse expulsa por transgresso moral, teria pouca chance de 
conseguir outra bolsa. Por que essa cara de espanto?
       Para ser sincero, tenho que dizer que voc no se veste como uma garota que tem os estudos pagos por uma bolsa.
      Ela ficou satisfeita ao ver que ele notara suas roupas.
        a bolsa Leavenworth  explicou. 
       Uau!
      Tratava-se de uma bolsa muito afamada pela generosidade, e milhares de estudantes destacados competiam na tentativa de conquist-la.
       Voc deve ser um gnio!
       No sei disso  retrucou Billie, gratificada pelo respeito na voz de Luke.  No sou inteligente o bastante para garantir um lugar onde possa passar a noite.
       Por outro lado, ser expulsa da faculdade no  a pior coisa do mundo. Algumas das pessoas mais inteligentes so  e depois seguem seus caminhos para se tornarem 
milionrias.
       Para mim seria o fim do mundo. No quero ser milionria. Quero ajudar a curar as pessoas doentes.
       Vai ser mdica?
       Psicloga. Quero compreender como a mente funciona. 
       Por qu?
        to misterioso e complicado. Coisas como o raciocnio lgico, o modo como pensamos. Imaginar algo que no esteja na nossa frente  os animais no so capazes 
disso. A capacidade de recordar. Peixes no tm memria, sabia?
      Ele aquiesceu.
       E por que quase qualquer pessoa  capaz de reconhecer uma oitava musical?  perguntou.  Duas notas, a freqncia de uma sendo o dobro da outra  como pode 
o crebro da gente saber isso?
       Voc tambm acha essas coisas interessantes?  ela ficou satisfeita por ver que ele compartilhava de sua curiosidade.
       De que o seu pai morreu?
      Billie engoliu em seco. Um pesar imenso de repente a esmagou. Lutou contra as lgrimas. Era sempre assim: uma palavra dita ao acaso e vinha, do nada, uma dor 
to aguda que mal era capaz de falar.
       Sinto muito, sinceramente. No tive inteno de perturb-la.
       A culpa no foi sua  ela conseguiu falar. Respirou fundo.  Ele ficou maluco. Em uma manh de domingo, foi tomar banho no rio. A questo  que detestava 
a gua e no sabia nadar. Acho que queria morrer. O legista tambm achou isso, mas o jri ficou com pena de ns e considerou morte acidental, para que pudssemos 
fazer jus ao seguro de vida. Cem dlares. Foi o dinheiro que nos sustentou durante um ano.
      Ela respirou fundo.
       Vamos falar de outra coisa. Fale-me sobre matemtica.
       Bem  ele pensou por um momento.  Matemtica  to estranha quanto psicologia. Pegue o nmero pi. Por que a razo da circunferncia de um crculo para o 
seu dimetro  trs vrgula um quatro dois? Por que no seis, ou dois e meio? Quem tomou essa deciso, e por qu?
       Voc quer explorar o espao sideral.
       Acho que ser a aventura mais emocionante que a humanidade viver.
       E eu quero mapear a mente  ela sorriu. A dor da morte do pai comeava a desaparecer.  Sabe, temos algo em comum  ambos temos idias grandiosas.
      Ele riu e freou o carro.
       Ei, estamos chegando a uma encruzilhada.
      Ela acendeu a lanterna e iluminou o mapa que tinha sobre os joelhos.
       Vire  direita  disse.
      Aproximavam-se de Newport. O tempo passara depressa. Billie sentiu pena pela viagem estar terminando.
       No tenho idia do que vou dizer ao meu primo.
       Como ele ?  Ele  esquisito.
       Esquisito? De que modo?
       No modo homossexual.
      Ele lhe dirigiu um olhar assustado.
       Entendo.
      Billie no tinha pacincia com homens que esperavam que as mulheres tratassem com muita cautela assuntos relativos ao sexo.
       Choquei voc de novo, no foi? 
      Ele sorriu.
       Como voc mesma diria   verdade.
      Ela riu. Aquele era um coloquialismo texano. Ficou satisfeita por ele notar pequenas coisas a seu respeito.
       Uma bifurcao a adiante  anunciou ele. 
      Ela consultou o mapa de novo.
       Vai ter que parar. No consigo encontrar.
      Ele parou o carro. E inclinou-se para examinar o mapa  luz da lanterna. Teve que virar o mapa um pouco e o toque de sua mo foi quente na mo fria de Billie.
       Talvez estejamos aqui  disse Luke, apontando.
      Em vez de olhar para o mapa, ela se descobriu encarando o rosto dele. Estava muito sombreado, iluminado apenas pela lua e pela claridade indireta da lanterna. 
O cabelo caa sobre o olho esquerdo. Aps um momento ele sentiu o olhar dela e levantou o rosto. Sem pensar, Billie ergueu a mo e acariciou-lhe o rosto com a parte 
de fora do dedo mnimo. Ele a encarou tambm e Billie viu atordoamento e desejo nos seus olhos.
       Que caminho seguimos?  murmurou Billie. 
      Ele afastou-se subitamente e engrenou a marcha.
       Vamos...  ele pigarreou.  Vamos pela esquerda.
      Billie gostaria de saber o que ela estava fazendo. Luke passara a noite se agarrando com a mais bela garota do campus. Billie tinha sado com o companheiro 
de quarto de Luke. O que  que ela estava pensando?
      Seus sentimentos por Anthony no eram fortes, mesmo antes da calamidade daquela noite. Ainda assim, ela o estava namorando, de modo que certamente no deveria 
estar brincando com o melhor amigo dele.
       Por que fez isso?  perguntou Luke, furioso.
       No sei. No tive inteno, simplesmente aconteceu. Acalme-se.
      Ele fez uma curva rpido demais.
       No quero me sentir assim a seu respeito!  disse ele. 
      Subitamente ela perdeu o flego.
       Assim como?
       Deixa para l.
      O cheiro do mar invadiu o carro e Billie percebeu que estavam perto da casa do primo. Reconheceu a rua.
       Na prxima  esquerda  disse ela.  Se no diminuir a velocidade vai passar direto.
      Luke freou e entrou numa rua de terra.
      Metade de Billie queria chegar ao destino, saltar do carro e deixar para trs aquela tenso insuportvel, e a outra metade queria continuar andando de carro 
com Luke para sempre.
       Chegamos  disse ela.
      Pararam em frente a uma casa de vigamento de madeira, um andar, bem cuidada, calhas vistosas e uma lmpada perto da porta. Os faris do Ford iluminaram um 
gato sentado no peitoril de uma janela, dirigindo a eles um olhar calmo, desdenhoso do turbilho das emoes humanas.
       Entre  convidou Billie.  Denny far um caf para mant-lo acordado na viagem de volta.
       No, obrigado. S vou esperar para v-la em segurana dentro da casa.
       Voc foi muito bom para mim. No creio que eu merea isso. 
      Ela estendeu a mo.
       Somos amigos?  ele apertou a mo de Billie.
      Ela puxou a mo dele, beijou-a e apertou-a de encontro ao seu rosto, fechando as plpebras. Aps um instante ouviu-o gemer baixinho. Abriu os olhos e viu que 
ele a estava encarando. Luke passou a mo por trs da sua cabea, puxou-a para junto de si e os dois se beijaram. Foi um beijo delicado, lbios suaves, hlito clido 
e as pontas dos dedos de Luke na nuca de Billie. Ela segurou a lapela do seu casaco de tweed e puxou-o mais para perto. Sabia que se Luke a agarrasse agora no ia 
resistir. O pensamento a fez arder de desejo. Sentindo-se meio louca, pegou a ponta da lngua dele entre os dentes e mordeu.
       Quem est a?  era a voz de Denny, o primo de Billie. 
      Ela afastou-se de Luke e olhou para fora. Havia luzes na casa e Denny apareceu na porta, usando um robe de seda prpura.
      Billie voltou sua ateno para Luke.
       Eu podia me apaixonar por voc em mais dez minutos, mas no penso que pudssemos vir a ser amigos.
      Encarou-o por mais um momento, vendo nos olhos dele o mesmo conflito que sentia em seu corao. Depois desviou os olhos, respirou fundo e saltou do carro.
       Billie?  disse Denny.  Pelo amor de Deus, o que  que voc est fazendo aqui?
      Ela cruzou o jardim, subiu na varanda e caiu nos braos dele.
       Oh, Denny  murmurou.  Eu amo aquele homem e ele pertence a outra mulher!
      Denny deu uma palmadinha delicada nas costas dela.
       Querida, sei exatamente como voc se sente.
      Ela ouviu o carro saindo e virou-se para ver. Ao faz-lo, viu o rosto de Luke e o fulgor de algo brilhante em seu rosto. 
      Luke desapareceu na escurido.
8:30

Empoleirado no topo do nariz do Redstone v-se aquilo que parece uma grande gaiola com um telhado muito ngreme e um mastro de bandeira metido no centro. Esta seo, 
com cerca de 4 metros de comprimento, contm o segundo, terceiro e quarto estgios do mssil  assim como o prprio satlite.
Os agentes secretos nos Estados Unidos nunca tinham sido to poderosos quanto em janeiro de 1958.
      O diretor da CIA, Allen Dulles, era irmo de John Foster Dulles, o secretrio de Estado de Eisenhower  de modo que a Agncia tinha uma linha direta no governo. 
Mas esta era apenas metade da razo.
      Sob as ordens de Allen Dulles funcionavam quatro vice-diretores, dos quais apenas um era importante  o de Planos. A Diretoria de Planos era tambm conhecida 
como CS, de Clandestine Services, e foi este departamento que executou os golpes contra os governos de tendncia esquerdista no Ir e na Guatemala.
      A Casa Branca de Eisenhower ficou impressionada e satisfeita por esses golpes terem sido to baratos e incruentos, especialmente em comparao com uma guerra 
de verdade, como a da Coria. Conseqentemente, o pessoal que trabalhava em Planos desfrutava de enorme prestgio nos crculos governamentais  embora no entre 
a opinio pblica americana, a quem disseram que ambos os golpes foram obra das foras anticomunistas locais.
      Fazia parte da Diretoria de Planos a diviso de Servios Tcnicos, chefiada por Anthony Carroll. Ele tinha sido contratado quando a CIA foi montada, em 1947. 
Anthony sempre planejara trabalhar em Washington  em Harvard especializara-se em governo  e fora uma estrela da OSS durante a guerra. Designado para trabalhar 
em Berlim nos anos 50, organizara a escavao de um tnel que ia do setor americano  zona sovitica e grampeara as comunicaes da KGB. O tnel permaneceu sem ser 
descoberto por seis meses, durante os quais a CIA acumulou uma montanha de informaes de valor incalculvel. Foi o maior golpe de inteligncia da Guerra Fria, pelo 
qual a recompensa de Anthony fora o cargo principal.
      O fato de a CIA ser proibida por lei de operar dentro dos Estados Unidos no passava de uma inconvenincia menor.
      Servios Tcnicos era, teoricamente, uma diviso de treinamento. Havia uma grande e velha casa de fazenda no interior da Virgnia onde os recrutas aprendiam 
como invadir residncias e plantar microfones escondidos, usar cdigos e tinta invisvel, chantagear diplomatas e intimidar informantes. Mas treinamento tambm 
servia como disfarce de mltiplos objetivos para operaes secretas no territrio dos Estados Unidos. Praticamente tudo que Anthony quisesse fazer, desde grampear 
os telefones dos diretores de um sindicato a testar drogas da verdade em presos condenados, podia ser rotulado como exerccio de treinamento.
      A vigilncia de Luke no foi exceo.
      Seis agentes experientes foram reunidos na sala de Anthony. Era uma sala grande, meio desnuda, s com algumas peas de moblia barata do tempo da guerra: uma 
escrivaninha pequena, um arquivo de ao, uma mesa de cavaletes e um jogo de cadeiras de dobrar. Sem dvida que o novo quartel-general em Langley seria cheio de sofs 
confortveis e lambris de mogno, mas Anthony preferia o estilo espartano.
      Pete Maxell distribuiu um retrato de Luke e uma descrio datilografada de suas roupas enquanto Anthony instrua os agentes.
       Nosso alvo hoje  um empregado do Departamento de Estado, categoria intermediria mas com alto nvel de acesso a assuntos sigilosos  disse.  Est sofrendo 
uma espcie de colapso nervoso. Chegou de Paris na segunda-feira, passou a noite no hotel Carlton e caiu na farra na tera-feira. Passou fora a noite de ontem e 
foi para um abrigo de pessoas sem-lar hoje de manh. O risco de segurana  bvio.
      Um dos agentes, Red Rifenberg, levantou a mo.
       Pergunta.
       Prossiga.
       Por que simplesmente no o puxamos para um lado e perguntamos o que diabo est acontecendo?
        o que faremos, quando chegar a hora.
      A porta da sala de Anthony abriu-se e entrou Carl Hobart. Hobart, gordo e careca e de culos, era o chefe de Servios Especializados, rgo que inclua Registros 
e Decodificao e Servios Tcnicos. Em teoria, era o chefe imediato de Anthony. Anthony gemeu intimamente e rezou para que Hobart no interferisse no que estava 
fazendo, logo naquele dia, entre tantos.
      Anthony continuou a dar suas instrues.
       Mas antes de mostrarmos nossas cartas, queremos ver o que o objeto de nossa operao faz, aonde vai  com quem entra em contato, caso entre. Um caso destes, 
ele pode apenas estar com um problema em casa. Mas tambm pode ser que estivesse dando informaes para o outro lado, ou por motivos ideolgicos ou por o estarem 
chantageando, e agora a tenso foi demasiada. Se estiver envolvido com algum tipo de traio, precisamos de todas as informaes que pudermos conseguir antes de 
peg-lo.
      Hobart interrompeu.
       O que  isso?
       Um pequeno exerccio. Vigilncia de um diplomata suspeito.
       Passe para o FBI  disse Hobart, abruptamente. 
      Hobart fizera a guerra na Inteligncia Naval. Para ele, espionagem era uma simples questo de descobrir a localizao do inimigo e o que estava fazendo nesse 
lugar. No gostava de veteranos da OSS e de seus truques sujos. A diviso entre um e outro grupo passava pelo meio da Agncia. Os homens da OSS eram aventureiros. 
Aprenderam sua profisso em tempo de guerra e tinham pouqussimo respeito por oramentos e protocolo. Os burocratas se irritavam com seu relaxamento. E Anthony era 
o arqutipo dos aventureiros: um sujeito audacioso e arrogante que tinha se safado impune de um assassinato por ser um criminoso eficiente.
      Anthony dirigiu um olhar frio a Hobart.
       Por qu?
       Porque  obrigao do FBI e no nossa pegar espies comunistas neste pas  como voc sabe perfeitamente bem.
       Precisamos chegar na fonte de tudo. Um caso como este pode gerar um monte de informaes se for bem conduzido. Mas os Federais esto apenas interessados 
em conseguir publicidade por enviar comunistas para a cadeira eltrica.
        a Lei! 
       Mas voc sabe que no tem o menor sentido.
       No faz diferena.
      Uma coisa compartilhada pelos grupos rivais dentro da CIA era o dio ao FBI e ao seu megalomanaco diretor, J. Edgar Hoover. Assim, Anthony perguntou:
       De qualquer modo, quando foi a ltima vez que o FBI nos deu alguma coisa?
       A ltima vez foi nunca  retrucou Hobart.  Mas eu tenho outra misso para voc hoje.
      Anthony comeou a se enfurecer. Que arrogncia era aquela? No competia a Hobart distribuir misses.
       De que voc est falando?
       A Casa Branca nos convocou para uma reunio sobre modos de lidar com um grupo rebelde em Cuba. Haver uma reunio de alto nvel mais tarde. Preciso de voc 
e de todos os seus homens experientes para me assessorarem.
       Voc est me pedindo informaes sobre Fidel Castro?
       Claro que no. Sei tudo sobre Castro. O que preciso de voc so idias prticas para lidar com a insurgncia.
      Anthony detestava aquele tipo de conversa mole.
       Por que no diz o que quer? Voc quer saber como tir-los de l.
       Talvez.
      Antony deu uma risada sarcstica.
       Bem, o que mais poderamos fazer  matricul-los numa classe de catecismo?
       Isso compete  Casa Branca decidir. Nosso trabalho  apresentar alternativas. Voc pode me dar algumas sugestes.
      Anthony manteve seu espetculo de indiferena, mas por dentro se preocupava. No tinha tempo para distraes e precisava dos seus melhores agentes para ficar 
de olho em Luke.
       Vou ver o que posso fazer  disse ele, esperando que Hobart se satisfizesse com uma vaga promessa.
      Ele no se satisfez.
       Na minha sala de reunies, com todos os seus agentes mais experimentados, s dez horas  e sem desculpas.
      Ele virou-se. E Anthony tomou uma deciso. 
      Hobart, j na porta, fez meia-volta.
       No  uma sugesto  disse.  Esteja l.
       Leia meus lbios  disse Anthony. 
      Relutantemente, Hobart encarou Anthony. 
      Enunciando as slabas cuidadosamente, Anthony disse:
       V se foder.
      Um dos agentes conteve uma risada. 
      A careca de Hobart ficou vermelha.
       Voc ter mais notcias a respeito disto  disse ele.  Muitas notcias.
      Ele saiu e bateu com a porta. 
      Todo mundo caiu na gargalhada.
       De volta ao trabalho  comandou Anthony.  Simons e Betts esto com o objeto da vigilncia neste momento, mas devero ser substitudos em poucos minutos. 
Quando eles voltarem, quero Red Rifenberg e Ackie Horwitz assumindo a vigilncia. Vamos funcionar com quatro turnos de seis horas cada, com uma equipe de reserva 
sempre disponvel.  s por ora.
      Os agentes saram marchando em grupo, menos Pete Maxell. Ele tinha feito a barba e vestido seu terno de trabalho com uma gravata estreita, elegante. Com isso 
os dentes ruins e a mancha vermelha do rosto se tornaram mais visveis, como vidros quebrados nas janelas de uma casa nova. Ele era tmido e insocivel, talvez por 
causa da aparncia, e devotado aos poucos amigos. Parecia preocupado quando disse para Anthony:
       Voc no est se arriscando com Hobart?
       Ele  um panaca.
       Ele  seu chefe.
       No posso deixar que prejudique uma importante operao de vigilncia.
       Mas voc mentiu para ele. Hobart pode descobrir facilmente que Luke no  um diplomata vindo de Paris.
      Anthony deu de ombros.
       Eu conto a ele outra histria.
      Pete pareceu duvidar, mas assentiu e dirigiu-se para a porta.
       Mas voc tem razo  disse Anthony.  Estou arriscando meu pescoo. Se alguma coisa sair errada, Hobart no perder a chance de cortar minha cabea.
       Foi o que pensei.
       Ento  melhor nos assegurarmos de que nada saia errado. 
      Pete saiu. Anthony ficou olhando para o telefone, obrigando-se a ser calmo e paciente. Poltica interna no trabalho sempre o enfurecia, mas a verdade era que 
homens como Hobart estavam sempre por perto. Aps cinco minutos o telefone tocou e ele atendeu.
       Carroll falando.
       Voc esteve aborrecendo Carl Hobart de novo.
      Era a voz ofegante de um homem que fumara e bebera entusiasticamente a maior parte da vida.
       Bom dia, George  disse Anthony. George Cooperman era vice-diretor de Operaes e companheiro de Anthony da poca da guerra. Era o superior imediato de Hobart.
       Hobart devia ficar fora do meu caminho.
       Venha c, seu chato arrogante!  disse George, amigavelmente.
       J vou.
      Anthony desligou. Abriu uma gaveta e pegou um envelope contendo um mao grosso de cpias Xerox. Em seguida vestiu o palet e dirigiu-se ao escritrio de George, 
que ficava no Prdio P, ao lado.
      Cooperman era um homem alto e magro, de cinqenta anos, mas com o rosto prematuramente enrugado. Tinha os ps em cima da mesa. Um cigarro no canto da boca 
e uma enorme caneca de caf junto ao cotovelo. Lia o Pravda: tinha se formado em literatura russa em Princeton.
      George Cooperman abaixou o jornal e rosnou:
       Por que voc no consegue ser delicado com o merda daquele gordo?
      Ele fez a pergunta sem remover o cigarro da boca.
       Sei que  difcil  acrescentou  mas podia fazer isso em meu benefcio.
      Anthony sentou-se.
       A culpa  dele mesmo. A esta altura j devia ter percebido que s o insulto quando ele se dirige primeiro a mim.
       Qual  a sua desculpa desta vez?
      Anthony jogou o envelope em cima da mesa. Cooperman pegou e examinou as folhas xerocadas.
       Um projeto  disse.  De foguete, creio. E da?
        um projeto supersecreto. Tirei estas cpias da pessoa que estamos vigiando.  um espio, George.
       E voc preferiu no dizer isto a Hobart.
       Quero seguir esse sujeito at que ele revele todos da sua rede  e depois usar a operao dele para contra-informao. Hobart entregaria o caso ao FBI, que 
pegaria o sujeito e o jogaria na cadeia. A rede dele simplesmente ia se desvanecer.
       Com os diabos, tem razo quanto a este ponto. Ainda assim, preciso de voc na reunio. Sou eu que vou presidi-la. Mas pode deixar sua equipe realizando a 
vigilncia. Se acontecer alguma coisa, eles sempre podem tirar voc da sala de reunies.
       Obrigado, George.
       E escute. Esta manh voc mandou o Hobart se foder na frente de uma sala cheia de agentes, no foi?
       Acho que sim.
       Da prxima vez, tente fazer isso delicadamente, est certo?
      Cooperman pegou seu Pravda de novo. Anthony levantou-se para ir embora, pegando as cpias Xerox. Cooperman completou:
       E assegure-se de que essa droga de vigilncia saia direito. Se ferrar tudo, depois de ter insultado seu chefe, pode ser que eu no consiga proteg-lo.
      Anthony saiu.
      Mas no retornou ao escritrio. A fila de edifcios condenados que abrigavam aquela parte da CIA ocupava uma faixa de terra entre a Constitution Avenue e o 
Mall com o espelho dgua. As entradas para carros ficavam do lado da rua, mas Anthony saiu por um porto dos fundos que dava no parque.
      Andou lentamente ao longo da alameda de olmos ingleses, respirando o ar frio, tranqilizado pelas velhas rvores e pela gua parada. Tinha havido alguns maus 
momentos naquela manh, mas ele resistira, com um diferente conjunto de mentiras para cada grupo engajado no jogo.
      Chegou ao fim da avenida e parou no ponto que ficava no meio do caminho entre o Lincoln Memorial e o monumento a Washington. A culpa  toda sua, pensou, dirigindo-se 
aos dois grandes presidentes. Vocs fizeram os homens acreditar que podiam ser livres. Estou lutando pelos seus ideais. No estou nem sequer seguro de que ainda 
acredito nesses ideais  mas tambm me acho por demais teimoso para desistir. Vocs por acaso tambm se sentem desse jeito?
      Lincoln e Jefferson no responderam, e aps algum tempo ele retornou ao Prdio Q.
      No escritrio encontrou Pete com a equipe que estivera seguindo Luke: Simons, com um sobretudo azul-marinho, e Betts, vestindo uma capa de chuva verde. Estava 
l tambm a equipe que devia ter substitudo Simons e Betts, ou seja, Rifenberg e Horwitz.
       Que diabo  isto?  exclamou Anthony, tomado de sbito medo.  Quem est com Luke?
      Simons carregava um chapu de feltro cinzento e sacudiu-o, com a mo trmula.
       Ningum  disse ele.
       O que aconteceu? Que porra foi que aconteceu, seus imbecis?
      Aps um momento, foi Pete quem respondeu.
       Ns, hmmm...  ele engoliu em seco.  Ns o perdemos.

PARTE DOIS

9:00

O Jupiter C foi construdo para o Exrcito pela Chrysler Corporation. O enorme motor de foguete que propulsiona o primeiro estgio foi fabricado pela North American 
Aviation, Inc. O segundo, terceiro e quarto estgios foram projetados e testados pelo Jet Propulsion Laboratory, nas proximidades de Pasadena.
Luke sentia raiva de si prprio. Tinha conduzido mal as coisas. Encontrara duas pessoas que provavelmente sabiam quem ele era  e as tinha perdido de novo.
      Estava de volta ao bairro pobre perto da igrejinha da rua H onde tomara o caf da manh. A luz do dia de inverno estava mais clara, fazendo com que a rua parecesse 
mais suja, os prdios mais velhos, as pessoas mais malvestidas. Viu dois vagabundos na porta de uma loja vazia, passando uma garrafa de cerveja. Estremeceu e passou 
depressa por eles.
      Percebeu ento que aquilo era estranho. Um alcolatra quer beber o tempo todo. Mas, para Luke, a idia de tomar uma cerveja de manh to cedo era nauseante. 
Assim, sendo, concluiu, com enorme alvio, no era um alcolatra.
      Mas se no era um bbado, o que ele era?
      Resumiu o que sabia a seu prprio respeito. Tinha trinta e tantos anos. No fumava. A despeito das aparncias, no era viciado em bebidas alcolicas. Em algum 
ponto de sua vida estivera envolvido em trabalho clandestino. E conhecia os versos de Que amigo temos em Jesus. Era pateticamente pouco.
      Tinha andado pelas caladas procurando uma delegacia, mas no passara por nenhuma. Decidiu pedir informaes. Um minuto mais tarde, quando passou por um lote 
vago cercado por um pedao de chapa de ao ondulada, viu um guarda uniformizado passar por um buraco na cerca e vir para a calada. Aproveitando a oportunidade, 
perguntou:
       Como fao para chegar na delegacia mais prxima?
      O guarda era um homem corpulento com bigode ruivo. Dirigiu a Luke um olhar de desprezo e disse:
       Na mala do meu carro-patrulha, se no sumir da porra da minha frente.
      Luke ficou espantado com a violncia da sua linguagem. Qual era o problema do homem? Mas estava cansado de errar pelas ruas e precisava de informaes, de 
modo que persistiu:
       Eu s preciso saber onde  a delegacia.
       Eu no vou lhe dizer, seu cabea de merda. 
      Luke ficou aborrecido. Quem ele pensava que era?
       Eu lhe fiz uma pergunta educada, policial  retrucou.
      O guarda moveu-se com rapidez surpreendente para um homem to pesado. Agarrou Luke pelas lapelas do casaco esfarrapado e o jogou pelo buraco da cerca. Luke 
balanceou e caiu em cima de um piso de concreto spero, machucando o brao.
      Para sua surpresa, no estava sozinho. Logo do lado de dentro do terreno estava uma jovem de cabelo oxigenado e maquiagem pesada. Vestia um casaco comprido 
sobre um vestido folgado, sapatos de noite de salto alto e meias rasgadas. Estava ajeitando as calcinhas. Luke percebeu que se tratava de uma prostituta que tinha 
acabado de servir ao patrulheiro.
      O guarda veio atravs da passagem e chutou a barriga de Luke.
      Luke ouviu a prostituta dizer:
       Pelo amor de Deus, Sid, o que foi que ele fez? Cuspiu na calada? Deixe o pobre vagabundo em paz.
       O filho-da-puta tem que aprender a respeitar a autoridade  disse o policial, com estupidez.
      Com o canto do olho Luke viu que ele puxava o cassetete e o levantava. Quando o golpe se aproximou, Luke rolou para um lado. No foi bastante rpido e o basto 
ainda o pegou no ombro esquerdo, deixando momentaneamente o brao dormente. O guarda levantou o cassetete de novo.
      Fechou-se um circuito no crebro de Luke.
      Em vez de rolar, ele atirou-se na direo do guarda. O impulso dele para frente fez com que casse no cho, soltando o cassetete. Luke ps-se de p agilmente. 
Quando o guarda se levantou, Luke aproximou-se e ficou danando a uma distncia menor que a extenso dos seus braos, de modo que o homem no conseguia soc-lo. 
Agarrou as lapelas da tnica do uniforme, puxou o guarda para frente com um safano e deu-lhe uma cabeada no rosto. Ouviu-se um estalo quando o nariz do policial 
quebrou. O homem urrou de dor.
      Luke soltou as lapelas da tnica, piruetou num p s e chutou o guarda na lateral do joelho. Os sapatos velhos que usava no eram rgidos o bastante para quebrar 
ossos, mas o joelho tem pouca resistncia a um golpe de lado e o policial caiu.
      Uma parte da cabea de Luke gostaria de saber onde diabos aprendera a brigar daquele modo.
      O policial sangrava no nariz e na boca, mas levantou-se apoiado no cotovelo esquerdo e sacou da arma com a mo direita.
      Antes que a arma sasse do coldre, Luke estava em cima dele. Agarrando seu antebrao direito, bateu com a mo direita no concreto uma vez, com muita fora. 
A pistola caiu imediatamente. Puxou o guarda de modo a levantar seu peito e torceu-lhe o brao, obrigando-o a rolar e ficar de bruos. Torcendo o brao do homem 
nas costas, soltou o peso do corpo, enfiando ambos os joelhos na nuca, expulsando todo o ar dos seus pulmes. Finalmente, pegou seu dedo indicador e dobrou-o toda 
a vida para trs.
      O guarda gritou. Luke empurrou ainda mais o dedo. Ouviu um estalo e a ele desmaiou.
       Voc vai passar uma temporada sem bater em vagabundos  disse Luke.  Seu cabea de merda.
      Luke levantou-se. Pegou o revlver, ejetou todas as balas e jogou-as no fundo do lote.
      A prostituta olhava para ele, espantada.
       Quem diabo voc , Elliot Ness?
      Luke olhou para ela. Era magrinha e sob a pintura a pele era ruim.
       No sei quem eu sou  disse. 
       Bem, no  nenhum vagabundo, disso tenho certeza  disse ela.  Nunca vi um cachaceiro capaz de derrubar um filho-da-puta gordo como o Sidney.
       Era o que eu estava pensando.
        melhor darmos o fora daqui. Ele vai ficar furioso quando acordar.
      Luke aquiesceu. No tinha medo de Sidney, nem com raiva nem sem raiva, mas antes que se passasse muito tempo chegariam mais policiais, e ele precisava estar 
em outro local. Passou pelo buraco na cerca e foi para a rua, afastando-se rapidamente.
      A mulher o seguiu, os saltos agulha estalando na calada. Ele reduziu o ritmo para permitir que o alcanasse, sentindo que havia entre eles uma espcie de 
camaradagem. Ambos tinham sido maltratados por Sidney, o patrulheiro.
       Foi legal ver o Sidney dar com algum que no conseguiu amedrontar  disse ela.  Acho que devo essa a voc.
       De jeito nenhum.
       Bem, da prxima vez em que voc se sentir excitado, vai ser por conta da casa.
      Luke tentou no deixar transparecer sua nusea.
       Qual  o seu nome?
       Dee-Dee.
      Ele levantou uma das sobrancelhas para ela.
       Bem, na verdade  Doris Dobbs  admitiu ela.  Mas que nome  esse para uma garota como eu?
       Eu sou Luke. No sei o meu sobrenome. Perdi a memria.
       Uau. Voc deve se sentir... estranho. 
       Desorientado.
       Isso mesmo.  exatamente esta palavra que estava na ponta da minha lngua.
      Luke a fitou e viu que havia um sorriso irnico no seu rosto. Percebeu que estava fazendo graa  sua custa e gostou dela por isto.
       No  justo que eu no saiba meu nome e endereo  explicou.  No sei ao menos que tipo de pessoa eu sou.
       Como assim?
       Ser que sou honesto?
      Talvez seja tolice, pensou Luke, abrir seu corao daquela maneira com uma puta de rua, mas ele no tinha outra pessoa.
       Sou um marido leal e um pai amoroso e um companheiro de trabalho confivel? Ou sou algum tipo de gngster? Odeio no saber.
       Meu querido, se  isso que o est aborrecendo, eu j sei que tipo de sujeito voc . Um gngster estaria pensando, sou rico, mato as garotas, as pessoas 
tm medo de mim?
      Era um bom argumento. Luke aquiesceu, mas no se deu por satisfeito.
       Uma coisa  querer ser uma boa pessoa  mas talvez eu no viva segundo aquilo em que acredito.
       Seja bem-vindo  raa humana, queridinho  disse ela.  Todos ns nos sentimos desse modo.
      Ela parou junto a uma porta.
       Foi uma noite longa.  aqui que eu caio fora.
       At logo. 
      Ela hesitou.
       Quer um conselho? 
       Claro.
       Se quer que as pessoas parem de trat-lo como um bosta,  melhor dar um jeito na aparncia. Faa a barba, penteie o cabelo, arranje um casaco que no parea 
ter sado da boca de um cachorro.
      Luke viu que ela estava com a razo. Ningum prestaria ateno nele e muito menos o ajudaria a descobrir sua identidade enquanto parecesse um maluco.
       Acho que voc tem razo  disse ele.  Obrigado. 
      Ela gritou depois que Luke se afastou um pouco.
       E arranje um chapu!
      Ele tocou na cabea e olhou em torno. Era a nica pessoa na rua, homem ou mulher, sem chapu. Mas como um vagabundo podia arranjar uma nova muda de roupas? 
As moedinhas que tinha no bolso no comprariam muita coisa.
      A soluo veio inteiramente formada na sua mente. Ou era uma questo fcil ou ele j estivera antes em situao igual. Iria para uma estao de trem. Uma estao 
geralmente est cheia de pessoas carregando mudas completas de roupa, junto com aparelhos de barba e outros artigos de toalete, tudo lindamente arrumado em malas.
      Foi at a esquina seguinte e verificou sua localizao. Estava na esquina de A com Seventh. Ao deixar a Union Station de manh cedo, notara que ficava perto 
da esquina de F com Second. Dirigiu-se para l.

10:00

O primeiro estgio do mssil  preso ao segundo por parafusos explosivos envoltos por molas de espiral. Quando o primeiro estgio termina de queimar, os parafusos 
detonam e as molas empurram o primeiro estgio  agora desnecessrio  para longe.
O Georgetown Mind Hospital era uma manso vitoriana revestida de tijolos vermelhos, com uma moderna extenso de teto plano nos fundos. Billie Josephson deixou seu 
Ford Thunderbird vermelho no estacionamento e correu para dentro do prdio.
      Detestava chegar atrasada. Parecia desrespeito ao seu trabalho e a seus colegas. O que estavam fazendo era importantssimo. Lentamente, com todo o cuidado, 
estavam aprendendo a compreender os mecanismos da mente humana. Era como mapear um planeta distante, cuja superfcie s pudesse ser vista atravs de brechas  frustrantemente 
curtas  nas camadas de nuvens que o cercavam.
      Estava atrasada por causa de sua me. Depois que Larry fora para a escola, Billie sara para comprar as plulas para o corao e voltara para encontrar Becky-Ma 
deitada na cama, totalmente vestida, lutando para respirar. O mdico atendera prontamente, mas no tinha nada de novo a dizer. Becky-Ma tinha o corao fraco. Se 
perdesse o flego devia deitar. Tinha que se lembrar de tomar suas plulas. Qualquer estresse era ruim para ela.
      Billie gostaria de dizer, E eu? Estresse tambm no me faz mal?, mas, em vez de perguntar qualquer coisa, decidiu voltar a andar em torno da me.
      Passou pelo escritrio de admisses e deu uma olhada no registro da noite. Um novo paciente dera entrada na vspera, depois que ela sara: Joseph Bellow, esquizofrnico. 
O nome fez com que se lembrasse de alguma coisa, no saberia precisar o qu. Surpreendentemente, o paciente fora mandado embora durante a noite. O que era estranho.
      Passou pela sala de recreao a caminho do seu escritrio. A TV estava ligada, e um reprter, de p em uma praia poeirenta, dizia: Aqui em Cabo Canaveral, 
a questo na boca de todos : Quando o Exrcito tentar lanar seu prprio foguete? Deve ser nos prximos dias.
      Os objetos da pesquisa de Billie estavam na sala de recreao, uns assistindo  TV, outros jogando ou lendo, uns poucos com o olhar perdido no espao. Ela 
acenou para Tom, um rapaz que no conhecia o significado das palavras.
       Como vai, Tommy?  exclamou ela.
      Ele sorriu e acenou de volta. Era capaz de ler a linguagem corporal bastante bem e com freqncia respondia como se soubesse o que as pessoas estavam dizendo, 
de modo que Billie levara meses para descobrir que ele no entendia uma nica palavra.
      Em um canto, Marlene, uma alcolatra, flertava com um jovem enfermeiro. Ela passava dos cinqenta anos de idade, mas no conseguia lembrar de coisa alguma 
que acontecera desde os seus dezenove. Pensava que ainda era jovem e se recusava a crer que o velho que a amava e cuidava dela fosse seu marido.
      Atravs da parede de vidro de uma sala de entrevistas, ela viu Ronald, um brilhante arquiteto que sofrera ferimentos na cabea em um acidente de automvel. 
Estava fazendo testes no papel. Seu problema era ter perdido a capacidade de lidar com nmeros. Contava nos dedos com dolorosa lentido, tentando somar trs e quatro.
      Muitos pacientes sofriam de diferentes formas de esquizofrenia, uma incapacidade de relacionamento com o mundo real. 
      Alguns pacientes podiam ser ajudados, por drogas, tratamento com choques eltricos ou ambos, mas o trabalho de Billie era traar o contorno exato de suas incapacidades. 
Estudando as deficincias mentais menores, ela estava delineando as funes da mente normal. Ronald, o arquiteto, podia ver um grupo de objetos em uma bandeja e 
dizer se havia trs ou quatro, mas se fossem doze e ele tivesse que cont-los, levaria longo tempo e podia se enganar. Isto sugeria a Billie que a capacidade de 
avaliar num relance quantos itens existem em um pequeno grupo  uma capacidade  parte da capacidade de contar.
      Desse modo, ela ia lentamente mapeando as profundezas da mente, localizando a memria aqui, a linguagem ali, a matemtica em alguma outra parte. E se a incapacidade 
fosse relacionada com uma pequena leso cerebral, Billie podia especular que a capacidade normal estivesse localizada na parte do crebro que no fora atingida. 
Um dia, seu quadro conceitual das funes cerebrais seria mapeado em um diagrama fsico do crebro humano.
      No atual ritmo do seu progresso, isso tomaria cerca de duzentos anos. No entanto, estava trabalhando sozinha. Com uma equipe de psiclogos, seu progresso seria 
muito mais rpido. Poderia ver o mapa pronto ainda em dias de sua vida. O que era sua ambio.
      Percorrera um longo trajeto desde a depresso suicida do pai. No havia curas rpidas para a doena mental. Mas a mente ainda era, em grande parte, um mistrio 
para os cientistas. E seria muito mais bem compreendida se Billie pudesse acelerar seu trabalho. Ento, talvez, pessoas como seu pai pudessem ser ajudadas.
      Subiu a escada para o andar de cima, pensando no paciente misterioso. Joseph Bellow soava como Joe Blow, o tipo do nome que algum podia ter inventado. E por 
que teria sido liberado no meio da noite?
      Chegou  sua sala e, pela janela, contemplou a nova ala que estava sendo adicionada ao hospital. Com essa ala, ia ser criada uma nova funo, a diretoria de 
Pesquisas. Billie candidatara-se ao cargo. Mas um dos seus colegas tambm o fizera, o dr. Leonard Ross. Len era mais velho do que Billie, mas Billie tinha mais experincia 
e publicara mais artigos e um livro, Uma introduo  psicologia da memria. Tinha certeza de que podia vencer Len, mas no sabia quem mais poderia estar competindo. 
E queria muito aquele cargo. Como diretora de pesquisa, teria outros cientistas trabalhando sob suas ordens.
      No prdio em construo notou, entre os operrios, um pequeno grupo de homens trajando roupas de homens de negcios  sobretudos de l e chapus de feltro 
no lugar de macaces e capacetes. Pareciam estar interessados em uma visita  obra.
      Dirigiu-se  sua secretria.
       Quem so aqueles sujeitos comboiados na obra por Leonard Ross?
       So da Fundao Sowerby.
      Billie franziu a testa, preocupada. A Fundao Sowerby estava financiando o novo posto de direo. Teria muita influncia na escolha do prximo diretor. E 
l estava Len bancando o bonzinho para eles.
       Ns sabamos que eles vinham hoje?
       Len disse que lhe enviou um bilhete. Passou aqui hoje cedo para peg-la, mas voc no estava.
      No tinha havido bilhete algum, Billie tinha certeza. Len no a avisara, deliberadamente. E ela se atrasara.
       Droga  disse Billie, sentida. Apressou-se para se juntar ao grupo no local da construo.
      No pensou de novo em Joseph Bellow seno dentro de diversas horas.

11:00

Por causa da pressa com que o mssil foi montado, seus estgios superiores usavam um motor de foguete que vinha sendo produzido havia alguns anos, em vez de um projeto 
novo. Os cientistas escolheram uma verso pequena do mais que testado foguete Sergeant. Os estgios superiores do mssil eram acionados por conjuntos desses pequenos 
foguetes, conhecidos como Baby Sergeants. 
Enquanto avanava pelas escadas que davam na Union Station, Luke verificou que checava, a cada um ou dois minutos, se estava sendo seguido. 
      Livrara-se de seus seguidores havia mais de uma hora, mas a esta altura podiam estar procurando por ele. S de pensar nisso sentiu-se temeroso e desnorteado. 
Quem eram aquelas pessoas e o que estariam fazendo? Seus instintos lhe diziam que eram do mal. No fosse por isso, por que vigi-lo secretamente?
      Sacudiu a cabea para ver se clareava os pensamentos. Especular sem base era algo muito frustrante. No havia como adivinhar. Precisava descobrir.
      Primeiro tinha que se limpar. Seu plano era furtar uma mala de um trem de passageiros. Tinha certeza de que j fizera isso antes, em alguma poca de sua vida. 
Quando tentou se lembrar, vieram-lhe  memria palavras francesas: La valise dun type qui descend du train.
      No seria fcil. Suas roupas sujas e esfarrapadas se destacariam em uma multido de viajantes respeitveis. Teria que se deslocar depressa para conseguir. 
No tinha alternativa. Dee-Dee, a puta, estava com a razo. Ningum daria ateno a um vagabundo.
      Se fosse preso, a polcia jamais acreditaria que ele fosse outra coisa que no um vagabundo. Terminaria na cadeia  idia que o fez tremer de medo. No era 
a priso em si que o assustava. A questo maior era a perspectiva de semanas ou meses de ignorncia e confuso, sem saber quem era e incapaz de fazer qualquer progresso 
na descoberta de sua identidade.
       sua frente, na Massachusetts Avenue, viu a arcada de granito branco da Union Station, como uma catedral do tempo dos romanos transplantada da Normandia. 
Antecipando os acontecimentos, imaginou que depois do furto teria que desaparecer depressa. Precisava de um carro. O que fazer para furtar um carro veio-lhe imediatamente 
 cabea.
      Perto da estao, a rua estava cheia de carros estacionados. A maioria pertencia a pessoas que tinham tomado um trem. Retardou o passo quando um carro entrou 
em uma vaga mais adiante. Era um Ford Fairlane de duas cores, branca e azul, novo, mas no ostentoso. Serviria muito bem. A partida do motor teria que ser dada com 
uma chave e no com um cabo, mas seria fcil puxar uns fios de trs do painel e fazer uma ligao direta.
      Como saberia disso?
      Um homem de sobretudo escuro saltou do Ford, pegou a bagagem na mala do carro, trancou as portas e dirigiu-se para a estao.
      Por quanto tempo ficaria fora? Podia ser que tivesse algum negcio para resolver na estao e voltasse em poucos minutos. Participaria o roubo do carro e, 
se o estivesse dirigindo, Luke correria o perigo de ser preso a qualquer minuto. O que no era nada bom. Tinha que descobrir aonde o homem estava indo.
      Seguiu-o. Entrou na estao.
      O enorme interior, que de manh cedo lhe parecera um templo em desuso, agora estava tumultuado. Luke sentiu-se conspcuo. Todas as outras pessoas pareciam 
limpssimas e bem vestidas. A maioria das pessoas evitava seus olhos, mas havia quem o fitasse com nojo ou desprezo. Ocorreu-lhe a possibilidade de esbarrar no homem 
que o pusera para fora pela manh. Ento haveria uma confuso. O sujeito ia se lembrar, claro.
      O proprietrio do Fairlane entrou em uma fila e Luke fez o mesmo. Olhando para o cho, sem encarar ningum, esperando no chamar ateno.
      A fila andou e seu alvo chegou no guich.
       Filadlfia, uma ida-e-volta para hoje.
      Foi o suficiente para Luke. Filadlfia ficava a algumas horas de distncia. O homem estaria fora da cidade o dia inteiro. O furto do carro s seria participado 
depois que voltasse. Luke estaria a salvo at a noite.
      Abandonou a fila e saiu apressadamente.
      Foi um alvio ver-se do lado de fora. At mesmo os vagabundos tm direito de andar pelas ruas. Retornou  Massachusetts Avenue e encontrou o Ford estacionado. 
Para economizar tempo depois, resolveu destranc-lo. Olhou para os dois lados da rua. Carros e pedestres no paravam de passar. O problema era que parecia um criminoso. 
Mas se esperasse at que no houvesse ningum por perto, podia ficar ali o dia inteiro. Tinha apenas que ser muito rpido.
      Desceu para a rua, contornou o carro e parou ao lado da porta do motorista. Apertando a palma da mo no vidro, fez fora para baixo. Nada aconteceu. Sentiu 
a boca seca. Olhou rapidamente para o lado contrrio: ningum estava prestando ateno  ainda. Ficou na ponta dos ps, para acrescentar o peso do corpo  presso 
sobre o mecanismo do vidro da janela. Felizmente ele cedeu e comeou a baixar lentamente.
      Quando o vidro estava totalmente aberto, Luke enfiou a mo no interior do carro e destrancou a porta. Abriu-a, subiu o vidro e fechou-a de novo Agora sim, 
estava pronto para uma fuga rpida.
      Pensou em dar a partida agora e deixar o motor funcionando, mas podia chamar a ateno de um patrulheiro que passasse ou mesmo de um transeunte curioso.
      Voltou para a estao. Preocupava-se constantemente com a possibilidade de um empregado reparar nele. No precisava ser o mesmo homem que o pusera para fora 
algumas horas antes  qualquer funcionrio zeloso podia perfeitamente fazer questo de expuls-lo, como a coisa mais normal do mundo. Fez tudo o que pde para tornar-se 
inconspcuo. Caminhou nem depressa nem devagar, tentou conservar-se colado s paredes sempre que pde. Tomou cuidado para no cruzar o caminho de ningum e em nenhum 
momento encarou algum diretamente nos olhos.
      A melhor ocasio para furtar uma mala devia ser imediatamente aps a chegada de um trem grande e cheio de gente, quando o ptio ficava cheio de gente apressada. 
Estudou o quadro de informaes. Devia chegar um trem expresso de Nova York em doze minutos. Perfeito.
      Enquanto estudava o quadro, verificando os trens esperados, seus cabelos da nuca se arrepiaram. Devia ter visto algo com o canto do olho que disparara uma 
advertncia instintiva. O qu? Seu corao bateu mais depressa. Do que tinha medo?
      Tentando no chamar a ateno, afastou-se do quadro de avisos e parou junto da banca, examinando os jornais dirios. Deteve-se nas manchetes:
FOGUETE DO EXRCITO PRESTES A SER LANADO
PRESO ASSASSINO DE DEZ
DULLES TRANQILIZA GRUPO DE BAGD
LTIMA CHANCE EM CABO CANAVERAL
      Depois de um momento, olhou por cima do ombro. Umas vinte e tantas pessoas atravessavam a plataforma indo ou vindo dos trens suburbanos. Um nmero maior sentava-se 
nos bancos de mogno ou permanecia pacientemente de p, parentes e motoristas esperando passageiros do trem de Nova York. Um matre, do lado de fora da porta do restaurante, 
esperava pelos primeiros fregueses do almoo. Havia cinco carregadores em um grupo, fumando...
      E dois agentes.
      Tinha certeza absoluta de que eram agentes. Ambos eram jovens, elegantemente vestidos com sobretudo e chapu, os sapatos sociais bem engraxados. Mas no era 
tanto pela aparncia e sim pela atitude que se podia ver que eram agentes. Eram atentos, varriam com os olhos a plataforma da estao, estudavam os rostos das pessoas 
que passavam, olhavam para toda a parte... exceto para o quadro de avisos. A nica coisa em que no estavam interessados era em viajar.
      Sentiu-se tentado a falar com eles. E s de pensar nisso, viu-se esmagado pela necessidade de um simples contato humano com gente que o conhecesse. Ansiava 
por ouvir algum dizendo, Oi, Luke, como vai? Que bom ver voc de novo!
      Aqueles dois provavelmente diriam: Ns somos agentes do FBI e voc est preso. Luke achou que seria quase um alvio. Mas seus instintos o alertaram para 
que no tentasse. Cada vez que pensava em confiar neles, perguntava a si prprio por que o seguiriam disfaradamente se no tencionavam lhe fazer mal.
      Deu-lhes as costas e saiu andando, tentando conservar a banca de jornais entre eles.  sombra de uma grande passagem em arco, arriscou um olhar para trs. 
Os dois homens estavam cruzando a plataforma aberta, caminhando de leste para oeste, no sentido transversal ao seu campo de viso.
      Que diabo seriam?
      Saiu da estao, caminhou uns poucos metros ao longo da grande galeria da frente e entrou de novo no saguo principal. Ainda teve tempo de ver as costas dos 
dois agentes se dirigindo para a sada oeste.
      Checou o relgio. Dez minutos tinham se passado. O expresso de Nova York deveria chegar em dois minutos. Adiantou-se apressadamente at o porto e aguardou, 
tentando dissolver-se no fundo da paisagem.
      Quando os primeiros passageiros saltaram, uma calma glacial se apossou dele. Observou atentamente quem chegava. Era uma quarta-feira, meio da semana, de modo 
que havia muitos homens de negcios e militares uniformizados mas poucos turistas e apenas um nmero insignificante de mulheres e crianas. Procurou um homem do 
seu tamanho e peso.
      Quando os passageiros passaram pelo porto, as pessoas que os esperavam se adiantaram e formou-se um engarrafamento. A multido em torno do porto adensou-se, 
e depois se espalhou, com as pessoas se empurrando, irritadas. Luke viu um rapaz do seu tamanho, mas estava usando um casaco esporte e gorro de l, desses que podem 
cobrir as orelhas: podia no ter um terno extra na mochila. Da mesma forma, Luke deixou passar um senhor de idade que tinha a altura certa mas que era magro demais. 
Viu um homem que parecia perfeito, mas s carregava uma mala.
      A esta altura uns cem passageiros j tinham sado, mas parecia haver muito mais ainda. A plataforma encheu-se de gente impaciente. Ento ele viu o homem certo. 
Da altura de Luke, mesmo peso e mesma idade. O sobretudo cinza desabotoado deixava ver um casaco esporte de tweed e calas de flanela  o que significava que provavelmente 
tinha um terno social na mala de couro marrom que carregava na mo direita. Havia uma expresso de ansiedade no rosto e ele andava depressa, como se estivesse atrasado 
para um compromisso.
      Luke meteu-se dentro da multido e abriu caminho at colocar-se diretamente atrs do homem.
      A multido era densa e lenta, e o alvo de Luke movia-se com paradas e recomeos nervosos. Depois a multido rarefez-se um pouco e o homem adiantou-se rapidamente 
at um vazio.
      Foi quando Luke deu uma rasteira nele. Meteu o p firmemente em torno do tornozelo  sua frente. Quando o homem adiantou-se, ele deu um chute para cima, dobrando 
a perna do alvo na altura do joelho.
      O homem gritou e caiu para a frente. Soltou tanto a valise quanto a mala e estendeu as duas mos. Caiu nas costas de uma mulher de casaco de pele que tambm 
tropeou, dando um gritinho e caiu. O homem bateu no piso de mrmore com um baque audvel, o chapu rolando para longe. Um segundo depois a mulher desabou em cima 
dos dois joelhos, largando a bolsa e uma mala chique de couro branco.
      Outros passageiros logo se reuniram em torno, tentando ajudar e perguntando se os acidentados estavam bem.
      Luke pegou com calma a mala de couro marrom-clara e afastou-se rapidamente, dirigindo-se para o arco de sada mais prximo. No olhou para trs, mas ficou 
atento para ouvir gritos de acusaes ou os sons tpicos de uma perseguio. Se ouvisse alguma coisa, estava pronto para sair correndo: no ia desistir com facilidade 
de suas roupas limpas e sentia que era capaz de correr mais depressa que a maioria das outras pessoas, mesmo carregando uma mala. Mas sentiu como se tivesse um alvo 
desenhado nas costas ao se encaminhar em passos bruscos da porta.
      J na sada, olhou por cima do ombro. A multido se aglomerava em torno do mesmo ponto. No podia ver o homem a quem derrubara, e tampouco a mulher de casaco 
de pele. Mas um outro homem  alto e com ar autoritrio  examinava ciosamente a plataforma, como se procurasse algum. A cabea dele girou subitamente na direo 
de Luke.
      Luke saiu rapidamente porta afora.
      Do lado de fora, encaminhou-se para a avenida Massachusetts, e um minuto mais tarde chegava no local onde estava o Ford Fairlane. Foi automaticamente para 
a parte de trs  mas a mala do carro estava trancada. Lembrou de ter visto o proprietrio trancando-a. Virou-se de novo para a estao. L estava o homem alto atravessando 
correndo a praa circular em frente da estao, desviando-se de carros, vindo na direo de Luke. Quem seria? Um policial de folga? Um detetive? Um bisbilhoteiro 
qualquer?
      Luke deu rapidamente a volta em torno do carro at a porta do motorista, abriu-a e jogou a mala no banco de trs. Entrou e bateu a porta.
      Enfiou a mo atrs do painel e encontrou os fios de ambos os lados da ignio. Puxou-os e fez o contato. Nada aconteceu. Sentiu a testa coberta de suor, apesar 
do frio. Por que no estava funcionando? A resposta veio logo: fios errados. Enfiou a mo atrs do painel outra vez. Havia outro fio  direita da ignio. Puxou-o 
e encostou no fio da esquerda.
      O motor deu a partida.
      Apertou o acelerador e o motor roncou.
      Colocou a alavanca de mudana em drive, soltou o freio de mo, acionou a seta e saiu. O carro estava de frente para a estao, de modo que ele fez uma curva 
de cento e oitenta graus e saiu.
      Um sorriso iluminou-lhe o rosto. A menos que tivesse muito azar, tinha um completo jogo de roupas limpas na mala. Sentiu que comeava a assumir o controle 
de sua vida.
      Agora precisava de um lugar para tomar banho e mudar de roupa.

Meio-dia

O segundo estgio consiste em onze foguetes Baby Sergeant montados em um anel que fica em torno de um tubo central. O terceiro estgio tem trs motores Baby Sergeant 
mantidos juntos por trs anteparos transversais. No topo do terceiro estgio fica o quarto, um foguete nico com o satlite no nariz.
A contagem regressiva parou em X menos 630 minutos e Cabo Canaveral ficou alvoroado.
      Os homens que trabalham com foguetes so todos iguais: projetam armas, se  isso o que o governo quer, mas sonham mesmo  com o espao csmico.
      A equipe do Explorer tinha construdo e lanado muitos msseis, mas este seria o primeiro a se livrar da fora de gravidade terrestre e voar para alm da atmosfera. 
Para a maior parte da equipe, o lanamento daquela noite representaria a concretizao das esperanas de uma vida. Elspeth sentia-se do mesmo modo.
      A base deles era no Hangar D e no Hangar R, que ficavam lado a lado. O projeto padro de hangar para aeronaves fora considerado bem adequado a msseis: havia 
um grande espao central onde era possvel trabalhar com os foguetes, com acomodaes de dois andares de cada lado para a equipe e os laboratrios de menor porte.
      Elspeth trabalhava no Hangar R. Tinha uma mquina de escrever e uma mesa na sala do seu chefe, Willy Frederickson, o coordenador do lanamento, que passava 
quase que o tempo todo em outro lugar. O trabalho dela era preparar e distribuir o horrio do lanamento.
      O problema era que esse horrio mudava constantemente. Ningum, nos Estados Unidos, mandara um foguete ao espao antes. Novos problemas surgiam o tempo todo 
e os engenheiros viviam improvisando meios e modos para julgar um componente ou substituir um sistema. Ali, fita gomada comum era chamada de fita de mssil.
      Assim, Elspeth produzia com regularidade atualizaes do cronograma. Tinha que permanecer em ligao com cada grupo da equipe, registrar as mudanas de planos 
em seu bloco de estenografia, depois transferir as anotaes para folhas datilografadas e xerocadas e finalmente distribu-las. Seu trabalho impunha que fosse a 
todos os lugares e conhecesse quase tudo. Quando havia uma dificuldade, era informada quase que imediatamente e tambm estava entre as primeiras pessoas a saber 
da soluo. Seu ttulo era de secretria e o salrio que recebia era o de uma secretria. Mas ningum poderia realizar aquele trabalho sem ser graduada em cincia. 
No se ressentia, contudo, do baixo salrio. Gostava de ter um emprego que a desafiava. Alguns de seus colegas de classe de Radcliffe ainda estavam tomando ditado 
de homens que vestiam ternos cinzentos de flanela.
      A atualizao do meio-dia estava pronta e ela pegou a pilha de papis e saiu a distribuir. Tinha que andar depressa, mas isto lhe convinha naquele dia: a impedia 
de preocupar-se constantemente com Luke. Caso seguisse sua inclinao estaria no telefone com Anthony a cada cinco minutos, perguntando se no haveria alguma notcia. 
O que seria uma idiotice. Ele entraria em contato com ela se algo sasse errado, disse a si prpria. At l, tinha que se concentrar no seu trabalho.
      Foi primeiro ao departamento de imprensa, onde os relaes pblicas trabalhavam nos telefones, contando aos reprteres de confiana que haveria um lanamento 
naquela noite. O Exrcito contava com a presena de jornalistas para testemunhar seu triunfo. A informao, contudo, no poderia ser liberada seno depois do evento. 
Lanamentos programados eram freqentemente adiados, ou mesmo cancelados, quando surgiam imprevistos. O pessoal que trabalhava com msseis tinha aprendido, graas 
 sua amarga experincia, que um adiamento de rotina para resolver um problema tcnico pode parecer uma falha abjeta quando os jornais publicam a notcia. Assim, 
tinham um trato com as maiores organizaes da imprensa. Avisavam previamente os lanamentos com a condio de que nada fosse publicado enquanto no houvesse fogo 
na cauda. Ou seja, quando o motor do foguete fosse acionado.
      Era um escritrio onde s trabalhavam homens, e diversos deles a encararam fixamente quando entrou e entregou uma folha com o cronograma novo para o chefe 
do escritrio. Elspeth sabia que era atraente, alta, com seu visual viquingue muito claro e um corpo de esttua, mas havia nela algo que inspirava medo  o jeito 
determinado da boca, talvez, ou o brilho perigoso dos olhos verdes  que fazia os homens inclinados a assobiarem, ou a cham-la de queridinha, pensar duas vezes.
      No Laboratrio de Disparo de Msseis encontrou cinco cientistas de camisas de mangas curtas de p diante de uma bancada, olhando com preocupao um pedao 
de metal que parecia ter pegado fogo. O lder do grupo, dr. Keller, cumprimentou-a, Boa tarde, Elspeth em um ingls com forte sotaque alemo. Como a maioria dos 
cientistas, era um alemo capturado no fim da guerra e levado aos Estados Unidos para trabalhar no programa de msseis.
      Passou-lhe uma cpia da atualizao, que ele pegou sem ver do que se tratava. Elspeth indicou o objeto em cima da bancada e disse:
       Que  isso a?
       Uma palheta da turbina.
      Elspeth sabia que o primeiro estgio era guiado por palhetas instaladas no interior da cauda.
       O que foi que aconteceu com ela?
       O combustvel em chamas erode o metal  explicou ele. Seu sotaque alemo acentuou-se mais  medida que se entusiasmou com o assunto.
       Isto sempre acontece, de alguma forma. No entanto, com o lcool que usamos normalmente como combustvel, as palhetas duram o bastante para cumprir sua tarefa. 
Hoje estamos usando um novo combustvel, chamado Hydyne, que leva mais tempo queimando e tem maior velocidade de exausto, mas que pode erodir as palhetas a um ponto 
tal que elas se tornam ineficientes para dirigir o mssil.
      Ele levantou as mos afastadas num gesto de exasperao.
       No tivemos tempo suficiente para realizar muitos testes.
       Acho que tudo o que preciso saber  se isso vai adiar o lanamento.
      Elspeth achava que no conseguiria mais suportar um novo adiamento. O suspense a estava matando.
        justamente isto que estamos tentando decidir  Keller olhou em torno para os seus colegas.  E acho que a nossa resposta ser: vamos correr o risco.
      Os outros aquiesceram melancolicamente e Elspeth sentiu-se aliviada.
       Vou ficar com os dedos cruzados  disse ela, virando-se para ir embora.
       O que ser to til quanto qualquer coisa que possamos fazer  disse Keller, e os demais riram melancolicamente.
      Ela saiu para o trrido sol da Flrida. Os hangares ficavam em uma clareira arenosa aberta nos arbustos que cobriam o Cabo  palmeiras pequenas, carvalhos 
mirrados e o agressivo carrapicho, que machuca o p de quem anda descalo em cima dele. Cruzou uma rea cimentada e entrou no Hangar D, onde a sombra bem-vinda caa 
em cima do seu rosto com o toque de uma brisa fria.
      Na sala de telemetria viu Hans Mueller, conhecido como Hank. Ele apontou-lhe um dedo e disse:
       Cento e trinta e cinco.
      Era uma brincadeira usual entre eles. Elspeth tinha que dizer o que havia de diferente no nmero que ele escolhesse.
       Muito fcil  disse ela.  Pegue o primeiro dgito, adicione o quadrado do segundo e some o cubo do terceiro e ter o nmero em que pensou.
      Ela lhe deu a equao:
11 + 32 + 53 = 135
       Est certo  disse ele.  Qual  ento o prximo nmero, de valor maior, que segue o mesmo padro?
      Ela pensou, esforou-se bastante e disse:
       Cento e setenta e cinco.
11 + 72 + 53 = 175
       Correto! Voc ganhou o grande prmio!
      Ele meteu a mo no bolso e puxou uma moeda de dez centavos.
      Elspeth pegou a moeda.
       Agora vou lhe dar uma chance de recuperar seu dinheiro. Cento e trinta e seis.
       Ah  ele franziu a testa.  Espera a. Some o cubo dos dgitos.
13 + 33 + 63 = 244
       Agora repita o processo e voc tem o nmero em que pensou em primeiro lugar!
23 + 43 + 43 =136
      Elspeth devolveu a moeda de dez centavos e lhe deu uma cpia da atualizao do cronograma.
      Quando ia saindo, seu olhar foi atrado por um telegrama preso na parede: J TIVE MEU PEQUENINO SATLITE, AGORA  A SUA VEZ.
        da mulher de Stuhlinger  disse Hank.  Teve um menino.
      Elspeth sorriu.
      Encontrou Willy Frederickson na sala de comunicaes com dois tcnicos do Exrcito, testando a linha do teletipo para o Pentgono. Seu chefe era um homem alto 
e magro, calvo, com uma franja de cabelo ondulado em torno da cabea, como um monge medieval. O teletipo no funcionava e Willy estava frustrado, mas quando pegou 
a atualizao e leu, dirigiu a ela um olhar agradecido e disse:
       Elspeth, voc  ouro de vinte e dois quilates.
      No momento seguinte, duas pessoas se aproximaram de Willy: um jovem oficial do Exrcito carregando um mapa, e Stimmens, um dos cientistas. Foi o oficial que 
falou.
       Temos um problema  disse, entregando o mapa a Willy antes de prosseguir.  O jet stream desviou-se para o sul e est soprando a cento e quarenta e seis 
ns.
      Elspeth sentiu o corao confranger-se. Jet stream era um vento de altitude elevada na estratosfera, entre trinta e quarenta mil ps. Ou seja, entre nove e 
doze mil metros. Normalmente no se estendia at Cabo Canaveral, mas podia se deslocar. E, se fosse muito forte, podia tirar o mssil da rota.
       Quanto ao sul est?  quis saber Willy.
       Est em toda a Flrida  respondeu o oficial. 
      Willy virou-se para Stimmens.
       Ns levamos isto em considerao, no levamos?
       Na verdade, no  respondeu Stimmens.   tudo hiptese, claro, mas imaginamos que o mssil possa agentar ventos at cento e vinte ns, no mais.
      Willy virou-se para o oficial.
       Qual  a previso para esta noite?
       At cento e setenta ns, e no h nem sinal do jet stream estar se deslocando para o norte.
       Que diabo!
      Willy passou a mo na cabea. Elspeth sabia no que estava pensando. O lanamento podia ter que ser adiado at o dia seguinte.
       Providencie um balo atmosfrico, por favor  ordenou.  Vamos rever a previso amanh s cinco horas. 
      Elspeth tomou nota para acrescentar a nova previso atmosfrica no seu cronograma e foi embora, sentindo-se deprimida. Podiam resolver problemas de engenharia, 
mas no havia nada que pudessem fazer quanto ao tempo.
      Outra vez do lado de fora, pegou um jipe e foi at o Complexo de Lanamento 26. O caminho era uma estrada de terra aberta no meio do mato ralo, e o jipe sacudia 
ao passar nos sulcos. Assustou um cervo de cauda branca que bebia gua em uma vala, fazendo com que ele sasse correndo e se metesse entre os arbustos. Havia muitos 
animais selvagens no Cabo, e havia quem dissesse que isso inclua jacars e panteras da Flrida, mas Elspeth nunca vira nem uns nem outros.
      Encostou o jipe e deu uma olhada na plataforma de lanamento 26B, a trezentos metros de distncia. A armao de sustentao do foguete era uma torre de petrleo, 
adaptada para aquela finalidade e pintada com uma tinta resistente  ferrugem a fim de evitar a corroso do ar mido e salgado da Flrida. O elevador que dava acesso 
 plataforma ficava de um lado. Todo o edifcio era brutalmente prtico, sem a menor graciosidade, segundo Elspeth: uma estrutura funcional montada sem a menor preocupao 
com a aparncia que teria.
      O comprido corpo branco do Jupiter C, em forma de lpis, parecia preso em uma confuso de vigas cor de laranja, como uma liblula em uma teia de aranha. Os 
homens chamavam o foguete de ela, a despeito de sua forma flica, e Elspeth tambm pensava no foguete como uma mulher. Um vu de noiva de cobertas de lona tinha 
escondido os estgios de nvel superior de olhos curiosos desde que o Jupiter ali chegara, mas agora o vu fora removido, revelando o mssil com o sol se refletindo 
na pintura impecvel.
      Embora no fossem muito polticos, at mesmo os cientistas sabiam que os olhos do mundo estavam voltados para eles. Quatro meses antes a Unio Sovitica assombrara 
o mundo lanando o primeiro satlite artificial, o Sputnik. Em todos os pases onde o cabo-de-guerra entre o capitalismo e o comunismo ainda estava sendo disputado, 
da Itlia  ndia, passando pela Amrica Latina, frica e Indochina, a mensagem foi ouvida: a cincia comunista era melhor. Um ms depois os soviticos tinham lanado 
um segundo satlite, o Sputnik II, com um cachorro a bordo. Os americanos ficaram arrasados. Hoje um cachorro, amanh um homem.
      O presidente Eisenhower prometeu um satlite americano antes do fim do ano. No primeiro dia de dezembro, quinze minutos antes do meio-dia, a Marinha do Estados 
Unidos disparou o foguete Vanguard diante da imprensa mundial. Ele ergueu-se alguns metros no ar, pegou fogo, virou de lado e esmigalhou-se no concreto.  UM FRACASSONIK! 
 anunciou uma das manchetes.
      O Jupiter C era a ltima esperana. No havia terceira opo. Se falhasse hoje, os Estados Unidos estariam fora da corrida espacial. A derrota no campo da 
propaganda era a menor das conseqncias. O programa espacial americano ficaria totalmente desordenado, e a URSS controlaria o espao csmico.
      Tudo isso, pensou Elspeth, dependia daquele foguete.
      Era proibida a entrada de veculos na rea de lanamento, exceto para os essenciais como os caminhes de combustvel, de modo que ela deixou o carro e atravessou 
a p o espao entre o prdio e a armao que sustentava o foguete, seguindo a linha de um conduto de metal por onde passavam os cabos que conectavam as duas locaes. 
Presa  parte de trs da torre, no nvel do solo, havia uma cabine de ao comprida, pintada na mesma cor de laranja, na qual funcionavam escritrios e maquinaria. 
Elspeth entrou por uma porta de metal.
      Harry Lane, o supervisor, sentado numa cadeira de dobrar, com botas de engenheiro e capacete, estudava um projeto.
       Ol, Harry  cumprimentou ela, alegremente.
      A resposta foi um grunhido. Ele no gostava de ver mulheres na rea de lanamento, e nenhum senso de cortesia iria impedi-lo de deixar que Elspeth soubesse 
disso.
      Ela deixou uma atualizao em cima de uma mesa metlica e foi embora. Retornou para o prdio prximo da rea de lanamento, uma estrutura feita de concreto 
fortemente reforado e que servia para abrigar e proteger o pessoal, controles eletrnicos e instrumentos auxiliares antes e durante as operaes de lanamento. 
Essa espcie de prdio auxiliar era baixo, pintado de branco e tinha vigias protegidas por grossos vidros verdes. As portas estavam abertas e ela foi entrando. Havia 
trs compartimentos: uma sala de instrumentao, com a mesma largura do prdio, e duas salas de disparo, A esquerda e B direita, dispostas obliquamente em 
relao s duas plataformas de lanamento de foguetes servidas por aquele prdio auxiliar. Elspeth entrou na Sala de Disparo B.
      A forte luz do sol passava pelo vidro verde, tornando tudo parecido com o interior de um aqurio. Sentados diante da bancada de painis de controle em frente 
das janelas, cientistas trabalhavam  todos trajando camisas de manga curta, como se fosse um uniforme. Tinham fones que lhes permitiam falar com os homens na plataforma 
de lanamento. Podiam olhar por cima dos painis e ver o foguete pelas vigias, ou, se preferissem, usar as telas de televiso em cores, que mostravam o mesmo quadro. 
Ao longo da parede dos fundos da sala tinha sido montada uma bateria de gravadores dotados de registro grfico, um ao lado do outro, acompanhando temperaturas, presses 
no sistema de combustvel e atividade eltrica. No canto mais afastado havia uma balana mostrando o peso do mssil em cima da plataforma. Havia um ar de serena 
urgncia no ambiente com os homens murmurando nos seus fones de cabea e mexiam em seus painis, girando um boto aqui, acionando um interruptor ali, checando constantemente 
os mostradores e contadores. No alto, acima de suas cabeas, um relgio com a contagem regressiva mostrava quantos minutos faltavam para a ignio. No momento em 
que Elspeth olhou, o ponteiro passou de 600 para 599.
      Entregou a atualizao e saiu. Dirigindo de volta ao hangar, sua mente voltou-se para Luke, e ela convenceu-se de que tinha a desculpa perfeita para ligar 
para Anthony. Primeiro lhe falava sobre o tal vento forte, o jet stream, e depois perguntava a respeito de Luke.
      A deciso animou-a e foi apressadamente que ela entrou no hangar e subiu a escada para sua sala. Ligou para o nmero direto de Anthony e ele atendeu de primeira.
       O lanamento deve ser adiado at amanh  disse a ele.  H ventos fortes na estratosfera.
       Eu no sabia que h ventos na estratosfera.
       H um, chamado de jet stream. O adiamento no  definitivo, vai haver uma reunio do pessoal do tempo s cinco horas. Como est Luke?
       Bem, temos um problema.
      O corao dela falhou uma batida.
       Que tipo de problema?
       Ns o perdemos. 
      Elspeth gelou. 
       O qu?
       Ele escapou dos meus homens.
       Jesus, nos ajude  disse ela.  Agora estamos encrencados.
               
1941
Luke chegou em Boston de madrugada. Estacionou o velho Ford, esgueirou-se pela porta dos fundos da Cambridge House e galgou a escada de servio para o seu quarto. 
Anthony dormia profundamente. Luke lavou o rosto e caiu na cama com a roupa de baixo.
      A prxima coisa de que tomou conhecimento foi Anthony sacudindo-o e gritando:
       Luke! Acorde!
      Abriu os olhos. Sabia que algo ruim tinha acontecido, mas no conseguiu se lembrar do que era.
       Que horas so?  resmungou.
       Uma hora, e Elspeth est esperando voc l embaixo.
      A meno do nome de Elspeth acionou sua memria e ele lembrou qual era a calamidade. No mais a amava. 
       Oh, meu Deus  murmurou.
        melhor descer e falar com ela.
      Ele tinha se apaixonado por Billie Josephson. O que era terrvel. Transformaria em um verdadeiro desastre de trem a vida deles todos: a sua prpria, a de Elspeth, 
de Billie e de Anthony.
       Droga  disse, levantando-se.
      Tirou a roupa de baixo e meteu-se no chuveiro frio. Quando fechava os olhos via Billie, seus olhos escuros cintilando, a boca vermelha rindo, o pescoo branco. 
Vestiu uma cala de flanela, um suter, um tnis e, atordoado, desceu a escada.
      Elspeth esperava no saguo, a nica parte do prdio onde era autorizada a presena de garotas, exceto nas Vesperais das Moas especialmente marcadas. Era um 
salo espaoso com uma lareira e poltronas confortveis. Ela estava to atraente como sempre, de vestido de l cor de jacintos azuis e um grande chapu. Ainda ontem 
a viso dela teria alegrado o seu corao; hoje, saber que ela se vestira caprichadamente para ele o fazia sentir-se ainda mais desprezvel.
      Ela riu ao v-lo.
       Voc parece um garotinho que no conseguiu acordar! 
      Ele beijou-lhe o rosto e arriou numa poltrona.
       Levou horas a viagem a Newport.
        evidente que esqueceu que devia me levar para almoar!  disse Elspeth alegremente.
      Luke fitou-a. Era linda, mas no a amava. No sabia se a tinha amado antes, mas com certeza no a amava agora. Era um patife da pior espcie. Elspeth lhe aparecia 
to alegre naquela manh e ainda assim ele ia arruinar sua felicidade. No sabia como lhe dizer. A vergonha que sentia era tanta que chegava a lhe doer no peito.
      Tinha que falar alguma coisa.
       Podemos esquecer o almoo? Ainda nem fiz a barba. 
      Uma sombra cruzou o rosto plido e orgulhoso de Elspeth e Luke viu que ela sabia perfeitamente bem que havia algo errado. A resposta que deu, contudo, foi 
despreocupada.
       Claro. At mesmo cavaleiros de armaduras reluzentes precisam dormir o sono beleza.
      Ele disse a si prprio que mais tarde, naquele mesmo dia, teria uma conversa sria com ela e que seria completamente sincero.
       Sinto muito que tenha se arrumado toda para nada  disse ele, sem graa.
       Nada, no  eu vi voc. E seus companheiros de casa parecem ter gostado da minha roupa.
      Ela se levantou.
       De qualquer modo, o professor e a sra. Durkham esto dando um arrasta-p.
      Arrasta-p era a gria local para festa.
      Luke levantou-se e ajudou-a a vestir o casaco.
       Podamos nos encontrar mais tarde  tinha que falar com ela ainda naquele dia, seria enganador deixar que se passasse mais tempo sem revelar a verdade.
       timo  disse ela, alegremente.  Pegue-me s seis. 
      Elspeth soprou-lhe um beijo e saiu andando como uma estrela do cinema. Luke sabia que estava representando, mas foi uma excelente interpretao.
      Ele regressou melancolicamente para seu quarto. Anthony lia o jornal de domingo.
       Fiz caf  disse ele.
       Obrigado  Luke serviu uma xcara.
       Eu lhe devo uma grande coisa  prosseguiu Anthony.  Voc salvou a pele de Billie ontem  noite.
       Voc teria feito o mesmo por mim  Luke tomou um gole de caf e comeou a se sentir melhor.  Parece que conseguimos nos safar. Algum lhe disse alguma coisa 
hoje de manh?
       Absolutamente nada.
       Billie  uma garota e tanto  disse Luke. Sabia que era perigoso falar a respeito dela, mas no pde se conter.
       Ela no  maravilhosa?
      Luke observou com pavor a expresso de orgulho no rosto do seu companheiro de quarto. Anthony prosseguiu:
       Eu vivia me perguntando por que motivo ela no haveria de querer sair comigo, mas sempre achava que no ia. No sei por que, talvez porque seja to elegante 
e bonita. Quando me disse que sim, no pude acreditar nos meus ouvidos. A vontade que me deu foi de pedir que respondesse por escrito.
      Declaraes extravagantes eram o modo de Anthony fazer graa e Luke forou um sorriso, mas secretamente ficou apavorado. Roubar a namorada de algum era desprezvel 
em qualquer circunstncia, mas o fato de Anthony estar obviamente louco por Billie piorava tudo ainda mais.
      Luke gemeu e Anthony perguntou:
       O que  que h?
      Luke decidiu dizer-lhe a metade da verdade.
       No estou mais apaixonado por Elspeth. Acho que vou ter que acabar com o namoro.
      Anthony pareceu chocado.
       Que pena! Vocs dois formam uma dupla e tanto.
       Eu me sinto como um imbecil.
       No se crucifique. Acontece. Vocs no eram casados  nem sequer noivos.
       Oficialmente no.
      Anthony levantou as sobrancelhas.
       Voc a pediu em casamento?
       No.
       Ento no so noivos, oficialmente ou no.
       Conversamos sobre quantos filhos teremos.
       Ainda assim no so noivos.
       Acho que voc est certo, mas de qualquer forma me sinto como um canalha.
      Houve uma batida na porta e um homem a quem Luke nunca tinha visto entrou.
       Sr. Lucas e sr. Carroll, imagino?
      Usava um terno surrado mas tinha um jeito arrogante, e Luke sups que devia ser um inspetor escolar. 
      Anthony ps-se de p num pulo.
       Somos ns sim  disse.  E voc deve ser o dr. Uterus, o famoso ginecologista. Graas a Deus que veio!
      Luke no riu. O homem estava carregando dois envelopes brancos e ele teve a impresso pessimista de saber o que eram.
       Sou secretrio do Reitor. Ele me pediu para lhes entregar estes documentos pessoalmente.
      O homem entregou um envelope para cada um e foi embora.
       Diabos!  disse Anthony quando a porta se fechou. Abriu o envelope, rasgando-o.  Que maldio!
      Luke tambm abriu o seu e leu o bilhete que vinha dentro.
Caro Sr. Lucas
       Por favor, tenha a gentileza de vir me ver em minha sala hoje, s trs horas da tarde.
       Seu, sinceramente
       Peter Ryder
       Reitor
      Cartas como aquelas sempre significavam problemas disciplinares. Algum havia contado ao reitor que uma garota estivera na Casa. Anthony provavelmente seria 
expulso.
      Luke nunca tinha visto o companheiro de quarto receoso  sua indiferena parecia inabalvel  mas agora estava plido com o choque.
       No posso ir para casa  murmurou.
      Anthony nunca falava muito a respeito dos seus pais, mas Luke tinha uma plida idia de um pai intimidador e de uma me que sofria havia muito tempo. Adivinhava 
agora que a realidade podia ser pior do que imaginara. Por um momento, a expresso de Anthony foi uma janela que se abria para um inferno privado.
      Houve ento uma batida  porta e entrou Geoff Pidgeon, o amvel e gorducho ocupante do quarto em frente.
       Ser que acabei mesmo de ver o secretrio do reitor? 
      Luke acenou com a carta.
       Acertou miseravelmente em cheio.
       Olha, no falei uma s palavra sobre ter visto vocs com aquela garota.
       Quem falou ento?  indagou Anthony.  O nico alcagete aqui na casa  o Jenkins.
      Paul Jenkins era um religioso fantico cuja nica misso na vida era reformar a moral dos homens de Harvard.
       S que ele foi passar o fim de semana fora.
       No, no foi  contestou Pidgeon.  Mudou de planos.
       Ento foi ele, maldito seja  concluiu Anthony.  Vou estrangular aquele filho da me com minhas prprias mos.
      Se Anthony fosse expulso, Luke percebeu repentinamente, Billie ficaria livre. Sentiu-se envergonhado por ter um pensamento desses na hora em que a vida do 
seu amigo estava para ser arruinada. Ocorreu-lhe ento, que a prpria Billie podia estar correndo perigo.
       Gostaria de saber se Elspeth e Billie tambm receberam cartas  disse Luke.
       E por que teriam recebido?  quis saber Anthony.
       Jenkins provavelmente conhece os nomes de nossas namoradas  ele tem um interesse libidinoso por essas coisas.
       Se ele souber os nomes, podemos ter certeza de que ele as denunciou. Jenkins  assim  sugeriu Pidgeon.
       Elspeth est a salvo  disse Luke.  Ela no estava aqui, e ningum pode provar que estava. Mas Billie pode ser expulsa e ento perder a bolsa. Ela me explicou 
ontem  noite. No poder estudar em nenhum outro lugar.
       No posso me preocupar com Billie agora  disse Anthony.  Tenho que imaginar o que  que vou fazer.
      Luke ficou chocado. Anthony metera Billie em encrenca e pelo seu cdigo Anthony deveria se preocupar mais com ela do que consigo prprio. Mas viu naquilo um 
pretexto de falar com Billie e no pde resistir. Suprimindo um sentimento de culpa, ele disse:
       Por que eu no vou ao dormitrio das garotas e vejo se Billie j voltou de Newport?
       Voc vai?  perguntou Anthony.  Obrigado. 
      Pidgeon saiu. Anthony sentou-se na cama, melanclico, fumando, enquanto Luke se barbeava rapidamente e trocava de roupa. Embora estivesse com pressa, vestiu-se 
com cuidado: camisa azul-clara, calas novas de flanela e sua jaqueta favorita de tweed cinza.
      Eram duas horas quando chegou no quadriltero do dormitrio de Radcliffe. As edificaes, revestidas de tijolinhos vermelhos, ficavam em torno de um parque 
de pequeno tamanho onde os estudantes caminhavam aos pares. Fora ali que ele beijara Elspeth, relembrou angustiadamente, na meia-noite de um sbado, ao final do 
primeiro encontro deles. Detestava homens que mudavam de lealdade com a mesma facilidade com que mudavam de camisa e, no entanto, estava fazendo justamente o que 
tanto detestava  e no conseguia parar.
      Uma criada uniformizada o levou at o saguo do dormitrio. Ele perguntou por Billie. Ela se sentou a uma mesa, pegou um tubo igual aos usados em navios, soprou 
dentro do bocal e disse:
       Visita para a srta. Josephson.
      Billie desceu usando um suter de cashmere cinza-claro e saia xadrez. Estava linda, mas parecia perturbada, e Luke teve mpetos de envolv-la nos braos para 
confort-la. Tambm tinha sido convocada ao gabinete de Peter Ryder e contou a Luke que o homem que entregara sua carta entregara uma tambm a Elspeth.
      Ela o conduziu para a sala de estar, onde as garotas eram autorizadas a receber visitantes do sexo masculino.
       O que  que eu vou fazer?  exclamou, o rosto contrado de agonia. Mais parecia uma viva chorosa.
      Luke achou-a ainda mais atraente que na vspera e teve muita vontade de lhe dizer que daria um jeito para resolver tudo, mas no conseguiu imaginar uma soluo.
       Anthony podia dizer que era outra pessoa que estava no quarto. Mas ento teria que dizer que pessoa era.
       No sei o que vou dizer  minha me.
       No sei se Anthony pagaria uma mulher, voc sabe, uma mulher da vida, para dizer que era ela.
      Billie sacudiu a cabea.
       No iam acreditar.
       E Jenkins ia dizer que a garota era outra. Foi ele o alcagete que denunciou voc.
       Minha carreira est liquidada  com um sorriso amargo, ela continuou.  Vou ter que voltar para Dallas e trabalhar de secretria para um daqueles homens 
do petrleo que usam botas de caubi.
      Vinte e quatro horas antes Luke era um homem feliz. Difcil de acreditar agora.
      Duas garotas, de chapu e casaco, irromperam na sala. Tinham os rostos congestionados.
       Souberam da notcia?  perguntou uma delas.
      Luke no estava interessado em notcias. Sacudiu a cabea. Billie, meio tonta, ainda conseguiu perguntar:
       O que foi que aconteceu?
       Estamos em guerra! 
      Luke se assustou. 
       O qu?
        verdade  conformou a segunda garota.  Os japoneses bombardearam o Hava!
      Luke mal conseguia compreender o que ouvia.
       Hava? Para que diabos eles iam bombardear o Hava? O que  que tem l?
       E verdade?  perguntou Billie.
       Na rua todo mundo est falando nisso. As pessoas param os carros.
      Billie olhou para Luke.
       Estou com medo  disse.
      Ele segurou sua mo. Queria dizer que cuidaria dela, acontecesse o que acontecesse.
      Duas outras garotas entraram, falando excitadamente. Algum trouxe um rdio e ligou na tomada. Houve um silncio de expectativa enquanto esperavam que esquentasse. 
Depois veio a voz do locutor:
      O couraado Arizona foi destrudo e o Oklahoma afundou em Pearl Harbor. Os primeiros relatos dizem que mais de cem avies foram inutilizados em terra na base 
aeronaval da Ilha Ford e nos campos Wheeler e Hickam. As baixas americanas so estimadas em pelo menos dois mil mortos e mil feridos.
      Luke sentiu uma onda de raiva.
       Duas mil pessoas mortas!  exclamou.
      Mais garotas foram entrando na sala de estar, todas falando nervosamente, e rudemente lhe ordenaram que calassem a boca. O locutor estava dizendo:
      Nenhuma advertncia foi dada antes do ataque japons, que comeou s sete e cinqenta e cinco da manh, hora local, pouco antes de uma hora da tarde, hora 
da costa do Atlntico.
        guerra, no ?  perguntou Billie.
       Pode apostar que sim  respondeu Luke, furioso. Sabia que era uma idiotice irracional odiar um pas inteiro, mas era o que sentia, assim mesmo.  Eu gostaria 
de arrasar o Japo.
      Ela acariciou a mo dele.
       No quero que voc v para a guerra  disse, com lgrimas nos olhos.  No quero que se machuque.
      O corao dele quase explodiu de alegria.
       Fico to feliz de ver que voc se sente assim. 
      Ele sorriu melancolicamente.
       O mundo desmoronando e eu me sentindo feliz. 
      Deu uma olhada no relgio.
       Suponho que todos ns ainda tenhamos que ver o reitor, mesmo que estejamos em guerra.
      Mas neste ponto ele teve uma idia e ficou em silncio.
       O qu? O que ?
       Talvez haja um modo para voc e Anthony continuarem em Harvard.
       Como?
       Deixe-me pensar.
      
> > > < < <
      
Elspeth estava nervosa, mas disse a si prpria que no precisava ter medo. Desobedecera ao toque de recolher na noite anterior, mas no fora apanhada. Tinha quase 
certeza de que aquilo no tinha nada a ver com ela e Luke. Anthony e Billie  que se encontravam em perigo. Elspeth mal conhecia Billie, mas se preocupava com Anthony 
e tinha a sensao horrvel de que ele seria expulso.
      Os quatro se encontraram diante da sala do reitor. Luke ainda disse que tinha um plano, mas antes que pudesse explicar, o reitor abriu a porta e mandou que 
entrassem. Luke s teve tempo para dizer aos demais que deixassem a falao por conta dele.
      O reitor Peter Ryder, responsvel pelos alunos, era um homem exigente e antiquado, metido num elegante terno de palet preto, colete e calas cinzentas listradas. 
Seu lao de gravata era uma perfeita borboleta, os sapatos cintilavam de to engraxados e o cabelo cheio de leo parecia tinta preta em um ovo cozido. Com ele estava 
uma Solteirona de cabelos grisalhos chamada Iris Rayford, a responsvel pelo bem-estar moral das garotas de Radcliffe.
      Sentaram-se em um crculo de cadeiras, como se fosse para um seminrio. O reitor acendeu um cigarro.
       Agora, rapazes,  melhor que vocs contem a verdade, como cavalheiros  disse ele.  O que aconteceu no seu quarto ontem  noite?
      Anthony ignorou a pergunta de Ryder e agiu como se fosse o encarregado do andamento dos trabalhos.
       Onde est Jenkins?  perguntou, laconicamente.  Foi ele quem nos denunciou, no foi?
       Ningum mais foi convidado a se juntar a ns  disse o reitor.
       Mas um homem tem o direito de enfrentar seu acusador cara a cara.
       Isto no  um tribunal, sr. Carroll  respondeu o reitor, impaciente.  Pediram que a srta. Rayford e eu estabelecssemos os fatos. Medidas disciplinares, 
se necessrias, sero tomadas no momento adequado.
       No estou seguro de que isto seja aceitvel  disse Anthony arrogantemente.  Jenkins deveria estar aqui.
      Elspeth viu o que Anthony queria. Esperava que Jenkins tivesse medo de repetir as acusaes na cara dele. Se isso acontecesse, a escola poderia ter que cancelar 
o caso. Ela no achava que fosse dar certo, mas talvez valesse a tentativa.
      Luke, no entanto, interrompeu a discusso abruptamente.
       Chega  disse ele, com um gesto impaciente. Dirigiu-se ao reitor:
       Eu levei uma mulher para dentro da Casa ontem  noite, senhor.
      Elspeth engoliu em seco. De que ele estava falando? 
      O reitor franziu a testa.
       Minha informao  de que foi o sr. Carroll quem convidou a tal mulher.
       Lamento, mas o senhor foi mal informado, reitor. 
      Elspeth no se conteve:
       Isso no  verdade!  exclamou.
      Luke dirigiu-lhe um olhar que a congelou.
       A srta. Twomey estava em seu dormitrio  meia-noite,  claro, conforme o livro de registro mostrar.
      Elspeth o encarou. O livro demonstraria isso, sem dvida, porque uma amiga forjara sua assinatura. Concluiu que era melhor calar a boca antes que se metesse 
em encrenca. Mas o que Luke estava querendo?
      Anthony fazia a mesma pergunta a si prprio. Olhando para o amigo, assombrado, ele disse:
       Luke, no sei o que voc est fazendo, mas...
       Deixe-me contar a histria  disse Luke. Anthony pareceu ficar na dvida, mas o outro insistiu:
       Por favor.
      Anthony deu de ombros.
      O reitor disse, sarcasticamente:
       Continue, por favor, sr. Lucas. No posso esperar.
       Conheci a garota no Dew Drop Inn  comeou Luke. 
      A srta. Rayford falou pela primeira vez:
       O Dew Drop Inn?  exclamou, incrdula.   algum trocadilho?
       . 
       Continue.
       Ela  garonete l. Seu nome  Angela Carlotti.
      O reitor, evidentemente, no acreditou numa nica palavra. E disse:
       Disseram-me que a pessoa vista em Cambridge House era a srta. Bilhah Josephson, aqui presente.
       No senhor  contestou Luke, no mesmo tom de certeza inabalvel.  A srta. Josephson  nossa amiga, mas estava fora da cidade. Passou a noite passada na 
casa de um parente em Newport, Rhode Island.
       Seu parente confirmar isto?  perguntou a srta. Rayford  Billie.
      Billie, desconcertada, dirigiu um olhar de espanto a Luke antes de responder.
       Sim, srta. Rayford.
      Elspeth encarou Luke fixamente. Ser que ele realmente tencionava sacrificar a carreira para salvar a de Anthony? Que loucura! Luke era um amigo leal, mas 
aquilo era levar a amizade demasiadamente a srio.
       Voc  capaz de apresentar essa... garonete?  ele pronunciou a palavra com desgosto, como se estivesse falando prostituta.
       Posso sim, senhor.
      O reitor surpreendeu-se.
       Muito bem, ento.
      Elspeth ficou atnita. Teria Luke subornado algum para fingir ser a culpada? Se fosse este o caso, jamais daria certo. Jenkins juraria que no era ela.
      Foi quando Luke falou:
       Mas no tenciono traz-la.
       Ah  fez o reitor.  Neste caso fica difcil aceitar sua histria.
      Elspeth no sabia o que pensar. Luke contara uma histria implausvel e no tinha como comprovar sua veracidade. Onde estaria querendo chegar?
       No penso que o depoimento da srta. Carlotti seja necessrio.
       Permita-me discordar.
      Foi quando Luke soltou a bomba que tinha preparado.
       Estou deixando a escola hoje  noite, senhor.
       Luke!  exclamou Anthony.
       No representar nenhuma vantagem para o senhor sair antes de ser desligado. Seja como for, haver uma investigao.
       Nosso pas est em guerra.
       Sei disso, meu rapaz.
       Vou me incorporar ao Exrcito amanh de manh, senhor.
       No!  Elspeth soltou um grito.
      Pela primeira vez o reitor no tinha uma resposta e ficou encarando Luke, boquiaberto.
      Elspeth percebeu que Luke tinha sido muito esperto. A escola dificilmente tomaria uma medida disciplinar contra um rapaz que ia arriscar a prpria vida pelo 
seu pas. E se no houvesse investigao, Billie estaria a salvo.
      Uma nvoa de dor obscureceu a viso de Elspeth. Luke sacrificara tudo  para salvar Billie.
      A srta. Rayford ainda poderia exigir o testemunho do primo de Billie, mas ele deveria mentir por ela. O ponto chave era que Radcliffe dificilmente poderia 
esperar que Billie, na ausncia de Luke, fosse apresentar a garonete Angela Carlotti.
      Mas nada disso importava para Elspeth naquele instante. A nica coisa em que podia pensar era em ter perdido Luke.
      Ryder resmungou qualquer coisa sobre fazer um relatrio e deixar que os demais decidissem. A srta. Rayford fez uma tempestade em copo dgua para anotar o 
endereo do primo de Billie, mas era tudo camuflagem, tanto da parte dele quanto da parte dela. Tinham sido suplantados e sabiam disso.
      Finalmente, os estudantes foram dispensados.
      Assim que a porta se fechou, Billie caiu no choro.
       No v para a guerra, Luke!  suplicou. 
      Anthony disse:
       Voc salvou minha vida  ele passou os braos em torno do pescoo de Luke e o abraou.  Jamais me esquecerei disto. Jamais.
      Anthony soltou Luke e pegou a mo de Billie.
       No se preocupe  disse para ela.  Ele  esperto demais para ser morto.
      Luke virou-se para Elspeth. Quando seus olhos se encontraram, ele hesitou, e ela percebeu que sua raiva devia estar plenamente visvel. Mas no se importou. 
Encarou-o por um longo momento e por fim levantou a mo e deu-lhe uma bofetada com toda a fora. Ele deixou escapar um grito involuntrio de dor e surpresa.
       Seu filho-da-puta!  disse ela. 
      E com isto virou-se e foi embora.

13:00

Cada motor Baby Sergeant tem 1 metro e vinte de comprimento, 15 centmetros de dimetro e pesa 27 quilos e queima por apenas 6 segundos e meio.
Luke estava procurando uma rua residencial tranqila. Washington era totalmente desconhecida para ele, como se nunca tivesse estado ali antes. Ao se afastar da Union 
Station escolhera uma direo ao acaso, e seguira para oeste. A rua o levara bem para o centro da cidade, um lugar de paisagens impressionantes e grandiosas edificaes 
do governo. Talvez fosse bonito, mas ele achou intimidante. Passou por um prdio com um letreiro que dizia Georgetown Mind Hospital e adivinhou que o bairro devia 
ser chamado Georgetown. Virou em uma rua arborizada de casas modestas. Promissor. Quem morava ali no devia ter como pagar empregados domsticos de tempo integral, 
de modo que tinha uma boa chance de encontrar uma casa vazia.
      A rua fazia uma curva e logo depois terminava num cemitrio. Luke estacionou o Ford roubado de frente para o caminho por onde chegara, para o caso de ter que 
fugir com rapidez.
      Precisava de ferramentas simples, um formo ou uma chave de parafuso e um martelo. Provavelmente havia um jogo na mala do carro  s que estava trancada. Poderia 
for-la, se pudesse encontrar um pedao de arame... de outro modo, teria que ir de carro at uma loja de ferragens e comprar ou roubar o que precisava.
      Pegou no banco de trs a mala roubada. Examinando as roupas, encontrou uma pasta com papis, de onde retirou um clipe.
      Levou trinta segundos para abrir a mala do carro. Como tinha esperado, havia algumas ferramentas em uma lata perto do macaco. Escolheu a maior das chaves de 
parafuso. No havia martelo, mas uma chave de roda pesada faria as vezes. Colocou tudo no bolso da capa de chuva esfarrapada e bateu a tampa da mala.
      Pegou a mala que roubara na estao dentro do carro, trancou a porta e contornou a esquina. Sabia que estava sendo muito evidente, um vagabundo esfarrapado 
andando na rua de um bairro bom, carregando uma mala cara. Se o bisbilhoteiro local chamasse a polcia, e a polcia no tivesse muito que fazer naquela manh, estaria 
encrencado em questo de minutos. Por outro lado, se tudo corresse bem, estaria de banho tomado, barbeado e vestido como um homem respeitvel em meia hora.
      Atingiu a primeira casa da rua, atravessou um pequeno gramado e bateu  porta.
      
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Rosemary Sims viu um bonito automvel azul e branco passar vagarosamente pela sua casa e perguntou-se de quem seria. Os Brownings podiam ter comprado um carro novo, 
eles tinham um bocado de dinheiro. Ou o sr. Cyrus, que era solteiro e no tinha que economizar. Fora isso, ponderou ela, o carro devia ser de um estranho.
      A sra. Sims ainda tinha boa vista e podia ver quase que a rua toda de sua poltrona junto da janela do segundo andar, especialmente no inverno, quando as rvores 
ficavam sem flores. Assim, ela viu o estranho alto quando ele dobrou a esquina. E estranho era bem a palavra. No usava chapu, sua capa de chuva estava rasgada 
e os sapatos eram amarrados com barbante para no se desconjuntarem. No entanto, carregava uma mala com cara de nova.
      Ele bateu na porta da casa da sra. Britsky. Viva e vivendo sozinha, a sra. Britsky no era nenhuma boba e se livraria rapidamente do estranho, a sra. Sims 
tinha certeza. Sem dvida, l estava  a sra. Brisky apareceu na janela e mandou que o homem fosse embora com um gesto categrico.
      Ele foi para a casa vizinha, da sra. Loew. Ela atendeu. Era uma mulher alta, de cabelos negros e orgulhosa demais, na opinio da sra. Sims. Trocou algumas 
palavras com o homem e bateu a porta.
      O estranho seguiu para a casa ao lado, aparentemente tencionando experimentar todas as casas da rua. A jovem Jeannie Evans atendeu  porta com a filhinha, 
um beb lindo chamado Rita, no colo. Ela pescou qualquer coisa no bolso do avental e deu a ele, provavelmente umas moedas. Ento o homem era um mendigo.
      O velho sr. Clark apareceu na porta de roupo de banho e chinelos de quarto. O estranho no conseguiu nada com ele.
      O dono da casa seguinte, o sr. Bonetti, estava trabalhando, e sua mulher Angelina, grvida de sete meses, sara cinco minutos antes, carregando uma bolsa e 
indo, evidentemente, para a loja. O estranho no conseguiria nada ali.
      
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A essa altura, Luke tivera tempo de estudar as portas, que eram todas iguais. Tinham fechaduras Yale, do tipo com uma lingeta no lado da porta e um soquete de metal 
no batente. As fechaduras eram acionadas pela chave, do lado de fora, e pela maaneta, do lado de dentro.
      Cada porta tinha uma janelinha de vidro  altura da cabea. O modo mais fcil de entrar seria quebrar esse vidro e enfiar a mo para girar a maaneta. Mas 
o vidro quebrado seria visvel da rua. Assim, ele decidiu usar a chave de parafuso.
      Deu uma espiada em ambos os lados da rua. No tivera sorte, sendo obrigado a bater em cinco portas para encontrar uma casa vazia. A esta altura j tinha despertado 
a ateno de algum morador, embora no visse ningum. De qualquer modo, no tinha escolha. Fora obrigado a se arriscar.
      
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      A sra. Sims virou as costas para a janela e ergueu o telefone que ficava do lado da sua poltrona. Lenta e cuidadosamente, discou o nmero da delegacia local 
de polcia, que sabia de cor.
      
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Luke tinha que fazer aquilo depressa.
      E inseriu a chave de parafuso entre a porta e o batente no mesmo nvel da fechadura. Depois bateu no cabo da chave de parafuso com a parte mais pesada da chave 
de roda, tentando forar a ponta da chave para dentro do soquete da fechadura.
      O primeiro golpe no teve xito, porque a chave bateu em cheio na lingeta. Ele mudou de posio, tentando encontrar um meio de ela entrar no soquete. Bateu 
de novo, desta vez com mais fora. Ainda assim, a chave no entrou. Luke sentiu que a testa ficava molhada de suor, a despeito do frio.
      Disse a si prprio para ficar calmo. J tinha feito aquilo antes. Quando? No tinha importncia. A tcnica funcionava, tinha certeza.
      Sacudiu a chave de novo. Desta vez sentiu que a ponta pegou num entalhe da lingeta. Bateu de novo, com toda a fora de que foi capaz. A chave de parafuso 
entrou uns dois centmetros.
      Luke puxou a maaneta de lado, alinhando a lingeta para que ela pudesse sair do soquete. Para seu profundo alvio, a porta abriu por dentro.
      O dano causado  moldura foi muito pequeno para poder ser visto da rua.
      Ele entrou rapidamente e fechou a porta.
      
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Quando Rosemary Sims terminou de discar o nmero da polcia, olhou pela janela de novo, mas o estranho tinha sumido.
      Muito depressa.
      A polcia atendeu. Sentindo-se confusa, ela desligou sem falar. 
      Por que ele tinha parado de repente de bater nas portas? Para onde tinha ido? Quem era?
      Rosemary sorriu. Tinha algo com que ocupar seus pensamentos o dia inteiro.
      
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Quem morava ali era um casal jovem. A casa era mobiliada com uma mistura de presentes de casamento e compras em lojas de segunda. Tinham um sof novo e um aparelho 
de TV grande na sala de estar, mas na cozinha ainda usavam engradados de laranja para guardar as coisas. Uma carta fechada em cima do radiador era endereada ao 
sr. G. Bonetti.
      No havia indcios de crianas. Muito provavelmente marido e mulher trabalhavam e passavam o dia inteiro fora. Mas Luke no podia contar com isso.
      Subiu a escada rapidamente. Havia trs quartos de dormir, mas apenas um deles estava mobiliado. Luke jogou a mala em cima da cama cuidadosamente feita. Dentro 
dela encontrou um terno listrado muito bem dobrado, uma camisa branca e uma gravata de estilo bastante conservador. Havia meias escuras, roupa de baixo limpa e um 
par de sapatos sociais pretos que pareciam apenas meio ponto maiores que o seu nmero.
      Tirou a roupa imunda e chutou para um canto. Foi uma sensao meio estranha, estar nu na casa de desconhecidos. Pensou em no tomar banho, mas estava fedendo, 
mesmo para si prprio.
      Entrou no banheiro. Era uma maravilha ficar debaixo de uma ducha de gua quente e se ensaboar. Quando terminou, ficou parado por um instante, atento. A casa 
continuava em silncio.
      Secou-se com uma das toalhas cor-de-rosa da sra. Bonetti  outro presente de casamento, sups  e vestiu a cueca, calas, meias e sapatos tirados da mala roubada. 
Estando pelo menos meio vestido poderia fugir correndo se sasse algo errado enquanto estivesse se barbeando.
      O sr. Bonetti tinha um barbeador eltrico, mas Luke preferia barbear-se com lmina. Na mala encontrou um aparelho de barbear e um pincel. Espumou o rosto e 
barbeou-se rapidamente.
      O sr. Bonetti no tinha gua-de-colnia, mas talvez houvesse na mala. Depois de feder como um porco a manh inteira, Luke gostou da idia de se perfumar. Achou 
um estojo de couro de boa qualidade e abriu o zper. Nada de colnia, mas em compensao havia cem dlares em notas de vinte, cuidadosamente dobradas: dinheiro de 
emergncia. Embolsou o dinheiro, decidido a pagar ao homem um dia.
      Afinal de contas, o sujeito no era um colaborador.
      E o que diabos isto significava?
      Outro mistrio. Ele vestiu a camisa, gravata, palet. Tudo caa bem. Acertara ao escolher cuidadosamente uma pessoa do seu tamanho e peso. As roupas eram de 
boa qualidade. A etiqueta na mala dava um endereo no Central Park, lado sul, Nova York. Luke achou que o dono devia ser um figuro de alguma companhia importante 
que fora a Washington para uns dois dias de reunies.
      Havia um espelho de corpo inteiro na parte de trs da porta do quarto. No via sua imagem desde aquela manh bem cedo, no banheiro dos homens da Union Station, 
quando ficara chocado por ver a figura de um vagabundo srdido olhando para ele.
      Encaminhou-se para o espelho, preparando-se para o pior.
      Mas viu um homem alto, atltico, com uns trinta e cinco anos, cabelo preto e olhos azuis. Uma pessoa normal, parecendo um pouco atormentada. Uma sensao de 
alvio e fadiga o invadiu.
      Vendo um sujeito como esse a, pensou ele, o que voc diria que ele faz para viver?
      Suas mos eram macias e agora que estavam limpas no pareciam de um trabalhador manual. Tinha o rosto liso, de quem passava a maior parte do tempo dentro de 
casa e nunca se sujeitara muito ao mau tempo. O cabelo era bem cortado. O sujeito do espelho parecia  vontade com roupas tpicas do executivo de uma grande firma.
      No era um policial, definitivamente.
      No havia chapu ou casaco na mala. Luke sabia que chamaria a ateno sem um ou outro, num dia frio de janeiro, em pleno inverno. Podia ser que encontrasse 
na casa. Valia a pena gastar alguns segundos a mais para procurar.
      Abriu o armrio. No havia muita coisa. A sra. Bonetti tinha trs vestidos. Seu marido tinha um palet esporte para os fins de semana e um terno preto que 
provavelmente usava para ir  igreja. No havia sobretudo  o sr. Bonetti devia estar usando um e no tinha dinheiro para ter dois  mas havia uma capa de chuva 
leve. Luke tirou-a do cabide. Melhor do que nada. Vestiu-a. Era um pouco pequena mas dava para usar.
      No havia chapu no armrio, mas havia um bon de tweed que Bonetti provavelmente usava com o palet esporte no sbado. Luke experimentou. Pequeno. Teria que 
comprar um chapu com o dinheiro da bolsa de toalete. Mas o bon serviria para uma ou duas horas.
      Luke ouviu um barulho no andar trreo. Ficou imvel, atento.
      Voz de mulher, jovem:
       O que aconteceu com a porta? 
      Outra voz, similar:
       Parece que algum tentou arrombar.
      Luke praguejou baixinho. Ficara tempo demais.
       Puxa vida!  Acho que voc tem razo.
       Talvez voc devesse chamar a polcia.
      A sra. Bonetti, afinal, no tinha ido trabalhar. Provavelmente fora s compras. Encontrara uma amiga na loja e a convidara para tomar um caf em casa.
       No sei no... parece que os ladres no chegaram a entrar.
       Como sabe? Melhor ver se no est faltando nada. 
      Luke viu que tinha que sair dali depressa.
       O que h para roubar? As jias da famlia?
       O que me diz da televiso?
      Ele abriu a janela e deu uma olhada no gramado que ficava na frente da casa. No havia rvore ou cano que pudesse usar na descida.
       Nada foi mexido  ele ouviu  sra. Bonetti dizer.  No creio que tenham entrado.
       E l em cima?
      Deslocando-se silenciosamente, Luke foi para o banheiro. Na parte dos fundos da casa s havia a chance para uma queda de quebrar perna no ptio cimentado.
       Vou olhar.
       Voc no tem medo? 
      Houve uma risadinha nervosa.
       Tenho. Mas o que mais podemos fazer? Ficaremos com cara de idiotas se chamarmos a polcia e no houver ningum.
      Luke ouviu passos na escada. Escondeu-se atrs da porta do banheiro.
      Os passos galgaram a escada, atravessaram o patamar e entraram no quarto. A sra. Bonetti deu um gritinho.
      A voz de sua amiga perguntou:
       De quem  aquela mala? 
       Nunca vi antes!
      Luke esgueirou-se silenciosamente para fora do banheiro. Pde ver a porta do quarto aberta, mas no as mulheres. Desceu a escada na ponta dos ps, grato pela 
existncia do carpete que recobria os degraus.
       Que espcie de ladro traz bagagem?
       Vou chamar a polcia agora mesmo. Isto est muito estranho.
      Luke abriu a porta da frente e saiu.
      Ele sorriu. Tinha conseguido.
      Fechou a porta silenciosamente e afastou-se depressa.
      
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A sra. Sims franziu a testa, espantada. O homem saindo da casa dos Bonetti usava a capa de chuva preta do sr. Bonetti e o bon cinza de tweed que ele usava para 
assistir os jogos dos Redskins, mas era maior que o sr. Bonetti e as roupas no lhe caam bem. Um minuto mais tarde o carro azul e branco que ela notara antes apareceu 
e contornou a esquina, acelerado demais. Foi quando ela percebeu que o homem que sara da casa era o mesmo mendigo que estivera observando. Ele devia ter arrombado 
a casa e roubado as roupas do sr. Bonetti!
      Quando o carro passou pela sua janela, leu a placa e memorizou o nmero.

13:30

Os motores Sergeant foram submetidos a 300 testes estticos, 50 testes em vo e 290 acionamentos do sistema de ignio sem uma nica falha.
Anthony sentou-se na sala de reunies, fervendo de impacincia e frustrao.
      Luke ainda estava solto em alguma parte de Washington. Ningum sabia o que ele poderia estar querendo fazer, mas Anthony estava preso ali, ouvindo um oportunista 
do Departamento de Estado a arengar sobre a necessidade de combater os rebeldes reunidos nas montanhas de Cuba. Anthony sabia tudo a respeito de Fidel Castro e Che 
Guevara. Tinham menos que mil homens sob seu comando. Claro que podiam ser liquidados  mas no havia por qu. Se Castro fosse morto, um outro assumiria seu lugar.
      O que Anthony queria mesmo era dar o fora dali e ir para a rua procurar Luke.
      Ele e seu pessoal tinham se ligado com quase todas as delegacias de polcia do Distrito de Colmbia. Pediram para serem informados de todos os incidentes envolvendo 
bbados ou vagabundos, qualquer meno de um criminoso que falasse como um professor universitrio e de qualquer coisa que fosse fora do comum. Os policiais ficavam 
felizes de cooperar com a CIA: gostavam de pensar que podiam estar envolvidos com atividades de espionagem internacional.
      O homem do Departamento de Estado terminou sua fala e comeou uma discusso tipo mesa-redonda. Anthony sabia que o nico meio de impedir algum como Castro 
de assumir o poder era os Estados Unidos apoiarem um governo moderadamente reformista. Para sorte do comunismo, no havia perigo disso acontecer.
      A porta abriu-se e Pete Maxell entrou, procurando no chamar ateno. Acenou com a cabea um pedido de desculpas para o presidente da mesa, George Cooperman, 
sentou-se ao lado de Anthony e passou-lhe uma pasta contendo um mao de relatos policiais.
      Havia qualquer coisa de no costumeiro praticamente em todas as delegacias. Uma mulher bonita, presa por bater carteiras no Jefferson Memorial, na verdade 
era um homem; alguns beatniks tinham tentado abrir a jaula de uma guia no zoolgico para libertar a ave; um morador de Wesley Heights tinha tentado sufocar a mulher 
com uma pizza com cobertura extra de queijo; um caminho de entregas pertencente a uma editora religiosa tinha deixado cair sua carga em Pertworth e o trnsito na 
Georgia Avenue estava engarrafado por causa de uma avalanche de bblias.
      Era possvel que Luke tivesse deixado Washington, mas Anthony considerou esta hiptese improvvel. Luke no tinha dinheiro para trem ou nibus. Podia roubar, 
claro, mas para que se dar ao trabalho? No tinha para onde ir. Sua me morava em Nova York e ele tinha uma irm em Baltimore, mas ele no sabia disso. No tinha 
motivo para viajar.
      Enquanto Anthony fazia uma leitura dinmica dos relatos, meio que ouvia o Chefe, Carl Hobart, falar a respeito do embaixador dos Estados Unidos em Cuba, Earl 
Smith, que trabalhara incansavelmente para solapar os lderes da igreja e outros que queriam reformar Cuba por meios pacficos. Anthony s vezes se perguntava se 
Smith seria na verdade um agente do Kremlin, mas o mais provvel  que fosse apenas imbecil.
      Um dos relatos policiais chamou sua ateno e ele mostrou a Pete. 
        isso mesmo?  murmurou, incrdulo. 
      Pete balanou a cabea afirmativamente.
       Um vagabundo atacou e espancou um patrulheiro na esquina das ruas A e Sete.
       Um vagabundo espancou um policial?.
       E no muito longe de onde perdemos Luke.
       Pode ser ele!  exclamou Anthony, excitadamente. Carl Hobart, que estava falando, dirigiu-lhe um olhar irritado. Anthony baixou a voz e voltou a murmurar.
       Mas por que ele atacaria um patrulheiro? Roubou alguma coisa  a arma dele por exemplo?
       No, mas deu-lhe uma surra e tanto. Teve que ir para o hospital tratar do dedo indicador da mo direita, quebrado.
      Um tremor percorreu o corpo de Anthony como um choque eltrico.
        ele!  disse, em voz alta.
       Pelo amor de Deus!  reclamou Carl Hobart. 
      George Cooperman interveio, bem-humorado:
       Anthony, ou voc cala a porra da boca ou vai l para fora falar, certo?
      Anthony levantou-se.
       Desculpe, George, Volto num segundo. 
      Ele saiu da sala e Pete o seguiu.
        ele!  repetiu Anthony depois que a porta se fechou.  Era sua marca registrada, durante a guerra. Fazia isso com a Gestapo  quebrava os dedos de acionar 
os gatilhos.
      Pete ficou intrigado.
       Como  que voc sabe disso?
      Anthony percebeu que tinha cometido um erro palmar. Pete acreditava que Luke era um diplomata tendo um colapso nervoso. Anthony no lhe dissera que conhecia 
Luke pessoalmente. Amaldioou-se pelo descuido.
       No contei tudo a voc  disse, forando um tom casual.  Trabalhei com ele na OSS.
      Pete franziu as sobrancelhas.
       E tornou-se um diplomata depois da guerra  ele dirigiu a Anthony um olhar astuto.  O cara no est apenas tendo um problema com a esposa, est?
       No, estou convicto de que a coisa  mais sria. 
      Pete aceitou essa.
       Parece coisa de um filho da me dotado de muito sangue-frio, para quebrar o dedo de um sujeito assim.
       Sangue-frio?
      Anthony nunca pensara em Luke como sendo um homem de sangue-frio, embora ele tivesse uma tendncia  crueldade.
       Acho que sim, quando em situaes desvantajosas. 
      Tinha conseguido disfarar seu erro, pensou, aliviado. Mas ainda tinha que achar Luke.
       A que horas aconteceu essa briga? 
       Nove e meia.
       Droga! Mais de quatro horas atrs. Pode estar agora em qualquer parte da cidade.
       O que vamos fazer?
       Mandar uma dupla de agentes  rua A para mostrar a foto de Luke para ver se conseguimos alguma pista do destino que ele pode ter tomado. E tambm falar com 
o policial agredido.
       Certo.
       E se voc conseguir alguma coisa, no hesite em invadir esta reunio idiota.
       Deixa comigo.
      Anthony voltou. George Cooperman, seu companheiro do tempo da guerra, estava falando, impacientemente.
       Devamos mandar um grupo de caras dures das Foras Especiais e acabar com o exrcito esfarrapado de Castro em trinta e seis horas.
       Poderamos manter a operao secreta?  perguntou, nervosamente, o homem do Departamento de Estado.
       No  respondeu George.  Mas poderamos disfar-la de conflito local, como fizemos no Ir e na Guatemala.
      Carl Hobart se intrometeu.
       Vocs me desculpem se minha pergunta for burra, mas por que  segredo o que fizemos no Ir e na Guatemala?
      Foi o homem do Departamento de Estado que respondeu.
       No queremos fazer propaganda de nossos mtodos, naturalmente.
       Perdoe-me, mas isso  idiotice  retrucou Hobart.  Os russos sabem que fomos ns. Os iranianos e guatemaltecos sabem que fomos ns. Com os diabos, na Europa 
os jornais disseram abertamente que fomos ns! Ningum foi enganado, exceto o povo americano. Agora, por que ns queremos mentir para o povo americano?
      George respondeu com irritao crescente.
       Se tudo viesse  luz, haveria uma comisso de inqurito no Congresso. Os filhos-da-puta dos polticos iam perguntar se tnhamos o direito de agir, se era 
legtimo e o que tnhamos a dizer a respeito dos pobres coitados dos camponeses descalos iranianos ou dos cucarachos colhedores de banana.
       Talvez no fossem perguntas to ruins assim  persistiu Hobart obstinadamente.  Fizemos realmente algum bem  Guatemala?  difcil dizer a diferena entre 
o regime de Castillo Armas e o de um bando de gngsteres.
      George perdeu a calma.
       Ao inferno com tudo isso!  gritou.  No estamos aqui para alimentar iranianos mortos de fome ou conceder liberdades civis aos camponeses sul-americanos, 
pelo amor de Deus. Nosso trabalho  promover os interesses americanos  e que se foda a democracia!
      Houve uma breve pausa e depois Carl Hobart falou.
       Muito obrigado, George. Fico feliz de ver que conseguimos esclarecer tudo.

14:00

Cada motor Sergeant tem um dispositivo de ignio que consiste em dois elementos eltricos ligados em paralelo e um cilindro de metal oxidante encerrado em um estojo 
de plstico. So de tal modo sensveis esses dispositivos de ignio que precisam ser desconectados em caso de tempestade eltrica a menos de 20 quilmetros de Cabo 
Canaveral, para evitar que funcionem acidentalmente.
Em uma loja de roupas de homem situada em Georgetown, Luke comprou um chapu cinzento de feltro macio e um sobretudo azul-marinho. Saiu da loja de chapu e sobretudo 
e sentiu que, finalmente, podia enfrentar o mundo de frente.
      Agora estava pronto para atacar seus problemas. Primeiro tinha que aprender alguma coisa sobre memria. Queria saber o que causava amnsia, se havia tipos 
diferentes e quanto tempo podia durar. Mais importante, precisava de informaes sobre tratamentos e cura.
      Onde buscar informaes? Em uma biblioteca. Como se achava uma biblioteca? Procurando em um mapa. Comprou um mapa de ruas de Washington na banca de jornal 
perto da loja de roupas. A Biblioteca Pblica Central aparecia com grande destaque, na intercesso de duas avenidas, a Nova York e a Massachusetts, do outro lado 
da cidade. Luke foi de carro para l.
      Era um grande edifcio clssico construdo como se fosse um templo grego. No fronto acima da entrada sustentada por colunas, estavam gravadas as seguintes 
palavras:
CINCIA                POESIA                HISTRIA
      Luke hesitou no topo da escadaria, depois se lembrou de que era novamente um cidado normal, e entrou.
      O efeito de sua nova aparncia foi evidenciado de imediato. Uma bibliotecria de cabelos grisalhos que se encontrava atrs do balco levantou-se e disse:
       Posso ajud-lo, senhor?
      Luke ficou pateticamente grato por ser tratado de modo to corts.
       Quero ver uns livros sobre memria.
       Esto na seo de psicologia. Se quiser me seguir, eu lhe mostro onde .
      Ela o conduziu at o andar superior por uma grande escadaria e apontou para um canto.
      Luke deu uma olhada na prateleira. Havia muitos livros sobre psicanlise, desenvolvimento infantil e percepo, nenhum dos quais lhe seria til. Pegou um volume 
grosso chamado O crebro humano e o folheou, mas no havia muita coisa sobre memria, e o que havia era altamente tcnico. Havia algumas equaes e uma certa quantidade 
de estatsticas que ele achou fcil de entender, mas o restante, em sua maioria, exigia um conhecimento de biologia humana que ele no tinha.
      Seu olhar deu com um livro que parecia mais promissor: Uma introduo  psicologia da memria, por Bilhah Josephson. Pegou-o e encontrou um captulo sobre 
desordens da memria. Leu:
       A condio na qual o paciente perde a memria  conhecida como amnsia global.
      Luke ficou exultante. Ele no era a nica pessoa a quem aquilo tinha acontecido.
       Esse paciente no conhece a prpria identidade e no reconhece seus pais ou filhos. No entanto, recorda muitas outras coisas. Pode ser capaz de dirigir automveis, 
falar idiomas estrangeiros, desmontar um motor e dizer o nome do Primeiro-Ministro do Canad. Sua condio seria mais apropriadamente chamada de amnsia autobiogrfica.
      Era exatamente aquilo que lhe acontecera. Ainda sabia verificar se estava sendo seguido e era capaz de fazer uma ligao direta num carro roubado.
      A dra. Josephson prosseguiu esquematizando a sua teoria de que o crebro continha diversos bancos de memria, como arquivos separados, para diferentes tipos 
de informao.
       A memria autobiogrfica registra eventos que experimentamos pessoalmente. Eventos esses que so rotulados com a poca e o lugar em que aconteceram; geralmente 
sabemos no apenas o que aconteceu, mas tambm quando e onde.
       A memria semntica de longo prazo guarda conhecimentos gerais como, por exemplo, saber qual  a capital da Romnia e como resolver equaes de segundo grau.
       A memria de curto prazo  onde guardamos o nmero de um telefone durante os poucos segundos que decorrem entre descobrir o nmero no catlogo e disc-lo 
no aparelho.
      Ela dava exemplos de pacientes que tinham perdido um dos arquivos, mas que haviam conservado os demais, como Luke. Ele sentiu profundo alvio e gratido  
autora do livro, quando percebeu que o que lhe acontecera era um bem estudado fenmeno psicolgico.
      Foi neste ponto que ele teve uma inspirao. Tinha trinta e tantos anos, de modo que devia ter uma determinada atividade havia uma dcada. Seu conhecimento 
profissional devia estar ainda em sua cabea, alojado na memria semntica de longo prazo. Devia ser capaz de us-lo para descobrir qual era sua linha de trabalho. 
O que seria o incio da descoberta de sua identidade!
      Levantando os olhos do livro, tentou pensar no conhecimento especial que devia ter. No considerou as habilidades de um agente secreto, pois j decidira, a 
julgar pela sua pele delicada de quem no passava muito tempo ao ar livre, que no era um agente policial de alguma espcie. Que outros conhecimentos especiais ele 
tinha?
      Tratava-se de algo terrivelmente difcil de dizer. Acessar a memria no era como abrir uma geladeira, onde se pode ver seu contedo de um relance. Era mais 
como usar o catlogo de uma biblioteca  voc tem de saber o que est procurando. Sentiu-se frustrado e disse a si prprio para ser paciente e estudar o assunto 
minuciosamente.
      Se fosse advogado, seria capaz de se lembrar de milhares de leis? Se fosse mdico, seria capaz de olhar para uma pessoa e dizer, Ela est com apendicite?
      Deste jeito no ia dar certo. Pensando nos ltimos minutos, a nica pista que notou foi o fato de ter compreendido facilmente as equaes e os dados estatsticos 
em O crebro humano, muito embora estivesse interessado em outros aspectos da psicologia. Talvez sua profisso tivesse a ver com nmeros: contabilidade ou seguros, 
talvez. Ou, quem sabe, podia ser um professor de matemtica.
      Encontrou a seo de matemtica e examinou as prateleiras. Um livro chamado Teoria dos nmeros chamou sua ateno. Folheou-o durante algum tempo. A apresentao 
era muito clara, mas estava defasado alguns anos...
      De repente ele levantou a cabea. Tinha descoberto algo. Entendia a teoria dos nmeros.
      Era uma pista importante. Quase todas as pginas do livro que tinha em mos continham mais equaes que texto. No era algo escrito para um leigo curioso. 
Era um trabalho acadmico. E ele compreendia. Tinha que ser um cientista.
      Com otimismo crescente, localizou a prateleira de qumica e pegou um livro destinado  engenharia de polmeros. Achou compreensvel, mas no fcil. Em seguida 
passou para a fsica e tentou Um simpsio sobre o comportamento dos gases frios e muito frios. Achou fascinante, como se estivesse lendo um bom romance.
      O campo se estreitava. Seu trabalho envolvia matemtica e fsica. Que ramo da fsica? Gases frios era interessante, mas . no achou que soubesse mais que o 
autor. Examinou as prateleiras e parou na parte destinada  geofsica, lembrando da manchete do jornal que lera: LUA AMERICANA PERMANECE NA TERRA. Pegou Princpios 
dos projetos de foguetes.
      Era um texto elementar, mas mesmo assim encontrou um erro na primeira pgina em que o abriu. Continuando a ler encontrou mais dois.
       Sim!  disse em voz alta, assustando um rapaz que estudava biologia ali perto. Se era capaz de reconhecer erros em um livro didtico, tinha que ser um perito. 
Era um cientista especializado em foguetes.
      Perguntou-se quantos cientistas de foguetes haveria nos Estados Unidos. Algumas poucas centenas, era seu palpite. Dirigiu-se apressadamente ao balco de informaes 
e falou com a bibliotecria de cabelos grisalhos.
       Existe alguma lista de cientistas?
       Claro  respondeu ela.  Voc precisa do Dicionrio de cientistas americanos, logo ali no incio da seo de cincias.
      Ele encontrou com facilidade o dicionrio. Era um livro pesado, mas mesmo assim no podia conter todos os cientistas americanos. Deviam constar dele somente 
os cientistas proeminentes. Ainda assim, valia a pena procurar. Sentou-se  mesa e percorreu o ndice, procurando algum de nome Luke. Teve que controlar a impacincia 
e obrigou-se a procurar com cuidado.
      Encontrou um bilogo chamado Luke Parfitt, um arquelogo de nome Lucas Dimittry e um tal Luc Fontainebleau, farmacutico. Mas nenhum fsico.
      Como medida de segurana, verificou a lista de geofsicos e astrnomos, mas no encontrou qualquer verso de Luke como prenome. Claro, pensou, desanimado, 
ele nem mesmo sabia ao certo se Luke era seu nome. Fora apenas como Pete o chamara. Por tudo quanto sabia, seu nome verdadeiro podia ser Percival.
      Sentiu-se desapontado, mas no estava disposto a desistir.
      Pensou em outra abordagem. Em algum lugar havia pessoas que o conheciam. O nome Luke podia no ser o seu, mas o rosto era. O Dicionrio s tinha os retratos 
dos cientistas mais proeminentes, como o dr. Wernher von Braun. Mas Luke imaginava que devia ter amigos e colegas que o reconheceriam, se pudesse encontr-los. E 
agora sabia onde comear a procurar  pois alguns de seus conhecidos tinham que ser cientistas especializados em foguetes.
      Onde se encontram cientistas? Em universidades.
      Procurou Washington na enciclopdia. O verbete inclua uma lista das universidades da cidade. Escolheu a Georgetown University porque estivera em Georgetown 
mais cedo e sabia como voltar l. Procurou a universidade no seu mapa de ruas e viu que tinha um campus imenso, com cerca de cinqenta quadras. Provavelmente teria 
um enorme departamento de fsica, com dezenas de profissionais. E com toda a certeza um deles o conheceria!
      Cheio de esperana, saiu da biblioteca e voltou para o carro.

14:30

Os dispositivos de ignio no foram originalmente projetados para serem acionados no vcuo. Para o foguete Jupiter foram redesenhados de tal modo que: (i) o motor 
inteiro ficasse selado em um recipiente impermevel  prova de ar; (ii) no caso desse recipiente ter de ser arrombado, o dispositivo de ignio em si tambm ficasse 
dentro de outro recipiente selado; e (iii), de qualquer modo, o dispositivo de ignio funcionasse no vcuo. Este processo de segurana mltipla se baseia no princpio 
conhecido como redundncia.
A reunio de Cuba teve uma parada para o caf e Anthony correu para o Edifcio Q a fim de atualizar, rezando para que sua equipe tivesse conseguido alguma coisa, 
qualquer pista do paradeiro de Luke.
      Pete encontrou-o na escada. 
       Tem uma coisa estranha aqui  disse ele.
      O corao de Anthony deu um pulo, esperanoso.
       Fala!
       Um relatrio policial vindo de Georgetown. Uma dona de casa volta das compras e descobre que sua casa foi arrombada e o chuveiro usado. O intruso tinha desaparecido, 
deixando para trs uma mala e uma pilha de roupas imundas e velhas.
      Anthony ficou eletrizado.
       At que enfim  uma chance! Passa o endereo.
       Voc acha que  o nosso sujeito?
       Tenho certeza! Ele estava farto de parecer que era um vagabundo, de modo que entrou numa casa que no tinha ningum, tomou banho, fez a barba e vestiu uma 
roupa decente.  caracterstico dele, que odeia aparecer malvestido.
      Pete ficou pensativo.
       Voc o conhece bastante bem, acho eu. 
      Anthony percebeu que dera outra escorregadela.
       No, no conheo  retrucou.   que li a ficha dele.
       Desculpe  disse Pete, que fez uma pequena pausa.  Por que ser que ele deixou esses troos?
       Meu palpite  que a dona da casa voltou antes que ele tivesse terminado.
       E a reunio de Cuba?
      Anthony deteve uma secretria que passava.
       Por favor, ligue para a sala de reunio no edifcio P e diga ao sr. Hobart que fiquei doente com dor de estmago e que o sr. Maxell teve que me levar em 
casa.
       Dor de estmago  repetiu ela, impassvel.
       Certo  confirmou ele, seguindo em frente. Por cima do ombro Anthony exclamou:  A menos que voc consiga encontrar uma desculpa melhor.
      Ele saiu do prdio seguido por Pete e, juntos, os dois pularam no velho Cadillac amarelo de Anthony.
       Pode ser que isso demande uma certa diplomacia  disse ele a Pete enquanto seguiam para Georgetown.  A boa notcia  que Luke nos deixou alguns indcios. 
O nosso problema  no termos uma centena de homens para seguir pistas. Assim, meu plano  fazer com que o departamento de Polcia de Washington trabalhe para ns.
       Boa sorte  disse Pete, ceticamente.  O que devo fazer?
       Seja bonzinho com os policiais e deixe a falao por minha conta.
       Acho que isso eu consigo fazer.
      Anthony dirigiu rapidamente e logo encontrou o endereo constante do relatrio da polcia. Era uma casa pequena em uma rua tranqila. Uma radiopatrulha estava 
estacionada em frente.
      Antes de entrar, Anthony estudou as casas do outro lado da rua e, aps um momento, descobriu aquilo que procurava: um rosto em uma das janelas do segundo andar, 
olhando para ele. Era uma senhora idosa, de cabelos brancos. Ela no recuou quando Anthony a encarou  ao contrrio, encarou-o com a mais descarada das curiosidades. 
Era exatamente o que ele precisava, a bisbilhoteira do bairro. Ele sorriu e fez uma continncia, cumprimentando-a. Ela inclinou a cabea em sinal de agradecimento.
      Anthony virou-se e se aproximou da casa arrombada. Dava para ver arranhes e estilhaos no umbral da porta, onde a fechadura fora forada: um trabalho de profissional, 
limpo. Sem causar danos desnecessrios. Tudo se ajustava bem a Luke.
      A porta foi aberta por uma jovem atraente que esperava um beb  para muito breve, na avaliao de Anthony. Ela levou Anthony e Pete para a sala, onde j havia 
dois homens sentados no sof, tomando caf e fumando. Um deles era o patrulheiro uniformizado. O outro, um rapaz que trajava um terno barato de tecido brilhante, 
devia ser o detetive. Em frente a eles havia uma deselegante mesa de centro com tampa de frmica vermelha. Em cima dela, uma mala aberta.
      Anthony apresentou-se e mostrou a identidade aos policiais. No queria que a sra. Bonetti  e todas as suas amigas e vizinhas  soubessem que a CIA estava 
interessada no caso, e por isso limitou-se a dizer que ele e Pete eram colegas dos dois policiais ali presentes.
      O detetive se chamava Lewis Hite.
       Voc sabe alguma coisa a respeito disto?  perguntou ele a Anthony, reservadamente.
       Acho que devemos ter algumas informaes que o ajudaro. Mas primeiro preciso saber o que voc tem.
      Hite levantou as duas mos, desconcertado.
       Temos uma mala pertencente a um sujeito chamado Rowley Anstruther, Jr., de Nova York. Ele arrombou a casa da sra. Bonetti, tomou um banho e foi embora deixando 
a mala. V se entender uma loucura dessas!
      Anthony estudou a mala. Era de boa qualidade, de couro claro, cheia apenas pela metade. Examinou seu contedo. Tinha camisas e cuecas limpas, mas nada de sapatos, 
calas ou palets.
       Parece que o sr. Anstruther chegou de Nova York hoje  disse ele.
      Hite balanou a cabea, concordando, mas a dona da casa disse, em tom de admirao:
       Como sabe disso? 
      Anthony sorriu.
       O detetive Hite lhe dir.
      Ele no queria ofender Hite roubando-lhe as luzes do palco.
       A mala contm roupa limpa, mas no tem roupa para lavar  explicou Hite.  O sujeito ainda no mudou de roupa, de modo que provavelmente ainda no passou 
uma noite fora de casa. O que significa que saiu de Nova York esta manh.
       Parece que tambm foram deixadas algumas roupas velhas  disse Anthony.
      O patrulheiro, cujo nome era Lonnie, disse:
       Esto comigo.
      Ele levantou uma caixa de papelo que estava ao lado do sof.
       Capa de chuva  disse, mexendo no contedo da caixa.  Camisa, cala, sapato.
      Anthony reconheceu a roupa velha. Eram os trapos que Luke usava.
       No creio que o sr. Anstruther tenha estado nesta casa  disse ele.  Acho que roubaram a mala dele hoje de manh, provavelmente na Union Station.
      Ele dirigiu-se ao patrulheiro.
       Lonnie, ser que voc podia ligar para a delegacia mais prxima da estao e perguntar se algum denunciou algum roubo de mala? Isto , se a sra. Bonetti 
permitir que usemos seu telefone.
       Claro  disse ela.  Fica no corredor. 
      Anthony acrescentou:
       A participao do roubo deve incluir uma lista do que havia dentro da mala. Acredito que voc descobrir que havia um terno e um par de sapatos que no mais 
se encontram nela  todos ficaram olhando para ele, assombrados.  Por favor, anote cuidadosamente a descrio do terno.
       OK  o patrulheiro saiu na direo do corredor. 
      Anthony sentiu-se bem. Conseguira assumir o comando da investigao sem ofender a polcia. O detetive Hite olhou para ele como se aguardasse instrues.
       O sr. Anstruther deve ser um homem de um metro e oitenta e cinco de altura, um pouco mais, cerca de noventa quilos, compleio atltica  disse Anthony. 
 Lewis, se voc verificar o nmero dessas camisas, provavelmente descobrir que tm pescoo dezesseis e manga trinta e cinco.
        isso mesmo  confirmou Hite.  J verifiquei.
       Eu devia ter visto logo que voc tinha passado a minha frente  Anthony o lisonjeou com um sorriso torto.  Temos a foto de um homem que acreditamos tenha 
sido o que roubou a mala e arrombou esta casa.
      Anthony fez um sinal a Pete, que entregou a Hite um mao de fotografias.
       No temos um nome para ele  mentiu Anthony.  Tem um metro e oitenta e cinco, noventa quilos,  um sujeito atltico e pode estar fazendo de conta que perdeu 
a memria.
       Ento, qual  a histria?  Hite ficou intrigado.  Esse sujeito queria as roupas de Anstruther e veio aqui para se trocar?
       Algo assim.
       Mas por qu?
      Anthony fez uma cara pesarosa.
       Desculpe, mas no posso lhe dizer. 
      Hite ficou satisfeito.
       Secreto, hem? No tem problema. 
      Lonnie voltou.
       Acertou na mosca a respeito do roubo. Union Station, onze e meia da manh de hoje.
      Anthony balanou a cabea. Ele tinha impressionado demais os dois policiais.
       E o terno?
       Azul-marinho, risca de giz. 
      Ele virou-se para o detetive.
       Ento voc j pode soltar uma foto e uma descrio que inclua o terno.
       Voc acha que ele ainda est na cidade?
       Acho.
      Anthony no estava to seguro quanto quis dar a perceber, mas no conseguia imaginar uma nica razo para que Luke fosse querer sair de Washington.
       Imagino que ele esteja de carro.
       Vamos ver.
      Anthony virou-se para a sra. Bonetti.
       Qual o nome da senhora de cabea branca que mora do outro lado da rua, uma ou duas casas depois?
       Rosemary Sims.
       Ela passa muito tempo na janela?
       Ns a chamamos de Rosa Curiosa.
       Excelente  ele se virou para o detetive.  Vamos dar uma palavrinha com ela?
       Vamos!
      Atravessaram a rua e bateram  porta da sra. Sims. Ela abriu instantaneamente  estivera esperando-os no hall.
       Eu o vi!  foi logo dizendo.  Ele entrou parecendo um vagabundo e saiu nos trinques.
      Anthony fez um gesto indicando que Hite deveria fazer a pergunta. Hite perguntou:
       Ele tinha um carro, sra. Sims?
       Tinha, um bonito carro azul e branco. Achei que no era de ningum aqui da rua.
      Ela olhou para eles maliciosamente.
       Sei o que vocs vo me perguntar em seguida.
       A senhora, por acaso, reparou no nmero da placa?
       Sim  respondeu ela, em triunfo.  E tomei nota. 
      Anthony sorriu.

15:00

Os estgios superiores do mssil so encerrados em um tubo de alumnio com base de magnsio fundido. Esse tubo  montado sobre mancai, o que permite que gire durante 
o vo. Ir fazer cerca de 550 revolues por minuto a fim de melhorar a preciso.
Na esquina da Trinta e Sete com a rua O os portes de ferro da Universidade de Georgetown estavam abertos. Em torno de trs lados de um gramado lamacento havia edifcios 
gticos de pedra cinzenta e alunos e professores corriam de um para o outro em seus casacos de frio. Luke entrou dirigindo lentamente, imaginando que algum podia 
reconhec-lo e dizer, Ei, Luke! Venha c! E ento seu pesadelo estaria terminado.
      Muitos dos professores usavam colarinhos clericais, e Luke percebeu que aquela devia ser uma universidade catlica. Tambm parecia ser s para rapazes.
      Gostaria de saber se era catlico.
      Estacionou em frente  entrada principal, um prtico com arco triplo onde se podia ler Healy Hall. Do lado de dentro encontrou um balco de recepo e a primeira 
mulher que via ali. Ela lhe disse que o departamento de fsica ficava diretamente embaixo do ponto onde se encontravam e o orientou para que sasse, fosse at o 
prtico e descesse um lance de escadas. A impresso que Luke teve foi de que estava se aproximando do corao do mistrio, como um caador de tesouros penetrando 
na cmara secreta de uma pirmide egpcia.
      Seguindo as instrues, Luke encontrou um enorme laboratrio com bancadas no centro e portas laterais que conduziam a laboratrios menores. Em uma das bancadas 
um grupo de homens trabalhava com os componentes de um espectrgrafo de microondas. Todos usavam culos. A julgar por suas idades, Luke achou que deviam ser professores 
e alunos de ps-graduao. Alguns podiam facilmente ser conhecidos seus. Aproximou-se com um olhar esperanoso.
      Um dos homens mais velhos o viu, mas no houve sinal de reconhecimento.
       Posso ajud-lo?
       Espero que sim  respondeu Luke.  H um departamento de geofsica aqui?
       Meu Deus do cu, no  foi a resposta.  Nesta universidade at mesmo a fsica  considerada uma disciplina secundria.
      Os outros riram.
      Luke deu-lhes uma chance para o examinarem, mas ningum parecia conhec-lo. Escolhera mal, pensou, desanimado; talvez devesse ter ido  George Washington University.
       E astronomia?
       Oh, sim. Ns estudamos o cu. O nosso observatrio  famoso.
      Ele se animou.
       Onde fica?
      O homem apontou para uma porta nos fundos do laboratrio.
       V at o final deste prdio e ver o observatrio depois do campo de beisebol.
      O homem voltou a concentrar-se no seu trabalho.
      Luke seguiu por um corredor comprido, escuro e sujo que acompanhava toda a extenso do comprimento do prdio. Ao ver um homem meio recurvado vestindo um casaco 
de tweed tpico de professores vindo na direo contrria, Luke encarou-o nos olhos, pronto a abrir um sorriso caso o reconhecesse. Mas surgiu uma expresso nervosa 
no rosto do professor, que apertou o passo.
      Intrpido, Luke seguiu em frente, dando o mesmo olhar a todo mundo que passava e que podia ser cientista, mas no houve um s que demonstrasse reconhec-lo. 
Ao deixar o prdio a viso que teve foi do rio Potomac e quadras de tnis. Para o lado oeste, depois do campo de beisebol, uma cpula branca.
      Aproximou-se, com crescente expectativa. No teto plano de uma casa pequena de dois andares havia um grande observatrio giratrio, em cuja cpula havia uma 
seo deslizante. Era uma instalao dispendiosa que indicava a seriedade do departamento de astronomia. Luke entrou.
      Os cmodos ficavam em torno de um pilar central macio, que suportava o enorme peso da cpula. Luke abriu uma porta e viu uma biblioteca vazia. Tentou outra 
e encontrou uma mulher atraente, mais ou menos da sua idade, sentada atrs de uma mquina de escrever.
       Bom dia  disse ele.  O professor est?
       O padre Heyden?
       Hmm, sim, ele. 
       E o senhor ...? 
       Hmm...
      Estupidamente, Luke no previra que ia ter que dar um nome. Sua hesitao fez com que a secretria levantasse as sobrancelhas, desconfiada.
       Ele no vai me conhecer  disse Luke.  Quer dizer, espero que ele me conhea, mas no pelo nome.
      A desconfiana dela aumentou.
       Ainda assim, o senhor tem um nome.
       Luke. Professor Luke.
       E em que universidade o senhor trabalha, professor Luke?
       Hmm... Nova York.
       Alguma instituio de ensino superior em particular, entre as de Nova York?
      O corao de Luke confrangeu-se. Em seu entusiasmo ele no tinha feito um plano para aquele encontro e via agora que estava estragando tudo. Quando se est 
num buraco, o melhor  parar de cavar, pensou ele. Desligou seu sorriso cordial e falou friamente.
       No vim aqui para ser interrogado  disse.  Basta dizer ao padre Heyden que o professor Luke, o fsico especializado em foguetes, passou aqui e gostaria 
de dar uma palavrinha com ele, sim?
       Lamento, mas no ser possvel  retorquiu ela com firmeza.
      Luke saiu, batendo a porta. Estava mais furioso consigo prprio do que com a secretria, que apenas procurava proteger o chefe de ser amolado por um biruta 
qualquer. Decidiu ir abrindo portas at algum o reconhecer ou ele ser atirado para fora. Subiu a escada. O prdio parecia deserto. Galgou uma escada de madeira 
sem corrimo e entrou no observatrio. Vazio, tambm. Ficou admirando o grande telescpio giratrio, com seu complexo sistema de engrenagens, uma verdadeira obra-prima 
da engenharia, e perguntou-se que diabo ia fazer em seguida.
      A secretria subiu a escada. Ele preparou-se para uma briga, mas ao contrrio, ela falou compreensivamente.
       O senhor est com algum problema, no est?
      A bondade dela fez com que ele sentisse um n na garganta.
        muito embaraoso  disse.  Perdi a memria. Sei que trabalho no campo de foguetes e estava esperando esbarrar em algum que me conhecesse.
       No h ningum aqui agora. O professor Larkley est fazendo uma palestra sobre combustveis para foguetes na Fundao Smithsonian, como parte do Ano Geofsico 
Internacional, e todo o corpo docente est l.
      Luke sentiu esperana. No lugar de um especialista em geofsica ele podia encontrar uma sala cheia deles.
       Onde fica a Fundao Smithsonian?
       No centro da cidade, bem no Mall, l pela rua Dez.
      Ele dirigira em Washington o bastante naquele dia para saber que no ficava longe.
       A que horas  a palestra?
       Comeou s trs.
      Luke consultou o relgio. Trs e meia. Se se apressasse, podia chegar l por volta de quatro horas.
       A Smithsonian  repetiu ele.
       Na verdade,  no prdio das aeronaves, nos fundos.
       Quantas pessoas estaro presentes, voc sabe?
       Umas cento e vinte.
      Certamente que uma delas haveria de conhec-lo!
       Muito obrigado!  agradeceu Luke, antes de descer correndo a escada e sair do prdio.

15:30

Girando, o tubo do segundo estgio estabiliza a trajetria do vo pela mdia das variaes existentes entre os onze pequenos motores.
Billie ficou furiosa com Len Ross por tentar cair nas graas do pessoal da Fundao. O posto de Diretor de Pesquisa devia ir para o melhor cientista  e no para 
o mais pegajoso. Ainda estava aborrecida de tarde, quando a secretria do diretor do hospital telefonou e pediu que fosse at a sala dele.
      Charles Silverton era contador, mas conhecia as necessidades dos cientistas. O hospital pertencia a uma fundao cujos objetivos eram compreender e aliviar 
a doena mental. Via como objetivo da sua funo assegurar-se de que problemas administrativos e financeiros no desviassem mdicos e cientistas do seu trabalho. 
Billie gostava dele.
      A sala do diretor fora a sala de jantar da manso vitoriana original, e ainda exibia a lareira e as sancas no teto. Ele indicou uma cadeira a Billie.
       Voc falou com o pessoal da Fundao hoje de manh?  perguntou ele.
       Falei. Len estava mostrando as obras a eles e me juntei ao grupo. Por qu?
      Ele no respondeu.
       Acha que pode ter dito alguma coisa que os ofendesse? 
      Ela ficou perplexa.
       Acho que no. S falamos a respeito da nova ala.
       Sabe, eu realmente queria que voc ficasse com o cargo de Diretor de Pesquisa.
      Billie ficou alarmada.
       No gosto do seu uso do passado! 
      Ele prosseguiu.
       Len Ross  um cientista competente, mas voc  excepcional. Realizou mais do que ele e  dez anos mais moa.
       A Fundao est querendo Len para o cargo? 
      Charles Silverton hesitou, meio sem graa.
       Lamento, mas acho que eles insistem nisso, como condio para continuarem com suas doaes.
       Eles que vo para o diabo!  Billie estava atnita.
       Voc conhece algum relacionado com a Fundao?
       Conheo. Um dos meus amigos mais antigos  membro do conselho diretor. Chama-se Anthony Carroll e  padrinho do meu filho.
       Por que ele faz parte do conselho? O que faz para viver?
       Anthony trabalha para o Departamento de Estado, mas sua me  muito rica e ele est envolvido com diversas obras de caridade.
       Ele tem alguma mgoa de voc?
      Por um momento, Billie voltou ao passado. Tinha ficado com raiva de Anthony depois da catstrofe que obrigara Luke a deixar Harvard e rompera o namoro. Mas 
o perdoara por causa do modo como se comportou em relao a Elspeth. Elspeth entrara em declnio, largando de mo o trabalho acadmico e chegou inclusive a correr 
o perigo de no conseguir se formar. Andava pelos corredores atordoada, um fantasma muito branco de compridos cabelos ruivos, cada dia mais magra e faltando a muitas 
aulas. Foi Anthony que a salvou. Eles se tornaram ntimos, embora o relacionamento fosse uma amizade, e no um romance. Estudavam juntos e ela conseguiu se recuperar 
o suficiente para ser aprovada. Anthony recuperou assim o respeito de Billie e desde ento tinham sido amigos.
       Fiquei furiosa com ele, l pelos idos de mil novecentos e quarenta um, mas fizemos as pazes h muito, muito tempo.
       Talvez algum no conselho admire o trabalho de Len. 
      Billie avaliou as palavras do seu chefe.
       A abordagem de Len  diferente da minha. Ele  freudiano, procura sempre explicaes psicanalticas. Se um paciente, de uma hora para outra, perder a capacidade 
de ler, ele ir presumir a existncia de um medo inconsciente da literatura. J eu sempre iria procurar um dano qualquer causado ao crebro como causa mais provvel.
       Ento pode ser que haja um freudiano entusiasmado no conselho da fundao que seja contra voc.
       Pode ser  suspirou Billie.  Eles podem fazer isso? Parece to injusto.
       Certamente que  incomum  respondeu Charles.  As fundaes normalmente fazem questo de no interferir em decises que demandem uma opinio profissional. 
Mas no h uma lei contra isso.
       Bem, no vou aceitar isso passivamente. Que razo eles deram?
       Recebi um telefonema informal do presidente do conselho. Ele me disse que o conselho considera Len mais bem qualificado.
      Billie sacudiu a cabea.
       Tem que haver outra explicao.
       Por que no pergunta ao seu amigo?
        exatamente o que vou fazer.

15:45

Um estroboscpio era usado para determinar exatamente onde deviam ser colocados pesos para que o tubo giratrio ficasse perfeitamente equilibrado  de outro modo 
a estrutura interna vibraria dentro da externa, fazendo com que toda a montagem se desintegrasse.
Luke consultou o mapa de ruas da cidade antes de deixar o campus da universidade de Georgetown. A Smithsonian Institution ficava em um parque chamado de Mall. Deu 
uma olhada no relgio enquanto seguia pela rua K. Chegaria na instituio em cerca de dez minutos. Presumindo que fosse precisar de mais cinco para encontrar o auditrio 
onde a palestra estava sendo realizada, chegaria no final. E ento teria que descobrir sua identidade.
      Quase onze horas tinham se passado desde que acordara para aquele quadro de horror. E, no entanto, como no era capaz de se lembrar de nada que ocorrera antes 
das cinco horas daquela manh, aquilo parecia estar acontecendo durante toda a sua vida.
      Virou  direita na rua Nove, rumando para o sul na direo do Mall com altas esperanas. Pouco depois ouviu uma sirene da polcia e seu corao falhou uma 
batida.
      Deu uma olhada no retrovisor. Uma radiopatrulha o seguia, as luzes piscando. Havia dois policiais no banco da frente. Um deles apontou para o meio-fio da direita 
e ordenou:
       Encosta!
      Luke sentiu-se devastado. Quase chegara l.
      Ser que tinha cometido alguma violao menor do cdigo de trnsito e eles s queriam mult-lo? Mesmo que fosse apenas isso, iam querer ver a carteira de motorista 
e ele no tinha nenhum tipo de identificao. De qualquer forma, no era uma transgresso qualquer. Ele estava dirigindo um carro roubado. Calculara que o roubo 
s seria participado depois que o dono voltasse da Filadlfia tarde da noite, mas alguma coisa sara errado. Os policiais tencionavam prend-lo.
      Mas teriam que peg-lo primeiro.
      Luke acionou o modo de fuga.  sua frente, na rua de mo nica, havia um caminho comprido. Sem mais delongas, meteu o p no acelerador e contornou o caminho.
      Os policiais ligaram a sirene a saram atrs dele.
      Luke entrou na frente do caminho em alta velocidade. Agindo na base do puro instinto, puxou o freio de mo e girou o volante para a direita.
      O Ford derrapou longamente, ao mesmo tempo em que virou. O motorista do caminho teve que dar um golpe de direo para a esquerda a fim de evit-lo e com isso 
forou a radio-patrulha a desviar para o lado esquerdo da rua.
      Luke passou para ponto morto a fim de impedir o motor do carro de apagar e parou virado ao contrrio. Engrenou a marcha de novo e pisou no acelerador, seguindo 
na contramo.
      Os carros se desviavam loucamente para a direita e a esquerda, querendo evitar uma coliso. Luke deu uma guinada para a direita, evitando um nibus, e depois 
cortou uma camionete, mas seguiu em frente, em meio a um coro de buzinas indignadas. Um Lincoln velho, de antes da guerra, subiu na calada e bateu num poste. Um 
motociclista perdeu o controle e caiu da moto. Luke esperou que no tivesse se ferido seriamente.
      Conseguiu chegar no primeiro cruzamento e virou  direita na avenida larga. Correu dois quarteires, ultrapassando sinais vermelhos, e depois olhou no espelho. 
Nem sinal do carro da polcia.
      Virou de novo, desta vez rumando para o sul. Estava perdido, mas sabia que o Mall ficava ao sul da posio onde se encontrava. Agora que a radiopatrulha no 
estava  vista, seria mais seguro dirigir normalmente. Eram, no entanto, quatro horas, e ele estava mais longe do instituto do que cinco minutos atrs. Se chegasse 
atrasado, a audincia teria ido embora. Pisou no acelerador.
      A rua que seguia para o sul no tinha sada e ele se viu forado a virar  direita. Tentou ver se lia os nomes das ruas enquanto prosseguia velozmente, ultrapassando 
os carros mais lentos. Estava na rua D. Aps um minuto entrou na Stima e virou para o sul.
      Sua sorte mudou. Todos os sinais estavam verdes. Cruzou a Constitution Avenue a mais de cem quilmetros por hora e viu-se no parque.
      Atrs do gramado  direita, viu um grande prdio vermelho escuro que mais parecia um castelo de fadas. Ficava exatamente onde o mapa dissera que a Smithsonian 
estaria. Luke parou o carro e consultou o relgio. Passavam cinco minutos das quatro horas. A audincia estaria indo embora. Com uma praga, saltou do carro.
      Atravessou o gramado correndo. A secretria lhe dissera que a palestra seria realizada no prdio das aeronaves, nos fundos. Aquilo seria a parte da frente 
ou a de trs? Parecia a frente. Ao lado da construo havia um caminho que atravessava um pequeno jardim. Seguiu por ali e foi dar em uma avenida larga, de duas 
pistas. Sempre correndo, encontrou um porto de ferro rebuscado, guardando a entrada dos fundos do museu.  sua direita, ao lado de um gramado, havia uma construo 
que parecia um hangar antigo, onde ele entrou.
      Olhou em torno. Havia todos os tipos de aeronaves suspensos do teto: velhos biplanos, um jato do tempo da guerra e at mesmo um balo esfrico de ar quente. 
Ao nvel do solo havia vitrinas com insgnias de aeronaves, uniformes de combate, cmeras areas e fotografias. Luke dirigiu-se a um guarda uniformizado.
       Vim para a palestra sobre combustveis de foguetes.
       Tarde demais  respondeu o homem, olhando para o relgio.  So quatro e dez, a palestra terminou.
       Onde foi realizada? Pode ser que eu ainda consiga pegar o palestrante.
       Acho que ele j foi embora.
      Luke lanou um olhar duro para o homem e falou devagar.
       Limite-se a responder  porra da pergunta que fiz. Onde? 
      O guarda pareceu assustar-se.
       L no fim  apressou-se a dizer.
      Luke atravessou correndo a extenso do prdio no sentido do comprimento. Bem no final havia sido improvisado um auditrio, com um plpito, quadro de giz e 
vrias filas de cadeiras. Quase toda a platia j tinha ido embora e os empregados do museu comeavam a empilhar as cadeiras a um canto do salo. Mas um grupinho 
de uns oito ou nove homens permanecia a um canto, absortos em uma discusso, em volta de um homem de cabelo branco que podia muito bem ser a pessoa que fizera a 
palestra.
      Luke desanimou. Poucos minutos atrs teria encontrado reunida ali mais de uma centena de cientistas do seu campo. Agora havia apenas um punhado e era bem possvel 
que nenhum deles o conhecesse.
      O homem de cabelo branco levantou os olhos para ele e voltou a se concentrar no grupo que o cercava. Impossvel saber se o tinha reconhecido ou no. Estava 
falando e seguiu em frente sem uma pausa.
       O nitrometano  quase impossvel de se manejar. Voc no pode ignorar os fatores de segurana.
       Mas  possvel aumentar a segurana dos processos, se o combustvel for bastante bom  disse um rapaz de terno de tweed.
      A discusso era familiar a Luke. Uma desconcertante variedade de combustveis para foguetes tinha sido testada, e muitos eram mais poderosos que a combinao 
padronizada de lcool e oxignio lquido, mas todos tinham suas desvantagens.
      Um homem de sotaque sulista perguntou:
       E o que acham da dimetilidrazina assimtrica? Eu soube que a esto testando no Laboratrio de Propulso a Jato de Pasadena.
       Funciona, mas  um veneno mortal  disse Luke, subitamente.
      Todos se viraram para ele. O homem de cabelo branco fechou a cara, ligeiramente aborrecido com aquela interrupo vinda de um estranho.
      Foi quando o rapaz de terno de tweed, chocado, disse:
       Meu Deus do cu, o que  que voc est fazendo aqui em Washington, Luke?
      Luke ficou to feliz que teve vontade de chorar.

PARTE TRS

16:15

Um programador em fita no tubo varia a velocidade de rotao dos estgios superiores de 450 a 750 rpm, para evitar vibraes de ressonncia que poderiam fazer com 
que o mssil se partisse no espao.
Luke no conseguiu falar. A emoo do alvio foi to forte que pareceu constringir sua garganta. O dia todo ele se obrigara a ser calmo e racional, mas agora estava 
prestes a ter um colapso.
      Os outros cientistas retomaram a conversa, indiferentes  sua agonia, a no ser pelo rapaz de terno de tweed, que pareceu preocupado e perguntou:
       Ei, voc est bem?
      Luke balanou a cabea. Aps um momento, conseguiu falar:
       Podemos conversar?
       Claro, claro. H uma salinha atrs da exposio dos Irmos Wright. O professor Larkley usou-a antes.
      Os dois se dirigiram para uma porta lateral.
       A propsito, fui eu que organizei esta palestra.
      Ele levou Luke para uma sala pequena, espartana, com duas cadeiras, uma mesa e um telefone. Os dois se sentaram.
       O que est havendo? 
       Perdi a memria.
       Meu Deus!
       Amnsia autobiogrfica. Ainda lembro da minha cincia  e foi por isso que consegui encontrar vocs  mas no sei nada a meu respeito.
      Parecendo chocado, o rapaz perguntou:
       Voc sabe quem eu sou? 
      Luke sacudiu a cabea.
       Droga, no tenho certeza nem do meu prprio nome.
       Puxa vida  o interlocutor de Luke ficou desconcertado.  Nunca vi uma coisa dessas na vida real.
       Preciso que voc me diga o que sabe a meu respeito.
       Acho que precisa mesmo. Bem... por onde devo comear?
       Voc me chamou de Luke.
       Todo mundo chama voc de Luke. Voc se chama Claude Lucas, mas acho que nunca gostou de Claude. Eu sou Will McDermott.
      Luke fechou os olhos, sufocado de alvio e gratido. Sabia o seu nome.
       Muito obrigado, Will.
       No sei nada a respeito de sua famlia. S me encontrei com voc umas duas vezes, em conferncias cientficas.
       Sabe onde moro?
       Huntsville, Alabama, acho eu. Voc trabalha para a Agncia de Msseis Balsticos do Exrcito, que fica no Redstone Arsenal, em Huntsville. Mas  civil, no 
 oficial do Exrcito. Seu chefe  Wernher von Braun.
       No posso dizer a voc como  bom saber essas coisas.
       Fiquei espantado por v-lo aqui porque a sua equipe est prestes a lanar um foguete que por um satlite americano em rbita pela primeira vez. Esto todos 
em Cabo Canaveral e o que se diz  que o lanamento ser hoje  noite.
       Li uma notcia a respeito no jornal, hoje de manh  meu Deus, eu trabalhei mesmo naquele foguete?
       Claro.  o Explorer. O mais importante lanamento na histria do programa espacial americano  especialmente depois do sucesso do Sputnik russo e o fracasso 
do Vanguard da Marinha.
      Luke ficou entusiasmado. Apenas algumas horas atrs ele se imaginara um vagabundo bbado. Via agora que era um cientista no topo da carreira.
       Mas eu devia estar l para o lanamento!
       Exatamente... E ento, voc tem alguma idia do motivo pelo qual no est?
      Luke sacudiu a cabea.
       Acordei hoje de manh deitado no cho do banheiro masculino da Union Station. No tenho a menor idia de como fui parar l.
      Will dirigiu-lhe um sorriso de homem para homem.
       Parece que voc foi a uma festa e tanto ontem  noite!
       Deixa eu lhe perguntar uma coisa a srio   o tipo de coisa que eu faria? Ficar bbado a ponto de perder os sentidos?
       No conheo voc suficientemente para responder  Will franziu a testa.  Mas ficaria espantado. Voc sabe como ns, cientistas, somos. Nossa idia de festa 
 ficar tomando caf e falando sobre nosso trabalho.
      Luke concordou com aquilo.
       Ficar bbado simplesmente no parece ser interessante. 
      Mas no tinha outra explicao de como entrara naquela complicao. Quem era Pete? Por que havia gente o seguindo? E quem eram aqueles dois homens que o procuravam 
na Union Station?
      Pensou em falar com Will a respeito de tudo isso e decidiu que parecia estranho demais. Will podia comear a pensar que estava louco.
       Vou telefonar para Cabo Canaveral.
       Grande idia.
      Will pegou o telefone em cima da mesa e discou zero.
       Will McDermott falando. Posso fazer uma ligao interurbana deste telefone? Obrigado.
      Ele passou o aparelho para Luke.
      Luke pediu o nmero na seo de Informaes e discou.
       Aqui  o dr. Lucas.
      Sentiu-se extraordinariamente feliz em poder dar seu nome: jamais imaginara que isso podia ser to agradvel.
       Eu gostaria de falar com algum da equipe de lanamento do Explorer.
        Todos esto nos hangares D e R  disse o telefonista.  Por favor, espere um pouco.
      Um momento depois ele ouviu uma voz.
       Segurana do Exrcito, coronel Hide falando.
       Aqui  o dr. Lucas.
       Luke! Finalmente! Onde diabos voc est?
       Em Washington.
       O que est fazendo a, em nome de Deus? Estvamos ficando malucos! Temos a segurana do Exrcito procurando voc, o FBI e at a CIA!
      O que explicava os dois agentes procurando a Union Station, pensou Luke.
       Olha s, aconteceu uma coisa estranha. Perdi a memria. Estava perambulando pela cidade tentando descobrir quem eu era. Finalmente encontrei uns fsicos 
que me conheciam.
       Mas que extraordinrio! Como foi que isso aconteceu, pelo amor de Deus?
       Eu estava esperando que o senhor me contasse, coronel.
       Voc sempre me chamou de Bill. 
       Bill.
       OK, ento vou lhe contar tudo quanto sei. Na manh de segunda-feira voc pegou um avio, dizendo que tinha que ir a Washington. Saiu de Patrick.
       Patrick?
       A base da Fora Area que fica perto de Cabo Canaveral. Marigold fez as reservas...
       Quem  Marigold?
       Sua secretria em Huntsville. Ela tambm reservou a sute onde voc sempre fica no Carlton Hotel de Washington.
      Havia um toque de inveja na voz do coronel, e Luke pensou por um segundo naquela coisa da sute onde ficava sempre, mas tinha perguntas mais importantes a 
fazer.
       Eu disse para algum o objetivo da viagem?
       Marigold marcou uma entrevista para voc com o general Sherwood no Pentgono s dez horas da manh de ontem  mas voc no apareceu.
       Eu dei alguma razo para querer falar com o general?
       Tudo indica que no.
       Qual  a rea de responsabilidade dele?
       Segurana  mas como tambm  amigo de sua famlia, o encontro podia ser sobre qualquer coisa.
      Devia ter sido mesmo algo muito importante, ponderou Luke, para afast-lo de Cabo Canaveral pouco antes do seu foguete ser lanado.
       O lanamento vai ser mesmo hoje?
       No, estamos com problemas de condies atmosfricas. Foi adiado para amanh s dez da noite.
      Luke gostaria de saber que diabos teria feito.
       Eu tenho amigos aqui em Washington?
       Sem dvidas. Um deles me tem ligado de hora em hora. Bern Rothsten.
      Hide leu um nmero de telefone. 
      Luke rabiscou o nmero num bloco.
       Vou telefonar para ele agora mesmo.
       Primeiro voc devia ligar para a sua mulher.
      Luke ficou chocado. No conseguiu respirar. Mulher. Eu sou casado. Perguntou-se como seria. 
       Al?
      Luke comeou a respirar de novo. 
       Ei,Bill... 
       Sim?
       Qual  o nome dela?
       Elspeth. O nome da sua mulher  Elspeth. Vou transferir voc para o telefone dela. Espera um pouco.
      Luke sentiu um frio na boca do estmago. Aquilo era uma bobagem, pensou. Tratava-se da sua mulher.
       Elspeth falando.  voc, Luke?
      A voz era clida e baixa, com uma dico precisa e nenhum sotaque. Imaginou uma mulher alta e confiante.
       Sim, aqui  o Luke. Perdi a memria.
       Fiquei to preocupada. Voc est bem?
      Luke sentiu-se pateticamente grato por haver algum que se importasse com ele.
       Acho que agora estou.
       Mas afinal, o que foi que aconteceu?
       Na verdade eu no sei. Acordei hoje de manh no banheiro masculino da Union Station e passei o dia tentando descobrir minha identidade.
       Todo mundo est procurando voc. Onde est agora?
       Na Smithsonian, edifcio das aeronaves.
       Algum est cuidando de voc? 
      Luke sorriu para Will McDermott.
       Um outro cientista me ajudou muito. E estou com o nmero do telefone de Bern Rothsten. Mas eu realmente no preciso de que tomem conta de mim. Estou timo. 
S perdi a memria.
      Will McDermott levantou-se, parecendo envergonhado e cochichou:
       Vou lhe dar um pouco de privacidade. Espero a fora. 
      Luke balanou a cabea, em agradecimento. 
      Elspeth estava falando.
       Ento voc no se lembra de ter viajado para Washington to apressadamente.
       No.  bvio que no disse a voc a razo.
       Voc falou que era melhor que eu no soubesse. Mas fiquei maluca. Telefonei para um velho amigo nosso em Washington. Anthony Carroll, que trabalha na CIA.
       Ele fez alguma coisa?
       Telefonou para voc no Carlton na noite de segunda-feira e voc combinou ir tomar caf com ele na manh de tera. S que no apareceu. Anthony procurou voc 
o dia inteiro. Vou ligar para ele agora e dizer que est tudo bem.
        evidente que me aconteceu alguma coisa entre a noite de segunda e a manh de tera.
       Voc devia procurar um mdico, fazer uns exames.
       Sinto-me bem. Mas h um monte de coisas que quero saber. Ns temos filhos?
       No.
      Luke sentiu uma tristeza que lhe pareceu familiar, como a dor meio enfraquecida de um antigo machucado. 
      Elspeth continuou.
       Estamos tentando ter um filho desde que nos casamos, ou seja, h quatro anos, mas ainda no conseguimos.
       Meus pais esto vivos?
       Sua me est. Mora em Nova York. Seu pai morreu h cinco anos.
      Luke sentiu uma sbita onda de dor vinda, ao que parecia, do nada. Perdera a lembrana do pai e nunca mais o veria de novo. Era intoleravelmente triste.
      Elspeth prosseguiu.
       Voc tem dois irmos e uma irm, todos mais moos. Sua irm Emily  a sua favorita. Tem menos dez anos que voc e mora em Baltimore.
       Voc tem os telefones deles?
       Claro. Espera a enquanto eu pego.
       Gostaria de falar com eles, no sei por qu.
      Ele ouviu um soluo abafado do outro lado da linha.
       Voc est chorando?
      Elspeth, fungando, garantiu que estava bem. Ele a imaginou pegando um leno na bolsa.
       De repente senti pena de voc  disse ela, chorosa.  Deve ter sido horrvel.
       Houve alguns momentos ruins.
       Deixa eu lhe dar aqueles telefones  ela leu os nmeros pausadamente.
       Ns somos ricos?  perguntou Luke depois de escrever os telefones.
       Seu pai foi um banqueiro muito bem-sucedido. Deixou muito dinheiro. Por qu?
       Bill Hide me disse que eu me hospedei em minha sute costumeira no Carlton.
       Antes da guerra seu pai foi assessor da administrao Roosevelt e gostava de levar a famlia quando ia a Washington. Vocs ficavam sempre numa sute de esquina 
no Carlton. Acho que voc est mantendo a tradio.
       Ento voc e eu no vivemos do que o exrcito me paga.
       No, embora em Huntsville ns tentemos no viver muito acima dos seus colegas.
       Eu podia continuar interrogando voc o dia inteiro. Mas tudo o que quero na verdade  descobrir o que me aconteceu. Quer pegar um avio e vir para c? 
      Houve um momento de silncio.
       Meu Deus, por qu?
       Para resolver este mistrio. Um pouco de ajuda me faria bem. E companhia.
       Voc devia esquecer o que houve e vir para c. 
      Impensvel.
       No posso esquecer isto. Tenho que saber de que se trata.  estranho demais para ignorar.
       Luke, eu no posso deixar Cabo Canaveral agora. Estamos prestes a lanar o primeiro satlite americano, pelo amor de Deus! No posso desapontar a equipe 
num momento desses.
       Acho que no.
      Ele compreendeu, mas ao mesmo tempo ficou magoado com a recusa.
       Quem  Bern Rothsten?
       Estudou em Harvard com voc e Anthony Carroll. Agora  escritor.
       Parece que vem tentando me encontrar. Talvez saiba do que se trata.
       Telefone para mim depois, sim? Estarei no Starlite Motel de noite.
       Est bem.
       Tome cuidado, Luke, por favor  disse ela, muito sria.
       Vou tomar, prometo.
      Ele desligou e ficou em silncio por um momento. Sentia-se emocionalmente esgotado. Tinha vontade de voltar para o hotel e deitar, mas estava curioso demais. 
Pegou o telefone de novo e discou o nmero que Bern Rothsten deixara.
       Aqui  Luke Lucas  disse, quando o telefone foi atendido. 
      Bern tinha a voz grave e um resqucio de sotaque nova-iorquino.
       Luke! Graas a Deus! O que foi que aconteceu com voc?
       Todo o mundo pergunta a mesma coisa. A resposta  que realmente no sei de nada, exceto que perdi minha memria.
       Voc perdeu a memria?
       Isso.
       Que merda. Voc sabe como aconteceu?
       No. Eu estava esperando que voc pudesse ter uma pista.
       Pode ser que eu tenha.
       Por que estava querendo me encontrar?
       Eu estava preocupado. Voc me telefonou na segunda-feira. Disse que estava a caminho e que queria me ver. Ia me telefonar do Carlton. Mas nunca telefonou.
       Alguma coisa me aconteceu na noite de segunda-feira.
       Claro. Olha, voc tem que telefonar para uma pessoa. A dra. Billie Josephson  uma perita em memria de fama mundial.
      O nome era conhecido.
       Acho que vi um livro dela na biblioteca.
       Ela  minha ex-mulher e uma velha amiga sua. 
      Bern deu um nmero de telefone a Luke.
       Vou telefonar para ela agora mesmo, Bern...
       Certo.
       Perdi a memria e acontece que uma velha amiga minha  uma autoridade mundial em memria. No  uma coincidncia e tanto?
       O pior  que voc est certo  concordou Bern.

16:45

O estgio final, contendo o satlite, tem quase dois metros de comprimento de 80 polegadas e somente 6 polegadas de largura e pesa apenas quinze quilos. Tem a forma 
de um tubo de aquecimento.
Billie tinha marcado uma entrevista de uma hora com um paciente, um jogador de futebol que sofrera uma concusso cerebral em um choque com um oponente. Era um caso 
interessante, porque ele era capaz de se lembrar de tudo at uma hora antes do jogo mas depois disso no conseguia se lembrar de nada at o momento em que se viu 
 margem do campo, de costas para o jogo, perguntando-se como fora parar ali.
      Durante a entrevista ela ficou distrada, pensando na Fundao Sowerby e em Anthony Carroll. Quando terminou com o jogador de futebol e ligou para Anthony, 
estava se sentindo frustrada e impaciente. Teve sorte e ele atendeu no primeiro toque.
       Anthony  disse, abruptamente , o que diabos est acontecendo?
       Muita coisa  foi a resposta dele.  Egito e Sria resolveram se unir, as saias esto ficando mais curtas e Roy Campanella quebrou o pescoo em um acidente 
de carro e talvez nunca mais jogue de novo pelos Dodgers.
      Billie controlou o impulso de gritar com ele.
       Fui passada para trs na corrida para o posto de Diretor de Pesquisa aqui do hospital  disse, com calma forada.  Len Ross conseguiu o lugar. Voc sabia 
disso?
       Sim, acho que eu sabia.
       No entendo. Eu achava que podia perder para algum de fora que fosse altamente qualificado  Sol Weiberg, de Princeton, ou algum desse tope. Mas todo mundo 
sabe que sou melhor que Len.
       Sabe mesmo?
       Ora, Anthony, deixa disso! Voc mesmo sabe. Com os diabos, voc me encorajou a seguir a linha da pesquisa, anos atrs, no fim da guerra, quando ns...
       Est bem, est bem, eu me lembro!  ele interrompeu.  Mas esse troo ainda  reservado, voc sabe.
      Ela no acreditava que as coisas que eles tinham feito durante a guerra ainda pudessem ser segredos importantes. Mas no fazia mal.
       Ento, por que no consegui o lugar?
       Eu devo saber?
      Aquilo era humilhante, ela sabia, mas sua necessidade de compreender o que se passara sobreps-se ao seu embarao.
       A Fundao est insistindo em Len.
       Acho que  um direito que a Fundao tem.
       Anthony, fale comigo!
       Estou falando.
       Voc trabalha na Fundao.  muito raro esse tipo de interferncia. A escolha normalmente cabe a peritos. Voc deve saber a razo pela qual a Fundao tomou 
uma deciso excepcional como esta.
       Bem, eu no sei. E meu palpite  que o passo ainda no foi dado. Certamente no houve uma reunio a respeito  eu teria sido avisado.
       Charles foi muito definitivo.
       No duvido que seja errado, lamentavelmente para voc. Mas no  o tipo de coisa decidida abertamente. O mais provvel  que o diretor e mais um ou dois 
membros da junta diretora tenham batido um papo tomando um drinque no Cosmos Club. Um deles ligou para Charles e falou. Como Charles no pode se dar ao luxo de afrontar 
a Fundao, baixou a cabea. E assim que essas coisas funcionam. S me espanta ver como Charles pde ter se aberto a esse ponto com voc.
       Acredito que tenha sido porque ele ficou chocado. No consegue entender por que a Fundao faria uma coisa dessas. Achei que voc podia saber.
       Provavelmente  uma coisa bem idiota. Ross tem famlia?
       Casado com quatro filhos.
       O Diretor na verdade no aprova que mulheres ganhem bons salrios enquanto h homens por a lutando para sustentar suas famlias.
       Pelo amor de Deus! Eu tenho um filho e uma me idosa para cuidar!
       Eu no falei que era lgico. Olha s, Billie, tenho que desligar. Desculpe. Telefono para voc mais tarde.
       OK.
      Quando desligou, Billie ficou olhando para o telefone, tentando avaliar seus sentimentos. A conversa lhe soara falsa e gostaria de saber o motivo. Era perfeitamente 
plausvel que Anthony pudesse no ter conhecimento das maquinaes dos outros membros da junta que dirigia a Fundao. Por que ento no acreditar nele? Pensando 
bem, via agora que sem dvida nenhuma ele fora evasivo  o que no era do seu feitio. No fim ele lhe contara o pouco que sabia, mesmo que relutantemente. A soma 
de tudo a levava a ter uma impresso muito clara.
      Anthony estava mentindo.

17:00

O quarto estgio  feito de titnio em vez de ao inoxidvel. A reduo no peso permite que o mssil carregue um quilo extra de importantssimo equipamento cientfico.
Quando Anthony desligou o telefone tocou de novo imediatamente. Ele atendeu e ouviu Elspeth, parecendo assustada.
       Pelo amor de Deus, fiquei esperando voc desligar durante quinze minutos!
       Eu estava falando com a Billie, ela...
       Deixa para l. Acabo de falar com o Luke.
       Jesus, como  que pode?
       Cala a boca e escuta! Ele estava no Smithsonian, no prdio das Aeronaves, com um bando de fsicos.
       Estou saindo.
      Anthony largou o telefone e correu para a porta. Pete o viu e correu atrs. Foram juntos para o estacionamento e pularam dentro do carro de Anthony.
      O fato de Luke ter falado com Elspeth apavorou Anthony. Teve a impresso de que tudo estava se desfazendo. Mas podia ser que, se chegasse perto de Luke antes 
de todo mundo, conseguisse ainda dar um jeito de segurar as pontas. Gastaram quatro minutos para ir da Independence Avenue at a rua Dez. Deixaram o carro do lado 
de fora da entrada dos fundos do museu e entraram correndo no velho hangar que era o prdio das Aeronaves.
      Havia um telefone pblico perto da entrada, mas nem sinal de Luke.
       Vamos nos separar  disse Anthony.  Vou para a direita e voc para a esquerda.
      Ele seguiu por entre as vitrinas, examinando os rostos dos homens que contemplavam os objetos expostos ou admiravam as aeronaves suspensas do teto. No final 
se encontrou com Pete, que levantou as mos vazias indicando que no tivera xito.
      Havia alguns toaletes e escritrios de um lado, Pete verificou o toalete masculino e Anthony olhou os escritrios. Luke devia ter falado de um daqueles telefones, 
mas no estava ali agora.
      Pete saiu do toalete masculino.
       Nada.
       Isto  uma catstrofe  disse Anthony. 
      Pete estranhou.
        mesmo? Uma catstrofe? O homem  mais importante do que voc me falou?
         confirmou Anthony.  Ele pode ser o homem mais perigoso neste pas.
       Cristo.
      Encostados na parede dos fundos, Anthony viu cadeiras empilhadas e um plpito movedio. Um rapaz de terno de tweed conversava com dois homens de macaco. Anthony 
lembrou que Elspeth dissera que Luke estava com um bando de fsicos. Talvez ainda pudesse levantar o seu rastro.
      Aproximou-se do homem de terno de tweed e disse:
       Com licena, houve alguma reunio aqui?
       Houve sim. O professor Larkley fez uma palestra sobre combustveis para foguetes  informou o rapaz.  Eu sou Will McDermott. Organizei essa palestra como 
parte do Ano Geofsico Internacional.
       O dr. Claude Lucas compareceu?
       Sim. Ele  seu amigo? 
       . 
       Sabia que ele perdeu a memria?
       Sabia.
       Nem sequer sabia o prprio nome, at que eu lhe disse. 
      Anthony conteve uma praga. Estava com medo de que tivesse acontecido isso desde o momento em que Elspeth disse que tinha falado com Luke. Ele sabia quem era.
       Preciso localizar o dr. Lucas urgentemente.
       Que pena, ele acabou de sair.
       Ele disse para onde estava indo?
       No. Tentei encoraj-lo a procurar um mdico, a fazer um exame, mas ele garantiu que estava bem. Achei que parecia muito chocado.
       Sim, sim, muito obrigado. Agradeo a sua ajuda. 
      Anthony virou-se e saiu rapidamente. Estava furioso.
      Ao sair, viu um carro da polcia parado na Independence Avenue. Dois guardas examinavam um automvel estacionado do outro lado da avenida. Anthony aproximou-se 
e viu que o carro era um Ford Fiesta azul e branco.
       Olha s isso a  disse para Pete.
      Checou a licena. Era a mesma que Rosa Curiosa tinha visto de sua janela em Georgetown.
      Ele mostrou sua identidade da CIA aos patrulheiros.
       Vocs acabaram de ver este carro estacionado ilegalmente?  perguntou.
      Foi o mais velho dos dois patrulheiros que respondeu.
       No, ns vimos um homem dirigindo esse carro ali na rua Nove. Mas ele fugiu.
       Vocs o deixaram escapar?  perguntou Anthony, incrdulo.
       Ele fez a volta e se meteu na contramo do trnsito  disse o policial mais moo.  Um motorista e tanto, quem quer que seja.
       Poucos minutos depois ns vimos o carro estacionado aqui, mas ele tinha ido embora.
      Anthony teve vontade de bater as cabeas de pau dos dois guardas uma contra a outra. Mas conteve-se.
       Este fugitivo pode ter roubado outro carro aqui pela vizinhana e fugido  disse, pegando um carto na carteira.  Se forem informados de um carro roubado 
nas proximidades, ser que poderiam fazer o favor de me avisar neste nmero aqui?
      O guarda mais velho leu o carto e respondeu:
       Eu me responsabilizo por isso, sr. Carroll.
      Anthony e Pete voltaram para o Cadillac amarelo e foram embora.
       O que voc acha que ele vai fazer agora?  perguntou Pete.
       No sei. Pode ter ido direto para o aeroporto a fim de tomar um avio para a Flrida, para o Pentgono ou para o seu hotel. Droga, pode ser que ele tenha 
metido na cabea que devia visitar a me em Nova York. Pode ser que tenhamos que nos espalhar.
      Ele ficou em silncio, pensando, enquanto estacionou e entrou no prdio Q. S falou quando chegou na sua sala.
       Quero dois homens no aeroporto, dois na Union Station, dois na estao rodoviria. Quero dois homens telefonando para todos os membros conhecidos da famlia 
de Luke, amigos e conhecidos, perguntando se esto esperando v-lo ou se tiveram notcias dele. Quero que voc v com dois homens para o Carlton Hotel. Consigam 
um quarto e depois desam para vigiar o saguo. Irei me juntar a voc mais tarde.
      Pete saiu e Anthony fechou a porta.
      Pela primeira vez naquele dia, Anthony sentiu medo. Agora que Luke sabia quem era, no havia como prever o que mais ele poderia descobrir. Esse projeto poderia 
ter sido o maior triunfo de Anthony, mas estava se transformando num fracasso que poderia pr fim na sua carreira.
      Poderia pr fim na sua vida.
      Se conseguisse encontrar Luke, ainda daria para remendar as falhas. Mas seria obrigado a tomar medidas drsticas. No seria mais somente uma questo de vigiar 
Luke. Tinha que resolver o problema de uma vez por todas.
      Angustiado, foi at onde havia uma foto do presidente Eisenhower pendurada na parede. Puxou um dos lados da moldura e o quadro girou nas dobradias, revelando 
um cofre. Discou a combinao, abriu a porta e pegou sua arma.
      Era uma Walther P38 automtica, a pistola que fora usada pelo Exrcito Alemo na Segunda Guerra Mundial. Anthony a recebera antes de seguir para a frica do 
Norte. Tambm tinha um silenciador projetado especialmente pela OSS para aquela arma.
      A primeira vez que matara um homem fora com aquela pistola.
      Albin Moulier era um sujeito desleal que trara membros da resistncia francesa, entregando-os  polcia. Ele merecia morrer  os cinco homens integrantes 
da clula tinham concordado quanto a isso. Tinham tirado a sorte, em um estbulo abandonado, tarde da noite, com uma lmpada a projetar sombras danantes sobre as 
rsticas paredes de pedra. Anthony podia ter sido dispensado, por ser o nico estrangeiro, mas assim teria perdido o respeito dos demais, de modo que insistiu em 
tirar a sorte junto com eles. E foi justamente quem tirou a palha mais curta.
      Albin foi amarrado  roda enferrujada de um arado quebrado, sem ter sido sequer vendado, ouvindo a discusso e assistindo ao sorteio. Sujou-se todo quando 
pronunciaram a sentena de morte e gritou quando viu Anthony sacar a Walther. O grito ajudou: fez Anthony querer mat-lo depressa s para acabar com aquele barulho.
      Atirou em Albin  queima-roupa, entre os olhos, uma s bala. Depois os outros disseram que ele tinha se sado bem, sem hesitao ou arrependimentos, como um 
homem.
      Ainda via Albin em seus sonhos.
      Pegou o silenciador no cofre, ajustou-o no cano da pistola e apertou bem. Vestiu o sobretudo. Era um casaco de inverno, comprido, de plo de camelo, com uma 
fileira de botes e grandes bolsos do lado de dentro. Colocou a pistola, cabo para baixo, no bolso do lado direito, com o silenciador para cima. Deixando o sobretudo 
desabotoado, estendeu a mo esquerda, levantou a arma pelo silenciador e transferiu-a para a mo direita. Em seguida acionou com o polegar a alavanca de segurana 
do lado esquerdo para a posio de tiro. O processo todo durou cerca de um segundo. O silenciador tornava a arma difcil de ser manejada. Seria mais fcil tratar 
das duas partes separadamente. No entanto, podia ser que ele no tivesse tempo de ajustar o silenciador antes de atirar. Assim era melhor.
      Anthony Carroll abotoou o casaco e saiu.

18:00

O satlite tem mais a forma de uma bala que a de uma esfera. Em teoria, uma esfera deveria ser mais estvel, mas, na prtica, o satlite precisa ter antenas para 
as comunicaes via rdio e essas antenas estragariam a forma esfrica.
Luke tomou um txi para o Georgetown Mind Hospital e deu seu nome na mesa de recepo, dizendo que tinha hora marcada com a dra. Josephson.
      Ela fora encantadora ao telefone: preocupada com ele, feliz por ouvir sua voz, intrigada ao saber que perdera a memria, ansiosa por v-lo assim que fosse 
possvel. Falava com sotaque do sul e parecia que estava sempre prestes a dar uma risada. 
      A dra. Josephson desceu correndo a escada, uma mulher de baixa estatura, grandes olhos castanhos e o rosto corado de excitao, envergando um avental branco 
de laboratrio.
      Luke no pde deixar de sorrir ao v-la.
        to bom ver voc!  disse ela, lanando os braos em torno dele num forte abrao.
      Luke sentiu vontade de reagir  sua exuberncia e abra-la fortemente tambm. Mas com medo de fazer qualquer coisa que pudesse ofend-la, levantou as duas 
mos como se estivesse sendo assaltado.
      Ela riu.
       Voc no se lembra de como eu sou  disse.  Calma, sou quase inofensiva.
      Ele deixou os braos carem sobre os ombros dela. O corpinho pequeno era macio sob o avental.
       Venha, vou lhe mostrar minha sala.
      Ela o conduziu para o andar de cima e, quando cruzaram um corredor amplo, uma mulher de cabelos brancos que vestia um roupo de banho disse:
       Doutora! Gosto do seu namorado! 
      Billie sorriu e disse:
       Pode ficar com ele depois, Marlene.
      A sala era pequena, com uma mesa comum e um arquivo de ao, mas Billie a embelezara com flores e um quadro abstrato em cores vivas. Deu um caf a Luke, abriu 
um pacote de biscoitos e depois lhe fez perguntas sobre a amnsia.
      Enquanto ouvia as respostas, ela ia fazendo anotaes. Luke no comia havia doze horas e devorou todos os biscoitos. Ela sorriu e disse:
       Quer mais? Tem outro pacote a. 
      Ele sacudiu a cabea.
       Bem, o quadro, como vejo agora,  bastante claro  disse ela por fim.  Voc est com uma amnsia global, mas a no ser por isso me parece mentalmente saudvel. 
No posso avaliar seu estado fsico, porque no sou habilitada, mas meu dever  aconselh-lo a se submeter a um exame fsico to cedo quanto for possvel.
      Ela fez uma pausa e sorriu.
       Mas parece bem, s um pouco chocado  completou.
       H cura para este tipo de amnsia?
       No, no h. O processo geralmente  irreversvel.
      A revelao foi um golpe para ele. As esperanas de Luke eram de que tudo voltasse de repente.
       Cristo  resmungou.
       No fica desanimado  disse Billie, bondosamente.  Os pacientes desse tipo de amnsia tm todas as suas faculdades e ainda so capazes de reaprender o que 
tiverem esquecido, de modo que geralmente podem retomar o fio de suas vidas e seguir adiante normalmente. Voc vai ficar bem.
      Mesmo tomando conhecimento de informaes to horrveis, ele descobriu-se fitando-a fascinado, concentrando a ateno primeiro nos olhos, que pareciam brilhar 
com solidariedade, depois na boca expressiva e por fim no modo como a luz que vinha da lmpada em sua mesa caa sobre os cachos escuros. Queria que ela continuasse 
falando para sempre.
       O que pode ter causado esta amnsia?  perguntou ele.
       Uma concusso cerebral seria a primeira possibilidade a considerar. No h, contudo, sinal de ferimento e voc me disse que no sente dor de cabea.
       Tudo bem. O que mais?
       H diversas alternativas  explicou ela pacientemente. A amnsia global pode ser causada por estresse prolongado, choque sbito, ou drogas.  tambm uma 
seqela de alguns tratamentos contra a esquizofrenia, envolvendo uma combinao de choques eltricos e drogas.
       Alguma maneira de dizer qual dessas foi a causa do meu problema?
       No de forma conclusiva. Voc disse que teve uma espcie de ressaca hoje de manh. Se no foi lcool, pode ter sido o efeito residual de alguma droga. Mas 
voc no vai conseguir uma resposta final falando com mdicos. Precisa descobrir o que lhe aconteceu entre a noite de segunda-feira e a manh de hoje.
       Bem, pelo menos sabemos o que estou procurando: choque, drogas ou tratamento de esquizofrenia.
       Voc no  esquizofrnico. Tem uma excelente noo de realidade. Qual ser seu prximo passo?
      Luke levantou-se. Sentia-se relutante em deixar a companhia daquela mulher to sedutora, mas ela lhe havia dito tudo quanto fora capaz.
       Vou ver Bern Rothsten. Acho que pode ter algumas idias.
       Tem carro?
       Pedi ao txi para esperar.
       Vou acompanh-lo.
      Enquanto desciam a escada, Billie pegou o brao dele afetuosamente.
       H quanto tempo voc est divorciada de Bern?  perguntou Luke.
       Cinco anos. Tempo suficiente para nos tornarmos amigos.
       Agora, uma pergunta estranha, mas tenho que faz-la. Voc e eu j namoramos?
       Puxa vida  disse Billie.  E como!
               
1943
No dia em que a Itlia se rendeu, Billie esbarrou em Luke no saguo do Prdio Q.
      A princpio ela no o reconheceu. Viu um homem magro, aparentemente com uns trinta anos, em um terno que era grande demais, e seus olhos passaram por ele sem 
reconhec-lo. Ento ele falou, Billie? No se lembra de mim?
      Ela conheceu a voz, claro, o que fez com que seu corao batesse mais depressa. Mas quando olhou de novo para o homem muito magro que pronunciara aquelas palavras, 
deu um gritinho de horror. A cabea dele mais parecia uma caveira. Seu cabelo negro, antigamente to brilhante, estava opaco. O colarinho da camisa era grande demais 
e o palet dava a impresso de estar pendurado num cabide de arame. Os olhos eram os olhos de um velho.
       Luke!  exclamou.  Voc est pssimo!
       Muito obrigado  disse ele, com um sorriso fatigado.
       Desculpe  ela apressou-se a dizer.
       No se preocupe. Sei que perdi peso. No h muita comida no local de onde venho.
      Ela teve mpetos de abra-lo, mas se conteve, sem saber se ele ia gostar.
       O que voc est fazendo aqui?  perguntou Luke. 
      Ela respirou fundo.
       Um estgio de treinamento  mapas, rdio, armas de fogo, lutas marciais.
      Ele sorriu.
       Voc no est vestida para jiu-jitsu.
      Billie ainda gostava de se vestir com elegncia, a despeito da guerra. Naquele dia estava com um conjunto amarelo-claro, com um bolero curto, uma ousada saia 
 altura dos joelhos e um chapu que lembrava um prato de comida de cabea para baixo. No podia se dar ao luxo de comprar os ltimos lanamentos da moda com o salrio 
que o Exrcito lhe pagava,  claro, de modo que ela prpria fizera tudo aquilo usando uma mquina de costura emprestada. Seu pai ensinara todos os filhos a costurar.
       Vou aceitar isso como um cumprimento  disse ela com um sorriso, comeando a se recuperar do choque inicial.  Onde tem estado?
       Voc tem um minuto?
       Claro.
      Ela deveria estar numa aula de criptografia, mas ao inferno com a aula.
       Vamos l para fora.
      Era uma tarde quente de setembro. Luke tirou o palet e pendurou-o no ombro enquanto caminhavam ao longo do lago.
       Como voc entrou para a OSS?
       Anthony Carroll foi quem arrumou  respondeu ela.
      A OSS  Office of Strategic Service  era considerada uma misso glamourosa e qualquer posio ali era muito invejada.
       Anthony usou influncia da sua famlia para chegar aqui.  agora assistente pessoal de Bill Donovan.
      O general Wild Bill Donovan era o chefe da OSS.
       Eu estava trabalhando h quase um ano como motorista de um general em Washington, de modo que fiquei muito feliz de ter sido designada aqui para a OSS. Anthony 
usou sua posio para nomear todos os seus amigos de Harvard. Elspeth est em Londres, Peg no Cairo, e eu imagino que voc e Bern estiveram em algum lugar atrs 
das linhas do inimigo.
       Frana  disse Luke.
       E que tal foi l?
      Ele acendeu um cigarro. Era um novo hbito  ele no fumava em Harvard, mas agora encheu os pulmes de fumaa como se fosse a essncia da vida.
       O primeiro homem que matei foi um francs  disse ele, de sbito.
      Era dolorosamente bvio que ele precisava falar sobre aquilo.
       Conte-me o que aconteceu  disse ela.
       Era um policial, um gendarme. Claude, o mesmo nome que eu. No era realmente um mau sujeito  anti-semita, mas no mais que a mdia dos franceses, ou, para 
falar a verdade, que um monte de americanos. Ele entrou em uma casa de fazenda onde meu grupo estava reunido. No havia dvida quanto ao que estvamos fazendo  
tnhamos mapas em cima da mesa e fuzis encostados a um canto. Bern mostrava aos franceses como montar uma bomba de tempo.
      Luke deu uma risada, um riso estranho, sem humor.
       O maldito idiota tentou nos prender. No que fizesse diferena. Ele tinha que ser morto de qualquer maneira.
       O que foi que voc fez?
       Levei-o para fora e dei-lhe um tiro na nuca.
       Oh, meu Deus.
       Ele no morreu logo. Levou cerca de um minuto para morrer.
      Ela pegou a mo dele e apertou. Luke deixou e, assim, os dois saram caminhando de mos dadas em torno do lago comprido e estreito. Ele lhe contou uma histria 
sobre uma mulher da Resistncia que fora capturada e torturada e Billie chorou, as lgrimas rolando pelo seu rosto ao sol de setembro. A tarde esfriou e detalhes 
amargos continuaram a jorrar: carros explodidos, oficiais alemes assassinados, camaradas da Resistncia mortos em tiroteios e famlias judias sendo levadas para 
destinos desconhecidos, segurando as mos dos filhos confiantes.
      Tinham caminhado durante duas horas quando ele tropeou e ela teve que ampar-lo para que no casse.
       Jesus Cristo, estou to cansado!  ele exclamou.  Tenho dormido muito mal.
      Ela chamou um txi que passava e o levou para o hotel.
      Luke estava hospedado no Carlton. O Exrcito geralmente no proporcionava tanto luxo, mas Billie se lembrava que a famlia dele era muito rica. Luke tinha 
uma sute de esquina, com janelas para duas ruas. Havia um piano na sala de estar e  algo que ela nunca vira antes  uma extenso do telefone no banheiro.
      Billie ligou para o servio de quarto e pediu canja de galinha, ovos mexidos, pezinhos quentes e leite gelado. Luke sentou-se no sof e comeou a contar outra 
histria, esta engraada, sobre uma ao destinada a sabotar uma indstria que fabricava panelas para o exrcito alemo.
       Entrei naquela grande oficina metalrgica e l estavam cinqenta mulheres enormes e musculosas, alimentando o forno com carvo e modelando as matrizes a 
marteladas. Gritei para que sassem, avisando que amos explodir o prdio, mas as mulheres riram de mim! No queriam ir embora e continuaram trabalhando. No acreditaram 
em mim.
      Antes que ele pudesse terminar, a comida chegou.
      Billie assinou a conta, deu a gorjeta do garom e ps os pratos na mesa de refeies. Quando se virou, ele estava dormindo.
      Acordou-o apenas o tempo necessrio para lev-lo para o quarto e fazer com que se deitasse.
       No v embora  murmurou ele, fechando os olhos novamente.
      Ela tirou seus sapatos e, delicadamente, afrouxou-lhe a gravata. Uma brisa suave entrava pela janela: Luke no precisava de cobertas.
      Billie sentou-se na beira da cama observando-o durante algum tempo, lembrando daquele longo trajeto de carro de Cambridge a Newport, quase dois anos atrs. 
Acariciou-lhe o rosto com a parte externa do dedo mnimo, tal como fizera naquela noite. Ele no se mexeu.
      Billie tirou o casaco e os sapatos, pensou um instante e livrou-se tambm do casaco e da saia. Depois passou os braos em torno dos seus ombros ossudos, ps 
a cabea no seu peito e abraou-o.
       Est tudo bem agora  disse.  Dorme, Luke. Quando acordar, estarei aqui.
      
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A noite caiu. A temperatura desceu. Billie fechou a janela e puxou uma colcha para cima deles. Logo aps a meia-noite, com os braos em torno do corpo quente de 
Luke, ela adormeceu.
      De madrugada, depois de ter dormido doze horas seguidas, ele levantou-se de repente e foi ao banheiro. Voltou minutos depois e se deitou de novo. Tinha tirado 
o terno e a camisa e s estava com a roupa de baixo. Passou os braos em torno dela e a abraou.
       Tem uma coisa que esqueci de lhe contar, uma coisa muito importante  disse.
       O qu?
       Na Frana pensei em voc todos os dias.
       Pensou mesmo?  verdade?
      Ele no respondeu. Cara no sono de novo.
      Billie deixou-se ficar ali protegida pelo seu abrao, pensando nele na Frana, arriscando a vida e se lembrando dela e se sentiu to feliz que achou que seu 
corao fosse explodir.
      s oito horas da manh, foi at a sala de estar da sute, telefonou para o prdio Q e disse que estava doente. Era a primeira vez que fazia isso em mais de 
um ano no Exrcito. Tomou um banho e lavou o cabelo e depois se vestiu. Pediu caf e flocos de milho ao servio de quarto. O garom chamou-a de sra. Lucas. Billie 
ficou contente por no ser uma garonete, pois uma mulher teria notado que no estava de aliana de casada.
      Achou que o cheiro de caf podia acordar Luke, mas no. Leu o Washington Post de cabo a rabo, inclusive a seo de esportes. Estava escrevendo uma carta para 
sua me em Dallas quando ele veio tropeando do quarto, s de camiseta e cueca, o cabelo escuro despenteado, o queixo azulado com a barba crescida. Billie sorriu, 
feliz por ele estar de p. 
      Luke pareceu confuso.
       Quanto tempo dormi?
      Ela consultou o relgio de pulso. Quase meio-dia.
       Cerca de dezoito horas  respondeu. No seria capaz de dizer o que ele estava pensando. Estaria satisfeito por v-la? Envergonhado? Querendo que fosse embora?
       Meu Deus! J faz um ano que no durmo assim. 
      Ele esfregou os olhos.
       Voc ficou aqui o tempo todo? Parece to fresca quanto uma margarida.
       Cochilei um pouco.
       Ficou a noite toda?
       Voc pediu. 
      Luke franziu a testa.
       Acho que me lembro...  ele sacudiu a cabea.  Puxa, como sonhei!
      Praticamente sem uma pausa ele foi para o telefone.
       Servio de quarto? Mande um t-bone steak, malpassado, com trs ovos estrelados, gema mole. Mande tambm suco de laranja, torradas e caf.
      Billie ficou preocupada. Nunca passara a noite com um homem, de modo que no sabia o que esperar pela manh, mas aquilo a desapontou. Foi to pouco romntico 
que ela quase se sentiu insultada. Lembrou-se de como os irmos acordavam  tambm saltavam da cama com a barba por fazer, mal-humorados e famintos. Mas ela se lembrava 
que todos melhoravam muito depois de comer.
       Espera a  ele tapou o telefone e olhou para Billie.  Voc vai querer alguma coisa?
       Um pouco de ch gelado.
       Ele repetiu o pedido dela e desligou. 
      Luke sentou-se ao lado de Billie no sof.
       Falei  bea ontem.
        verdade.
       Quanto tempo?
       Quase cinco horas sem parar.
       Desculpe.
       No se desculpe. Seja o que for que voc faa, no se desculpe  os olhos dela encheram-se de lgrimas.  Nunca me esquecerei enquanto viver.
      Ele segurou suas mos.
       Estou to feliz por termos nos encontrado de novo... 
      O corao de Billie deu um pulo.
       Eu tambm  aquilo era muito mais do que tinha esperado.
       Eu gostaria de beij-la, mas estou com a mesma roupa h vinte e quatro horas.
      Billie sentiu uma sensao repentina, algo como uma mola quebrando e teve conscincia de que tinha ficado molhada. Ficou chocada consigo prpria, porque antes 
nunca acontecera com tanta rapidez.
      Mas se conteve. Ainda no tinha decidido onde queria que aquilo fosse parar. Tivera a noite inteira para tomar uma deciso, mas nem sequer pensara no assunto. 
Agora tinha medo de que quando ele a tocasse viesse a perder o controle. E depois?
      A guerra provocara uma frouxido moral em Washington, mas ela no fazia parte disso. Cruzou as mos no colo e disse:
       Eu certamente no quero beijar voc enquanto no se vestir.
      Ele lhe dirigiu um olhar ctico.
       Est com medo de se comprometer?
      Ela recuou ante a ironia evidente na sua voz.
       O que significa exatamente isso? 
      Ele deu de ombros.
       Ns passamos a noite juntos. 
      Ela sentiu-se furiosa e magoada.
       Fiquei porque voc me suplicou para eu ficar  protestou.
       Est bem, no fique zangada.
      Mas o desejo que sentia por ele transformou-se, de repente, em uma raiva igualmente poderosa.
       Voc estava caindo de exausto e eu o pus na cama  disse, irada.  Depois me pediu para no deix-lo s e eu fiquei.
       Eu agradeo.
       Ento no fale comigo como se eu tivesse agido como uma... prostituta!
       No foi o que eu quis dizer.
       Foi sim! Voc quis dizer que eu j tinha me comprometido tanto que nada mais faria diferena.
      Ele deu um grande suspiro.
       Bem, eu no tive inteno de dar a entender nada! Jesus, voc est fazendo uma verdadeira tempestade por causa de uma observao casual!
       Casual demais.
      O problema era que Billie tinha mesmo se comprometido.
      Bateram  porta.
      Os dois se olharam e Luke falou:
       Servio de quarto, acho eu.
      Ela no queria que um garom a visse com um homem despido.
       Entre no quarto. 
       OK.
       Mas antes me d seu anel.
      Ele olhou para a mo esquerda. Usava um anel dourado de sinete no dedo mnimo.  Por qu?
       Para que o garom pense que somos casados.
       Mas eu nunca o tiro. 
      Isto a enfureceu ainda mais.
       Suma daqui  murmurou.
      Ele foi para o quarto. Billie abriu a porta da sute e uma garonete entrou, empurrando o carrinho do servio de quarto.
       A est, senhorita.
      Billie corou, envergonhada. Era claro o insulto naquele senhorita. Assinou a conta, mas no deu gorjeta.
       A est  disse ela. Repetindo as palavras da moa e dando-lhe as costas.
      A garonete foi embora. Billie ouviu a gua do chuveiro caindo. Sentia-se exausta. Passara horas nas garras de uma profunda paixo romntica e em poucos minutos 
tudo azedara.
      Luke, embora sendo normalmente to amvel, se transformara em um urso. Como  que coisas assim podiam acontecer? Era uma boa pergunta.
      Ps o chapu. Era melhor sair com o resto de dignidade que ainda lhe restava.
      Pensou em escrever um bilhete. O barulho do chuveiro cessou. Ele estava prestes a reaparecer, recendendo a sabonete, usando um roupo, cabelo molhado e descalo, 
uma verdadeira tentao. No havia tempo para bilhetes.
      Billie foi embora, fechando silenciosamente a porta da sute.
      
> > > < < <
      
      Ela o viu quase que diariamente nas quatro semanas seguintes.
      A princpio Luke esteve no Prdio Q para sesses dirias de interrogatrio. Ele a procurava na hora do almoo e os dois comiam juntos na lanchonete ou compravam 
sanduches que iam comer no parque. Seu modo de ser retornou  cortesia caracterstica de antigamente, fazendo com que ela se sentisse respeitada e alvo de sua ateno. 
A mgoa causada pelo comportamento dele no Carlton passou. Talvez, pensou Billie, ele tambm nunca tivesse passado uma noite com uma amante e no tivesse certeza 
de qual deveria ser a etiqueta a seguir. Ele a tratara casualmente, como podia ter tratado a irm  e talvez sua irm fosse a nica garota que o tivesse visto de 
roupa de baixo.
      No final da semana ele a convidou para sair e foram ver Jane Eyre na noite de sbado. No domingo foram andar de barco no Potomac. Havia um esprito de aventura 
no ar de Washington. A cidade estava cheia de rapazes a caminho da linha de frente ou de volta para casa, em licena, homens para os quais a morte violenta era um 
fato do cotidiano. Queriam jogar, beber, danar e fazer amor, porque talvez nunca mais tivessem outra oportunidade. Os bares viviam lotados e uma garota nunca se 
via obrigada a passar mais que uma noite sem companhia. Os Aliados estavam ganhando a guerra, mas as borbulhas da alegria exuberante eram explodidas diariamente 
pelas notcias de parentes, vizinhos e antigos colegas de faculdade mortos ou feridos na linha de frente.
      Luke recuperou um pouco do peso e comeou a dormir melhor. A expresso de quem vivia perseguido por fantasmas sumiu dos seus olhos. Comprou roupas adequadas 
ao seu novo tamanho, camisas de manga curta, calas brancas e um terno de flanela azul-marinho que usava quando saam de noite. Um pouco da sua juventude voltou.
      Falavam sem cessar. Ela explicava como o estudo da psicologia humana viria a eliminar a doena mental e ele lhe disse como os homens poderiam voar at a Lua. 
Reviveram o fatdico fim de semana em Harvard que mudara suas vidas. Discutiam a guerra e como podia terminar: Billie achava que a Alemanha no podia durar muito 
mais tempo, agora que a Itlia cara, mas Luke acreditava que seriam precisos alguns anos para tirar os japoneses do Pacfico. s vezes saam com Anthony e Bern 
e discutiam poltica nos bares, exatamente como faziam no tempo de faculdade, quando pertenciam a um mundo diferente. Num fim de semana Luke tomou um avio e foi 
a Nova York ver sua famlia e Billie sentiu tanto a falta dele que ficou doente. Nunca se cansava dele, nunca se aproximava dele para se entediar. Luke era atencioso, 
inteligente e elegante.
      Tinham uma briga grande cerca de duas vezes por semana. Todas seguiam o padro da primeira, na sute de hotel onde Luke se hospedava. Ele dizia algo arrogante, 
ou tomava uma deciso sobre seus planos de sada  noite sem consult-la, ou partia do pressuposto de que sabia mais que ela algum assunto, rdio, automvel ou tnis. 
Billie protestava acaloradamente e ele a acusava de reagir com exagero. Billie ficava mais e mais irada enquanto tentava faz-lo compreender o que estava errado 
com aquela atitude e Luke comeava a se sentir como uma testemunha hostil sob interrogatrio. No calor da discusso ela exagerava, ou afirmava algo meio louco ou 
dizia uma coisa que sabia ser falsa. Ele a acusava de insinceridade e dizia que no valia a pena discutirem porque ela estava sempre disposta a dizer qualquer coisa 
a fim de ganhar a discusso. Luke saa, mais convencido que nunca de que tinha razo. Em minutos Billie ficava perturbada, ia procur-lo e implorava que esquecesse 
e que voltassem a ser amigos. A princpio Luke fingia que nem era com ele; depois ela dizia algo que o fazia rir e ento ele cedia, enternecido.
      Mas em todo esse tempo no foi ao hotel dele, e quando o beijava era um casto roar de lbios e sempre em lugar pblico. Mesmo assim, sentia derreter-se por 
dentro e sabia que no podia ir adiante sem levar tudo at o fim.
      O setembro ensolarado transformou-se em um outubro frio, e Luke recebeu sua nova misso.
      Ele recebeu a notcia numa tarde de sexta-feira. Esperava no saguo do prdio quando Billie saiu no final do expediente. Ela pde ver pelo seu rosto que algo 
de ruim tinha acontecido.
       Qual  o problema?  perguntou ela, assim que o viu.
       Vou voltar para a Frana. 
      Ela ficou apavorada.
       Quando?
       Saio de Washington na segunda-feira de manh, bem cedo. Bern tambm.
       Pelo amor de Deus, vocs j no fizeram a sua parte?
       No me importo com o perigo. S no quero deixar voc. 
      Os olhos de Billie encheram-se de lgrimas. Ela engoliu
      em seco.
       S dois dias...
       Tenho que fazer as malas.
       Eu ajudo voc.
      Foram para o hotel de Luke.
      Assim que passaram para o lado de dentro, ela o agarrou pelo suter, puxou-o para junto de si e levantou o rosto para ser beijada. S que desta vez no havia 
nada de casto no seu beijo. Billie passou a ponta da lngua ao longo dos lbios dele, superior e inferior, e abriu a boca para a sua lngua.
      Ela tirou o casaco. Seu vestido tinha listras verticais azuis e vermelhas e uma gola branca.
       Segure os meus seios  pediu. 
      Ele ficou espantado.
       Por favor  ela implorou.
      As mos de Luke fecharam-se em torno de seus pequenos seios. Billie fechou os olhos e concentrou-se na sensao.
      Afastaram-se, e ela o encarou avidamente, memorizando-lhe o rosto. Queria no esquecer nunca aquele azul especial dos seus olhos, o cacho do cabelo escuro 
que vivia caindo na testa, a curva do seu queixo e o contorno suave dos seus lbios.
       Quero uma foto sua, Luke. Voc tem?
       No ando por a com fotos  disse ele, com um sorriso cansado. Com o sotaque de Nova York, acrescentou:
       O que  que voc pensa que sou, Frank Sinatra?
       Voc deve ter uma foto sua em algum lugar. 
        possvel, num lbum de famlia, deixa eu dar uma olhada. 
      Luke entrou no quarto.
      Billie seguiu-o.
      Sua velha valise de couro marrom estava no estrado para malas onde, Billie adivinhou, j estava havia quatro semanas. Ele pegou um estojo que abria como um 
livrinho. Dentro havia dois retratos, um de cada lado. Luke pegou uma foto, tirou dali e passou para ela.
      Fora tirada h uns trs ou quatro anos e mostrava um Luke mais jovem e mais gordo, envergando uma camisa plo. Com ele havia um casal mais idoso, presumivelmente 
seus pais, dois garotos gmeos com cerca de quinze anos e uma menininha. Todos estavam vestidos de roupa de praia.
       No posso aceitar,  a foto da sua famlia  disse ela, embora ansiasse por aquilo com todo o seu corao.
       Quero que guarde isso. Sou eu. Sou parte de minha famlia. 
      Era exatamente o que ela amava naquela foto.
       Voc levou isso para a Frana?
       Levei.
      Era to importante para ele que Billie no podia priv-lo dela  e, no entanto, isso ainda a tornava mais importante.
       Mostre-me a outra  disse ela. 
       O qu?
       H duas fotos a nesse estojo.
      Embora parecendo relutante, ele abriu o estojo e mostrou a segundo foto. Tinha sido recortada do lbum de formatura de Radcliffe. Era uma foto de Billie.
       Voc levou isso para a Frana tambm?
      Ela no podia respirar direito e sentiu um n na garganta.
       Levei.
      Billie caiu no choro. No dava para agentar. Luke recortara seu retrato do lbum de formatura e o levara, junto da foto de sua famlia, todo aquele tempo 
em que sua vida estivera em perigo. Billie no tinha idia de que significava tanto para Luke.
       Por que est chorando?  quis saber ele.
       Porque voc me ama.
        verdade. Eu tinha medo de lhe dizer. Eu a amo desde aquele fim de semana de Pearl Harbor.
      A paixo dela transformou-se em raiva.
       Como diz uma coisa dessas, seu filho da me? Voc me deixou!
       Se voc e eu tivssemos nos tornado amantes, teria sido o fim de Anthony.
       Ao inferno com Anthony!
      Ela socou o peito dele, mas Luke no pareceu sentir.
       Como pde pr a felicidade de Anthony acima da minha, seu filho-da-puta?
       Teria sido desonroso.
       Mas voc no v que poderamos ter desfrutado um ao outro durante dois anos?  as lgrimas escorreram pelo rosto dela.  Agora s temos dois dias  dois 
miserveis dias!
       Ento pra de chorar e me beija de novo.
      Billie passou os braos pelo seu pescoo e puxou a cabea dele para baixo. As lgrimas escorreram entre os lbios dos dois e entraram em suas bocas. Luke comeou 
a desabotoar seu vestido. Impaciente, ela pediu que rasgasse. Ele puxou com fora e os botes, at a cintura, voaram. Outro arranco e o vestido abriu-se por completo. 
Billie livrou-se dele e ficou s de angua e meias.
       Tem certeza de que quer?  perguntou ele, ar solene.
      Billie tinha medo de que as preocupaes morais a paralisassem.
       Tenho, tenho, por favor, no pare! 
      Delicadamente, ele a empurrou para a cama. Deitou de costas e ele ficou por cima, apoiado nos cotovelos. Encarou-a, olhos nos olhos.
       Nunca fiz isso antes, Billie.
       No faz mal  disse ela.  Eu tambm no.
      
> > > < < <
      
A primeira vez acabou muito depressa, mas uma hora mais tarde eles quiseram de novo e desta vez a coisa se estendeu por mais tempo. Ela lhe disse que queria fazer 
tudo, que queria lhe proporcionar todos os prazeres com que ele j sonhara, realizar todo ato possvel de intimidade sexual. Fizeram amor o fim de semana inteiro, 
frenticos de desejo e aflio, sabendo que podiam nunca mais se ver.
      Depois que Luke partiu na manh de segunda-feira, Billie chorou durante dois dias.
      Oito semanas mais tarde descobriu que estava grvida.

18:30

Os cientistas so capazes apenas de supor os extremos de calor e frio que o satlite sofrer no espao enquanto se deslocar da profunda escurido da sombra da Terra 
para o brilho ofuscante da luz direta do Sol. A fim de mitigar os efeitos disto, o cilindro  parcialmente revestido de reluzente xido de alumnio em tiras de 31 
milmetros de largura, que refletem os abrasadores raios do sol; e isolado com fibra de vidro, que mantm do lado de fora o extremo frio da espao sideral.
 Sim, ns namoramos  disse Billie, quando desceram a escada.
      Luke sentiu a boca seca. Imaginou-se segurando a mo de Billie, fitando-a por cima de uma mesa iluminada por velas, beijando-a, observando-a tirar a roupa. 
Sentiu-se culpado, sabendo que tinha mulher, mas no era capaz de se lembrar dela e Billie estava logo ali ao seu lado, falando animadamente; sorrindo e cheirando 
levemente a perfume de sabonete.
      Chegaram  porta do prdio e pararam.
       Ns nos amamos?  perguntou Luke. Fixou os olhos nela, estudando sua expresso. At aquele instante seu rosto tinha sido fcil de ler, mas de repente o livro 
fora fechado e tudo o que ele pde ver foi uma capa em branco.
       Oh, claro  respondeu ela, e embora seu tom de voz fosse leve, havia um travo em sua voz.  Eu achava que voc era o nico homem do mundo.
      Como ele podia ter perdido uma mulher daquelas? Parecia-lhe agora uma tragdia maior do que a perda de todas as suas recordaes.
       Mas voc descobriu que no era verdade.
       J tenho idade suficiente para saber que no h Prncipe Encantado, s um bando de homens com mais ou menos falhas. s vezes usam armaduras reluzentes, mas 
elas sempre tm pontos de ferrugem.
      Ele queria saber tudo, em cada detalhe, mas havia um nmero muito grande de perguntas por fazer.
       Ento voc se casou com Bern.
       Casei.
       Como ele ?
       Inteligente. Todos os meus homens tm que ser inteligentes. Caso contrrio eu me entedio. Fortes tambm. Fortes o bastante para me desafiarem  ela sorriu 
o sorriso de algum que tinha um corao grande.
       O que saiu errado?
       Valores conflitantes. Parece abstrato, mas Bern arriscou a vida pela liberdade em duas guerras: a Guerra Civil espanhola e a Segunda Guerra Mundial  e para 
ele a poltica vinha acima de tudo.
      Havia uma pergunta que Luke queria fazer acima de qualquer outra. Como no pde imaginar um modo delicado, indireto, para faz-la, deixou que escapasse abruptamente.
       Voc tem algum agora?
       Claro. Seu nome  Harold Brodsky.
      Luke sentiu que fizera papel de bobo. Claro que Billie tinha algum, era uma bela divorciada de seus trinta anos, os homens deviam fazer fila para sarem com 
ela. Ele sorriu melancolicamente.
       Ele  o Prncipe Encantado?
       No, mas  inteligente, me faz rir e me adora.
      A inveja apunhalou o corao de Luke. O tal de Harold era um felizardo.
       E acho que ele compartilha seus valores.
       Sim. A coisa mais importante na vida para ele  o filho  ele  vivo  e depois o trabalho acadmico.
       Que ?
       Qumica do iodo. Eu sinto a mesma coisa a respeito do meu trabalho  ela sorriu.  Posso no ser visionria no que diz respeito aos homens, mas acho que 
ainda sou idealista no que diz respeito a desvendar os mistrios da mente humana.
      Aquilo o trouxe de volta  sua crise. O lembrete foi como um golpe inesperado, chocante e doloroso.
       Eu gostaria que voc pudesse solucionar o mistrio da minha mente.
      A despeito do peso dos seus problemas, ele notou como Billie ficava bonita quando franzia o nariz, perplexa.
       Estranho  disse ela.  Talvez voc tenha sofrido um traumatismo craniano que no tenha deixado traos visveis, mas neste caso  surpreendente que no tenha 
dor de cabea.
       Nem um pouco.
       Voc no  alcolatra nem viciado em drogas. Basta olhar para voc que a gente v. Se tivesse sofrido um choque terrvel ou se encontrasse sob estresse prolongado, 
eu provavelmente teria ouvido falar disso, por seu prprio intermdio ou por algum de nossos amigos comuns.
       O que deixa...? 
      Ela sacudiu a cabea.
       Voc certamente no  esquizofrnico, e assim no h como pudessem lhe ter dado a combinao de tratamento de choques com droga que podia ter causado...
      Ela parou, parecendo sedutoramente assustada, boca aberta, olhos arregalados.
       O que foi?  perguntou Luke.
       Acabei de me lembrar de Joe Blow.
       Quem ?
       Joseph Bellow. O nome me chamou a ateno porque achei com jeito de ter sido inventado.
       E?
       Ele foi admitido na tarde de ontem, depois que eu tinha ido para casa. Depois teve alta durante a noite  o que foi realmente estranho.
       O que havia de errado nele?
       Era esquizofrnico  ela empalideceu.  Oh, que merda. 
      Luke comeou a perceber o que ela estava pensando.
       Quer dizer ento que esse paciente...
       Vamos verificar o registro dele.
      Ela virou-se e subiu correndo a escada. Percorreram o corredor em passos rpidos e entraram numa sala com a placa Arquivo. No havia ningum dentro. Billie 
acendeu a luz.
      Ela abriu uma gaveta marcada A  D, folheou as pastas e puxou uma delas. Leu em voz alta:
       Sexo masculino, branco, um metro e oitenta e cinco de altura. Trinta e sete anos de idade.
      O palpite de Luke foi confirmado.
       Voc pensa que era eu  disse ele. 
      Ela balanou a cabea.
       Deram ao paciente o tratamento que causa amnsia global.
       Meu Deus.
      Luke ficou amedrontado e curioso ao mesmo tempo. Se ela estava certa, aquilo lhe fora feito deliberadamente. E explicava o motivo pelo qual ele tinha sido 
seguido  presumivelmente por algum que queria certificar-se de que o tratamento funcionara.
       Quem diz isso?
       Foi um colega meu, o dr. Leonard Ross, que admitiu o paciente. Len  psiquiatra. Eu gostaria de saber em que ele se baseou para autorizar o tratamento. O 
paciente deve normalmente ficar em observao durante algum tempo, geralmente diversos dias, antes de receber qualquer tipo de tratamento. E no consigo imaginar 
uma justificativa mdica para dar alta a esse paciente logo depois, mesmo com o consentimento de parentes. Isso  muito irregular.
       Parece que esse Ross est metido em encrenca. 
      Billie suspirou.
       Provavelmente no. Se eu reclamar, as pessoas vo me acusar de uvas verdes. Todos vo achar que estou amargurada porque Len conseguiu o lugar que eu queria, 
Diretor de Pesquisa aqui no Hospital.
       Quando isso aconteceu? 
       Hoje.
      Luke ficou espantado.
       Ross foi promovido hoje?
       Foi. Acho que no  coincidncia.
       Com os diabos, claro que no! Ele foi subornado. Prometeram-lhe a promoo em troca desse tratamento irregular.
       No posso acreditar nisso. No, posso sim. Ele  um sujeito muito fraco.
       Mas est servindo de ferramenta para algum. Um superior na hierarquia do hospital deve t-lo obrigado a fazer isso.
       No  Billie sacudiu a cabea.  A Fundao que mantm o hospital e que se responsabilizar pelo nus da nova posio, a Sowerby, insistiu para que Ross 
fosse nomeado. Meu chefe me contou. No conseguimos descobrir a razo. Agora eu sei.
       Tudo se ajusta, mas o quadro agora  quase to desconcertante quanto antes. Algum na Fundao queria que eu perdesse a memria?
       Posso adivinhar quem, Anthony Carroll. Ele integra a junta diretora.
      O nome fez soar uma campainha. Luke se lembrou que Anthony era o homem da CIA mencionado por Elspeth.
       Isto ainda deixa em aberto o motivo.
       Mas agora temos a quem fazer perguntas  disse Billie, e pegou o telefone.
      Enquanto ela discava, Luke tentou organizar seus pensamentos. Tinha sofrido na ltima hora uma srie de choques. Disseram-lhe que no ia recuperar a memria. 
Descobrira que amara Billie e a perdera e no era capaz de compreender como pudera ser to idiota. Agora, vinha a saber que sua amnsia fora deliberadamente infligida 
e que algum da CIA era o responsvel. E, no entanto, ainda no tinha nenhuma pista que apontasse para o motivo pelo qual tudo aquilo fora feito.
       Quero falar com Anthony Carroll  disse Billie ao telefone.  Aqui  a dra. Josephson.
      O tom de voz dela era peremptrio.
       OK, ento diga a ele que preciso lhe falar com urgncia. 
      Ela olhou o relgio.
       Faa com que ele telefone para a minha casa em exatamente uma hora  seu rosto de repente ficou congestionado.  No me faa de idiota, cara. Sei que pode 
fazer com que uma mensagem chegue a ele a qualquer hora do dia ou da noite, onde quer que esteja.
      Ela bateu com o telefone, percebeu o olhar de Luke e ficou envergonhada.
       Desculpe. O sujeito disse que ia ver o que podia fazer, como se estivesse fazendo um maldito favor.
      Luke lembrou que Elspeth dissera que Anthony Carroll era um velho amigo que estudara em Harvard com Luke e Bern.
       Este Anthony  disse.  Pensei que fosse amigo.
         aquiesceu Billie, o rosto expressivo revelando sua preocupao.  Eu tambm pensava.

19:30

O problema da temperatura  crucial nos vos espaciais tripulados. Para aferir a eficcia do isolamento, o Explorer carrega quatro termmetros: trs no casco, para 
medir a temperatura da camada externa, e um dentro do compartimento dos instrumentos, para dar a temperatura do interior. O objetivo  manter o nvel entre 5 e 22 
graus centgrados  uma variao confortvel para a sobrevivncia humana.
Bern morava na avenida Massachusetts, com vista para a pitoresca garganta do riacho Rock, em um bairro de casas grandes e embaixadas. A temtica da decorao do 
seu apartamento era ibrica, com moblia espanhola colonial, de madeira escura. As paredes absolutamente brancas exibiam pinturas de paisagens banhadas de sol. Luke 
lembrou que Billie dissera que Bern havia lutado na Guerra Civil espanhola.
      Era fcil imagin-lo como um combatente. Embora o cabelo negro j comeasse a escassear e a cintura casse um pouco sobre o cinto, havia uma expresso dura 
no rosto dele e um brilho glacial em seus olhos cinzentos. Luke perguntou-se se um homem to prtico e realista acreditaria na histria estranha que tinha para lhe 
contar.
      Bern apertou a mo de Luke calorosamente e serviu caf forte em xcara pequena. Em cima do console do gramofone havia uma fotografia de um homem de meia-idade 
vestindo uma camisa rasgada e segurando um rifle. Luke pegou-a.
       Largo Benito  explicou Bern.  O maior homem que j vi. Lutei com ele na Espanha. Meu filho se chama Largo, mas Billie o chama de Larry.
      Bern provavelmente se lembrava da guerra na Espanha como o melhor tempo de sua vida. Luke perguntou-se, com uma ponta de inveja, qual teria sido o melhor tempo 
da sua vida.
       Acho que eu devo ter tido grandes lembranas de alguma coisa  disse, abatido.
      Bern dirigiu-lhe um olhar penetrante.
       O que diabo est havendo, amigo velho?
      Luke sentou-se e relatou o que ele e Billie tinham descoberto no hospital. E terminou:
       Vou lhe dizer o que acho que me aconteceu. No sei se vai acreditar, mas vou falar assim mesmo, porque realmente tenho esperana que voc consiga lanar 
alguma luz nesse mistrio.
       Farei o que puder.
       Vim para Washington na segunda-feira pouco antes do lanamento do foguete, para ver um general. O motivo pelo qual vim era to misterioso que no contei 
a ningum. Minha mulher ficou preocupada comigo e telefonou para Anthony e pediu a ele que ficasse de olho em mim. Anthony combinou comigo um encontro no caf da 
manh da tera-feira.
       Faz sentido. Anthony  seu amigo mais antigo. Ele j era seu companheiro de quarto quando conheci voc.
       O que se segue  mais especulativo. Encontrei-me com Anthony para o caf da manh, antes de ir para o Pentgono. Ele colocou qualquer coisa no caf para 
me fazer dormir, depois me ps no seu carro e me levou para o Georgetown Mind Hospital. Deve ter dado um jeito para tirar Billie do caminho, ou talvez esperado que 
ela sasse no final do expediente. De qualquer forma, ajeitou as coisas para que ela no me visse e me internou sob nome falso. Em seguida, recorreu ao dr. Len Ross, 
que ele sabia que podia ser subornado e, usando sua posio de membro da junta da Fundao Sowerby, persuadiu-o a me aplicar o tratamento que destruiria a minha 
memria.
      Luke fez uma pausa, esperando que Bern fosse dizer que aquilo tudo era ridculo, impossvel, fruto de uma imaginao febril. Bern, contudo, nada comentou. 
Para surpresa de Luke limitou-se a dizer:
       Mas pelo amor de Deus, Luke, por qu?
      Luke comeou a se sentir melhor. Se Bern acreditava, podia ajudar. E disse:
       Por enquanto concentremo-nos no como, em vez de no qu.
       Est certo.
       Para no deixar pistas, ele me tirou do hospital, vestiu em mim uma roupa esfarrapada de mendigo, presumivelmente enquanto eu estava inconsciente  e me 
largou na Union Station, juntamente com um auxiliar cuja misso era no s me persuadir que eu vivia daquele jeito como tambm ficar de olho em mim e se assegurar 
que o tratamento para provocar a amnsia funcionara.
      Neste ponto Bern pareceu incrdulo.
       Mas ele devia saber que voc descobriria a verdade mais cedo ou mais tarde.
       No obrigatoriamente  pelo menos no toda a verdade. Claro, ele tinha de calcular que aps uns poucos dias ou semanas eu ia imaginar quem era. Mas pensou 
que eu iria continuar acreditando que tinha tomado uma bebedeira. As pessoas realmente perdem a memria depois de ingerirem muito lcool, pelo menos de acordo com 
a lenda. Se eu achasse isso difcil de acreditar e fizesse perguntas, o rastro do que ele fizera j teria esfriado. Billie provavelmente teria esquecido o tal paciente 
misterioso  e no caso de lembrar, Ross j teria destrudo os registros.
      Bern balanou a cabea pensativamente.
       Um plano arriscado, mas com boas chances de sucesso. Em operaes clandestinas,  geralmente o melhor que se pode esperar.
       Estou surpreso por no v-lo mais ctico. 
      Bern deu de ombros.
      Luke pressionou.
       Tem algum motivo para aceitar minha histria to prontamente?
       Todos ns trabalhamos em servio secreto. Essas coisas acontecem.
      Luke tinha certeza de que Bern estava ocultando alguma coisa. No havia nada a fazer seno suplicar.
       Bern, se voc sabe mais alguma coisa, pelo amor de Deus, me conte. Preciso de toda a ajuda que for possvel obter.
      Bern pareceu angustiado.
       H algo mais sim  mas  secreto e no quero complicar a vida de ningum.
      O corao de Luke pulou, esperanoso.
       Conte-me, por favor. Estou desesperado. 
      Bern fitou-o intensamente.
       Acho que est, sim. 
      Ele respirou fundo.
       Est bem, aqui vai. J quase no fim da guerra, Billie e Anthony trabalharam em um projeto especial do OSS, o Comit da Droga da Verdade. Voc e eu no soubemos 
de nada na poca, mas descobri quando me casei com Billie. A pesquisa estudava drogas que pudessem afetar prisioneiros submetidos a interrogatrio. Tentaram mescalina, 
barbitricos, escopolamina e Canabis. As cobaias eram soldados suspeitos de simpatizarem com o comunismo. Billie e Anthony foram s bases militares de Atlanta, Mnfis 
e Nova Orleans. Ganhavam a confiana do suspeito, davam-lhe um baseado e viam se ele traa algum segredo.
      Luke deu uma risada.
       E assim os ps-de-poeira conseguiram curtir um barato de graa!
      Bern balanou a cabea. Concordando.
       Naquela altura, a coisa toda era meio cmica. Depois da guerra Billie voltou para a faculdade e defendeu tese de doutorado sobre os efeitos de vrias drogas 
legais, como a nicotina, sobre os estados mentais. Quando finalmente tornou-se professora, continuou a trabalhar na mesma rea, concentrando-se no efeito causado 
pelas drogas e outros fatores sobre a memria.
       Mas no para a CIA.
       Foi o que pensei. Mas estava errado. 
       Meu Deus!
       Em 1950, quando Roscoe Hillenkoetter era o diretor, a Agncia deu incio a um projeto chamado Bluebird. Hillenkoetter autorizou o uso de fundos especiais, 
sem destinao consignada em oramento, de forma que no havia rastros burocrticos. Bluebird era sobre controle da mente. Financiou toda uma srie de projetos legtimos 
de pesquisa em universidades, canalizando o dinheiro atravs de fundaes, a fim de encobrir sua verdadeira origem. Assim foi financiado o trabalho de Billie.
       E qual foi a reao dela a isso?
       Brigamos a este respeito. Falei que era errado, que a CIA planejava fazer lavagem cerebral nas pessoas. Ela afirmou que todo e qualquer conhecimento cientfico 
pode ser usado tanto para o bem quanto para o mal, que estava fazendo uma pesquisa de valor inestimvel e que no se importava com quem pagasse a conta.
       Foi por isso que vocs se divorciaram?
       Mais ou menos. Eu escrevia um programa de rdio chamado Histrias de detetive, mas queria entrar no cinema. Em 1952 escrevi um roteiro sobre uma agncia 
secreta do governo que fazia lavagens cerebrais em cidados inocentes. Jack Warner comprou meu roteiro, mas no contei a Billie.
       Por qu?
       Eu sabia que a CIA no deixaria meu filme ser rodado.
       Eles podem fazer uma coisa dessas?
       Pode apostar sua vida que sim.
       E o que aconteceu?
       O filme foi exibido em 1953. Frank Sinatra fez o papel do cantor que testemunha um crime poltico e que depois tem a memria apagada por um processo secreto. 
Joan Crawford fazia o papel de agente dele. Foi um xito imenso. Eu estava feito  fui esmagado pelas inmeras ofertas milionrias dos estdios.
       E Billie?
       Levei-a  pr-estria.
       Deve ter ficado furiosa. 
      Ele sorriu melancolicamente.
       Teve um ataque. Disse que eu usara informaes confidenciais que conseguira por intermdio dela. Tinha certeza de que a CIA no mais custearia o projeto 
em que trabalhava, que sua pesquisa estava arruinada. Foi o fim do nosso casamento.
       Foi o que Billie quis dizer quando falou em conflito de valores.
       Ela tem razo. Billie devia ter se casado com voc  nunca entendi realmente por que no o fez.
      O corao de Luke falhou uma batida. Queria saber por que Bern dissera aquilo. Mas adiou a pergunta.
       De qualquer forma, voltando a 1953, presumo que a CIA no tenha cortado o dinheiro do projeto de Billie.
       No  Bern pareceu amargamente furioso.  Eles preferiram destruir minha carreira.
       Como?
       Fui submetido a uma investigao de lealdade. Claro, eu tinha sido comunista at o fim da guerra, de modo que era um alvo fcil. Puseram-me na lista negra 
de Hollywood e no consegui nem voltar a meu antigo emprego na rdio.
       Qual foi o papel de Anthony nisso tudo?
       Esforou-se ao mximo para me proteger, segundo Billie, mas passaram por cima dele.
      Bern franziu a testa.
       Depois do que voc acaba de me contar, eu no sei se isso foi verdade.
       E voc, fez o qu?
       Tive uns anos pssimos, depois concebi Os gmeos terrveis.
      Luke alou uma sobrancelha.
        uma srie de livros infantis  ele apontou para uma estante. As cores muito vivas das capas eram uma festa para os olhos.  Voc, por exemplo, foi um dos 
que leram esses livros  no seu caso, para o filho de sua irm.
      Luke ficou satisfeito por saber que era tio. Podia ser que tivesse vrios sobrinhos. Achou formidvel a idia de ler em voz alta para eles.
      Havia muito que aprender a seu prprio respeito.
      Indicou com um gesto da mo o apartamento caro. 
       Os livros devem ter feito muito sucesso. 
      Bern concordou.
       Escrevi o primeiro usando um pseudnimo e arranjei um agente literrio simptico s vtimas da caa s bruxas de McCarthy. O livro foi um campeo de vendagem 
e desde ento venho escrevendo dois por ano.
      Luke levantou-se e pegou um livro na estante.
       O que  mais grudento, mel ou chocolate quente? Os gmeos tinham de saber. Foi por isto que fizeram aquela experincia que deixou mame to furiosa.
      Ele sorriu. Dava para imaginar que as crianas adorassem aquele tipo de texto. Sentiu-se triste.
       Elspeth e eu no temos filhos.
       No sei por qu  retrucou Bern.  Vocs sempre foram loucos para ter filhos.
       Tentamos, mas no aconteceu  Luke fechou o livro.  Sou feliz no casamento?
      Bern suspirou.
       J que pergunta, no.
       Por qu?
       Aconteceu algo de errado, mas voc no sabia definir o que era. Ligou para mim uma vez, para pedir conselho, mas no fui capaz de ajud-lo.
       Poucos minutos atrs voc disse que Billie devia ter se casado comigo.
       Vocs eram loucos um pelo outro.
       E o que aconteceu?
       Na verdade eu no sei. Depois da guerra vocs tiveram uma briga muito sria. O resto da turma no conseguiu descobrir o motivo.
       Terei que perguntar a Billie.
       Acho que sim.
      Luke ps o livro de novo na estante.
       De qualquer forma, agora compreendo por que voc no reagiu com total incredulidade  minha histria.
       Sim  concordou Bern.  Creio que foi Anthony quem fez isso.
       Mas voc pode imaginar a razo?
       No tenho a menor idia.

20:00

Se as variaes de temperatura forem maiores que as esperadas,  possvel que os transistores de germnio sofram superaquecimento, as baterias de mercrio congelem 
e o satlite no consiga transmitir os dados para a Terra.
Billie sentou-se  penteadeira para retocar a pintura. Considerava que os olhos eram seu ponto forte e sempre os pintava cuidadosamente com delineador preto, sombra 
cinzenta e um pouco de rmel. Deixou a porta do quarto aberta e continuou ouvindo o tiroteio na televiso l embaixo: Larry e Becky-Ma estavam assistindo a Wagon 
Train. No se sentia disposta a sair naquela noite. Os eventos do dia haviam despertado fortes paixes. Estava furiosa por no ter conseguido a posio que desejava, 
desnorteada com o que Anthony fizera e confusa e ameaada por sentir que a velha qumica entre ela prpria e Luke ainda era forte e perigosa como sempre fora. De 
repente ela viu-se revendo seu relacionamento com Anthony, Luke, Bern e Harold, perguntando-se se teria tomado as decises corretas na vida. Depois de tudo o que 
acontecera, a perspectiva de passar a noite assistindo ao Teatro Kraft na televiso ao lado de Harold parecia inspida, por mais que gostasse dele.
      O telefone tocou.
      Ela deu um pulo do banco e atravessou o quarto para pegar a extenso ao lado da cama, mas Larry j atendera no corredor. Ouviu a voz de Anthony dizer, Aqui 
 a CIA. Washington est prestes a ser invadida por um exrcito de repolhos saltadores.
      Larry deu uma risadinha.
       Tio Anthony,  voc!
       Se for procurado por um repolho no, repito, NO tente discutir com ele.
       Repolhos no falam!
       A nica maneira de lidar com eles  espanc-los at a morte com po fatiado.
       Voc est inventando tudo isso!  Larry riu.
       Anthony  disse Billie , estou na extenso.
       Vista seu pijama, Larry. OK?
       OK  concordou o garoto, desligando. 
      A voz de Anthony mudou.
       Billie? 
       Pronto.
       Voc queria falar comigo  com urgncia. Pelo visto arrancou a pele do oficial de servio.
       , arranquei. Anthony, o que diabos voc est querendo?
       Vai ter que fazer uma pergunta mais especfica.
       No enche o saco, Anthony, pelo amor de Deus. Eu podia dizer que voc estava mentindo na ltima vez em que falamos, mas naquela hora eu no sabia qual era 
a verdade. Agora eu sei. Sei o que voc fez com Luke no meu hospital ontem  noite.
      Silncio.
       Quero uma explicao  disse Billie.
       No posso falar essas coisas pelo telefone. Se pudssemos nos encontrar um desses dias...
       Ao inferno com isso  ela no ia deixar que ele ganhasse tempo.  Quero saber a sua histria agora, neste instante.
       Voc sabe que no posso.
       Voc pode fazer qualquer coisa que lhe d na telha, de modo que no precisa fingir que as coisas se passam de outro modo.
      Anthony protestou.
       Voc devia confiar em mim. Somos amigos h duas dcadas.
       Somos, e voc me encrencou na primeira vez em que samos.
      Havia um sorriso na voz de Anthony quando ele perguntou:
       Voc ainda est zangada por causa daquilo? 
      Billie abrandou.
       Com os diabos, Anthony, claro que no. Eu quero confiar em voc. Afinal, voc  o padrinho do meu filho.
       Explicarei tudo se voc se encontrar comigo amanh. 
      Ela quase concordou, mas lembrou-se do que ele fizera.
       Voc no confiou em mim ontem  noite, confiou? Agiu pelas minhas costas, no meu prprio hospital.
       J falei que posso explicar.
       Devia ter explicado antes de me enganar. Conte-me a verdade ou irei procurar o FBI assim que desligar. Voc escolhe.
      Era perigoso ameaar homens  quase sempre os deixava mais obstinados. Mas ela sabia como a CIA odiava e temia a interferncia do FBI, especialmente quando 
a Agncia trabalhava quase  margem da legalidade, o que acontecia praticamente o tempo todo. Os Federais, que prezavam ciumentamente seu direito exclusivo de caar 
espies dentro dos Estados Unidos, iam delirar com a chance de investigar atos ilegtimos da CIA em territrio americano. Se o que Anthony estava fazendo fosse estritamente 
correto, a ameaa de Billie era vazia. Mas se ele estivesse ultrapassando os limites da Lei, ficaria assustado.
      Ele suspirou.
       Tudo bem, estou num telefone pblico e acho pouco provvel que a linha esteja grampeada.
      Ele fez uma pausa.
       Voc talvez ache difcil de acreditar.
       Experimente.
       Pois bem, aqui vai. Luke  um espio, Billie. 
      Por um momento ela ficou abismada.
       No seja ridculo.
       Ele  comunista, agente de Moscou.
       Pelo amor de Deus, Anthony! Se acha que vou acreditar nisso...
       Estou pouco me incomodando que voc acredite ou no  o tom de voz de Anthony passou de repente a ser spero,  H anos que ele vem passando segredos para 
os soviticos. Como  que voc pensa que eles conseguiram pr o Sputnik em rbita antes que o nosso satlite estivesse no laboratrio? Eles no esto na nossa frente 
no campo cientfico, pelo amor de Deus! O que acontece  que se beneficiam de toda a nossa pesquisa juntamente com a deles. E Luke  o responsvel.
       Anthony, tanto voc quanto eu conhecemos Luke h vinte anos. Ele nunca se interessou por poltica!
        o melhor disfarce de todos.
      Billie hesitou. Seria verdade? Sem dvida que um espio srio iria fingir no ter interesse em poltica, ou at mesmo ser partidrio dos Republicanos.
       Mas Luke no trairia seu pas.
       H quem traia. Lembre-se de que quando esteve com a Resistncia Francesa, ele trabalhava com comunistas. Claro que naquele tempo eles estavam do nosso lado, 
mas  evidente que ele continuou depois da guerra. Pessoalmente acho que o motivo pelo qual Luke no se casou com voc foi porque o casamento entraria em conflito 
com o trabalho dele para os Vermelhos.
       Ele se casou com Elspeth.
       , mas nunca tiveram filhos. 
      Ela se sentou na escada, atnita.
       Voc tem indcios?
       Eu tenho provas  planos ultra-secretos que ele deu a um conhecido elemento do KGB.
      Billie estava desconcertada agora, sem saber em que acreditar.
       Mas mesmo que seja verdade  por que voc apagou a memria de Luke?
       Para salvar a vida dele.
      Agora  que ela ficou totalmente confusa.
       No estou entendendo.
       Billie, ns amos mat-lo.
       Quem ia mat-lo?
       Ns, a CIA. Voc sabe que o Exrcito est para colocar em rbita o nosso primeiro satlite. Se este foguete falhar, os russos dominaro a corrida espacial 
pelo futuro previsvel, da mesma forma que os britnicos dominaram a Amrica por duzentos anos. Voc tem que compreender que Luke era a pior ameaa ao poder e prestgio 
dos Estados Unidos desde o fim da guerra. A deciso de liquid-lo foi tomada menos de uma hora depois de descobrirmos a verdade a seu respeito.
       Por que no lev-lo simplesmente a julgamento, como espio?
       E deixar que o mundo todo saiba que a nossa segurana  de to m qualidade que os soviticos vm recebendo os segredos dos nossos foguetes h anos? Pense 
no que isso faria  influncia americana, especialmente nos pases subdesenvolvidos que flertam com Moscou. Essa opo nem sequer foi cogitada.
       E o que aconteceu?
       Eu os persuadi a tentar isto. Fui direto ao topo. Ningum sabe o que estou fazendo, exceto o Diretor da CIA e o Presidente. E teria funcionado, se Luke no 
tivesse sido um filho da me to cheio de expedientes. Eu podia ter salvado Luke e mantido tudo em segredo. Se ao menos ele tivesse acreditado que perdera a memria 
aps uma noite de bebedeira e vivesse por algum tempo a vida de um vagabundo, eu poderia ter mantido a coisa sem que ningum soubesse. Nem ele mesmo saberia que 
segredos entregou aos russos.
      Billie cedeu a um momento de egosmo.
       Voc no hesitou em destruir minha carreira.
       Para salvar a vida de Luke? Achei que voc no ia querer que eu sequer hesitasse.
       No seja to arrogante, este sempre foi o seu pior defeito.
       De qualquer modo, Luke estragou meu plano  com sua ajuda. Ele est com voc agora?
       No  Billie sentiu os plos da nuca se arrepiarem.
       Preciso falar com ele antes que se prejudique ainda mais. Onde ele est?
      Agindo por instinto, ela mentiu.
       No sei.
       Voc no esconderia nada de mim, esconderia?
       Claro que sim. Voc j disse que a sua organizao quer matar Luke. Seria uma idiotice da minha parte lhe dizer onde ele est, se eu soubesse. Mas no sei.
       Billie, me escuta. Eu sou a nica esperana dele. Diga-lhe para me ligar, se voc quer salvar a vida dele.
       Vou pensar  disse Billie, mas Anthony j tinha desligado.

20:30

O compartimento onde ficam os instrumentos no tem portas ou janelas de acesso. Para trabalhar no equipamento em seu interior, os engenheiros de Cabo Canaveral tm 
de levantar toda a tampa.  complicado, mas economiza peso, um fator critico na luta para vencer a gravidade da Terra.
Luke descansou o telefone com a mo trmula.
       Pelo amor de Deus, o que foi que ela falou?  perguntou Bern, aflito.  Voc parece um fantasma.
       Anthony diz que sou um agente sovitico  respondeu Luke.
      Bern estreitou os olhos. 
       E...?
       Quando a CIA descobriu, a deciso tomada foi de me matar, mas Anthony persuadiu-os que o resultado seria igualmente efetivo se ele apagasse minha memria.
       Uma histria vagamente plausvel  disse Bern, com frieza.
      Luke estava devastado.
       Jesus Cristo, seria possvel uma coisa dessas?
       Com os diabos, no!
       Voc no pode ter tanta certeza disso.
       Claro que posso.
      Luke arriscou sentir um pouco de esperana. 
       Como?
       Porque eu fui um agente sovitico. 
      Luke olhou espantado para Bern. E agora?
       Poderamos ter sido agentes, sem saber a respeito um do outro  disse.
      Bern sacudiu a cabea.
       No. Voc terminou minha carreira.
       Como assim?
       Quer mais um pouco de caf?
       No, obrigado, est me fazendo ficar tonto.
       Voc est com uma aparncia pssima. Quando comeu pela ltima vez?
       Billie me deu uns biscoitos. Esquea isso, sim? Conte-me o que sabe.
      Bern levantou-se.
       Vou fazer um sanduche antes que voc desmaie. 
      Luke deu-se conta de que estava dolorosamente faminto.
        uma grande idia.
      Os dois homens foram para a cozinha. Bern abriu a geladeira e pegou um po de forma de centeio, um tablete de manteiga, um pouco de carne de boi enlatada e 
uma cebola. A boca de Luke comeou a aguar.
       Foi na guerra  disse Bern, enquanto passava manteiga em quatro fatias de po.  A Resistncia Francesa era dividida em gaullistas e comunistas e seus membros 
manobravam de olho em uma posio no ps-guerra. Roosevelt e Churchill queriam assegurar-se de que os comunistas no poderiam vencer uma eleio. Assim, os gaullistas 
recebiam todas as armas e munies.
       Como eu me sentia a esse respeito?
      Bern arrumou em camadas a carne, a mostarda e os anis de cebola no po.
       Voc no tinha sentimentos fortes a respeito da poltica francesa, s queria vencer os nazistas e voltar para casa. Mas eu tinha outras aes a realizar. 
Queria equilibrar o jogo.
       Como?
       Informei os comunistas de um lanamento por pra-quedas que estvamos esperando, de modo que eles pudessem nos emboscar e ficar com o nosso material blico.
      Ele sacudiu a cabea melancolicamente.
       Eles meteram os ps pelas mos em grande estilo. Deviam ter nos encontrado quando estivssemos voltando para a base, aparentemente por acaso e a ento exigir 
uma diviso amigvel. Em vez disso, nos atacaram no ponto de lanamento, assim que os fardos bateram no cho. Claro que voc soube que tnhamos sido trados. E eu 
era o suspeito bvio.
       O que foi que eu fiz?
       Props um trato. Eu tinha que parar de trabalhar para Moscou, imediatamente, e voc ficaria quieto a respeito do que eu fizera, para sempre.
       E...?
      Bern deu de ombros.
       Ns dois cumprimos nossas promessas. Mas no penso que voc tenha me perdoado. De qualquer modo, nossa amizade nunca mais foi a mesma.
      Um gato cinzento apareceu do nada e miou. Bern jogou uma fatia de carne no cho. O gato comeu delicadamente e lambeu as patas.
       Se eu fosse comunista teria protegido voc  disse Luke.
       Sem dvida nenhuma.
      Luke comeou a acreditar na prpria inocncia.
       Mas eu posso ter me tornado comunista depois da guerra.
       De jeito nenhum. O comunismo  algo que acontece quando voc  jovem ou no acontece mais.
      Fazia sentido.
       Mas eu posso ter espionado por dinheiro.
       Voc no precisa de dinheiro. Sua famlia  rica. 
      Estava certo. Elspeth j lhe dissera isso. 
       Ento Anthony est enganado.
       Ou mentindo  Bern cortou os sanduches e os arrumou em dois pratos que no combinavam.  Refrigerante?
       Claro.
      Bern pegou duas garrafas de Coca-Cola na geladeira e abriu. Entregou a Luke um prato e uma garrafa, pegou a sua e liderou o trajeto de volta para a sala.
      Luke sentia-se como um lobo faminto e terminou o sanduche com poucas mordidas. Bern observou, divertido.
       Toma aqui o meu  disse. 
      Luke sacudiu a cabea.
       No, obrigado. 
       V em frente, pegue. Estou mesmo precisando fazer uma dieta.
      Luke pegou o sanduche de Bern e atacou.
       Se Anthony est mentindo  perguntou Bern  qual  a verdadeira razo dele para fazer voc perder a memria?
      Luke engoliu uma bocada do sanduche.
       Tem que ter ligao com a minha sbita partida de Cabo Canaveral.
      Bern concordou.
       De outra forma seria uma coincidncia excepcional.
       Devo ter descoberto alguma coisa muito importante, to importante que tive que ir correndo contar no Pentgono.
      Bern franziu a testa, preocupado.
       Por que voc no contou ao pessoal do Cabo Canaveral o que tinha descoberto?
      Luke pensou um pouco.
       Deve ter sido porque eu no confiava em nenhum deles.
       OK. E ento, antes de voc chegar no Pentgono, Anthony o interceptou.
       Exato. E acho que confiei nele e lhe contei o que descobrira.
       E a?
       A ele achou que era to importante que teve de apagar da minha memria para se assegurar de que o segredo jamais seria contado.
       Gostaria de saber que diabo de segredo era esse.
       Quando eu souber, vou entender o que me aconteceu.
       Onde voc vai comear?
       Acho que meu primeiro passo ser ir ao meu quarto de hotel e examinar minhas coisas. Talvez encontre uma pista.
       Se Anthony apagou sua memria,  bem possvel que tenha agido tambm nas suas coisas.
       Ele teria destrudo as pistas bvias, mas pode ser que tenha ficado algo que ele no tenha reconhecido como relevante. De qualquer modo, tenho que verificar.
       E depois?
       O nico outro lugar seria Cabo Canaveral. Pegarei um avio hoje  noite...  ele consultou o relgio.  Ou amanh de manh.
       Passe a noite aqui  disse Bern.
       Por qu?
       No sei, no gosto da idia de voc passando a noite sozinho. V ao Carlton, pegue suas coisas e volte para c. Eu o levarei ao aeroporto de manh.
      Luke aquiesceu. Sentindo-se um pouco sem graa, disse:
       Voc tem sido um baita amigo neste caso. 
      Bern encolheu os ombros.
       Temos muito tempo de estrada. 
      Luke no se satisfez com isso.
       Mas voc acabou de me dizer que depois do incidente na Frana a nossa amizade nunca mais foi a mesma.
        verdade  Bern encarou Luke com total franqueza.  Sua idia era que um homem que o traiu uma vez seria capaz de tra-lo duas vezes.
       Posso acreditar nisso  comentou Luke, pensativo.  Eu estava errado, no estava?
       Sim  respondeu Bern.  Estava errado.

21:30

O compartimento que contm os instrumentos tende a superaquecer antes da decolagem. A soluo deste problema  tpica do estilo de engenharia sem refinamento, mas 
efetivo, responsvel pelo projeto Explorer. Um recipiente com gelo seco  preso eletromagneticamente  superfcie externa do foguete. Um termostato liga um ventilador 
sempre que o compartimento fica quente. Pouco antes do lanamento, o m  desligado e o mecanismo de resfriamento cai no solo.
O Cadillac Eldorado amarelo de Anthony estava estacionado na rua K entre a Quinze e a Dezesseis, atrs da fila dos txis que esperavam ser chamados pelo porteiro 
do Carlton Hotel. Sentado no carro, Anthony tinha uma clara viso da pista de acesso de automveis, e da entrada coberta, intensamente iluminada, onde saltavam ou 
embarcavam os hspedes. Pete estava no hotel, no quarto que alugara, esperando um telefonema de um dos agentes que procuravam Luke em toda a cidade.
      Uma parte de Anthony esperava que ningum ligasse, que Luke, de algum modo, conseguisse escapar. Assim no precisaria tomar a mais dolorosa deciso de sua 
vida. A outra parte de Anthony estava desesperada para descobrir onde se encontrava Luke e resolver logo o caso com ele.
      Luke era um velho amigo, um homem decente, um marido leal e um cientista fantstico. No fim, no fazia diferena. Durante a guerra todos eles tinham matado 
homens bons que por acaso estavam do lado errado. Luke estava do lado errado na Guerra Fria. A coisa s ficava to difcil porque o conhecia.
      Pete saiu correndo do hotel. Anthony abaixou o vidro da janela do Cadillac.
       Ackie telefonou  disse Pete.  Luke est no apartamento da avenida Massachusetts, casa de Bernard Rothsten.
       At que enfim  disse Anthony. Ele tinha colocado agentes nas proximidades do prdio de Bern e da casa de Billie, antecipando que Luke poderia procurar seus 
velhos amigos em busca de socorro, e a notcia lhe trouxe a duvidosa satisfao de ter acertado.
       Quando ele sair  acrescentou Pete  Ackie o seguir de moto.
       timo.
       Acha que ele vir para c?
        possvel. Temos que esperar.
      Havia mais dois agentes no saguo do hotel que alertariam Anthony no caso de Luke usar uma entrada diferente.
       A outra grande possibilidade  o aeroporto.
       Temos quatro homens l.
       Tudo bem. Acho que temos todas as possibilidades cobertas.
      Pete balanou a cabea.
       Voltarei para o telefone.
      Anthony ponderou sobre a cena que se desenrolaria a seguir. Luke se mostraria confuso e incerto, cauteloso, mas ansioso para interrogar Anthony. Anthony tentaria 
levar Luke para um lugar qualquer onde ficassem sozinhos e ento bastariam poucos segundos para que ele tivesse uma oportunidade de sacar a arma com silenciador 
que carregava no bolso de dentro do sobretudo.
      Luke faria uma tentativa de ltimo segundo para viver. No era de sua natureza aceitar a derrota. Saltaria sobre Anthony, pularia pela janela ou correria para 
a porta. Anthony se manteria frio; j tinha matado antes, conservaria a calma. Empunharia a arma firmemente e puxaria o gatilho, mirando no peito de Luke, disparando 
diversas vezes, confiante em det-lo. Luke cairia. Anthony se aproximaria dele, verificaria seu pulso e, se necessrio, administraria o golpe de misericrdia. E 
assim, seu mais antigo amigo estaria morto.
      No haveria problema quanto a isso. Anthony tinha a prova dramtica da traio de Luke, as cpias fotogrficas das plantas com a letra dele. No podia provar 
que tivessem realmente sido tiradas de um agente sovitico, mas sua palavra era boa o bastante para a CIA.
      Largaria o corpo em algum lugar. Seria encontrado, claro, e haveria uma investigao. Mais cedo ou mais tarde a polcia descobriria que a CIA estivera interessada 
na vtima e comearia a fazer perguntas, mas a Agncia tinha experincia em evitar investigaes. Diriam  polcia que o vnculo da CIA com a vtima era uma questo 
de segurana nacional e por isso mesmo secreta, mas que nada tinha a ver com o assassinato.
      Quem quer que questionasse isso  policial, jornalista, poltico  seria submetido a uma investigao de lealdade. Teria seus amigos, vizinhos e parentes entrevistados 
por agentes que fariam referncias sombrias a suspeitas ligaes comunistas. A investigao no chegaria a qualquer concluso, mas destruiria a credibilidade da 
pessoa.
      Uma agncia secreta pode tudo, pensou ele, com sinistra confiana.
      Um txi parou na entrada para carros do hotel e Luke saltou. Estava usando um sobretudo azul-marinho e um chapu cinzento que devia ter comprado ou roubado 
naquele dia. Do outro lado da rua Ackie Horwitz parou sua motocicleta. Anthony saltou e dirigiu-se para a porta principal do hotel.
      Tinha um ar tenso, mas sua expresso era de furiosa determinao. Ao pagar, deu uma espiada em Anthony, mas no o reconheceu. Disse para o motorista guardar 
o troco e entrou no hotel. Anthony o seguiu.
      Eram da mesma idade, trinta e sete anos. Tinham se conhecido em Harvard, com dezoito anos, meia vida atrs.
      Que viria a terminar nisto, pensou Anthony, amargamente. Que viria a terminar nisto.
      
> > > < < <
      
Luke sabia que tinha sido seguido desde o apartamento de Bern por um homem de motocicleta e estava muito tenso, com todos os sentidos em alerta.
      O saguo do Carlton parecia uma grande sala de visitas com inmeras reprodues de mobilirio francs. Do lado oposto  entrada, as mesas da recepo e do 
gerente ficavam em um espao recuado, de maneira a no estragar a forma retangular do saguo. Duas mulheres de casacos de pele conversavam com um grupo de homens 
de smoking, perto da entrada do bar. Mensageiros de libr e funcionrios de fraque trabalhavam com silenciosa eficincia. Era um lugar de luxo, destinado a tranqilizar 
os nervos dos viajantes estressados. Nada fez por Luke.
      Examinando o salo, ele identificou rapidamente dois homens que tinham ar de agentes secretos. Um estava sentado em um sof elegante, lendo um jornal, e o 
outro, de p junto do elevador, fumava um cigarro. Nenhum dos dois parecia se ajustar quele ambiente. Estavam vestidos para trabalhar, de terno e capa de chuva, 
e suas camisas e gravatas tinham uma aparncia mais apropriada  luz do dia. Definitivamente no tinham sado para uma noitada em restaurantes e bares caros.
      Pensou em sair de novo  mas aonde isto o levaria? Aproximou-se da recepo, deu o nome e pediu a chave do quarto. Quando se virou para sair, um estranho falou 
com ele:
       Ei, Luke!
      Era o homem que entrara no hotel atrs dele. No parecia um agente, mas Luke reparara vagamente em sua aparncia: alto, mais ou menos da sua altura, e poderia 
ter um ar distinto, se estivesse vestido com mais cuidado. O sobretudo de plo de camelo, embora caro, era velho e pudo, os sapatos pareciam nunca ter sido engraxados 
e o cabelo precisava de um corte. No entanto, falava com autoridade.
       Lamento, mas no sei quem voc   disse Luke.  Perdi a memria.
       Anthony Carroll. Que bom que finalmente consegui encontr-lo!
      Ele estendeu a mo para Luke.
      Luke ficou tenso. Ainda no sabia se Anthony era inimigo ou amigo. Apertou a mo dele e disse:
       Tenho uma poro de perguntas para lhe fazer.
       E eu estou pronto para respond-las.
      Luke fez uma pausa, encarando fixamente o outro homem, sem saber por onde comear. Anthony no parecia ser do tipo capaz de trair um velho amigo. Tinha um 
rosto franco e inteligente, no bonito, mas atraente. No final, Luke se decidiu.
       Como diabos voc pde fazer uma coisa dessas comigo?
       Fui obrigado  pelo seu prprio bem. Eu estava tentando salvar sua vida.
       Eu no sou espio.
       No  to simples assim.
      Luke examinou Anthony, tentando adivinhar o que se passava em sua mente. No foi capaz de concluir se estava ou no falando a verdade. Anthony parecia srio. 
No parecia dissimulado. Mesmo assim, Luke sentiu que estava ocultando alguma coisa.
       Ningum acredita na sua histria de que eu trabalhava para Moscou.
       Quem  ningum?
       Nem Bern nem Billie.
       Eles no sabem de nada.
       Eles me conhecem.
       Eu tambm.
       O que voc sabe que eles no sabem?
       Vou lhe dizer. Mas no posso falar aqui. O que tenho a dizer  secreto. Vamos ao meu escritrio? Fica a cinco minutos.
      Luke no ia ao escritrio de Anthony, no antes de muitas perguntas serem respondidas de forma a satisfaz-lo. Mas dava para ver que o saguo do Carlton no 
era um bom lugar para uma conversa secreta.
       Vamos para a minha sute  disse. Assim se afastaria dos demais agentes, permanecendo no controle. Anthony sozinho no parecia capaz de domin-lo.
      Anthony hesitou e depois pareceu decidir-se.
       Claro  disse, concordando.
      Atravessaram o saguo e entraram no elevador. Luke checou o nmero na chave do seu apartamento: 530.
       Quinto andar  disse para o ascensorista.
      O homem fechou a porta do elevador e acionou a alavanca de comando.
      Os dois no falaram durante a subida. Luke examinou os trajes de Anthony: o casaco velho, o terno amarrotado, a gravata medocre. Surpreendentemente, ele ainda 
conseguia usar aquelas roupas desleixadas com uma certa arrogncia.
      De repente, Luke viu que o tecido fino do casaco cedia ligeiramente do lado direito. Havia um objeto pesado no bolso.
      Luke gelou de medo. Tinha cometido um srio erro. No imaginara que Anthony pudesse estar armado.
      Tentando conservar o rosto inexpressivo, Luke ps-se a pensar furiosamente. Poderia Anthony mat-lo ali mesmo no hotel? Se esperasse at que estivessem na 
sute, ningum veria. E o barulho do tiro? A arma podia ter um silenciador.
      Quando o elevador parou no quinto andar, Anthony desabotoou o casaco.
      Para sacar mais rpido, pensou Luke.
      Saltaram. Luke no sabia para onde ir, mas Anthony, confiantemente, virou  direita. J devia ter estado no quarto de Luke.
      Luke suava debaixo do sobretudo. Tinha a impresso de que aquele tipo de coisa j tinha lhe acontecido, mais de uma vez, mas muito tempo atrs. Devia ter ficado 
com a arma do policial cujo dedo quebrara. Mas no tinha idia, s nove horas da manh, daquilo em que estava envolvido: pensava que simplesmente havia perdido a 
memria.
      Tentou manter-se calmo. Ainda era um contra o outro. Anthony tinha a arma, mas Luke adivinhara suas intenes. Quase elas por elas.
      Caminhando ao longo do corredor, o corao disparado, Luke procurou alguma coisa pesada com que pudesse atingir Anthony: uma jarra, um cinzeiro de vidro, um 
quadro com moldura slida. Nada.
      Tinha que fazer algo antes que entrassem.
      Devia tentar desarmar Anthony? Podia conseguir, mas era arriscado. A arma podia disparar durante a luta e no era possvel adivinhar para qual dos dois estaria 
apontada no momento crucial.
      Chegaram na porta e Luke pegou sua chave. Uma gota de suor escorreu pelo seu rosto. Se entrasse, estava morto.
      Destrancou a porta e abriu-a.
       Entre  disse. Chegou para o lado e abriu caminho.
      Anthony hesitou, mas passou por Luke e entrou.
      Luke meteu o p em torno do tornozelo direito de Anthony, colocou ambas as mos nas suas costas e empurrou com fora. Anthony saiu voando e bateu numa mesinha 
estilo regncia, derrubando um grande jarro cheio de narcisos. Em desespero, agarrou-se na base de um abajur de p com a cpula cor-de-rosa, mas o abajur caiu com 
ele.
      Luke abriu a porta e correu para salvar a vida. Precipitou-se corredor afora, mas o elevador j tinha ido. Passou pela porta de incndio, pegou a escada e 
desceu correndo. No andar seguinte esbarrou numa criada carregando uma pilha de toalhas. Pediu desculpas enquanto ela gritava e as toalhas voavam por toda a parte.
      Poucos segundos mais tarde chegava no p da escada, num corredor estreito. Dali era possvel ver o saguo, atravs de um pequeno arco que encimava um curto 
lano de escadas.
      
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Anthony sabia que errara entrando no quarto em primeiro lugar, mas Luke no lhe deixara alternativa. Por sorte no tinha ficado ferido seriamente. Aps um momento 
atnito, ele se recuperou. Virou-se, dirigiu-se  porta e abriu-a. Ainda teve tempo de ver Luke correndo. Quando saiu atrs dele, Luke virou-se e desapareceu, presumivelmente 
pela porta da escada.
      Anthony seguiu-o, correndo to depressa quanto era capaz, mas com medo de que talvez no conseguisse pegar Luke, que no mnimo estava to em forma quanto ele. 
Ser que Curtis e Malone, no saguo, teriam o bom senso de prend-lo?
      No andar seguinte Anthony foi momentaneamente retido por uma criada de joelhos no cho, pegando toalhas. Anthony imaginou que Luke devia ter esbarrado nela. 
Praguejou e reduziu o passo para contorn-la. Ao faz-lo, ouviu o elevador chegando. Seu corao deu um pulo: talvez estivesse com sorte.
      Quem saiu do elevador foi um casal muito bem vestido, obviamente tanto ele quanto ela meio altos por causa de alguma festa no restaurante. Anthony precipitou-se 
dentro do elevador e disse:
       Trreo e bem depressa.
      O homem fechou as portas bruscamente e acionou a alavanca. Anthony ficou olhando, impotente, a sucesso dos nmeros que iam se iluminando em ordem decrescente 
no visor. Finalmente o elevador chegou no trreo. A porta deslizou para um lado e Anthony saltou.
      
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A escada que Luke desceu atingia o saguo ao lado dos elevadores. O corao dele ficou pequeno. Os dois agentes que reconhecera antes agora estavam de p diante 
da entrada principal, bloqueando a sada. Um momento mais tarde, a porta do elevador se abriu e Anthony saltou.
      Tinha que tomar uma deciso imediata: lutar ou fugir.
      No queria lutar com trs homens. Quase certamente o subjugariam. A segurana do hotel ia se meter. Anthony mostraria sua identidade da CIA e todo mundo cederia. 
Luke terminaria preso.
      Virou-se e saiu correndo pelo corredor, entrando nas profundezas do hotel. s suas costas, ouvia os passos de Anthony, perseguindo-o. Tinha que haver uma porta 
nos fundos  suprimentos no podem ser entregues na entrada principal.
      Passou por uma cortina e viu-se num pequeno ptio decorado como um caf ao ar livre da regio do Mediterrneo. Alguns casais danavam na minscula pista de 
dana. Evoluindo por entre as mesas, lanou-se na direo da porta de sada e seguiu correndo pelo estreito corredor  esquerda. Imaginou que j devia estar perto 
dos fundos do hotel, mas ainda no via uma sada.
      Saiu em uma espcie de despensa, onde eram aplicados os toques finais em pratos preparados em outros lugares. Meia dzia de garons uniformizados aqueciam 
comida em rchauds e arrumavam bandejas. No meio do aposento havia uma escada que descia. Luke empurrou os garons e desceu pela escada, ignorando a voz que exclamou:
       Desculpe, senhor! No pode descer por a!
      Quando Anthony apareceu correndo atrs de Luke, a mesma voz fez-se ouvir, indignada:
       O que esto pensando que  isso aqui  a Union Station? 
      No poro ficava a cozinha principal, um purgatrio de suor onde dezenas de chefs cozinhavam para centenas de pessoas. Jatos de gs chamejavam, nuvens de vapor 
se agitavam, paneles borbulhavam. Garons gritavam com cozinheiros e cozinheiros gritavam com auxiliares. Todos estavam ocupados demais para prestar ateno em 
Luke enquanto ele ia se desviando das geladeiras e foges, das pilhas de pratos e dos imensos depsitos de legumes.
      Na parte de trs da cozinha encontrou uma escada que subia. Devia levar para a entrada de servio. Caso contrrio, estaria encurralado. Resolveu correr o risco 
e subiu correndo a escada. L em cima, passou por uma porta e viu-se respirando o ar frio da noite.
      Estava num ptio escuro. Uma lmpada mortia em cima da porta mostrou-lhe gigantescos depsitos de lixo e pilhas de engradados que pareciam conter frutas. 
A cinqenta metros  sua direita havia uma cerca de arame alta com um porto fechado e, do outro lado, uma rua que seu senso de direo lhe dizia ser a Quinze.
      Correu para o porto. Ouviu a porta s suas costas bater e adivinhou que seria Anthony atingindo tambm o ptio. E agora os dois estavam sozinhos.
      Quando chegou no porto viu que estava fechado e trancado com um enorme cadeado de ao. Se ao menos passasse um pedestre por ali, Anthony teria medo de atirar. 
Mas no havia ningum.
      O corao batendo com fora, Luke galgou a cerca. Quando atingiu o topo, ouviu o discreto tossir de uma pistola dotada de silenciador. Mas no sentiu nada. 
Era um tiro difcil, o alvo se movendo a cinqenta metros de distncia, no escuro. Mas no chegava a ser um tiro impossvel. Ele passou por cima da cerca e a pistola 
tossiu de novo. Ele cambaleou e caiu no cho. Ouviu um terceiro tiro abafado. Ps-se de p num pulo e saiu correndo. A pistola no se fez ouvir de novo.
      Olhou para trs quando chegou na esquina. Anthony no era visvel em parte alguma.
      Tinha conseguido fugir.
      
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Anthony sentiu a perna bamba. Apoiou-se na parede fria para se firmar. O ptio cheirava a verduras podres. Era como se estivesse cheirando a corrupo.
      Foi a coisa mais difcil que j fizera. Por comparao, matar Albin Moulier tinha sido fcil. Ao apontar a arma para o vulto de Luke galgando uma cerca de 
arame, sentira-se quase incapaz de puxar o gatilho.
      Aquele fora o pior desfecho possvel. Luke ainda estava vivo, e, tendo sido alvo de tiros, estava totalmente alerta, determinado a descobrir a verdade.
      A porta da cozinha abriu-se de repente e Malone e Curtis apareceram. Anthony enfiou discretamente a pistola no bolso de dentro. E disse, arquejante:
       Por cima da cerca. Vo atrs dele.
      Sabia que no iam conseguir pegar Luke.
      Quando os dois desapareceram, comeou a procurar os cartuchos das balas.

22:30

O projeto do foguete  baseado na bomba V2 usada contra Londres durante a guerra. O motor, inclusive, parece o mesmo. Os medidores de acelerao, rels e giroscpios 
so todos da V2. A bomba dos propelentes usa perxido de hidrognio passado sobre um agente canalizador de cdmio, liberando a energia que impulsiona uma turbina 
 e isto tambm vem da V2.
Harold Brodsky preparou um bom martni seco e o empado de atum da sra. Riley provou ser to gostoso quanto o prometido. Como sobremesa, Harold serviu torta de cereja 
e sorvete. Billie sentiu-se culpada. Ele se esforava tanto para agrad-la, mas o tempo todo a cabea dela estava em Luke e Anthony, o passado que tinham em comum 
e seu intrigante enredo novo.
      Enquanto Harold fazia o caf, ela telefonou para casa e verificou se estava tudo bem com Larry e Becky-Ma. Depois Harold sugeriu que passassem para a sala 
de estar e assistissem  televiso. Ele pegou uma garrafa de conhaque francs carssimo e serviu doses fartas em dois clices apropriados e exageradamente grandes. 
Estaria tentando reforar sua coragem, perguntou-se Billie, ou reduzir a resistncia dela? Inalou os vapores do conhaque, mas no bebeu nada.
      Assistiram a um filme de aventuras chamado Run, Joe, Run! em que Jan Sterling fazia uma garonete envolvida com o ex-gngster Alex Nichol. Billie no conseguiu 
se interessar pelos perigos imaginrios da tela. Seu crebro insistia em desviar-se para o mistrio do que Anthony fizera com Luke. Na OSS eles tinham violado todos 
os tipos de leis, e Anthony ainda estava metido com trabalhos clandestinos, mas assim mesmo Billie ficara chocada por ele ter ido to longe. No seria o caso de 
serem aplicadas regras diferentes em tempo de paz?
      E qual seria o motivo? Bern telefonara para contar a confisso que fizera a Luke e com isso confirmara o que todos os instintos de Billie lhe afirmavam, que 
Luke no podia ser espio. Mas Luke acreditava nisso? Caso contrrio, qual seria a verdadeira razo para ele ter feito o que fizera?
      Harold desligou a televiso e serviu-se de outro conhaque.
       Tenho pensado no nosso futuro  disse.
      Billie sentiu o corao ficar pequenino. Ele ia propor casamento. Se o tivesse feito na vspera, teria aceitado. Mas hoje mal podia pensar nisso.
      Harold segurou sua mo.
       Eu a amo  disse.  Ns nos damos bem, temos os mesmos interesses e cada um de ns tem um filho  mas no  por isso. Acredito que eu ia querer me casar 
com voc mesmo que voc fosse uma garonete que mascasse chiclete e gostasse do Elvis Presley.
      Billie deu uma risada. 
      Ele continuou.
       Eu simplesmente adoro voc, por nenhuma outra razo alm de voc ser voc. Sei que  um sentimento real porque me aconteceu antes, uma nica vez, com Lesley. 
Eu a amei com todo meu corao at que ela me foi tirada. Assim sendo, no tenho a menor dvida. Amo voc e quero que sejamos felizes para sempre.
      Ele fez uma pausa, encarou-a e perguntou:
       Como se sente quanto a isso? 
      Ela suspirou.
       Gosto de voc. Gosto de ir para a cama com voc. Acho que seria timo.
      Ele ergueu uma sobrancelha ao ouvir aquilo, mas no a interrompeu.
       E no posso deixar de pensar em como a vida seria muito mais fcil se eu tivesse algum com quem compartilhar minhas aflies.
       Essa parte  boa.
       Ontem teria sido timo. Eu teria dito sim, amo voc, vamos nos casar. Mas hoje eu encontrei algum do meu passado e me lembrei como era estar apaixonada 
aos vinte e um anos.
      Ela lhe dirigiu um olhar muito franco.
       No me sinto assim a respeito de voc, Harold. 
      Ele no ficou totalmente desencorajado.
       Quem se sente, na nossa idade?
       Talvez voc tenha razo.
      Ela gostaria de se sentir loucamente apaixonada de novo. Mas era um desejo tolo para uma divorciada com um filho de sete anos. Para ganhar um pouco de tempo, 
levou o clice de conhaque aos lbios.
      A campainha da porta soou.
      O corao de Billie disparou.
       Quem diabo ser?  perguntou Harold, furioso.  Espero que Sidney Bowman no queira me pedir o macaco do meu carro emprestado a esta hora da noite.
      Ele se levantou e foi atender a porta. 
      Billie sabia quem era. Descansou o clice de conhaque intocado e se levantou.
      Ouviu a voz de Luke na porta.
       Preciso falar com a Billie.
      Ela gostaria de saber por que se sentiu to feliz.
       No sei se ela quer ser perturbada a uma hora destas  Billie ouviu a voz de Harold dizendo.
        importante.
       Como sabia que ela estava aqui?
       A me dela me falou. Desculpe, Harold, mas no tenho tempo a perder.
      Billie ouviu uma batida, seguida por um protesto de Harold e adivinhou que Luke forara a entrada. Ela dirigiu-se at a porta e deu uma olhada no hall.
       Vamos com calma, Luke  disse.  Esta casa  de Harold. 
      Luke rasgara o casaco, perdera o chapu e parecia muito abalado.
       O que foi que aconteceu agora?  perguntou ela.
       Anthony atirou em mim. 
      Billie ficou chocada.
       Anthony? Meu Deus, o que foi que deu nele? Anthony atirou em voc?
      Harold pareceu ficar assustado.
       Que negcio  esse de atirar? 
      Luke ignorou-o.
       Est na hora de contar a algum que tenha autoridade o que est acontecendo  disse a Billie.  Vou ao Pentgono. Mas estou preocupado com a possibilidade 
de no acreditarem em mim. Voc quer ir comigo para me ajudar?
       Claro  respondeu ela, pegando o casaco no cabide do hall.
       Billie!  exclamou Harold.  Pelo amor de Deus  ns estvamos no meio de uma conversa muito importante.
       Eu realmente preciso de voc  insistiu Luke.
      Billie hesitou. Era muito duro para Harold. Ele obviamente vinha planejando aquele momento j havia algum tempo. Mas a vida de Luke estava em perigo.
       Sinto muito  disse para Harold.  Mas eu tenho que ir. 
      Ela ergueu o rosto para ser beijada, mas ele virou a cara.
       No fica assim  disse Billie.  Vejo voc amanh.
       Fora da minha casa, vocs dois!  exclamou ele, furioso. 
      Billie saiu, com Luke atrs dela, e Harold bateu a porta.

23:00

O programa Jupiter custou 40 milhes de dlares em 1956 e 140 em 1957. Em 1958 a expectativa  que os gastos sejam superiores a 300 milhes.
Anthony achou papel de carta do hotel na escrivaninha do quarto que Pete alugara. Pegou um envelope, tirou do bolso trs balas amassadas e trs cartuchos, correspondentes 
aos tiros que dera em Luke, e colocou no envelope, que fechou e colocou no bolso. Iria se livrar daquilo na primeira oportunidade.
      O que estava fazendo era controle de danos. Tinha muito pouco tempo, mas era preciso ser meticuloso. Precisava apagar todos os vestgios daquele incidente. 
O trabalho o ajudou a esquecer o asco de si prprio que causava um gosto to amargo em sua boca.
      O gerente de servio entrou no quarto com um ar furioso. Era um homem pequeno, elegante e careca.
       Sente-se, por favor, sr. Suchard  disse Anthony, mostrando ao homem sua identidade da CIA.
       CIA!  exclamou Suchard, sua indignao comeando a murchar.
      Anthony puxou um carto da carteira.
       Aqui diz Departamento de Estado, mas sempre poder me encontrar neste telefone, se precisar de mim.
      Suchard pegou o carto cuidadosamente, como se achasse que podia explodir a qualquer momento.
       O que posso fazer pelo senhor, sr. Carroll?
      Ele tinha um ligeiro sotaque, e Anthony achou que talvez fosse suo.
       Primeiro quero me desculpar pela pequena briga barulhenta que tivemos algum tempo antes.
      Suchard balanou a cabea formalmente. Ele no ia dizer que estava bem.
       Por sorte, foram poucos os hspedes que notaram alguma coisa. Apenas o pessoal da cozinha e uns poucos garons viram o senhor perseguindo aquele cavalheiro.
       Fico satisfeito de no termos perturbado muito seu excelente hotel, mesmo que a causa tenha sido uma questo de segurana nacional.
      Suchard ergueu ambas as sobrancelhas em sinal de surpresa. 
       Segurana nacional?
       Naturalmente que no posso lhe dar os detalhes...
       Naturalmente.
       Mas espero poder contar com a sua discrio.
      Os profissionais da hotelaria orgulham-se particularmente de serem pessoas discretas e Suchard balanou com vigor a cabea.
       Realmente, pode contar.
       Pode no ser necessrio relatar o incidente para o seu chefe imediato, o gerente-geral.
       Possivelmente...
      Anthony puxou um rolo de notas.
       O Departamento de Estado tem um pequeno fundo para compensar casos como este.
      Ele tirou uma nota de vinte, que Suchard aceitou.
       E se outros membros do quadro funcional do hotel se sentirem descontentes, talvez...
      Ele contou devagar quatro notas de vinte que passou s mos de Suchard.
      Era uma gorjeta imensa para um gerente auxiliar.
       Muito obrigado, senhor. Tenho certeza de que podemos satisfazer suas necessidades.
       Se algum lhe fizer perguntas, talvez o melhor seja dizer que no viu nada.
       Naturalmente.
      Suchard levantou-se.
       Se houver mais alguma coisa...
       Entrarei em contato  Anthony fez um gesto com a cabea dispensando-o, e Suchard foi embora.
      Pete entrou.
       O chefe da segurana em Cabo Canaveral  o coronel Bill Hide  disse ele.  Est hospedado no Starlite Motel.
      Ele entregou a Anthony um pedao de papel com um nmero de telefone e saiu de novo.
      Anthony discou o nmero e conseguiu a ligao para o quarto de Hide.
       Aqui  Anthony Carroll, CIA, Diviso de Servios Tcnicos  disse ele.
      Hide falou devagar e com um jeito no caracteristicamente militar, dando a impresso de j ter tomado uns drinques.
       Bem, o que posso fazer pelo senhor, sr. Carroll?
       Estou ligando por causa do dr. Lucas.
       Oh, sim?
      Ele pareceu ligeiramente hostil e Anthony decidiu amaci-lo.
       Gostaria muito de um conselho seu, se pudesse me ceder um minuto nessa hora to tardia, coronel.
      Hide entusiasmou-se.
       Claro, o que estiver a meu alcance. 
      Assim era melhor.
       Acho que o senhor sabe que o dr. Lucas tem se comportado estranhamente, o que  preocupante em um cientista de posse de informaes secretas.
       Com certeza que sim.
      Anthony queria que Hide se sentisse no comando.
       Como o senhor definiria o estado mental dele?
       Parecia normal na ltima vez em que o vi, mas falei com ele poucas horas atrs e me disse que perdeu a memria.
       H mais. Ele roubou um carro, assaltou uma casa, agrediu um policial, coisas assim.
       Meu Deus, ele est em pior estado do que eu pensei. 
      Hide estava acreditando, pensou Anthony, aliviado. Continuou pressionando.
       Achamos que ele no est tendo um comportamento racional, mas o senhor saberia avaliar melhor. O que diria que est acontecendo?
      Anthony prendeu a respirao, esperando ansioso a resposta certa.
       Bem, penso que ele deve estar sofrendo um colapso nervoso.
      Aquilo era exatamente o que Anthony queria que ele acreditasse, s que agora Hide pensava que era uma idia sua. E passou a querer convencer Anthony.
       Olha s, sr. Carroll, o Exrcito no iria empregar um maluco para trabalhar num projeto secretssimo. Normalmente Luke  to sadio quanto eu ou o senhor. 
Obviamente alguma coisa o desestabilizou.
       O dr. Lucas parece pensar que h uma conspirao montada contra ele, mas o senhor est dizendo que no devemos acreditar nisso.
       Nem por um minuto.
       De modo que temos que tratar deste assunto com muito cuidado. Quer dizer, no devemos alertar o Pentgono.
       Puxa vida, no  concordou Hide, preocupado.  Na verdade,  melhor que eu telefone para l e avise ao pessoal que Luke parece no estar bom da cabea.
       Como queira.
      Pete entrou e Anthony levantou um dedo para que esperasse. Em seguida abrandou a voz e falou no bocal.
       Por acaso, sou velho amigo do dr. e da sra. Lucas. Vou tentar persuadir Luke a procurar ajuda psiquitrica.
       Parece uma boa idia.
       Bem, muito obrigado, coronel. O senhor me deixou tranqilo e ns agiremos segundo as linhas que sugeriu.
       No seja por isso. Se houver alguma coisa que queira me perguntar ou discutir comigo, telefone a qualquer hora.
       Fique certo que eu ligo  Anthony desligou. 
      Pete indagou:
       Ajuda psiquitrica?
       Isso foi s para os ouvidos do coronel Hide. 
      Anthony examinou a situao. No havia indcios ali no hotel. Tinha manobrado para o Pentgono se colocar contra qualquer relatrio que Luke pudesse fazer. 
S restava ento o hospital de Billie. 
      Ele se levantou.
       Voltarei em uma hora  disse.  Quero que fique aqui. Mas no l embaixo no saguo. Pegue Malone e Curtis e suborne um garom do servio de quarto para deixar 
vocs entrarem na sute. Tenho o pressentimento de que ele voltar.
       E se voltar?
       No o deixe fugir de novo  no importa como.

Meia-noite

O Jupiter C usa Hydyne, um combustvel secreto altamente energtico, que  12% mais potente que o lcool usado nos msseis padronizados Redstone.  uma substncia 
txica e corrosiva e constitui-se em uma mistura de UDMH  dimetilidrazina assimtrica  e triamine dietilene.
Billie parou o Thunderbird vermelho na rea de estacionamento do Georgetown Mind Hospital e desligou o motor. O coronel Lopez, do Pentgono, parou a seu lado o Ford 
Fairlane pintado de verde-oliva.
       Ele no acredita numa s palavra do que digo  reclamou Luke, furioso.
       No se pode culp-lo  ponderou Billie.  O auxiliar de gerente do Carlton diz que ningum foi perseguido atravs das cozinhas do hotel e no foram encontrados 
cartuchos de balas na rea de carga e descarga.
       Anthony recolheu os indcios.
       Eu sei disso, mas o coronel Lopez no sabe.
       Graas a Deus levei voc para confirmar minhas palavras. 
      Eles saltaram do carro e entraram no prdio com o coronel, um paciente hispnico com uma expresso inteligente no rosto. Billie cumprimentou a recepcionista 
com um gesto de cabea e levou os dois homens escadas acima e pelo corredor at a sala de registros.
       Vou lhe mostrar a ficha de um homem chamado Joseph Bellow, cujas caractersticas fsicas so idnticas s de Luke  explicou ela.
      O coronel balanou a cabea, concordando. 
      Billie prosseguiu.
       O senhor ver que ele foi admitido na tera-feira, tratado e liberado s quatro da madrugada de quarta-feira. H de compreender que  muito pouco usual para 
um paciente com esquizofrenia receber tratamento sem ser colocado primeiro em observao. E dificilmente ser preciso que eu lhe diga o quanto  inslito um paciente 
receber alta de um hospital mental s quatro horas da manh.
       Eu compreendo  disse Lopez, sem se comprometer. 
      Billie abriu a gaveta, pegou a pasta de Bellow, colocou em cima da mesa e abriu. Estava vazia.
       Oh, meu Deus  disse ela.
      Luke contemplou a pasta de cartolina sem querer acreditar.
       Eu mesmo vi o papel a h menos de seis horas. 
      Lopez fez um ar de cansado.
       Bem, acho que  isso.
      Luke teve a impresso de viver um pesadelo num mundo surrealista no qual as pessoas podiam fazer o que bem quisessem, dar tiros nele e alterar suas funes 
mentais e nem sequer podia provar que isso acontecera.
       Talvez eu seja esquizofrnico  disse, deprimido.
       Pois bem, mas eu no sou  contraps Billie.  E tambm vi essa pasta.
       Mas no est aqui agora  lembrou Lopez.
       Espere  disse Billie.  O registro dirio mostrar a admisso do paciente Joseph Bellow. O registro fica na mesa da recepo.
      Ela fechou a gaveta da mesa com uma batida. 
      Os trs desceram at o saguo e Billie falou com o recepcionista.
       Deixa-me ver o registro, Charlie, por favor.
       Agora mesmo, dra. Josephson.
      O jovem negro atrs do balco levou um momento procurando o registro.
       Puxa vida, onde  que aquela droga de livro foi parar?
       Jesus Cristo  resmungou Luke.
      O rosto do recepcionista traduziu toda a sua vergonha.
       Sei que estava aqui duas horas atrs.
      Billie estava a ponto de explodir.
       Diga-me uma coisa, Charlie. O dr. Ross esteve aqui hoje  noite?
       Esteve, sim senhora. Saiu h poucos minutos. 
      Ela balanou a cabea.
       Na prxima vez que voc vir o dr. Ross, pergunte a ele onde o registro foi parar. Ele sabe.
       Pode deixar que vou perguntar. 
      Billie afastou-se.
       Permita-me perguntar-lhe uma coisa, coronel  disse Luke, furioso.  Antes de ns estarmos com o senhor, algum tinha lhe falado a meu respeito?
      Lopez hesitou.
       Sim, tinha. 
       Quem? 
      Ele hesitou de novo.
       Acho que voc tem o direito de saber. Tivemos uma ligao de um tal coronel Hide, l de Cabo Canaveral. Ele disse que a CIA estava atrs do senhor e que 
informara que o senhor estava se comportando irracionalmente.
      Luke balanou a cabea melancolicamente.
       Anthony de novo. 
      Billie dirigiu-se a Lopez.
       Olha, no posso imaginar mais nada que possamos fazer a fim de convencer o senhor. E realmente no o culpo por no acreditar em ns, j que no temos indcios.
       Eu no disse que no acreditava em vocs.
      Luke espantou-se e olhou para o coronel com nova esperana.
      Lopez prosseguiu.
       Eu podia achar que o senhor tivesse imaginado que um homem da CIA o perseguiu no interior do hotel Carlton, disparando trs tiros na sua direo no beco 
dos fundos do hotel. Eu podia inclusive acreditar que o senhor e a doutora tivessem conspirado para fingir que houve um arquivo que desapareceu. Mas no acredito 
que esse rapaz, o Charlie, fizesse parte dessa conspirao.  bvio que tem que haver um registro dirio de entrada e sada de pacientes no hospital e esse arquivo 
desapareceu. No penso que foi o senhor que sumiu com ele  por que faria isso? Mas ento, quem foi? Algum tem alguma coisa a esconder.
       Ento o senhor acredita em mim?  indagou Luke.
       O que h para acreditar? O senhor no sabe do que se trata. Tampouco eu sei o que . Mas h alguma coisa, com toda a certeza, acontecendo por aqui. E eu 
acredito que tenha a ver com o foguete que estamos prestes a lanar.
       O que o senhor vai fazer?
       Vou expedir uma ordem de alerta total em Cabo Canaveral. J estive l, sei como so relaxados. Amanh de manh no sabero o que foi que os atingiu.
       Mas e quanto a Anthony?
       Eu tenho um amigo na CIA. Vou contar a ele a sua histria e dizer que no sei se  verdade ou no, mas que estou preocupado.
       Mas isso no vai nos levar a parte alguma!  protestou Luke.  Precisamos saber o que est acontecendo, por que apagaram a minha memria!
       Concordo  disse Lopez.  Mas no posso fazer mais nada. O resto  por sua conta.
       Cristo  disse Luke.  Ento eu estou sozinho.
       No, no est  contraps Billie.  Voc no est sozinho.

PARTE QUATRO

1:00

O novo combustvel  baseado em um gs que causa desequilbrio no sistema nervoso e  muito perigoso. Este gs  enviado a Cabo Canaveral em um trem especial equipado 
com nitrognio para ser usado como uma espcie de coberta qumica destinada a impedir que o gs combustvel fuja. Uma gota desse gs na pele ser absorvida instantaneamente 
pela corrente sangunea e ter conseqncias fatais. Os tcnicos dizem que se voc sentir cheiro de peixe, fuja a toda velocidade.
Billie dirigiu com rapidez, conduzindo o Thunderbird de mudana manual com bastante confiana. Luke observou-a com admirao. Cruzaram velozmente as ruas silenciosas 
de Georgetown, alcanaram o centro da cidade de Washington e rumaram para o Carlton.
      Luke sentiu-se energizado. Sabia quem era seu inimigo, tinha uma amiga que o apoiava e compreendia o que tinha de fazer. Se por um lado estava perplexo com 
o que lhe acontecera, por outro sentia-se determinado e impaciente para solucionar o mistrio.
      Billie estacionou depois da esquina a uma certa distncia da entrada.
       Eu vou primeiro  disse ela.  Se houver alguma coisa de suspeito no saguo, saio na mesma hora. Se voc me vir tirando o casaco, saber que a barra est 
limpa.
      Luke no se sentiu  vontade com o plano.
       E se o Anthony estiver l?
       Ele no ir atirar em mim  Billie saltou do carro. 
      Luke pensou em discutir com Billie, mas desistiu. Provavelmente estava certa. Anthony devia ter esquadrinhado o seu quarto e destrura tudo que pudesse ser 
uma pista para o segredo que tanto queria guardar. Mas era preciso tambm conservar um aspecto de normalidade para apoiar a histria da perda da memria dele, Luke, 
aps uma tremenda bebedeira. Assim sendo, devia encontrar praticamente todas as suas coisas. O que o ajudaria a reorientar-se. E tambm podia ser que encontrasse 
alguma pista que houvesse passado despercebida de Anthony.
      Aproximaram-se do hotel separadamente, com Luke permanecendo na calada oposta. Observou Billie entrar, apreciando seu caminhar desenvolto e o balano do seu 
casaco. Continuou podendo v-la atravs das portas de vidro. Um dos empregados da recepo, um carregador, aproximou-se imediatamente, suspeitando de uma mulher 
glamourosa que chegava sozinha no hotel tarde da noite. Viu-a falando com ele e adivinhou o que dizia, Sou a sra. Lucas, meu marido chegar num instante, e tirou 
o casaco.
      Luke atravessou a rua e entrou no hotel. 
      Para que o carregador ouvisse, ele disse:
       Quero dar um telefonema antes de subirmos, querida. 
      Havia um telefone interno na mesa da recepo, mas ele no queria que o carregador o ouvisse. Logo ao lado havia uma saleta que tinha um telefone pblico dentro 
de uma cabine dotada de cadeira. Luke entrou e Billie o seguiu, fechando a porta. Os dois ficaram bem juntinhos. Ele colocou uma moeda de dez centavos no aparelho 
e telefonou para o prprio hotel onde tinham acabado de chegar. Inclinou o aparelho para que ela pudesse ouvir. Embora muito tenso, achou deliciosamente excitante 
estar to perto dela.
       Sheraton-Carlton, bom dia.
      Era uma hora da manh! Quinta-feira de madrugada. Estava acordado havia vinte horas. Mas no sentia sono, de to ansioso. 
       Quarto quinhentos e trinta, por favor. 
      O telefonista hesitou.
       Senhor, j passa de uma hora  trata-se de uma emergncia?
       O dr. Lucas me pediu para telefonar por mais tarde que fosse.
       Muito bem.
      Houve uma pausa, depois a campainha tocou. Luke sentiu-se muito consciente do corpo quente de Billie dentro de um vestido de seda vermelho. Teve que resistir 
ao impulso de passar os braos em torno de seus ombros pequenos e lindos e pux-la para junto de si.
      Depois de quatro toques ele j ia acreditar que o quarto estivesse vazio, mas atenderam, o que significava que Anthony, ou um de seus homens, estava  sua 
espera. Era um aborrecimento a mais, s que Luke sentiu-se melhor por saber onde o inimigo estava instalado.
      Uma voz disse Al. O tom era incerto. No era Anthony, mas podia ser Pete.
      Luke fingiu-se de bbado.
       Ei, Ronnie, aqui  o Tim. Estamos todos esperando voc! 
      O homem que atendera, gemeu, irritado.
       Um bbado  ele murmurou, como se estivesse falando com outra pessoa.  Ligou para o quarto errado, companheiro.
       Puxa vida, desculpe. Espero que no tenha acordado... 
      Luke interrompeu-se quando o telefone foi desligado.
       Tem algum l  disse Billie.
       Talvez mais de um.
       Sei como tir-los de l  ela sorriu.  Fiz isso em Lisboa, durante a guerra. Vamos.
      Saram da cabine telefnica. Luke percebeu que Billie pegava discretamente uma caixa de fsforos no cinzeiro ao lado dos elevadores. O carregador, funcionando 
como ascensorista, conduziu-os no elevador ao quinto andar.
      Eles saltaram, acharam o quarto 530 e prosseguiram, sem fazer barulho. Billie abriu uma porta sem marcas. Era um armrio de roupa de cama e banho.
       Perfeito  disse, baixinho.  Tem algum alarme de incndio aqui perto?
      Luke procurou em torno e viu um alarme do tipo que pode ser acionado quebrando-se uma porta de vidro com um martelo de pequeno tamanho.
       Bem aqui  disse ele.
       timo.
      No armrio, havia colchas e cobertores meticulosamente empilhados nas prateleiras de madeira. Billie desdobrou um cobertor e largou-o no cho. Fez o mesmo 
com diversos outros at que formou uma pilha de bom tamanho. Luke adivinhou o que pretendia e sua conjetura foi confirmada quando ela pegou um pedido de caf da 
manh que estava pendurado em uma maaneta em que ateou fogo com um fsforo. Com o pedido em chamas, incendiou a pilha de cobertores.
        por isso que nunca se deve fumar deitado  disse ela.
      Quando as chamas comearam a subir, Billie foi colocando mais roupa de cama. Seu rosto ficou congestionado com o calor e com o seu entusiasmo, tornando-a mais 
atraente que nunca. Em pouco tempo havia uma fogueira barulhenta. A fumaa escapou de dentro do armrio e comeou a encher o corredor.
       Hora de soar o alarme  disse ela.  No queremos que ningum se machuque.
       Certo  concordou Luke e mais uma vez a frase veio  sua cabea , eles no so colaboradores.  Mas agora ele a compreendia. Na Resistncia, explodindo 
fbricas e depsitos, ele devia se preocupar o tempo todo em no ferir franceses inocentes.
      Luke pegou o martelo que ficava pendurado por uma corrente ao lado do alarme de incndio, quebrou o vidro com uma batida leve e apertou o enorme boto vermelho 
do lado de dentro. Um momento mais tarde uma campainha, tocando bem alto, rompeu o silncio do corredor.
      Luke e Billie foram para o corredor e recuaram, afastando-se do elevador, at que apenas podiam ver a porta da sute de Luke por entre a fumaa.
      A porta mais perto deles abriu-se e apareceu uma mulher de camisola. Ela viu a fumaa, gritou e saiu correndo para a escada. De outra porta surgiu um homem 
que obviamente estivera trabalhando at tarde, em mangas de camisa e com um lpis na mo; depois foi a vez de um jovem casal, que deu a impresso de ter sido interrompido 
fazendo amor; logo em seguida surgiu um homem de olhos injetados e pijama cor-de-rosa amassado. Poucos momentos mais tarde o corredor estava cheio de gente tossindo 
e tateando por entre a fumaa na direo da escada.
      A porta do quarto 530 abriu-se lentamente.
      Luke viu um homem alto pisar no corredor. No obstante a fumaa e o escuro, teve a impresso de reconhecer uma grande marca cor de vinho no rosto dele: Pete. 
Recuou para no ser reconhecido. O vulto hesitou, depois pareceu tomar uma deciso e juntou-se aos hspedes que corriam na direo da escada. Dois outros homens 
saram tambm e o seguiram.
       Tudo limpo  disse Luke.
      Luke e Billie entraram na sute e Luke fechou a porta para a fumaa no entrar. Tirou o casaco.
       Oh, meu Deus!  disse Billie.   o mesmo quarto!
      
> > > < < <
      
Billie a tudo examinava, olhos arregalados.
       No posso acreditar  disse ela, num fio de voz que ele mal conseguiu ouvir.   esta mesma sute.
      Luke permaneceu de p, olhando, nas garras de uma emoo violenta.
       O que foi que aconteceu aqui?  perguntou ele, por fim. 
      Billie sacudiu a cabea, assombrada.
        difcil acreditar que voc no se lembra  ela andou um pouco pelo quarto.  Havia um piano aqui neste canto  disse.  Imagine  um piano num quarto de 
hotel!
      Ela deu uma olhada no banheiro.
       E um telefone aqui dentro. Eu nunca tinha visto um telefone em um banheiro!
      Luke aguardou. Seu rosto exprimia tristeza e uma outra coisa que ela no conseguiu interpretar.
       Voc ficou aqui durante a guerra  disse ela por fim, apressando-se a acrescentar, de um s flego:
       Fizemos amor aqui.
      Ele examinou o quarto. 
       Na cama, com certeza.
       No s na cama  ela deu uma risadinha mas logo voltou a ficar solene.  Como ramos jovens!
      A idia de fazer amor com aquela mulher encantadora era intoleravelmente excitante.
       Meu Deus, eu quisera poder me lembrar  disse ele, e sua voz soou cheia de desejo.
      Para surpresa de Luke, Billie corou.
      Luke virou-se de lado e pegou o telefone. Discou o nmero da telefonista. Queria se assegurar de que o fogo no teria chance de se espalhar. Aps longa espera, 
finalmente atenderam.
       Quem fala aqui  o sr. Davies. Fui eu que disparei o alarme  disse Luke rapidamente.   um incndio em um depsito de roupas de cama perto do quarto quinhentos 
e quarenta.
      Desligou sem esperar resposta.
      Billie examinava o quarto, o momento emocional passado.
       Suas roupas esto aqui  disse.
      Ele entrou no quarto. Em cima da cama havia um casaco esporte de tweed cinza-claro e uma cala de flanela preta. Certamente tinham voltado do tintureiro. Devia 
ter mandado passar aquela roupa depois de t-la vestido no avio. No cho havia um par de sapatos sociais marrom-escuros. Um cinto de crocodilo tinha sido enrolado 
cuidadosamente dentro de um dos ps do sapato.
      Luke abriu a gaveta da mesinha-de-cabeceira e encontrou uma carteira, um talo de cheques e uma caneta tinteiro. Mais interessante que tudo foi uma agenda 
com uma lista de telefones na parte de trs. Deu uma espiada rpida e achou a semana corrente.
DOMINGO 26
Telefonar para Alice (1928)
SEGUNDA 27
Comprar calo de banho
8:30: reunio pice, Vanguard Mtl
TERA 28
8:00: caf da manh com AC, coffee shop do Hay Adams
      Billie colocou-se ao lado dele para ver o que estava lendo e ps a mo no seu ombro. Foi um gesto casual, mas o toque da mo dela deu-lhe um arrepio de prazer.
       Alguma idia de quem possa ser essa Alice?  perguntou ele.
       Sua irm mais moa.
       Quantos anos?
       Sete anos mais moa que voc, o que significa que ela tem trinta.
       Ento ela nasceu em 1928. Acho que falei com ela no dia do seu aniversrio. Podia telefonar agora, perguntar se falei alguma coisa diferente.
       Boa idia.
      Luke sentiu-se bem. Estava reconstruindo sua vida.
       Eu devo ter ido para a Flrida sem meu calo de banho.
       Quem pensa em nadar em janeiro?
       Por isso escrevi um lembrete para comprar um na segunda-feira. Naquela manh fui ao Vanguard Motel s oito e meia.
       O que  essa reunio pice?
       Acho que deve ter a ver com a curva seguida pelo mssil em vo. No me lembro de tratar disso, claro, mas sei que h um clculo importante e difcil que 
tem de ser feito. O segundo estgio precisa ser disparado exatamente no pice a fim de colocar o satlite em rbita permanente.
       Voc podia descobrir quem mais esteve nessa reunio e conversar com outras pessoas.
       Vou descobrir.
       Depois, na tera-feira, voc teve o caf da manh com Anthony no coffee shop do Hay Adams Hotel.
       Depois disso no h mais compromissos marcados nesta agenda.
      Luke passou para as pginas finais. Havia os telefones de Anthony, Billie, Bern, Me e Alice e vinte ou trinta outros que nada significavam para ele.
       Alguma coisa que chame a sua ateno?  perguntou a Billie.
      Ela sacudiu a cabea.
      Havia algumas dicas que valia a pena seguir, mas nada de pistas bvias. Era o que tinha esperado, mas assim mesmo sentiu-se esvaziado. Ps a agenda no bolso 
e deu uma olhada no quarto. Uma pasta de couro preto bem usada estava aberta em cima de um estrado. Examinou-a, e encontrou camisas e roupa de baixo limpas, um caderno 
de notas cheios de clculos matemticos e uma brochura chamada O velho e o mar com uma folha virada na pgina 143.
      Billie examinou o banheiro.
       Aparelho de barbear, estojo de toalete, escova de dentes e mais nada.
      Luke abriu todos os armrios e gavetas do quarto e Billie fez o mesmo na sala. Ele encontrou um sobretudo preto de l e um chapu de feltro tambm preto em 
um armrio, mas foi s.
       Zero  exclamou ele.  E voc?
       Seus recados telefnicos esto aqui em cima da escrivaninha. De Bern, de um tal coronel Hide e de algum chamado Marigold.
      Luke imaginou que Anthony lera as mensagens, as considerara inofensivas e decidira que no valia a pena criar suspeitas destruindo-as.
       Quem  Marigold, voc sabe?  perguntou Billie. 
      Luke pensou por um momento. Tinha ouvido aquele nome em algum momento daquele dia. Lembrou.
        a minha secretria em Huntsville  disse.  O coronel Hide me falou que ela fez as reservas do vo.
       Ser que voc lhe disse o objetivo da viagem?
       Duvido. No contei a ningum em Cabo Canaveral.
       Ela no est em Cabo Canaveral. E pode ser que voc confie em sua secretria mais do que em qualquer outra pessoa.
      Luke balanou a cabea, concordando.
       Tudo  possvel. Vou verificar. At este ponto  a pista mais promissora.
      Ele tirou a agenda do bolso e examinou de novo os telefones.
       Bingo  disse.  Marigold.  Casa.
      Luke sentou-se  escrivaninha e discou o nmero. Gostaria de saber quanto tempo mais teria antes que Pete e os outros agentes voltassem.
      Billie pareceu ler seu pensamento, e comeou a colocar as coisas dele dentro da pasta de couro preto.
      O telefone foi atendido por uma mulher sonolenta com um arrastado sotaque do Alabama. Pela voz Luke adivinhou que era preta.
       Desculpe por estar ligando to tarde  disse ele.  Quem fala,  Marigold?
       Dr. Lucas! Graas a Deus que ligou! Como vai?
       Estou bem, acho eu, obrigado.
       Bem, o que foi que aconteceu com o senhor? Ningum era capaz de dizer onde estava, e agora eu soube que perdeu a memria.  verdade?
       .
       Bem, como foi que isso aconteceu?
       No sei, mas espero que voc possa me ajudar a descobrir.
       Se eu puder...
       Gostaria de saber por que decidi subitamente ir a Washington. Eu lhe contei?
       De jeito nenhum, e olha que eu estava curiosa.
      Era a resposta que Luke esperava, mas assim mesmo sentiu-se desapontado.
       Eu falei alguma coisa que pudesse ter servido de pista para voc?
       No. 
       O que foi que eu falei?
       Disse que precisava ir a Washington via Huntsville e me pediu para fazer uma reserva nos vos do MATS.
      MATS era o transporte areo militar e Luke adivinhou que tinha direito a ele quando a servio do Exrcito. Mas havia algo que ele no entendeu.
       Eu viajei via Huntsville?  ningum mais tinha mencionado isso.
       Disse que queria passar umas duas horas em Huntsville.
       Gostaria de saber por qu.
       O senhor me disse uma coisa meio estranha. Pediu para eu no contar a ningum que estava indo a Huntsville.
       Ah  Luke teve certeza de que aquela era uma pista importante.  Quer dizer ento que foi uma visita secreta?
       Foi. E eu a mantive secreta. Fui interrogada tanto pela segurana do exrcito quanto pelo FBI e no contei nada, porque o senhor me disse para no contar. 
No sabia se estava agindo certo ou no quando me disseram que o senhor tinha desaparecido, mas achei melhor prender-me ao que me dissera. Fiz bem?
       Puxa vida, Marigold, no sei. Mas agradeo a sua lealdade. 
      O alarme de incndio cessou de tocar. Luke viu que no tinha mais tempo.
       Tenho que ir agora. Obrigado pela ajuda.
       Por nada. Agora, v se se cuida, certo? 
      Ela desligou.
       Arrumei todas as suas coisas  disse Billie.
       Obrigado.
      Ele pegou o chapu e o casaco preto no armrio e vestiu.
       Vamos dar o fora daqui antes que os demnios voltem.
      
> > > < < <
      
Foram para um vago-restaurante situado perto do prdio do FBI, nas proximidades do bairro chins e que ficava aberto a noite toda. Pediram caf.
       Quando ser que sai o primeiro vo para Huntsville de manh?  exclamou Luke.
       Temos que ver no Guia Oficial das Linhas Areas  disse Billie.
      Luke deu uma olhada em torno. Viu dois policiais comendo donuts, quatro estudantes embriagados pedindo hambrgueres e duas mulheres pouco vestidas que poderiam 
ser prostitutas.
       No creio que eles tenham um guia desses aqui atrs do balco.
       Aposto como Bern tem um.  o tipo de coisa que escritores sempre tm. Eles vivem procurando esse tipo de informao.
       Ele provavelmente est dormindo. 
      Billie levantou-se.
       Eu o acordo. Tem a uma moeda?
       Claro.
      Luke ainda estava com o bolso cheio das moedas que roubara na vspera.
      Billie dirigiu-se ao telefone pblico do lado dos toaletes. Luke tomou um gole de caf, olhando para ela. Quando falou ao telefone sorriu e inclinou a cabea, 
sendo encantadora com algum a quem acabara de despertar. Era cativante e ele ardeu de desejo por ela.
      Billie voltou para a mesa.
       Bern vem se juntar a ns e trar o Guia. 
      Luke checou o relgio. Duas da manh.
       Devo sair daqui diretamente para o aeroporto. Espero que haja um vo bem cedo.
      Billie estranhou.
       H algum prazo final?
       Pode ser que haja. Fico perguntando a mim mesmo: o que poderia me ter obrigado a largar tudo e ir voando para Washington? Tinha que ser algo relacionado 
com o foguete. E o que poderia ser se no uma ameaa ao lanamento?
       Sabotagem?
       Sim. E s poderei comprovar se estou certo at as dez e meia da noite.
       Quer que eu v a Huntsville com voc?
       Voc tem que cuidar de Larry.
       Posso deix-lo com Bern. 
      Luke sacudiu a cabea.
       Acho que no... obrigado.
       Voc sempre foi um filho da me danado de independente.
       No  isso  ele queria que ela entendesse.  Eu adoraria que voc fosse comigo.  justamente este o problema  eu gostaria demais de sua companhia.
      Billie esticou o brao por cima da toalha de plstico e segurou a mo dele.
       Tudo bem  disse ela.
        uma coisa confusa, sabe? Sou casado, mas no sei como me sinto a respeito de minha mulher. Como ela ?
      Billie sacudiu a cabea.
       No posso lhe falar a respeito de Elspeth. Voc vai ter que redescobrir sozinho.
       Acho que sim.
      Billie levou a mo dele aos seus lbios e beijou-a delicadamente.
      Luke engoliu em seco.
       Eu sempre gostei tanto assim de voc, ou isto  novo?
       No  nada novo.
       Parece que ns nos damos realmente bem.
       No. Ns brigamos como co e gato. Mas nos adoramos.
       Voc disse que fomos amantes, uma vez  na sute do hotel.
       Pra!
       Foi bom?
      Ela o fitou com os olhos marejados de lgrimas.
       Maravilhoso.
       Ento como foi que no me casei com voc?
      Billie comeou a chorar, e os soluos sacudiram seu corpo delicado.
       Porque...
      Ela enxugou o rosto e respirou fundo, mas comeou a chorar de novo. At que por fim conseguiu falar.
       Voc ficou com tanta raiva de mim que no falou comigo durante cinco anos.
               
1945
Os pais de Anthony tinham um haras perto de Charlottesville, Virgnia, a cerca de duas horas de Washington. Era uma grande casa branca de madeira, com aproximadamente 
dez quartos em duas alas. Na propriedade havia estbulos e quadras de tnis, um lago e um riacho, pastagens cercadas e bosques. A me de Anthony herdara tudo aquilo 
do pai, juntamente com cinco milhes de dlares.
      Luke chegou l na sexta-feira seguinte  rendio do Japo. A sra. Carroll recebeu-o  porta. Era uma loura nervosa que dava a impresso de ter sido bonita. 
Conduziu-o a um quarto pequeno e imaculadamente limpo com assoalho de tbuas muito polido e uma cama alta e antiga.
      Ele tirou o uniforme  agora era major  e vestiu um casaco esporte de casimira preta e calas de flanela cinzentas. Quando dava o n na gravata, Anthony apareceu.
       Coquetis na sala de visitas quando voc estiver pronto  disse.
       J vou  disse Luke.  Qual  o quarto de Billie?
      Uma expresso de preocupao cruzou o semblante de Anthony.
       Lamento, mas as garotas esto na outra ala. O almirante  antiquado quanto a esse tipo de coisa.
      O pai de Anthony passara a vida na Marinha.
       Sem problema  disse Luke, dando de ombros. Passara os ltimos trs anos deslocando-se por toda a Europa ocupada  noite: seria capaz de encontrar o quarto 
de sua amante no escuro.
      Quando desceu, s seis horas, encontrou todos os velhos amigos  espera. Assim como Anthony e Billie, l estavam Elspeth, Bern e Peg, a namorada de Bern. Luke 
passara grande parte da guerra com Bern e Anthony e todas as licenas com Billie, mas no via Elspeth ou Peg desde 1941.
      O almirante entregou-lhe um martni e ele tomou um gole, satisfeito. Se havia uma hora para celebrar, era aquela. A conversa era animada e barulhenta. A me 
de Anthony tinha uma expresso vagamente satisfeita e o pai bebia coquetis mais depressa que qualquer outra pessoa.
      Luke examinou todos eles durante o jantar, lembrando do tempo em que, alegres exemplares da juventude dourada americana, estavam to preocupados em no serem 
expulsos de Harvard. Elspeth estava dolorosamente magra depois de trs anos de racionamento duro na Londres da poca da guerra. At mesmo seus magnficos seios pareciam 
menores. Peg, que era uma garota desalinhada com o corao grande, agora estava elegantemente vestida, mas seu rosto habilmente maquilado parecia insensvel e cnico. 
Bern, aos vinte e sete anos, parecia mais velho. Aquela fora a sua segunda guerra. Tinha sido ferido trs vezes e o rosto macilento era de um homem que conhecera 
muito sofrimento, seu prprio e dos outros.
      Anthony melhorara. Vira alguma ao, mas tinha passado a maior parte da guerra em Washington. Sua confiana, seu otimismo e seu humor excntrico haviam sobrevivido 
intactos.
      Billie, tambm, parecia ter mudado pouco. Passara dificuldades e privaes na infncia e talvez por isso a guerra no a tivesse atingido. Passara dois anos 
trabalhando como agente secreto em Lisboa, e Luke sabia  embora os outros no tivessem tomado conhecimento  que matara um homem, cortando seu pescoo com silenciosa 
eficincia no ptio atrs do caf onde ele estivera prestes a vender segredos ao inimigo. Mas ainda era um pequeno feixe de energia radiante, alegre num instante 
e feroz no momento seguinte, o rosto em mudana constante, uma viso da qual Luke jamais se cansava.
      Era uma sorte fantstica que todos estivessem vivos. A maioria de grupos como os deles teria perdido no mnimo um membro.
       Deveramos fazer um brinde  disse Luke, levantando o copo de vinho.  Aos que sobreviveram  e aos que no conseguiram sobreviver.
      Todos beberam e Bern rompeu o silncio.
       Aos homens que derrotaram a mquina de guerra nazista  O Exrcito Vermelho.
      Todos beberam de novo, mas o almirante pareceu descontente e disse:
       Acho que chega de brindes.
      O comunismo de Bern ainda era forte, mas Luke tinha certeza de que ele no mais trabalhava para Moscou. Tinham feito um trato e Luke achava que Bern cumprira 
sua parte. Mesmo assim, o relacionamento deles no voltara a ser afetuoso como antes. Confiar em algum era muito parecido com levar gua com as mos em concha  
muito fcil de derramar e impossvel de recuperar. Luke ficava triste sempre que relembrava a camaradagem que existira entre ele e Bern, mas sentia-se impotente 
para restaur-la.
      O caf foi servido na sala de visitas. Luke foi passando as xcaras. Quando ofereceu acar e creme a Billie, ela disse, baixinho:
       Ala leste, segundo andar, ltima porta  esquerda.
       Creme?
      Ela levantou uma sobrancelha.
      Luke conteve uma risada e seguiu em frente.
      s dez e meia o almirante insistiu em que os homens passassem para o salo de bilhar. Bebida forte e charutos cubanos tinham sido colocados em um aparador. 
Luke no quis beber mais. Estava ansioso por meter-se por entre as cobertas junto do corpo quente e vido de Billie e a ltima coisa que queria era cair no sono.
      O almirante serviu-se de bourbon num copo grande e levou Luke para o outro lado a fim de lhe mostrar suas armas, em exposio num armrio fechado. A famlia 
de Luke no era de caadores, de modo que armas para ele no eram para matar animais e sim gente, e ele no sentia o menor prazer com elas. Tambm acreditava fortemente 
que armas e lcool eram uma pssima combinao. Mesmo assim, fingiu interesse para parecer polido.
       Conheo e respeito sua famlia, Luke  disse o almirante enquanto examinavam um rifle Enfield.  Seu pai  um grande homem.
       Muito obrigado.
      Aquilo soava como o prembulo de um discurso ensaiado. Seu pai passara a guerra ajudando a gerir o Office of Price Administration, uma agncia do governo criada 
pelo presidente para administrar preos e evitar a inflao tpica de tempo de guerra, mas o almirante provavelmente ainda o via como um banqueiro.
       Voc ter que pensar em sua famlia quando escolher uma esposa, meu filho  prosseguiu o almirante.
       Sim, senhor, eu pensarei  Luke perguntou-se o que o velho teria em mente.
       Quem quer que venha a ser a sra. Lucas ter um lugar  sua espera nas camadas mais elevadas da sociedade americana. Voc tem que escolher uma garota  altura.
      Luke comeou a perceber onde aquilo ia parar. Aborrecido, ps abruptamente o rifle de volta no armrio.
       Vou pensar nisso, almirante  exclamou, virando-se de costas.
      O almirante ps a mo no seu brao, detendo-o.
       O que quer que faa, no v desperdiar o que voc tem de melhor.
      Luke olhou furiosamente para ele. Estava determinado a no lhe perguntar onde queria chegar, porque achava que sabia a resposta e seria melhor se ela no fosse 
dita.
      Mas o almirante estava determinado.
       No v se prender quela judiazinha  ela no est  sua altura.
      Luke cerrou os dentes.
       O senhor me desculpe, mas isto  algo que eu prefiro discutir com o meu pai.
       S que seu pai no sabe a respeito dela, sabe?
      Luke ficou ruborizado. O almirante marcara um ponto. Ele e Billie no conheciam os pais um do outro.
      Praticamente no houvera tempo. O caso de amor deles fora conduzido em momentos roubados durante uma guerra. Mas no era esta a nica razo. L no fundo do 
corao de Luke, uma voz mesquinha lhe dizia que uma garota de uma famlia judia pauprrima no era a idia que seus pais faziam da mulher mais adequada para seu 
filho. Eles a aceitariam, tinha certeza  na verdade, chegariam inclusive a am-la, por todas as razes pelas quais ele a amava. Mas a princpio ficariam um pouco 
desapontados. Por conseqncia, queria apresent-la nas circunstncias corretas, em uma ocasio descontrada, quando eles tivessem tempo de vir a conhec-la.
      O fato de haver um gro de verdade na insinuao do almirante deixou Luke ainda mais furioso. Com agressividade evidente, ele disse:
       Desculpe-me se eu o advirto de que essas observaes so pessoalmente ofensivas a mim.
      Fez-se silncio na sala, mas a ameaa velada de Luke passou direto por cima da cabea do almirante bbado.
       Eu compreendo, filho, mas j vivi mais tempo que voc e sei o que estou falando.
       Lamento, mas o senhor no conhece as pessoas envolvidas.
       Oh, mas eu penso que posso conhecer mais sobre a dama em questo do que voc.
      Alguma coisa no tom de voz do almirante soou como uma advertncia, mas Luke estava to furioso que ignorou.
       Uma ova que conhece  disse, com deliberada rudeza. 
      Bern tentou intervir.
       Ei, caras, vamos aliviar a barra, sim? Podamos jogar um pouco de bilhar.
      Mas nada podia segurar o almirante agora. Ele passou o brao pelos ombros de Luke.
       Escuta aqui, filho, eu sou homem, eu compreendo essas coisas  ele falou com um ar de intimidade de que Luke se ressentiu.  Desde que no se leve tudo muito 
a srio, no h perigo em comer uma putinha, ns todos.
      Ele no chegou a terminar a frase. Luke virou-se na direo dele, ps ambas as mos no seu peito e o empurrou. O almirante cambaleou, com os braos girando, 
e o copo de bourbon voou de sua mo. Tentou recobrar o equilbrio, falhou e caiu sentado pesadamente no tapete. Luke gritou com ele:
       Agora chega antes que eu feche essa boca imunda com um soco!
      Anthony, muito branco, agarrou o brao de Luke dizendo:
       Luke, pelo amor de Deus, o que  que voc pensa que est fazendo?
      Bern se meteu entre eles e o almirante cado.
       Calma, vocs dois.
       Ao inferno com essa histria de calma  retrucou Luke.  Que tipo de homem convida voc para a casa dele e depois insulta a sua namorada? J  hora de algum 
ensinar a esse velho tonto uma lio de boas maneiras!
       Ela  uma prostituta  disse o almirante, sentado como estava.  Eu devo saber, droga  a voz dele subiu e se transformou num rugido.  Eu paguei o aborto 
que ela fez!
      Luke ficou atnito.
       Aborto?
       Aborto, sim  ele lutou para se levantar.  Anthony a engravidou e eu paguei mil dlares para ela se livrar do pequeno filho da me.
      A boca do pai de Anthony contorceu-se em riso maligno de triunfo.
       Agora me diga que no sei de que estou falando.
       O senhor est mentindo.
       Pergunte a Anthony. 
      Luke olhou para Anthony. 
      Anthony sacudiu a cabea.
       O filho no era meu. Eu disse que era para o pai me dar os mil dlares. Mas o filho era seu, Luke.
      Luke corou at as razes do cabelo. O velho almirante fizera dele um idiota completo. Era ele, Luke, o ignorante. Achava que conhecia Billie e, no entanto, 
ela lhe escondera um segredo to importante. Fizera um filho em Billie, Billie abortara esse filho, e o pai de Anthony e Anthony sabiam e ele no. Sentiu-se totalmente 
humilhado.
      Saiu da sala de bilhar pisando duro, atravessou o hall e irrompeu na sala de visitas. Somente a me de Anthony estava l  as garotas deviam ter se recolhido. 
A sra. Carroll viu a cara dele e perguntou:
       Luke, meu querido, h algo de errado?
      Ele ignorou-a e saiu de novo, batendo a porta.
      Subiu correndo a escada e dirigiu-se para a ala leste. Encontrou o quarto de Billie e foi entrando sem bater.
      Ela estava deitada nua na cama, lendo, a cabea apoiada na mo, o cabelo escuro ondulado caindo para a frente. Por um momento, aquela viso o deixou sem flego. 
A luz de um abajur pintava uma linha dourada no contorno do corpo dela, do ombro pequeno e perfeito ao quadril e descendo pela perna delgada at as unhas vermelhas 
do p. Mas a beleza de Billie serviu apenas para enfurec-lo ainda mais.
      Ela levantou o rosto para ele com um sorriso alegre, mas ficou chocada ao ver sua expresso.
      Ele gritou: 
       Alguma vez voc me enganou? 
      Ela sentou-se na cama, assustada. 
       No, nunca!
       O filho-da-puta daquele almirante disse que pagou um aborto seu. 
      Billie ficou lvida.
       Oh, no.
        verdade?  gritou Luke.  Responda!
      Ela balanou a cabea afirmativamente, comeou a chorar e enterrou o rosto nas mos.
       Ento voc me enganou.
       Desculpe  ela soluou.  Eu queria ter o seu filho  queria de todo o corao. Mas no conseguia falar com voc. Voc estava na Frana e eu no sabia se 
voc ia voltar ou no. Tive que decidir tudo sozinha  ela levantou a voz.  Foi a pior poca de minha vida!
      Luke estava confuso.
       Eu fiz um filho em voc  disse ele.
      O estado de esprito dela mudou subitamente.
       No v chorar agora  disse, sarcstica.  Voc no se mostrou sentimental a respeito do seu esperma quando trepou comigo, de modo que  melhor no comear 
agora   tarde demais.
      As palavras de Billie o magoaram.
       Voc devia ter me contado. Mesmo que no tivesse conseguido falar comigo naquela ocasio, devia ter me contado na primeira oportunidade, na vez seguinte 
que eu tivesse vindo de licena.
      Ela suspirou.
       Sim, eu sei. Mas Anthony achou que eu no devia contar a ningum e no  difcil persuadir uma garota a conservar em segredo uma coisa dessas. Ningum precisava 
ter sabido, se no fosse pelo maldito almirante Carroll.
      Luke ficou enfurecido pelo modo calmo com que ela falou a respeito de sua traio, como se a nica coisa que tivesse feito de errado fosse ter sido apanhada.
       No posso conviver com isso. 
      Ela falou agora em tom mais sereno.
       Como assim?
       Depois que voc me enganou  e a respeito de um assunto to importante  como posso voltar a confiar em voc?
      Ela pareceu angustiada.
       Voc vai me dizer que est acabado. 
      Ele nada disse. Ela continuou.
       Posso afirmar com certeza, conheo voc bem demais. Estou certa, no estou?
       Sim.
      Ela comeou a gritar de novo.
       Seu idiota!  exclamou, por entre as lgrimas.  No sabe de nada, a despeito da guerra!
       A guerra me ensinou que nada  to importante quanto a lealdade.
       Mentira. Voc ainda no aprendeu que, sob presso, todos ns estamos dispostos a mentir.
       Mesmo para pessoas a quem amamos?
       Ns mentimos mais para as pessoas a quem amamos justamente por nos preocuparmos muito mais com elas. Por que voc pensa que dizemos a verdade para os padres 
e psicanalistas ou completos estranhos que encontramos num trem?  porque no os amamos, porque no nos importamos com o que pensem.
      Os argumentos de Billie eram irritantemente razoveis. Mas ele no queria saber de desculpas to cmodas.
       Esta no  a minha filosofia de vida.
       Sorte sua  retrucou ela, amargamente.  Voc vem de um lar feliz, nunca conheceu privaes ou rejeio, tem batalhes de amigos. Teve uma guerra dura, mas 
no foi ferido nem torturado e no tem imaginao suficiente para ser covarde. Nada de ruim jamais lhe aconteceu. Claro, voc no diz mentiras  pela mesma razo 
que a sra. Carroll no rouba latas de sopa.
      Incrvel! Ela se convencera de que ele  que estava errado. Impossvel conversar com algum que podia enganar-se de modo to completo. Enojado, ele se virou 
para sair.
       Se  isso o que voc pensa de mim, deve estar contente com o fim do nosso relacionamento.
       No, no estou contente  as lgrimas escorriam pelo seu rosto.  Eu amo voc, nunca amei outro homem. Sinto muito por t-lo decepcionado, mas no vou me 
prostrar cheia de culpa por ter feito uma coisa errada em um momento de crise.
      Ele no queria que Billie se prostrasse, no queria que fizesse nada. S queria afastar-se dela e de seus amigos e do almirante Carroll e daquela casa nojenta.
      Em algum canto de sua mente uma voz lhe disse que ele estava jogando fora a coisa mais preciosa que jamais tivera e o avisou que aquela conversa lhe causaria 
um arrependimento to grande que ficaria enterrado em sua alma por anos e anos.
      Mas ele se sentia demasiadamente furioso, demasiadamente humilhado e demasiadamente magoado para ouvir. 
      Dirigiu-se para a porta.
       No v!  suplicou Billie.
       V para o inferno  disse ele, e saiu.

2:30

O novo combustvel e um tanque maior aumentaram o empuxo do Jupiter para uma fora de 83.000 libras e ampliaram o tempo de combusto de 121 para 155 segundos.
 Anthony foi um amigo de verdade para mim naquela ocasio  disse Billie.  Eu estava desesperada. Mil dlares! No havia nenhum outro lugar onde eu pudesse conseguir 
tanto dinheiro. Anthony pediu ao pai e para isso assumiu a culpa. Ele foi um homem decente. Por isso  to difcil compreender o que est fazendo agora.
       No posso acreditar que desisti de voc  disse Luke.  Eu no compreendi aquilo pelo que voc passou?
       A culpa no foi toda sua  disse Billie, fatigada.  Na poca eu pensei que fosse, mas hoje posso ver o papel que desempenhei em toda a confuso.
      Ela parecia exausta depois de ter contado aquela histria.
      Ficaram em silncio por algum tempo, calados pelo arrependimento. Luke perguntou-se quanto tempo Bern levaria para vir de Georgetown at ali e depois seus 
pensamentos voltaram a se ocupar da histria que Billie contara.
       No gosto muito do que estou aprendendo a meu respeito  disse ele, aps uns momentos.  Eu realmente perdi meus dois melhores amigos, voc e Bern, apenas 
por ter sido inflexvel e teimoso?
      Billie hesitou e depois riu.
       Por que remoer as palavras? Sim, foi exatamente isso que voc fez.
       E assim voc se casou com Bern.
      Ela riu de novo.
       Meu Deus, como voc pode ser egocntrico!  disse, amavelmente.  No me casei com Bern porque voc me deixou. Casei com Bern porque ele  um dos melhores 
homens do mundo.  inteligente,  bondoso e  bom de cama. Levei anos para me livrar de voc e, quando consegui, apaixonei-me por Bern.
       E voc e eu voltamos a ser amigos?
       Devagar. Ns sempre amamos voc, Luke, todos ns, mesmo que voc no passe de um filho da me teimoso como o diabo. Escrevi comunicando o nascimento de Larry 
e voc veio me ver. Depois, no ano seguinte, Anthony deu a maior festa nos trinta anos dele e voc tambm apareceu. Voc tinha voltado para Harvard, a fim de fazer 
seu doutorado, e o resto de ns morava em Washington  Anthony, Elspeth e Peg trabalhando para a CIA, eu fazendo pesquisa para a George Washington University e Bern 
escrevendo programas de rdio. Mas voc aparecia duas vezes por ano e a gente se reunia.
       Quando foi que me casei com Elspeth?
       Mil novecentos e cinqenta e quatro  o ano em que me divorciei de Bern.
       Voc sabe por que me casei com ela?
      Billie hesitou. A resposta devia ter sido fcil, pensou Luke. Ela devia ter dito, Porque voc a amava  claro! Mas no.
       Sou a pessoa errada para falar a esse respeito  disse ela, finalmente.
       Perguntarei a Elspeth.
       Gostaria que perguntasse.
      Luke olhou para ela. Havia um toque cortante na sua ltima observao. Ele estava imaginando como fazer para descobrir seu significado, quando um Lincoln Continental 
branco parou na calada, Bern saltou e foi se juntar a eles.
       Desculpe ter acordado voc  disse Luke.
       Esquece  respondeu Bern.  Billie no subscreve a crena popular de que quando um homem est dormindo deve-se deixar que continue dormindo. Se ela estiver 
acordada, todo mundo deve estar. Voc saberia disso, se no tivesse perdido a memria. Olha aqui.
      Ele largou um folheto volumoso em cima da mesa. A capa dizia  GUIA AREO OFICIAL  PUBLICADO MENSALMENTE.
       Procure a Capital Airlines  disse Billie.  Tem vos para o sul.
      Luke encontrou a pgina certa.
       Tem um avio que sai s seis e cinqenta e cinco  ou seja, daqui apenas a quatro horas.
      Ele examinou mais detidamente.
       Que bosta, esse vo pra em tudo quanto  cidadezinha e vai chegar a Huntsville s s duas e vinte e trs da tarde, hora local.
      Bern ps os culos e leu por cima do ombro de Luke.
       O avio seguinte s sai s nove horas, mas tem menos paradas e  um Viscount, de modo que deixa voc em Huntsville mais cedo, poucos minutos antes do meio-dia.
       Eu pegaria o segundo avio, mas no me agrada muito ficar aqui em Washington mais tempo do que j fiquei.
       E voc tem mais dois problemas  disse Bern.  Nmero um, acho que Anthony ter homens no aeroporto.
      Luke franziu a testa, preocupado.
       Talvez eu possa sair de carro e tomar o avio em algum ponto no meio do caminho.
      Ele consultou de novo o horrio.
       A primeira parada do primeiro vo  em um lugar chamado Newport News. Onde diabos fica isso?
       Perto de Norfolk, Virgnia  respondeu Billie.
       Ele pousa l dois minutos depois das oito. Ser que consigo chegar a tempo?
       So trezentos e vinte quilmetros  respondeu Billie.  Digamos que leve umas quatro horas. Voc chegaria com uma hora de antecedncia.
       Mais ainda, se for no meu carro. A velocidade mxima dele  cento e oitenta.
       Voc me emprestaria seu carro? 
      Bern sorriu.
       J salvamos a vida um do outro. Um carro no  nada. 
      Luke balanou a cabea.
       Obrigado.
       Mas voc tem um segundo problema  disse Bern.
       E qual ?
       Fui seguido at aqui.

3:00

O tanque de combustvel contm defletores para impedir que o lquido se agite. Sem os defletores, o movimento do lquido  to violento que j fez com que um mssil 
de prova, o Jupiter 1B, se desintegrasse aps 93 segundos de vo.
Anthony ficou sentado ao volante do seu Cadillac amarelo a um quarteiro do restaurante. Tinha parado bem atrs da traseira de um caminho para que seu automvel 
to chamativo ficasse escondido, mas podia ver claramente o restaurante e o trecho de calada iluminado pela luz das janelas. Parecia ser um ponto de encontro de 
policiais: havia duas radiopatrulhas estacionadas do lado de fora, juntamente com o Thunderbird vermelho de Billie e o Continental branco de Bern.
      Ackie Horwitz tinha parado diante da casa de Bern Rothsten com instrues de l ficar at que Luke reaparecesse, mas quando Bern sara de casa no meio da noite, 
teve o bom senso de desobedecer as ordens e segui-lo. Assim que Bern chegara no restaurante, Ackie ligara para o prdio Q e alertara Anthony.
      Ackie saiu do restaurante em sua roupa de couro de motociclista, carregando um recipiente de caf em uma das mos e uma barra de chocolate na outra. Parou 
ao lado da janela de Anthony.
       Lucas est l dentro  disse ele.
       Eu sabia  disse Anthony, com malvola satisfao.
       Mas ele mudou de roupa. Agora est de chapu e casaco pretos.
       Ele perdeu o outro chapu no Carlton.
       Rothsten est com ele, e a garota.
       Quem mais?
       Quatro policiais contando piadas sujas, um insone lendo a edio do Washington Post de amanh e o cozinheiro.
      Anthony balanou a cabea. No podia fazer nada a Luke com os policiais presentes.
       Esperamos aqui at que Luke saia e o seguimos. Ns dois. Desta vez no vamos perd-lo.
       Deixa comigo.
      Ackie foi para sua motocicleta, atrs do carro de Anthony, e sentou no selim para tomar o caf.
      Anthony planejou os prximos acontecimentos. Pegariam Luke em uma rua deserta, o subjugariam e o levariam para uma casa segura da CIA no bairro chins. Nesse 
ponto Anthony se livraria de Ackie. E em seguida mataria Luke.
      Ele se sentia friamente determinado. Sofrera um momento de fraqueza emocional no Carlton, mas depois endurecera o corao, decidindo no pensar em amizade 
e traio at que aquilo tudo tivesse acabado. Sabia que estava fazendo a coisa certa. Lidaria com arrependimentos depois de ter cumprido seu dever.
      A porta do restaurante abriu-se.
      Billie saiu primeiro. As luzes fortes ficaram por trs dela, de modo que Anthony no pde ver seu rosto, mas reconheceu o corpo pequeno e o jeito caracterstico 
de andar. A seguir veio um homem de casaco e chapu pretos: Luke. Eles foram para o Thunderbird vermelho. O vulto de capa de chuva que saiu em ltimo lugar entrou 
no Lincoln branco.
      Anthony ligou o motor.
      O T-bird afastou-se, seguido pelo Lincoln. Anthony esperou uns segundos e saiu tambm. Ackie veio atrs, na motocicleta.
      Billie virou para oeste e o pequeno comboio seguiu. Anthony permaneceu um quarteiro e meio atrs, mas as ruas estavam desertas e com certeza eles veriam que 
estavam sendo seguidos. Anthony sentiu-se fatalista quanto a isto. No havia mais o que ganhar com disfarces: chegara a hora do confronto final.
      Chegaram  rua catorze e pararam em um sinal vermelho, com Anthony atrs do Lincoln de Bern. Quando o sinal abriu, o Thunderbird de Billie deu subitamente 
um pulo para a frente enquanto o Lincoln permaneceu parado.
      Praguejando, Anthony deu marcha a r alguns metros, engrenou de novo a primeira e meteu o p no acelerador. O grande carro deu um pulo, contornou o Lincoln 
e voou atrs do Thunderbird.
      Billie ziguezagueou pela regio aos fundos da Casa Branca, ultrapassando sinais vermelhos, desafiando proibies de retorno e seguindo pela contramo em ruas 
de mo nica. Anthony fez a mesma coisa, tentando desesperadamente manter-se perto dela. Mas o Cadillac no chegava aos ps do T-bird em manobrabilidade e ela desapareceu.
      Ackie passou Anthony e ficou colado no carro de Billie. No entanto,  medida que ela aumentava a vantagem sobre Anthony, ele adivinhou que seu plano fosse 
primeiro se livrar do Cadillac e depois pegar uma auto-estrada e deixar a motocicleta para trs, j que esta no conseguiria sobrepujar os 200 quilmetros por hora 
de velocidade mxima do T-bird.
       Droga!  exclamou Ackie.
      Nesse ponto, ento, a sorte interveio. Ao virar numa esquina cantando os pneus, Billie deu com uma inundao. Jorrava gua de um cano na beira da calada, 
alagando toda a extenso da rua. Ela perdeu o controle do carro e a traseira do Thunderbird girou num arco amplo. Ackie procurou desviar-se, mas a moto deslizou 
e ele caiu e rolou na gua, embora tenha se levantado imediatamente. Anthony meteu o p no freio do Cadillac e derrapou at parar na interseo. O Thunderbird ficou 
na transversal, com a mala a um centmetro de um carro estacionado. Anthony adiantou um pouco o Cadillac, de modo a bloquear o carro de Billie. Ela no poderia fugir.
      Ackie j estava do lado da porta do motorista. Anthony correu para a porta do carona.
       Saia do carro!  gritou, sacando a arma. 
      A porta abriu-se e o vulto de preto saltou.
      Anthony viu imediatamente que no era Luke, e sim Bern.
      Virou-se e olhou para o caminho de onde viera. No havia sinal do Lincoln branco.
      Uma onda de dio o invadiu. Tinham trocado de casaco e Luke fugira no carro de Bern.
       Seu filho-da-puta idiota!  gritou com Bern. Teve mpetos de mat-lo ali mesmo.  Voc no sabe o que fez!
      Bern conservou-se irritantemente calmo.
       Ento me diga, Anthony. O que foi que eu fiz? 
      Anthony deu-lhe as costas e enfiou a pistola no bolso.
       Espere um minuto  disse Bern.  Voc tem uma explicao a dar. O que fez com Luke  ilegal.
       No tenho que explicar porra nenhuma a voc  retrucou Anthony, cuspindo as palavras.
       Luke no  espio.
       Como  que voc pode saber uma coisa dessas? 
       Eu sei.
       Eu no acredito em voc.
      Bern encarou Anthony com um olhar duro.
       Claro que acredita  disse.  Voc sabe perfeitamente bem que Luke no  agente sovitico. Ento por que diabo est fazendo de conta que ?
       V  merda  disse Anthony, e foi embora.
      
> > > < < <
      
Billie morava em Arlington, um bairro bastante arborizado  margem do rio Potomac, do lado do estado da Virgnia. Anthony seguiu pela rua dela e ao passar pela casa 
de Billie viu do outro lado um sed Chevrolet escuro pertencente  CIA. Virou uma esquina e estacionou.
      Billie viria para casa em duas horas. Ela sabia para onde Luke fora. Mas no contaria a Anthony. Ele perdera sua confiana. Ela permaneceria leal a Luke  
a menos que Anthony a submetesse a uma presso extraordinria.
      Exatamente o que ele faria.
      Estaria maluco? Uma voz na sua cabea no parava de perguntar se a corrida valia o prmio. Haveria alguma justificativa para o que estava prestes a fazer? 
Afastou as dvidas. Escolhera seu destino havia muito tempo e no seria desviado dele, nem mesmo por Luke.
      Abriu a mala do carro e tirou uma bolsa de couro negro do tamanho de um livro de capa dura e uma lanterna pequena. Em seguida dirigiu-se ao Chevrolet, acomodou-se 
no banco do carona ao lado de Pete e deixou-se ficar sentado olhando para as janelas escuras da casa de Billie. Pensou: Isto vai ser a pior coisa que j fiz.
      Olhou para Pete.
       Voc confia em mim?
      O rosto desfigurado de Pete contorceu-se em um sorriso envergonhado.
       Que tipo de pergunta  essa? Sim, confio em voc.
      A maior parte dos agentes jovens idolatrava Anthony, mas Pete tinha uma razo extra para ser leal. Anthony descobrira algo a respeito dele que poderia ter 
resultado na sua demisso  o fato de uma vez ter sido preso por abordar uma prostituta na rua , mas guardara segredo. Agora, para lembrar Pete dessa dvida, insistiu:
       Se eu fizesse algo que lhe parecesse errado, voc ainda assim ficaria do meu lado?
      Pete hesitou, e quando falou sua voz estava embargada de emoo.
       Deixe eu lhe dizer uma coisa  ele olhou em frente, atravs do pra-brisa, para a rua iluminada pelas luzes dos postes.  Voc tem sido como um pai para 
mim,  isso.
       Vou fazer algo que voc no vai gostar. Preciso que confie em mim e que acredite que  a coisa certa a ser feita.
       Estou lhe dizendo  v em frente.
       Vou entrar na casa. Buzine se chegar algum. 
      Ele subiu silenciosamente a entrada de carros, contornou a garagem e foi para a porta dos fundos. Acionou a lanterna atravs da janela da cozinha. A mesa e 
as cadeiras que ele conhecia to bem estavam no escuro.
      Vivera toda uma vida de falsidade e traio, mas aquilo, ele pensou com uma onda de asco de si prprio, era o ponto mais baixo a que tinha descido.
      Anthony sabia encontrar seus caminhos naquela casa. Verificou primeiro a sala de estar, depois o quarto de Billie. Ambos estavam vazios. Em seguida foi ver 
o de Becky-Ma. Ela dormia a sono solto, o aparelho de audio na mesinha-de-cabeceira. Em ltimo lugar foi ao quarto de Larry.
      Iluminou com a lanterna a criana adormecida. A culpa que sentia era tanta que o deixou nauseado.
      Sentou na beira da cama e acendeu a luz.
       Ei, Larry, acorde  disse.  Vamos.
      O menino abriu os olhos e, aps um momento desorientado, sorriu.
       Tio Anthony!  disse, e sorriu.
       Hora de levantar  disse Anthony.
       Que horas so? 
        cedo.
       O que  que ns vamos fazer?
        surpresa  disse Anthony.

4:30

O combustvel  lanado na cmara de combusto de um motor de foguete a uma velocidade de mais de 100 km/h. A combusto tem inicio no instante em que os fluidos 
se encontram. O calor da chama logo faz evaporar os lquidos. A presso se eleva a diversas centenas de libras por polegada quadrada e a temperatura atinge quase 
3 mil graus centgrados.
Bern dirigiu-se a Billie.
       Voc est apaixonada por Luke, no est?
      Estavam sentados no Thunderbird dela, em frente ao prdio de Bern. Billie no queria entrar porque estava impaciente para chegar em casa e ver Larry e Becky-Ma.
       Apaixonada?  repetiu, evasivamente.  Ser que estou? 
      No sabia ao certo o que queria compartilhar com o ex-marido. Eram amigos, mas no ntimos.
       Tudo bem  disse ele.  Muito tempo atrs me convenci que voc devia ter se casado com Luke. No penso que tenha deixado de gostar dele. Voc me amou tambm, 
mas de um modo diferente.
      Era verdade. Seu amor por Bern fora um sentimento calmo e gentil. Com ele jamais sentira o furaco de paixo que a engolfava quando estava com Luke. E quando 
se perguntava o que sentia por Harold  se a afeio tranqila ou o vendaval da excitao  a resposta era deprimentemente bvia. Pensar em Harold lhe dava uma agradvel, 
mas moderada, sensao de prazer. Billie tinha pouca experincia com homens  os nicos com quem dormira tinham sido Luke e Bern  mas o instinto lhe dizia que com 
Harold jamais sentiria a paixo que tinha por Luke e que a deixava fraca e paralisada de tanto desejo.
       Luke est casado  disse ela.  Com uma mulher linda. 
      Ela pensou por um momento.
       Elspeth  sexy? 
      Bern fez uma careta.
       Difcil dizer. Talvez seja, com o sujeito certo. Para mim dava a impresso de ser fria, mas ela nunca teve olhos para ningum, a no ser Luke.
       No que isto tenha importncia. Luke  do tipo fiel. Ficaria com ela mesmo que fosse um iceberg, s por causa do seu senso de dever.
      Billie fez uma pausa.
       Tem uma coisa que preciso falar com voc.
       Pois no.
       Tenho que lhe agradecer por no ter dito eu no falei. Fico muito grata por ter-se contido.
      Bern deu uma risada.
       Voc est pensando na nossa grande briga. 
      Ela concordou.
       Voc disse que meu trabalho seria usado para fazer lavagens cerebrais nas pessoas. Sua previso concretizou-se.
       Mesmo assim, eu estava errado. Seu trabalho tinha que ser feito. Ns precisamos compreender o crebro humano. As pessoas podem usar esse conhecimento para 
fazer o mal, mas no podemos conter o progresso cientfico. Mas olha, voc tem alguma teoria sobre o que o Anthony est querendo?
       A melhor coisa que pude imaginar foi o seguinte: Luke teria descoberto um espio l em Cabo Canaveral e foi a Washington contar ao Pentgono. Mas o espio 
na verdade  um agente duplo, trabalhando para ns, de modo que Anthony est desesperado para salvar o sujeito.
      Bern sacudiu a cabea.
       No est bastante bom. Anthony podia ter resolvido isso simplesmente dizendo a Luke que o cara era agente duplo. No teria que apagar a memria dele.
       Acho que voc tem razo. Mais ainda: Anthony atirou em Luke poucas horas atrs. Sei que esse trabalho de agente secreto tende a subir  cabea das pessoas, 
mas no posso crer que a CIA fosse matar um cidado americano s para proteger um agente duplo.
       Claro que mataria  contraps Bern.  Mas no teria sido necessrio. Anthony podia ter simplesmente confiado em Luke.
       Voc tem uma teoria melhor?
       No.
      Billie deu de ombros.
       No sei se isso interessa  disse ela.  Anthony tem trado e enganado seus amigos  quem se importa com a causa? Qualquer que seja o motivo pelo qual ele 
tem agido desse modo, ns o perdemos. E ele era um bom amigo.
       A vida  um saco  disse Bern. Ele beijou-a no rosto e saltou do carro.  Se tiver notcias de Luke amanh, liga para mim.
       OK.
      Bern entrou no prdio e Billie saiu com o carro.
      Atravessou a Memorial Bridge, contornou o Cemitrio Nacional e ziguezagueou pelas ruas do bairro at chegar na sua casa. Fez a manobra para entrar de r na 
garagem, hbito que desenvolvera porque geralmente estava com pressa na hora de sair. Entrou, pendurou o casaco no cabide do hall e subiu direto, desabotoando o 
vestido e tirando-o pela cabea, ao mesmo tempo que galgava a escada. Jogou-o em cima de uma cadeira, livrou-se dos sapatos e foi ver Larry.
      Ao dar com a cama vazia, soltou um grito.
      Deu uma espiada no banheiro e depois no quarto de Becky-Ma.
       Larry!  gritou, com toda a fora dos pulmes.  Cad voc?
      Desceu correndo e entrou em todos os aposentos. Saiu da casa como estava, de roupa de baixo, e examinou a garagem e o quintal. Voltou e examinou novamente 
cada aposento, abrindo armrios e verificando debaixo das camas, examinando todos os espaos onde pudesse caber um menino de sete anos de idade.
      Ele tinha sumido.
      Becky-Ma saiu do seu quarto, o medo estampado no rosto enrugado.
       O que est acontecendo?  perguntou, com a voz trmula.
       Onde est Larry?  gritou Billie.
       Na cama, eu acho  a voz dela reduziu-se a um gemido de desespero quando percebeu o que acontecera.
      Billie ficou imvel por um momento, respirando fundo, lutando contra o pnico. At que voltou ao quarto de Larry e o examinou.
      O quarto estava arrumado, sem sinais de luta. Examinando o armrio, achou o pijama azul de ursinho que ele usara para dormir naquela noite dobrado cuidadosamente 
numa prateleira. As roupas que ela separara para a escola tinham sumido. Fosse o que fosse que tivesse acontecido, ele se vestira antes de sair. Parecia ter sado 
com uma pessoa em quem confiava.
      Anthony.
      A princpio ela sentiu alvio. Anthony no ia ferir Larry. Mas pensou de novo. No ia? Teria dito o mesmo a respeito dele em relao a Luke, mas Anthony atirara 
em Luke. No havia mais como prever o que Anthony faria. No mnimo, Larry devia ter se assustado por ter sido acordado to cedo e ter que se vestir e sair de casa 
sem ver a me.
      Tinha que traz-lo de volta logo.
      Desceu correndo a escada para telefonar para Anthony. Antes de pegar o aparelho, ele tocou.
       Sim?
       Aqui  Anthony.
       Como foi capaz?  ela gritou.  Como pde ser to cruel?
       Tenho que saber onde est Luke  disse ele, friamente.   inimaginavelmente importante.
       Ele foi  ela calou-se. Se lhe desse a informao, no teria mais nenhuma arma.
       Foi para onde? 
      Billie respirou fundo.
       Onde est Larry?
       Comigo. Est bem, no se preocupe. 
      As palavras dele a enfureceram.
       Como  que eu posso no me preocupar, seu imbecil!
       Basta me dizer o que preciso saber e tudo ficar bem. Ela queria acreditar, dizer logo o que queria e confiar que ele levasse Larry para casa, mas resistiu 
 tentao com todas as suas foras.
       Preste ateno. Quando eu vir meu filho lhe direi onde est Luke.
       Voc no confia em mim?
        alguma piada? 
      Ele suspirou.
       OK. Encontre-me no Jefferson Memorial.
      Ela experimentou uma pequena sensao de triunfo.
       Quando?
       Sete horas.
      Ela consultou o relgio. Passava das seis.
       Estarei l. 
       Billie...
       O qu? 
       Venha sozinha.
       Pode deixar  ela desligou.
      Becky-Ma estava ao seu lado, de p, parecendo frgil e velha.
       O que  isso?  perguntou.  O que est acontecendo? 
      Billie tentou dar uma impresso de calma.
       Larry est com Anthony. Ele deve ter vindo enquanto voc estava dormindo. Vou peg-lo agora. Podemos deixar de nos preocupar.
      Ela subiu a escada e se vestiu. Depois pegou a cadeira da penteadeira e a colocou em frente ao guarda-roupa. De p na cadeira, pegou uma pasta pequena em cima 
do armrio. Colocou a pasta em cima da cama e abriu.
      Abriu um embrulho feito com um pano e apareceu uma pistola Colt 45 automtica.
      Todos tinham recebido Colts durante a guerra. Billie guardara a sua como lembrana, mas algum instinto fizera com que a limpasse e lubrificasse regularmente. 
Depois que atiram na gente, no d para se sentir confortvel a menos que se tenha por perto uma arma de fogo.
      Comprimiu com o polegar o boto  esquerda, embaixo do gatilho, e puxou o pente de dentro do punho da arma. Havia uma caixa de balas na pasta. Carregou sete 
balas no pente empurrando uma por uma de encontro  mola e recolocou o pente no lugar. Finalmente, carregou uma bala na cmara.
      Ao virar-se, viu Becky-Ma de p na porta, olhando fixamente para a pistola.
      Encarou a me em silncio por um momento, saiu correndo da casa e entrou no carro.

6:30

O primeiro estgio contm aproximadamente 25 toneladas de combustvel. Todo este combustvel ser usado em dois minutos e trinta e cinco segundos.
O Lincoln Continental de Bern era uma delcia para dirigir, um carro elegante e silencioso, fazendo cento e sessenta em velocidade de cruzeiro, voando sem esforo 
pelas estradas desertas da Virgnia adormecida. Ao sair de Washington, a impresso de Luke era de que deixava o pesadelo para trs. Sua fuga nas primeiras horas 
do dia teve o ar estimulante de uma fuga.
      Estava ainda escuro quando chegou a Newport News e entrou no pequeno estacionamento ao lado do prdio fechado do aeroporto. No havia luzes acesas, exceto 
pela lmpada solitria de uma cabine telefnica ao lado da entrada. Desligou o motor e ficou ouvindo o silncio. A noite estava clara e a pista do aeroporto iluminada 
pelas estrelas. Os avies estacionados pareciam peculiarmente imveis, como cavalos de p, adormecidos. Estava acordado havia mais de vinte e quatro horas e se sentia 
desesperadamente cansado, mas sua mente funcionava a toda velocidade. Estava apaixonado por Billie. Agora que se afastara dela mais de trezentos quilmetros, podia 
admitir para si prprio. Mas que significado tinha isso? Ele a teria amado sempre? Ou era uma paixonite de um dia, uma repetio do que acontecera em 1941? E Elspeth? 
Por que tinha se casado com ela? Perguntara isso a Billie e ela se recusara a responder. Perguntarei a Elspeth, dissera ento.
      Verificou o relgio. Tinha mais de uma hora at a decolagem. Tempo de sobra. Saltou do carro e foi at a cabine telefnica.
      Ela atendeu rapidamente, como se j estivesse acordada. A telefonista do hotel avisara que a despesa do telefonema seria lanada na sua conta e ela dissera:
       Sim, claro, claro, pode fazer a ligao. 
      De repente ele se sentiu meio sem graa.
       Bom dia, Elspeth.
       Que bom que voc ligou  disse ela.  Eu j estava ficando maluca de preocupao. O que est acontecendo?
       No sei por onde comear.
       Voc est legal?
       Sim, estou bem, agora. Basicamente, o que houve foi que Anthony fez com que eu perdesse a memria com uma combinao de choques eltricos e drogas.
       Meu Deus. E por que ele faria uma coisa dessas?
       Diz que sou um espio sovitico.
       Isso  um absurdo.
       Foi o que ele disse a Billie.
       Ento voc esteve com a Billie?
      Luke percebeu o tom de hostilidade na voz de Elspeth.
       Ela foi gentil  disse, defensivamente. Lembrou que pedira a Elspeth que fosse a Washington para ajud-lo, mas ela se recusara.
      Elspeth mudou de assunto.
       De onde voc est telefonando?
      Ele hesitou. Seus inimigos podiam facilmente ter grampeado o telefone de Elspeth.
       Eu realmente no quero dizer, para o caso de haver algum na escuta.
       Tudo bem, eu entendo. O que vai fazer agora?
       Prefiro no dizer pelo telefone.
      A voz dela denunciou sua exasperao.
       Bem, sinto muito que voc no possa me dizer nada.
       Para falar a verdade, telefonei para lhe fazer umas perguntas.
       OK, v em frente.
       Por que no podemos ter filhos?
       No sabemos. No ano passado voc foi a um especialista em fertilidade, mas ele no encontrou nada de errado. Poucas semanas atrs fui ver uma mdica em Atlanta. 
Ela fez alguns exames. Estamos aguardando os resultados.
       Voc me contaria por que ns nos casamos?
       Eu seduzi voc.
       Como?
       Fingi que tinha cado sabo no meu olho, a fim de fazer com que voc me beijasse. O truque mais velho do mundo, e me envergonho por voc ter cado.
      Ele no foi capaz de dizer se ela estava fazendo graa, sendo cnica ou ambos.
       Conte-me quais foram as circunstncias, como foi que a pedi em casamento.
       Bem, fiquei sem v-lo por alguns anos, depois nos encontramos de novo em 1954, em Washington. Eu ainda trabalhava na CIA. Voc trabalhava no Jet Propulsion 
Laboratory, em Pasadena, mas tomou um avio e foi ao casamento de Peg. Ns nos sentamos juntos no caf da manh.
      Elspeth fez uma pausa, recordando, e ele aguardou pacientemente. Quando falou de novo, a voz dela tinha abrandado.
       Conversamos durante muito tempo  era como se aqueles treze anos no tivessem decorrido e ainda fssemos um casal universitrio com todo o futuro pela frente. 
Era preciso sair cedo  eu ia reger a Orquestra da Juventude da Rua Dezesseis, e tnhamos um ensaio. Voc foi comigo...
               
1954
As crianas da orquestra eram todas pobres e, em sua maior parte, negras. O ensaio teve lugar no hall de uma igreja. Os instrumentos tinham sido pedidos, emprestados 
e comprados em lojas de penhores. Estavam ensaiando a abertura de uma pera de Mozart, As npcias de Fgaro. Contra todas as expectativas, tocaram bem.
      Elspeth era a razo. Elspeth era uma professora exigente, reparando em cada nota desafinada, em cada falha rtmica, mas que corrigia os alunos com pacincia 
infinita. Uma figura alta envergando um vestido amarelo, ela conduzia a orquestra com enorme entusiasmo, o cabelo vermelho voando, as mos longas e elegantes extraindo 
a msica dos msicos com gestos apaixonados.
      O ensaio durou duas horas e Luke permaneceu sentado o tempo todo, assistindo fascinado a tudo. Podia ver que todos os rapazes estavam apaixonados por Elspeth 
e que todas as garotas queriam ser iguais a ela.
       Essas crianas tm tanta msica dentro delas quanto qualquer garoto rico com um Steinway na sala de visitas  disse ela depois, dentro do carro.  Mas isso 
me mete em montes de encrencas.
       Por que, pelo amor de Deus?
       Sou chamada de amante de negros  disse ela.  O que, praticamente, terminou minha carreira na CIA.
       No entendo.
       Quem quer que trate os negros como seres humanos  suspeito de ser comunista. Assim, nunca serei mais que uma secretria. No que seja uma grande perda. 
As mulheres, de qualquer forma, nunca sobem mesmo na hierarquia das firmas onde trabalham.
      Ela o levou  sua casa, um apartamento pequeno e arrumado, com umas poucas peas de mobilirio moderno. Luke preparou martnis e Elspeth comeou a fazer um 
espaguete na cozinha minscula. Luke falou a respeito do seu trabalho.
       Fico to feliz por voc  disse ela, com generoso entusiasmo.  Voc sempre quis explorar o espao. Em Harvard, no tempo em que ns dois saamos, voc j 
falava sobre isso.
       E naquele tempo  disse ele, com um sorriso  a maioria das pessoas achava que a explorao espacial no passava de um sonho bobo de autores de fico cientfica.
       Acho que ainda no podemos ter certeza de que ela acontecer.
       Acho que podemos ter certeza, Elspeth  disse ele, muito srio.  Os grandes problemas foram todos resolvidos pelos cientistas alemes durante a guerra. 
Os alemes construram foguetes que podiam ser disparados na Holanda e atingir Londres.
       Eu estava l, eu me lembro  ns os chamvamos de bombas voadoras  ela estremeceu.  Uma quase me matou. Eu ia para o meu trabalho no meio de um ataque 
areo, porque precisava dar instrues para um agente que ia ser lanado na Blgica poucas horas depois. Ouvi uma bomba explodir atrs de mim. Fez um barulho horrvel, 
crump, depois houve um barulho de vidro estilhaando, de material de construo desmoronando e um vento cheio de poeira e pedacinhos de pedra. Eu sabia que, se me 
virasse para olhar, entraria em pnico e me jogaria no cho e ia terminar encolhida como uma bola, de olhos fechados. Assim, olhei em frente e continuei andando.
      Luke ficou comovido com o quadro da jovem Elspeth caminhando nas ruas escuras de Londres enquanto as bombas caam  sua volta, e sentiu-se grato por ela ter 
sobrevivido.
       Mulher corajosa  murmurou ele. 
      Ela deu de ombros.
       No me senti corajosa, s apavorada.
       O que foi que pensou?
       No adivinha?
      Ele lembrou que sempre que ela no tinha o que fazer pensava em matemtica.
       Nmeros primos?  arriscou. 
      Ela riu.
       Nmeros de Fibonacci.
      Luke balanou a cabea. O matemtico Fibonacci imaginou um par de coelhos que tem duas crias a cada ms, crias essas que comeam por sua vez a dar crias no 
mesmo ritmo um ms aps o nascimento, e perguntou quantos pares de coelhos haveria aps um ano. A resposta  144, mas o nmero de pares de coelhos a cada ms  a 
mais famosa seqncia de nmeros na matemtica: 1,1,2,3,5,8,13,21,34,55,89,144. O novo nmero sempre  a soma dos dois anteriores.
      Elspeth disse:
       Quando cheguei na minha sala, j tinha conseguido calcular o dcimo quarto nmero da srie.
       Lembra qual ?
       Claro: cento e dois milhes, trezentos e trinta e quatro mil, cento e cinco. Quer dizer ento que nossos msseis so baseados nas bombas voadoras alems?
       Sim, na V2, para ser mais exato.
      Luke no devia falar sobre seu trabalho, mas Elspeth era Elspeth, e provavelmente tinha acesso a assuntos mais sigilosos que ele.
       Estamos construindo um foguete que pode ser lanado no Arizona e explodir em Moscou. E, se podemos fazer isso, podemos ir  Lua.
       Quer dizer ento que  a mesma coisa, s que numa escala maior?
      Ela mostrava mais interesse em foguetes do que qualquer outra mulher que conhecia.
       Sim. Precisamos de motores maiores, combustvel mais eficiente, melhores sistemas de direo, esse tipo de coisa. Nenhum desses problemas  insupervel. 
Alm disso, os cientistas alemes esto trabalhando para ns agora.
       Acho que ouvi falar nisso  ela mudou de assunto.  E sobre a vida em geral? Est namorando algum?
       No agora  Luke tinha namorado diversas garotas desde o rompimento com Billie, nove anos atrs, e dormira com vrias delas, mas na verdade  que no queria 
contar a Elspeth  nenhuma significara nada de importante para ele.
      Tinha havido uma mulher que ele podia ter amado, uma garota alta, de olhos castanhos e cabelo rebelde. Possua o tipo de energia e joie de vivre que ele amava 
em Billie. Ele a conhecera em Harvard enquanto fazia seu doutorado. Uma noite, j bem tarde, quando atravessavam juntos o ptio, ela tomara as mos dele nas suas 
e dissera:
       Eu tenho um marido.
      Ento ela o beijara e fora embora. Esta vez foi o mais perto que estivera de dar seu corao.
       E voc?  ele perguntara a Elspeth.  Peg se casou, Billie j est se divorciando  voc tem que se esforar para alcan-las.
       Oh, voc sabe como somos, ns, as garotas que trabalham para o governo.
      A frase era um clich dos jornais. Tantas mulheres jovens trabalhavam para o governo em Washington que ultrapassavam os homens na proporo de cinco para um. 
Como conseqncia, eram estereotipadas como sendo sexualmente frustradas e desesperadas por namorados. Luke no acreditava que Elspeth fosse assim, mas se ela queria 
fugir da pergunta, era um direito que tinha.
      Pediu para ele tomar conta do fogo enquanto ia lavar o rosto. Havia uma panela grande com espaguete e outra pequena com molho de tomate borbulhante. Ele tirou 
o palet e a gravata e ps-se a mexer o molho com uma colher de pau. O martni o deixara ligeiramente alto, a comida cheirava bem e ele estava com uma mulher de 
quem realmente gostava. Sentia-se feliz.
      Ouviu Elspeth chamar, com um tom pouco caracterstico de impotncia:
       Luke, podia dar um pulinho aqui, por favor?
      Ele entrou no banheiro. O vestido de Elspeth estava pendurado na porta, pelo lado de dentro. Ela vestia suti sem alas cor de pssego e angua da mesma cor, 
meias e sapatos. Embora vestisse mais roupa do que se estivesse na praia, Luke achou muitssimo sexy v-la de roupa de baixo. Elspeth tinha a mo no rosto.
       Estou com sabo no olho, droga  disse ela.  Quer tentar lavar?
      Luke abriu a torneira de gua fria no lavatrio.
       Abaixe a cabea, coloque o rosto perto da pia  disse ele, encorajando-a com a mo esquerda nas costas. A pele clara das costas dela era macia e quente ao 
toque de sua mo. Ele juntou gua na mo em concha e levou ao olho machucado.
       Isso ajuda  disse Elspeth.
      Luke enxaguou o olho repetidas vezes at que ela disse que no ardia mais. Em seguida ele fez com que se endireitasse e secou-lhe o rosto com uma toalha.
       Seu olho est um pouco congestionado, mas acho que est bem.
       Devo estar horrvel. 
       No.
      Ele a fitou com firmeza. O olho dela estava vermelho e o cabelo daquele lado tinha ficado molhado aos chumaos. Mesmo assim, estava to maravilhosa como no 
primeiro dia em que a vira, mais de uma dcada atrs.
       Voc  absolutamente linda.
      A cabea dela ainda estava inclinada para cima, embora ele no estivesse mais secando seu rosto. Tinha os lbios entreabertos num sorriso. Foi a coisa mais 
fcil do mundo beij-la. Ela o beijou tambm, hesitantemente a princpio, depois passou a mo pela sua nuca, puxou o rosto dele para junto do seu e o beijou apaixonadamente.
      O suti de Elspeth comprimiu o peito dele. Devia ter sido sexy, mas a armao de arame era to dura que o arranhou atravs do algodo fino da camisa. Aps 
um momento ele se afastou, sentindo-se tolo.
       O que foi?  perguntou ela.
      Ele tocou de leve no suti e disse, com um sorriso: 
       Di.
       Pobrezinho  disse ela, com irnica piedade.
      Elspeth levou as mos s costas e desabotoou o suti com um movimento rpido. O suti caiu no cho.
      Ele tocara nos seus seios algumas vezes, tanto tempo atrs, mas jamais os tinha visto. Eram brancos e redondos e os mamilos claros estavam franzidos de excitao. 
Ela passou os braos pelo seu pescoo e comprimiu o corpo no dele. Seus seios eram suaves e quentes.
       Pronto  disse Elspeth , assim  melhor.
      Aps um instante ele a pegou no colo, foi para o quarto e colocou-a em cima da cama. Ela se livrou dos sapatos. Ele tocou no cs da angua e perguntou:
       Posso?
      Ela deu uma risadinha.
       Puxa, Luke, voc  to educado!
      Ele sorriu. Era bobagem, mas no sabia ser de outra forma. Elspeth ergueu os quadris e ele puxou a angua. As calcinhas cor-de-rosa combinavam com o resto 
da roupa de baixo.
       No pergunte  disse ela.  Simplesmente tire. 
      Quando fizeram amor foi lento e intenso. Elspeth ficou puxando a cabea dele para junto da sua e beijando-lhe o rosto, enquanto Luke entrava e saa de dentro 
dela.
       Eu desejava isso h tanto tempo  murmurou Elspeth no ouvido dele, e logo gritou de prazer, uma, duas, diversas vezes, e deixou-se ficar deitada de costas, 
exausta.
      Em pouco tempo Elspeth caa em sono profundo, mas Luke permanecia acordado, pensando em sua vida.
      Ele sempre quis ter uma famlia. Para Luke, felicidade era uma casa grande cheia de crianas e amigos e animais de estimao. E, no entanto, ali estava ele, 
trinta e trs anos e ainda solteiro, com o tempo parecendo andar cada vez mais depressa. Desde a guerra que a carreira tinha sido sua prioridade, disse a si prprio. 
Voltara a estudar, recuperando os anos perdidos. Mas esta no era a verdadeira razo pela qual no se casara. A verdade  que apenas duas mulheres tinham tocado 
seu corao  Billie e Elspeth. Billie o enganara, mas Elspeth estava ali, a seu lado. Contemplou seu corpo voluptuoso  luz dbil do Dupont Circle l fora. Poderia 
haver algo melhor do que passar todas as noites com uma garota que era inteligente, corajosa como uma leoa, maravilhosa com crianas e  acima de tudo  estonteantemente 
linda?
      Quando nasceu o dia ele se levantou e fez caf. Trouxe para o quarto numa bandeja e encontrou Elspeth sentada na cama, sonolenta e deliciosa. Ela sorriu, feliz, 
para ele.
       Tenho uma pergunta para lhe fazer  disse ele, sentando-se na beira da cama e segurando a mo dela.  Quer se casar comigo?
      O sorriso de Elspeth desapareceu e ela pareceu ficar perturbada.
       Oh, meu Deus. Posso pensar antes de responder?

7:00

Os gases de escape passam atravs do bocal do foguete como uma xcara de caf quente sendo despejada na garganta de um boneco de neve.
Anthony seguiu para o Jefferson Memorial com Larry sentado no banco da frente entre ele e Pete. Ainda estava escuro e a rea deserta. Fez a volta e estacionou de 
modo que seus faris iluminassem qualquer outro carro que aparecesse.
      O monumento era um crculo duplo de colunas com um telhado em cpula sobre uma plataforma alta cujo acesso se fazia por uma escada  retaguarda.
       A esttua tem seis metros de altura e pesa cinco toneladas  disse ele a Larry.
       Onde est?
       Voc no pode ver daqui, mas est no interior daquelas colunas.
       Devamos ter vindo durante o dia  choramingou Larry.
      Anthony j sara com Larry antes. Tinha ido  Casa Branca, ao Zoo e ao Smithsonian. Almoavam cachorro-quente, lanchavam sorvete depois e Anthony comprava 
um brinquedo para Larry antes de lev-lo de volta para casa. Sempre se divertiam bastante. Anthony gostava do afilhado. Mas hoje Larry sabia que havia algo de errado. 
Era cedo demais e ele queria a me, alm de, provavelmente, ter sentido a tenso dentro do carro.
      Anthony abriu a porta.
       Fique aqui um instante, Larry, enquanto eu converso com Pete  disse ele.
      Os dois homens saltaram. O hlito deles ficou visvel no ar frio.
       Vou esperar aqui  disse Anthony a Pete. Voc leva o garoto e mostra o monumento a ele. Fique deste lado de modo que ela veja o menino quando chegar.
       Certo  a voz de Pete soou fria e abrupta.
       Odeio isto  disse Anthony.
      Na verdade no se incomodava mais. Larry estava aborrecido e Billie histrica de medo, mas haveriam de ultrapassar aquilo e ele no ia permitir que sentimentos 
atrapalhassem o seu caminho.
       No vamos machucar o menino nem a me dele  acrescentou, tentando tranqilizar Pete.  Mas ela nos dir aonde Luke foi.
       E a ento devolvemos o seu filho. 
       No. 
        No?  a expresso do rosto de Pete ficou escondida pela escurido, mas a sua voz denotava o espanto que sentia.  Por que no?
       Para o caso de precisarmos de mais informaes dela mais tarde.
      Pete ficou perturbado, mas aquiesceria, pelo menos por enquanto, pensou Anthony, que abriu a porta do carro.
       Vamos, Larry. Tio Pete vai mostrar a esttua a voc. 
      Larry saltou e, com cuidadosa polidez, disse:
       Depois que tivermos visto a esttua, acho que vou querer ir para casa.
      Anthony quase no pde respirar. A coragem de Larry foi demais para ele. Aps um instante, conseguiu responder, com a voz j calma:
       A gente fala com a mame. Agora v.
      O menino pegou a mo de Pete e os dois se dirigiram para o monumento, buscando a escadaria na parte de trs. Um minuto mais tarde apareceram diante das colunas, 
iluminados pelos faris do carro.
      Anthony deu uma olhada no relgio. Dentro de dezesseis horas a contar daquele instante o foguete seria disparado e tudo estaria terminado, de um modo ou de 
outro. Dezesseis horas era tempo mais que suficiente para Luke causar danos ilimitados aos seus planos. Tinha que peg-lo, depressa.
      Billie j deveria ter chegado. Ele sentiu uma pontada de dvida. Certamente que ela viria. Estava assustada demais para chamar a polcia ou recorrer a algum 
truque, disso ele tinha certeza.
      Estava certo. Em poucos instantes chegou outro carro. No dava para ver a cor, mas com certeza era um Ford Thunderbird. Estacionou a vinte metros do Cadillac 
de Anthony e um vulto pequeno e frgil saltou, deixando o motor ligado.
       Ol, Billie  disse Anthony.
      Ela olhou para o monumento e viu Pete e Larry na plataforma saliente, dentro do crculo de colunas. Ficou imvel, o olhar fixo no filho.
      Anthony caminhou para junto dela.
       No tente nada dramtico  ia perturbar Larry.
       No fale comigo sobre perturbar o menino, seu filho-da-puta  a voz dela tremia de tanta tenso. Estava prestes a cair no choro.
       Tive que fazer isto.
       Ningum tem que fazer nada que no queira.
      A hostilidade de Billie no era surpreendente, mas assim mesmo seu desprezo feriu Anthony. Ele disse:
       Voc conhece a frase de Thomas Jefferson que aparece dentro desse monumento, em letras de meio metro de altura? Jurei perante o altar de Deus eterna hostilidade 
contra todas as formas de tirania sobre a mente do homem.  a razo pela qual estou fazendo isso.
       Ao inferno com os seus motivos. Voc perdeu de vista quaisquer ideais que possa ter tido. Nada de bom pode sobreviver a esse tipo de traio.
      Era perda de tempo discutir com ela.
       Onde est Luke?  perguntou ele, abruptamente. 
      Houve uma longa pausa. Finalmente ela disse:
       Luke pegou um avio para Huntsville. 
      Anthony deixou escapar um suspiro fundo de satisfao. Tinha o que precisava.
      Mas tambm ficou surpreso com a resposta dela.
       Por que Huntsville?
        onde o Exrcito projeta os foguetes.
       Eu sei. Mas por que ele iria par a l hoje?  na Flrida que tudo est acontecendo.
       Eu no sei por qu.
      Anthony tentou interpretar a expresso facial dela, mas estava muito escuro.
       Acho que voc est me escondendo alguma coisa.
       No me interessa o que voc acha. Vou pegar meu filho e ir embora.
       No, no vai  disse Anthony.  Ns vamos ficar com ele por algum tempo.
      A voz de Billie foi um grito de angstia.
       Por qu? Eu disse a voc aonde Luke foi!
       Pode ser que haja outros modos de voc nos ajudar.
       No  justo!
       Voc sobreviver  disse Anthony. E se virou. 
      Foi o erro dele.
      
> > > < < <
      
Billie meio que esperara aquilo.
      Quando Anthony deu um passo na direo do Cadillac, ela se lanou sobre ele, atingindo-o com o ombro direito nas costas, em cima dos rins. Pesava apenas sessenta 
quilos, enquanto ele no mnimo teria mais uns vinte e cinco, mas tinha a surpresa e a fria do seu lado. Anthony tropeou e caiu para frente apoiando-se nas mos 
e joelhos. Ele gemeu de surpresa e dor.
      Billie sacou a Colt do bolso.
      Quando Anthony tentou se levantar, ela se jogou de novo contra ele, desta vez de lado. Anthony caiu no cho, rolando. Quando seu rosto virou para cima, ela 
se ajoelhou ao lado da cabea dele e meteu o cano da pistola com fora na sua boca. Sentiu um dente quebrando.
      Anthony ficou imvel.
      Deliberadamente, ela empurrou a trava de segurana para a posio de tiro. Olhou dentro dos olhos dele e viu medo. No tinha esperado uma arma. Um fio de sangue 
apareceu no seu queixo.
      Billie levantou a cabea. Larry e o homem com ele ainda viam o monumento, sem saber da briga. Voltou novamente a ateno para Anthony.
       Vou tirar a pistola de dentro da sua boca  disse ela, ofegante.  Se voc se mexer, eu o mato. Se ainda estiver vivo, vai chamar o seu colega e repetir 
para ele o que vou dizer.
      Ela tirou o cano da Colt da boca de Anthony e apontou para o seu olho esquerdo.
       Agora  disse.  Chame-o. 
      Anthony hesitou.
      Billie tocou com o cano da pistola a plpebra do seu olho.
       Pete!  gritou Anthony.
      Pete olhou em torno. Houve uma pausa. Ento, ele perguntou, intrigado:
       Onde  que voc est?
      Anthony e Billie estavam fora do alcance dos faris.
       Diga a ele para que permanea onde est  ordenou Billie.
      Anthony nada disse. Billie comprimiu seu olho com a pistola. Anthony gritou:
       Fica onde est!
      Pete ps a mo na testa tentando enxergar no escuro de onde vinha a voz.
       O que est acontecendo? No consigo ver voc. 
      Billie gritou:
       Larry, aqui  a mame. Entre no T-bird! 
      Pete agarrou o bracinho de Larry.
       O homem no quer me deixar!  gritou Larry. 
       Fique calmo! Tio Anthony vai dizer ao homem para soltar voc.
      Ela apertou a pistola com mais fora ainda no olho dele.
       Est bem!  gritou Anthony. Ela suavizou a presso.  Larga o garoto! 
      Pete insistiu:
       Voc tem certeza?
       Faa o que eu digo, pelo amor de Deus  ela est me apontando uma pistola!
       OK  Pete soltou o brao de Larry.
      Larry correu para a parte de trs do monumento e segundos mais tarde reapareceu no nvel do solo e correu para Billie.
       No!  exclamou ela, tentando manter a voz calma.  Entre no carro, rapidamente.
      Larry correu para o Thunderbird, entrou e bateu a porta.
      Com um rpido movimento, Billie bateu em ambos os lados da face de Anthony com a pistola, com toda a fora de que foi capaz. Ele gritou de dor, mas antes que 
pudesse se mover ela enfiou o cano da Colt de novo na sua boca. Ficou deitado, gemendo, e Billie disse:
       Lembre-se disso se algum dia vier a ser tentado a seqestrar de novo uma criana.
      Billie levantou-se, retirando a pistola da boca de Anthony.
       Fique quieto  ordenou. Depois recuou na direo do T-bird, conservando a pistola apontada para Anthony. Deu uma espiada no monumento. Pete no se mexera.
      Ela entrou no carro. 
      Larry perguntou:
       Voc tem uma pistola?
      Billie enfiou a Colt no bolso da jaqueta.
       Voc est bem?  perguntou ao filho. 
      Ele comeou a chorar.
      Ela engrenou o carro e foi embora.

8:00

Os foguetes menores, que conduzem o segundo, terceiro e ltimo estgios usam um combustvel slido conhecido como T17-E2, que  um polissulfito com perclorato de 
amnia funcionando como oxidante. Cada foguete gera cerca de 1.600 libras de empuxo no espao.
Bern serviu leite morno por cima dos flocos de milho de Larry enquanto Billie batia um ovo para fazer torrada francesa. A idia era dar ao menino uma comidinha reconfortante, 
mas Billie achou que os adultos tambm precisavam de um pouco de aconchego. Larry comia vorazmente e ouvia rdio ao mesmo tempo.
       Vou matar aquele filho-da-puta do Anthony  murmurou Bern, falando baixinho para Larry no ouvir.  Juro por Deus que vou matar aquele escroto.
      A raiva de Billie tinha se evaporado. Bater em Anthony com a pistola acabara com toda a sua fria. Agora estava preocupada e apavorada  em parte por Larry, 
que tinha levado um baita susto, e em parte por Luke.
       Tenho medo de que Anthony possa querer matar Luke  disse ela.
      Bern ps uma colher de manteiga dentro de uma frigideira quente e mergulhou uma fatia de po de frma branco na mistura de ovo que Billie preparara.
       No vai ser fcil matar Luke.
       Mas ele pensa que escapou. No sabe que eu contei a Anthony onde est.
      Enquanto Bern fritava o po encharcado de ovo, Billie andava de um lado para o outro na cozinha, mordendo o lbio.
      Anthony provavelmente est agora a caminho de Huntsville. Luke viaja em um avio lento. Anthony pode ter conseguido um vo da MATS e chegar l primeiro. Tenho 
que descobrir um modo de alertar Luke.
       Deixar um recado no aeroporto?
       No  bastante confivel. Acho que vou ter que ir l pessoalmente. Havia um Viscount que levantava vo s nove, no havia? Onde est o guia que voc arranjou?
       Em cima da mesa.
      Billie viu que o vo 271 deixava Washington exatamente s nove horas. Ao contrrio do vo de Luke, aquele parava apenas duas vezes, aterrissando em Huntsville 
quatro minutos antes do meio-dia. O vo de Luke no chegaria seno s duas e vinte e trs. Poderia estar  espera dele no aeroporto.
       Posso ir nesse.
       Pois ento deve ir.
      Billie hesitou, olhando para Larry, dividida por impulsos conflitantes.
      Bern leu o pensamento dela.
       Ele ficar bem.
       Eu sei, mas no quero deix-lo, logo hoje.
       Eu tomo conta dele.
       Voc o manteria longe da escola?
       Sim, acho uma boa idia, pelo menos no dia de hoje.
       Terminei os flocos de milho  anunciou Larry.
       Ento j est em condies de comer uma torrada francesa  ele colocou uma fatia no prato do menino.  Vai querer xarope de bordo?
       Vou!
       Vou o qu? 
        Vou sim, por favor.
      Bern serviu o xarope que estava numa garrafa. 
      Billie sentou-se na frente do filho e disse:
       Quero que voc no v  escola hoje.
       Mas vou perder a natao!  protestou ele.
       Pode ser que seu pai o leve para nadar.
       Mas eu no estou doente!
       Eu sei, querido, mas voc teve uma manh cansativa e precisa descansar.
      Os protestos de Larry tranqilizaram Billie. Era sinal de que estava se recuperando depressa. Mesmo assim no se sentiria tranqila deixando-o ir  escola, 
pelo menos enquanto aquela confuso toda no houvesse terminado.
      No entanto, podia deix-lo com o pai. Bern era um agente treinado e podia defender o filho praticamente de tudo. Tomou a deciso  ia a Huntsville.
       Tenha um dia divertido com o papai e talvez amanh j d para ir  escola, OK?
       OK.
       Mame tem que ir agora.
      Ela no queria fazer um drama daquela despedida, pois s ia servir para assustar o menino.
       At logo  disse, casualmente.
      Ia saindo quando ouviu Bern dizer:
       Aposto como voc no consegue comer outra fatia de torrada francesa.
       Pois aposto como posso!  replicou Larry. 
      Billie fechou a porta.

PARTE CINCO

10:45

O mssil levantar vo verticalmente, e em seguida ser inclinado at ficar numa trajetria inclinada quarenta graus em relao ao horizonte. O primeiro estgio 
 orientado, durante o vo com motor, por superfcies aerodinmicas na cauda e lminas mveis de carvo no exaustor.
Luke caiu no sono assim que afivelou o cinto de segurana e no tomou conhecimento nem da aterrissagem ainda no aeroporto de Newport News. Dormia pesadamente enquanto 
o aparelho estava no ar, mas acordava todas as vezes que aterrissava em mais uma pista daquele vo parador atravs da Virginia e da Carolina do Norte. Cada vez que 
seus olhos se abriam sentia uma onda de ansiedade domin-lo e checava o relgio para ver quantas horas e minutos faltavam para o lanamento do foguete. Ficava inquieto 
na poltrona enquanto a pequena aeronave taxiava pelas pistas. Depois que parava pouca gente saltava, uma ou duas pessoas embarcavam e o avio levantava vo de novo. 
Era como andar de nibus.
      O avio foi abastecido em Winston-Salem e os passageiros saltaram por alguns minutos. Luke telefonou para o Redstone Arsenal e conseguiu falar com sua secretria 
Marigold Clark.
       Dr. Lucas  disse ela.  O senhor est bem?
       Estou, mas s tenho um ou dois minutos. O lanamento ainda est previsto para hoje  noite?
       Sim, s dez e meia.
       Estou a caminho de Huntsville  meu avio aterrissa a s duas e vinte e trs. Estou tentando imaginar por que fui a na segunda-feira.
       O senhor ainda no recuperou a memria?
       No. Voc no sabe o motivo pelo qual eu fiz esta viagem?
       Conforme falei, o senhor no me contou.
       O que foi que eu fiz?
       Bem, deixa-me ver. Eu o esperei no aeroporto, num carro do Exrcito e o trouxe aqui para a base. O senhor foi ao Laboratrio de Computao e depois saiu 
dirigindo at a ponta sul.
       O que  que tem l, nessa ponta sul?
       As rampas de lanamento para testes estticos. Imagino que o senhor deva ter ido ao prdio da Engenharia  s vezes o senhor trabalha l  mas no posso 
garantir porque no estava ao seu lado.
       E depois?
       O senhor me pediu para lev-lo  sua casa  Luke percebeu um certo toque de orgulho na voz dela.  Esperei no carro enquanto o senhor entrou por um ou dois 
minutos. Depois o levei ao aeroporto.
       S?
        tudo que sei.
      Luke gemeu de frustrao. Havia esperado que Marigold aparecesse com alguma pista.
      Desesperado, procurou seguir outra linha de interrogatrio.
       Como eu estava?
       Legal, mas sua cabea estava longe. Preocupado,  a palavra. Achei que estava angustiado com alguma coisa. Acontece o tempo todo com vocs, cientistas. No 
me deixo atormentar com isso.
       Usando minhas roupas costumeiras?
       Um de seus lindos palets de tweed.
       Carregando alguma coisa?
       S a sua mala pequena. Ah, sim, e uma pasta de papel. 
      Luke parou de respirar por um momento.
       Uma pasta?  ele engoliu em seco.
      Uma funcionria da companhia area o interrompeu.
       Hora de embarcar, por favor, dr. Lucas. 
      Ele cobriu o bocal com a mo disse:
       Espere um minuto.
      Depois voltou a se dirigir a Marigold:
       Era alguma pasta especial?
       Tipo padro do Exrcito, de cartolina, amarelo-clara, do tamanho que se usa para guardar cartas comerciais.
       Alguma idia do que havia dentro dela?
       S papis, pelo que parecia. 
      Luke tentou respirar normalmente.
       Quantas folhas de papel? Uma, dez, cem?
       Umas quinze ou vinte, acho eu.
       Por acaso voc viu o que estava escrito nas folhas?
       No, o senhor no as tirou de dentro da pasta.
       Eu ainda tinha essa pasta quando voc me levou ao aeroporto?
      Houve um instante de silncio do outro lado da linha. 
      A aeromoa voltou.
       Dr. Lucas, se no embarcar teremos que ir sem o senhor.
       J vou, j vou  ele comeou a repetir a pergunta para Marigold.  Eu ainda tinha essa pasta...
       Eu ouvi  ela interrompeu.  Estou tentando me lembrar. 
      Ele mordeu o lbio.
       Demore o quanto for preciso.
       Se estava ou no com ela na sua casa, no posso garantir.
       Mas no aeroporto?
       Sabe de uma coisa, eu acho que no. Acho que o senhor no estava com a pasta. Estou visualizando o senhor afastando-se de mim no terminal e estou vendo a 
mala em uma das mos e na outra... nada.
       Tem certeza?
       Sim, agora tenho. O senhor deve ter deixado a pasta em algum lugar, ou na base ou na sua casa.
      A mente de Luke trabalhava a toda velocidade. A pasta era a razo da sua viagem a Huntsville, tinha certeza. Ela continha o segredo que ele descobrira, o segredo 
que Anthony queria to desesperadamente que esquecesse. Talvez fosse uma cpia Xerox do original, que ele podia ter escondido em alguma parte como medida de segurana. 
Por este motivo tinha pedido a Marigold que no falasse a ningum de sua visita.
      Se pudesse encontrar a pasta agora, poderia descobrir o segredo.
      A aeromoa o abandonara e ele a viu correndo pela pista de asfalto. As hlices do avio j estavam girando.
       Acho que aquela pasta pode ser importantssima  disse a Marigold.  ser que voc podia dar uma busca e ver se ela no est por a?
       Meu Deus, doutor Lucas, isto aqui  o Exrcito dos Estados Unidos! No sabe que deve haver um milho de pastas amarelo-claras por aqui? Como eu posso saber 
qual  a que o senhor estava carregando?
       Basta dar uma olhada e ver se h alguma pasta em lugar que no deveria estar. Assim que chegar em Huntsville vou para casa procur-la. Se no encontrar, 
vou para a base.
      Luke desligou e correu para o avio. 

11:00

O plano de vo  programado com antecedncia. Durante o vo, sinais transmitidos  distncia para o computador ativam o sistema de orientao, a fim de mant-lo 
na rota.
O vo da MATS para Huntsville estava cheio de generais. O Redstone Arsenal fazia mais do que projetar foguetes espaciais, pois sediava o Comando de Msseis do Material 
Blico do Exrcito. Anthony, que acompanhava esse tipo de coisa, sabia que toda uma gama de armas era desenvolvida e testada na base  desde o Red Eye, do tamanho 
de um basto de beisebol, para tropas terrestres usarem contra aeronaves inimigas, at o imenso mssil superfcie-superfcie Honest John. A base indubitavelmente 
tinha um intenso movimento de chefes cheios de estrelas nos ombros.
      Anthony estava de culos escuros para esconder os dois olhos pretos que Billie lhe dera. O lbio parara de sangrar e o dente quebrado s aparecia quando falava. 
A despeito dos ferimentos, sentia-se energizado: Luke estava a seu alcance.
      Devia simplesmente aproveitar a primeira oportunidade para mat-lo? Era tentador, pela simplicidade. O que o preocupava era que no sabia exatamente o que 
Luke pretendia fazer. Tinha que tomar uma deciso. No entanto, na hora em que embarcou j estava acordado havia mais de quarenta e oito horas direto, e caiu no sono. 
Sonhou que tinha vinte e um anos de novo e que havia folhas novas nas altas rvores do ptio de Harvard e uma vida cheia de gloriosas possibilidades se estendia 
diante dele, como uma estrada aberta. Em seguida l estava Pete sacudindo-o enquanto um cabo abria a porta da aeronave. Acordou respirando a clida brisa do Alabama.
      Huntsville tinha um aeroporto civil, mas no pousaram nele. Os vos militares utilizavam o campo de pouso dentro do Redstone Arsenal. O terminal ficava numa 
pequena cabana de madeira e o posto de controle funcionava na parte superior de uma armao aberta.
      Anthony sacudiu a cabea para clarear as idias quando atravessou o gramado ressequido. Carregava a maleta onde levava a pistola, um passaporte falso e cinco 
mil dlares em dinheiro, o kit de emergncia sem o qual nunca entrava em um avio.
      Seu nvel de adrenalina havia subido incrivelmente. Nas prximas horas mataria um homem, pela primeira vez desde a guerra. Sentia o estmago tenso s de pensar. 
Em que lugar seria? Uma opo era aguardar Luke no aeroporto de Huntsville, segui-lo quando ele sasse de l e abat-lo em algum ponto do trajeto para a cidade. 
S que o risco neste caso era alto. Era bem possvel que Luke percebesse que o seguiam e fugisse. Ele jamais seria um alvo fcil. Poderia escapar, se Anthony no 
fosse extremamente cauteloso.
      Podia ser melhor descobrir onde Luke estava planejando ir, deslocar-se na frente dele e embosc-lo.
       Vou fazer algumas indagaes na base  disse a Pete. Quero que voc v para o aeroporto e vigie. Se Luke chegar ou acontecer alguma coisa, tente me alcanar 
aqui.
      Na. extremidade da pista um jovem tenente esperava com um cartaz que dizia: Sr. Carroll, Departamento de Estado. Anthony apertou a mo dele.
       Os cumprimentos do coronel Hickam, senhor  disse o tenente, em tom formal.  De acordo com o que foi pedido pelo Departamento de Estado, ns colocamos um 
carro  sua disposio.
      Ele apontou um Ford pintado de verde-oliva.
       Excelente  disse Anthony.
      Ele telefonara para a base antes de pegar o avio, fingindo, ousadamente, que obedecia a ordens diretas do diretor da CIA, Alan Dulles, e exigira a cooperao 
do Exrcito para uma misso de importncia vital cujos detalhes eram reservados. Funcionara: o tenente parecia ansioso para agradar.
       O coronel Hickam teria muito prazer se o senhor passasse no gabinete dele quando fosse de sua convenincia.
      O tenente passou um mapa para Anthony, que viu que a base era enorme. Estendia-se diversos quilmetros para o sul, indo at o rio Tenessee.
       O prdio onde fica o comando est marcado no mapa  prosseguiu o militar.  E temos uma mensagem, pedindo que o senhor ligue para o sr. Carl Hobart, em Washington.
       Muito obrigado, tenente. Onde fica o escritrio do dr. Claude Lucas?
       Deve ser no Laboratrio de Computao  ele pegou um lpis e fez uma marca no mapa.  Mas todo o pessoal do Laboratrio est em Cabo Canaveral esta semana. 
       O dr. Lucas tem secretria?
       Tem  a srta. Marigold Clark.
      Podia ser que ela estivesse a par dos movimentos de Luke.
       timo. Tenente, este  o meu colega Pete Maxell. Ele precisa ir ao aeroporto civil esperar um vo.
       Ser um prazer lev-lo l, senhor.
       Fico-lhe muito grato. Se ele precisar entrar em contato comigo aqui na base, qual a melhor maneira?
      O tenente olhou para Pete.
       O senhor sempre pode deixar uma mensagem no gabinete do coronel Hickam e eu tentarei fazer com que chegue ao conhecimento do sr. Carroll.
       Est timo  disse Anthony, em tom decidido.  Vamos andando.
      Ele entrou no Ford, verificou o mapa e saiu. Era uma tpica base do Exrcito. Ruas estreitas atravessavam regies arborizadas interrompidas por retngulos 
de gramados cuidadosamente coitados to rentes quanto cabelo de recruta. Os prdios todos eram estruturas de teto horizontal de tijolos claros. Era bem sinalizada 
e ele logo encontrou o Laboratrio de Computao, um prdio em forma de T com dois andares. Anthony perguntou-se por que precisariam de tanto espao para fazer 
clculos e depois chegou  concluso de que deviam ter l um computador poderoso.
      Estacionou do lado de fora e pensou durante alguns instantes. Tinha uma pergunta muito simples a fazer: onde em Huntsville Luke planejava ir? Marigold provavelmente 
sabia, mas ela estaria preocupada em defender Luke e suspeitaria de um estranho, especialmente com dois olhos pretos. No entanto, fora deixada em Huntsville quando 
a maioria das pessoas com quem trabalhava tinha ido a Cabo Canaveral para o grande evento, de modo que provavelmente tambm estava se sentindo solitria e entediada.
      Anthony entrou no prdio. Em uma sala externa havia trs mesinhas, cada uma com uma mquina de escrever. Duas estavam vagas. A terceira era ocupada por uma 
negra de cerca de cinqenta anos usando um vestido de algodo estampado com margaridas e culos com uma armao revestida de falsos brilhantes.
       Boa tarde  disse ele.
      Ela levantou a cabea. Anthony tirou os culos escuros. Ela arregalou os olhos, espantada com sua aparncia.
       Ol! Como posso ajud-lo?
      Com irnica falsa sinceridade, ele respondeu:
       Minha senhora, estou procurando uma esposa que no me bata!
      Marigold caiu na gargalhada.
      Anthony puxou uma cadeira e sentou-se em frente  mesa dela.
       Sou do gabinete do coronel Hickam  disse ele.  Estou procurando Marigold Clark. Onde posso encontr-la?
       Sou eu.
       Oh, no. A srta. Clark que procuro  uma senhora. Voc  uma garota nova.
       Pra com essas bobagens  disse ela, mas com um sorriso largo.
       O dr. Lucas est vindo para c  acho que voc sabia.
       Ele me telefonou hoje de manh.
       A que horas espera que ele chegue?
       O avio dele pousa s duas e vinte e trs. 
      Esta era uma informao til.
       Quer dizer ento que ele estar aqui por volta das trs horas.
       No obrigatoriamente. 
      Ah!
       Por que no?
      Ela lhe deu o que ele queria.
       O dr. Lucas disse que primeiro ia em casa e depois passava aqui.
      Perfeito! Anthony mal podia acreditar na sua sorte. Luke ia do aeroporto direto para sua casa. Anthony podia ir para l e esperar e matar Luke assim que ele 
entrasse porta adentro. No haveria testemunhas. Se usasse o silenciador ningum sequer ouviria um tiro. Deixaria o corpo onde casse, pegaria o carro e iria embora. 
Com Elspeth na Flrida, o cadver podia ser encontrado apenas dentro de alguns dias.
       Muito obrigado  ele agradeceu e levantou-se.  Foi um prazer conhec-la.
      Anthony foi embora antes que ela pudesse perguntar seu nome.
      Voltou para o carro e dirigiu-se para o prdio do comando, um monlito comprido de trs andares que mais parecia uma priso. Encontrou logo a sala do coronel 
Hickam. O coronel no estava, mas um sargento o deixou numa sala vazia com telefone.
      Ligou para o Prdio Q mas no falou com seu chefe, Carl Hobart, e sim com o chefe de Carl, George Cooperman.
       O que  que h, George?
       Voc atirou em algum ontem  noite?  perguntou Cooperman, a voz rouca de fumante parecendo ainda mais grave do que o normal.
      Com um esforo, Anthony incorporou a persona de fanfarro que tanto atraa Cooperman.
       Puxa vida, quem foi que lhe contou?
       Um coronel do Pentgono ligou para Tom Ealy do gabinete do Diretor e Ealy falou com Hobart, que teve um orgasmo.
       No h provas. Apanhei todas as balas.
       Esse coronel encontrou um buraco na porra da parede com cerca de nove milmetros de largura e adivinhou o que o causou. Voc acertou em algum?
       Infelizmente no.
       Voc est agora em Huntsville, certo?
       Estou.
       Pois deve voltar imediatamente.
       Ento foi uma sorte no ter falado com voc.
       Escute, Anthony, eu sempre lhe dou toda a liberdade que posso, porque voc consegue resultados. Mas no posso fazer mais nada por voc neste caso. A partir 
de agora voc est sozinho, meu amigo.
        assim que eu gosto.
       Boa sorte.
      Anthony desligou e continuou olhando para o telefone. No dispunha de muito tempo mais. Seu nmero de Billy the Kid estava no fim. No podia mais continuar 
desobedecendo as ordens de cima. Precisava acabar com aquilo depressa.
      Telefonou para Cabo Canaveral e falou com Elspeth.
       Voc falou com Luke?  perguntou.
       Ele me telefonou s seis e meia da manh  ela parecia insegura.
       De onde?
       Ele no quis dizer onde estava, aonde ia ou o que tencionava fazer, porque tinha medo que o meu telefone estivesse grampeado. Mas me disse que voc era o 
responsvel pela sua amnsia.
       Ele est a caminho de Huntsville. Eu estou agora no Redstone Arsenal. Estou pensando em ir esper-lo na sua casa. Vou conseguir entrar?
      Ela respondeu com outra pergunta.
       Ainda est tentando proteg-lo? 
       Naturalmente.
       Ele ficar bem?
       Vou me esforar ao mximo.
      Houve um instante de pausa, aps o que ela disse:
       Tem uma chave debaixo do vaso com buganvlias no quintal.
       Obrigado.
       Tome conta de Luke, sim?
       Eu disse que me esforaria ao mximo.
       No retruque  disse Elspeth, com um pouco mais do seu jeito comum de ser.
       Eu cuidarei dele  Anthony desligou.
      Ele levantou-se para ir embora e o telefone tocou.
      Ficou na dvida se atendia ou no. Podia ser Hobart. Mas Hobart no sabia que ele estava na sala do coronel Hickam. S Pete sabia disso... era o que ele achava.
      Levantou o aparelho do gancho.
      Era Pete.
       A dra. Josephson est aqui!  disse ele.
       Merda!  Anthony tinha certeza de que ela estaria fora do quadro.  Ela acaba de saltar de algum avio?
       Isso, e deve ter sido um vo muito mais rpido que o que traz Lucas. Ela est sentada no terminal, com cara de quem espera algum.
       Espera Luke  disse Anthony, com ar decidido.  Maldita mulher. Veio para avis-lo de que estamos aqui. Voc vai ter que tir-la da.
       Como?
       Sei l  quero que se livre dela.

Meio-dia

A rbita do Explorer ser a 34 graus do equador. Relativamente  superfcie da Terra, seguir na direo sudeste, atravessando o Atlntico para a ponta extrema do 
sul da frica, depois para o nordeste, atravessando o Oceano ndico e a Indonsia e indo at o Pacfico.
O aeroporto de Huntsville era pequeno, mas movimentadssimo. O nico terminal dispunha de um balco da Hertz, algumas mquinas de venda e uma fileira de cabines 
telefnicas. Assim que chegou, Billie perguntou a respeito do vo de Luke e descobriu que estava quase uma hora atrasado e que aterrissaria em Huntsville s trs 
e quinze. Tinha que matar quase trs horas.
      Pegou uma barra de chocolate e um Dr. Pepper em uma das mquinas. Arriou a pasta de executivo que continha a Colt e ficou de p, encostada em uma parede, pensando. 
Como ia administrar aquilo? Assim que visse Luke, avisaria que Anthony estava em Huntsville. Luke se preveniria e podia tomar precaues  mas no poderia se esconder. 
Tinha que descobrir o que fizera ali na segunda-feira e para tanto teria que se deslocar. Tinha que se arriscar. Poderia fazer alguma coisa para proteg-lo?
      Enquanto dava tratos  bola, uma garota envergando um uniforme da Capital Airlines aproximou-se.
       A senhora  a dra. Josephson?
       Sim.
       Tenho uma mensagem telefnica para a senhora.
      Ela entregou um envelope a Billie.
      Billie preocupou-se. Quem sabia que estava ali?
       Obrigada  murmurou, rasgando o envelope.
       De nada. Por favor, diga-nos se pudermos fazer alguma coisa para ajud-la.
      Billie levantou a cabea e sorriu. Tinha esquecido como as pessoas eram polidas no Sul.
       Certamente que direi, se for o caso. Fico-lhe muito agradecida.
      A garota afastou-se e Billie leu a mensagem: Por favor, ligue para o dr. Lucas no telefone JE 6-4231 de Huntsville.
      Levou um susto. Seria possvel que Luke j tivesse chegado? E como soubera que estava ali?
      S havia um modo de descobrir. Largou a garrafa do refrigerante numa cesta de lixo e dirigiu-se a um telefone pblico.
      Atenderam imediatamente e uma voz de homem disse:
       Laboratrio de testes de componentes.
      Tudo indicava que Luke j se encontrava no Arsenal. Como conseguira? 
      Ela disse:
       Dr. Claude Lucas, por favor.
       Um momento.
      Aps uma pausa, ouviu a voz do mesmo homem outra vez.
       O dr. Lucas saiu por um minuto. Quem fala, por favor?
       Dra. Bilhah Josephson. Recebi uma mensagem pedindo que ligasse para ele nesse nmero.
      O tom de voz do homem mudou imediatamente.
       Oh, dra. Josephson, que bom que a encontramos! O dr. Lucas est ansioso para falar com a senhora.
       O que ele est fazendo aqui? Pensei que ainda estivesse viajando.
       A segurana do Exrcito tirou-o do avio em Norfolk, Virgnia e providenciou um vo especial. Ele chegou h mais de uma hora.
      Ela sentiu-se aliviada por saber que Luke estava seguro, mas ao mesmo tempo ficou intrigada.
       O que ele est fazendo aqui? 
       Acho que a senhora sabe. 
       OK, acho que sim. Como vai ele?
       timo, mas no posso dar detalhes. Especialmente pelo telefone. No pode vir aqui?
       Onde ?
       O laboratrio fica a cerca de uma hora fora da cidade, na estrada para Chattanooga. Eu podia mandar um motorista do Exrcito peg-la a, mas seria mais rpido 
se a senhora pegasse um txi ou alugasse um carro.
      Billie tirou um bloco de notas da bolsa.
       Diga como chegar a.
      Depois, lembrando-se da delicadeza sulista, acrescentou:
       Por favor.

13:00

O motor do primeiro estgio deve ser desligado bruscamente e separado na mesma hora. De outro modo, a reduo gradual do empuxo poderia fazer com que o primeiro 
estgio se prendesse no segundo e o desalinhasse. Assim que cai a presso nas linhas de combustvel as vlvulas so fechadas e o primeiro estgio  separado cinco 
segundos mais tarde pela detonao de parafusos explosivos dotados de molas. As molas aumentam a velocidade do segundo estgio em 2,6 ps por segundo, assegurando 
que se faa uma separao total e perfeita.
Anthony sabia o caminho para a casa de Luke. Tinha passado um fim de semana ali, dois anos antes, logo depois que Luke e Elspeth tinham se mudado de Pasadena. Chegou 
na casa em quinze minutos. Ficava em Echols Hill, uma rua de casas grandes e antigas a duas quadras do centro da cidade. Anthony estacionou depois da esquina para 
que Luke no percebesse que tinha visita.
      Caminhou de volta para a casa. Deveria estar se sentindo plenamente confiante. Tinha todos os trunfos: surpresa, oportunidade e uma arma. Mas, ao contrrio, 
sentia-se nauseado de tanta apreenso. Por duas vezes achara que tinha Luke em suas mos e Luke o enganara.
      Ainda no sabia por que Luke decidira voar para Huntsville e no para Cabo Canaveral. Esta inexplicvel deciso sugeria que havia algo que Anthony no conhecia, 
uma surpresa desagradvel que podia pular em cima dele a qualquer momento.
      A casa era colonial, estilo virada do sculo, com uma varanda com a cobertura sustentada por colunas. Grande demais para um cientista do Exrcito, mas Luke 
nunca fingira viver com o seu salrio de matemtico. Anthony abriu um porto em um muro baixo e entrou no ptio. Teria sido muito fcil arrombar a porta, mas no 
precisava. Contornou a casa. Ao lado da porta da cozinha havia um vaso de terracota com um exuberante p de buganvlia. Debaixo do vaso havia uma grande chave de 
ferro.
      Anthony entrou.
      O lado de fora da casa era agradavelmente antiquado, mas seu interior era atualizadssimo. Elspeth tinha todos os tipos possveis de mquinas na cozinha. Havia 
um grande hall decorado em cores pastel, uma sala de estar com uma TV console e uma eletrola e uma sala de jantar com cadeiras e aparadores modernos. Anthony preferia 
moblia tradicional, mas tinha que admitir que aquela era elegante e tinha estilo.
      De p na sala, contemplando um sof em curva estofado em vinil cor-de-rosa, recordou vividamente o fim de semana que passara ali. Soube em menos de uma hora 
que o casamento tinha problemas. Elspeth mostrava-se namoradeira, o que sempre significava um sinal de tenso para ela, e Luke adotara um ar forado de hospitalidade 
bem-humorada nada caracterstico dele.
      Eles tinham oferecido um coquetel na noite de sbado e convidado a turma jovem do Arsenal. Aquela sala ficara cheia de cientistas malvestidos falando sobre 
foguetes, oficiais subalternos discutindo perspectivas de promoo e mulheres bonitas fofocando as intrigas tpicas da vida em uma base militar. A eletrola reproduzira 
pilhas de LPs de jazz, mas naquela noite a msica soara lastimosa e no alegre. Luke e Elspeth ficaram bbados  coisa rara para ambos  com Elspeth ficando cada 
vez mais namoradeira  medida que Luke ia ficando mais e mais quieto. Anthony achara doloroso ver duas pessoas de quem gostava e a quem admirava to infelizes, e 
aquele fim de semana o deixara deprimido.
      E agora o longo drama de suas vidas interligadas estava chegando  concluso inevitvel.
      Anthony decidiu revistar a casa. No sabia o que estava procurando. Mas podia ser que alguma coisa lhe desse uma pista do motivo pelo qual Luke estava vindo 
e alert-lo de um perigo imprevisto. Calou um par de luvas de borracha que encontrou na cozinha. Haveria uma investigao de homicdio e ele no queria deixar impresses 
digitais.
      Comeou pelo estdio, uma saleta com as paredes forradas de estantes cheias de livros cientficos. Sentou-se  mesa de Luke, que dava para o quintal, e abriu 
as gavetas.
      Durante as duas horas seguintes ele vasculhou a casa de cabo a rabo e nada encontrou.
      Examinou cada bolso e todos os ternos no bem abastecido armrio de Luke. Abriu cada livro no estdio para ver se no havia papis escondidos entre as pginas. 
Abriu a tampa de cada tupperware no enorme refrigerador de duas portas. Entrou na garagem e examinou o belo Chrysler preto 300C  o mais veloz sedan fabricado em 
srie, de acordo com os jornais  desde os faris aerodinmicos  traseira em forma de cauda de foguete.
      Ao longo do processo descobriu alguns segredos ntimos. Elspeth pintava os cabelos, usava plulas para dormir que eram receitadas por um mdico e sofria de 
priso de ventre. Luke usava xampu contra caspa e assinava a revista Playboy.
      Havia uma pequena pilha de correspondncia em uma mesa no hall  ali colocada, presumivelmente, pela criada. Anthony deu uma espiada, mas nada havia de interessante: 
um volante do supermercado, o Newsweek, um carto-postal de Ron e Monica no Hava, envelopes de cartas comerciais, com uma janela transparente de celofane para permitir 
que se lesse o nome do destinatrio.
      A busca fora intil. Continuava sem saber o que Luke podia ter escondido na manga.
      Foi para a sala de estar e escolheu uma posio de onde podia ver atravs das venezianas o gramado da frente e tambm o corredor, pela porta aberta. Sentou-se 
no sof forrado de vinil cor-de-rosa.
      Sacou a pistola, verificou se estava totalmente carregada e ajustou o silenciador.
      Tentou tranqilizar-se, imaginando a cena que se desenrolaria em breve. Veria Luke chegar, provavelmente em um txi, direto do aeroporto. Depois o veria atravessando 
o gramado, pegando a chave e abrindo a porta da casa. Entraria no hall, fecharia a porta e depois seguiria direto para a cozinha. Quando passasse pela sala daria 
uma olhada atravs do portal e veria Anthony sentado no sof. Nesse ponto ele ia parar, erguer as sobrancelhas em sinal de espanto e abrir a boca para falar. Em 
sua mente formularia uma frase do tipo, Anthony, o que diabos voc...? Mas jamais terminaria as palavras. Seus olhos dariam com a pistola que Anthony sustentaria 
perfeitamente alinhada no colo e conheceria seu destino uma frao de segundo antes de se concretizar.
      Quando Anthony o mataria com um tiro.

15:00

Um sistema de ar comprimido montado na cauda do compartimento de instrumentos controlar a inclinao do nariz quando o foguete estiver no espao.
Billie perdeu-se.
      Sabia que estava perdida fazia meia hora. Ao deixar o aeroporto em um Ford alugado poucos minutos antes de uma hora, atravessou o centro da cidade e tomou 
a rodovia 59 na direo de Chattanooga. Estranhara o fato de o laboratrio de testes dos componentes ficar a uma hora de distncia da base e imaginou que podia ser 
por razes de segurana: talvez houvesse o perigo de algum componente explodir durante os testes. Mas no se detivera muito pensando nisso.
      A orientao recebida fora de entrar numa estrada secundria  direita, exatamente a 56 quilmetros de Huntsville. Havia zerado o hodmetro na rua Principal, 
mas, quando a distncia percorrida chegou a 56, no havia a menor possibilidade de dobrar  direita. Sentindo-se apenas ligeiramente ansiosa, continuou andando e 
dobrou  direita uns quatro quilmetros depois.
      As instrues, que tinham parecido to precisas no instante em que as escrevera, no correspondiam nunca s estradas em que se metia, e sua ansiedade foi aumentando. 
Mas seguiu em frente, interpretando sempre o que via da maneira mais provvel possvel. Era bvio que o homem com quem falara no era to confivel quanto parecera. 
Gostaria de ter falado pessoalmente com Luke.
      A paisagem foi se tornando gradualmente mais deserta, as casas de fazenda desmanteladas, as estradas esburacadas e as cercas derrubadas. A disparidade entre 
o que esperava ver e a paisagem que tinha diante dos olhos foi se tornando to grande que ergueu as mos em desespero e admitiu que podia estar em qualquer lugar. 
Sentiu-se furiosa consigo prpria e com o imbecil que lhe passara as instrues.
      Fez meia-volta e tentou encontrar o caminho de volta, mas logo estava percorrendo de novo estradas desconhecidas. Comeou a se perguntar se no estaria andando 
num vasto crculo. Parou diante de um campo onde um negro de macaco e chapu de palha virava a terra dura com um arado manual. Parou e falou com ele.
       Estou procurando o laboratrio de teste de componentes do Redstone Arsenal  disse ela.
      Ele pareceu surpreso.
       A base do Exrcito?  l em Huntsville, do outro lado da cidade.
       Mas eles no tm nenhuma instalao por estas bandas?
       No que eu saiba.
      No adiantava. Tinha que telefonar para o laboratrio e pedir novas instrues.
       Posso usar seu telefone?
       Eu no tenho telefone.
      Estava prestes a perguntar onde ficava o telefone pblico mais prximo quando detectou uma expresso de medo no olhar do seu interlocutor. Percebeu que o estava 
pondo em uma situao difcil: sozinho no campo com uma branca que no falava coisa com coisa. Agradeceu rapidamente e foi embora.
      Aps rodar uns dois quilmetros, deu com um armazm caindo aos pedaos mas que tinha um telefone pblico do lado de fora. Parou. Ainda tinha a mensagem de 
Luke com o nmero do telefone. Colocou uma moeda de dez centavos na fenda e discou.
      Atenderam prontamente. A voz de um rapaz bem jovem disse:
       Al? 
       Posso falar com o dr. Claude Lucas?
       Voc discou o nmero errado, querida.
      Ser que no consigo fazer nada certo? Pensou ela desesperada.
       A no  JE 6-4231? 
      Houve uma pausa.
        sim. Pelo menos  o que diz no dial.
      Billie verificou outra vez o nmero escrito na mensagem. No tinha cometido erro algum.
       Eu estava tentando falar com o laboratrio de testes de componentes.
       Olha, voc falou com um telefone pblico do aeroporto de Huntsville.
       Telefone pblico?
       Sim, senhora.
      Billie comeou a se dar conta de que fora ludibriada. 
      A voz do outro lado da linha continuou.
       Peguei o telefone para ligar para mame e dizer a ela que viesse me buscar e ouvi voc perguntando por um sujeito chamado Claude.
       Merda!  exclamou Billie, batendo com o telefone, furiosa consigo mesma por ter sido to crdula.
      Luke no fora tirado do avio em Norfolk e colocado num vo do Exrcito, e tampouco se encontrava no laboratrio de testes de componentes, onde quer que ficasse. 
A histria toda fora uma mentira destinada a tir-la do caminho  e tivera xito. Consultou o relgio. Luke j devia ter desembarcado. Anthony certamente estava 
 espera dele  e ela podia muito bem ter ficado em Washington, pela grande ajuda que representara at agora.
      Com desespero no corao, imaginou se Luke ainda estaria vivo.
      Se estivesse, talvez ainda pudesse avis-lo. Era tarde demais para deixar uma mensagem no aeroporto, mas devia haver algum a quem pudesse telefonar. Fez um 
esforo de memria. Luke tinha uma secretria na base, com nome de flor...
      Marigold.
      Telefonou para o Redstone Arsenal e pediu para falar com a secretria do dr. Lucas. Uma mulher com o sotaque descansado do Alabama atendeu.
       Laboratrio de Computao, em que posso ajud-la?
       Quem fala  Marigold?
       Sim.
       Aqui  a dra. Josephson, amiga do dr. Lucas. 
       Sim.
      O tom de voz era desconfiado.
      Billie queria que a mulher confiasse nela.
       Ns j nos falamos antes, acho eu. Meu primeiro nome  Billie.
       Oh, claro, eu me lembro. Como vai a senhora?
       Preocupada. Preciso que Luke receba uma mensagem urgentemente. Ele est com voc?
       No, senhora. Foi para a casa dele.
       O que foi fazer l?
       Procurar uma pasta.
       Uma pasta?  Billie viu logo a importncia daquilo.  Uma pasta que ele deixou aqui na segunda-feira, talvez?
       No sei nada a esse respeito  disse Marigold.
      Claro, Luke dissera a Marigold para guardar segredo sobre sua visita de segunda-feira. Mas isso no tinha importncia agora.
       Se voc vir Luke, ou se ele telefonar, pode fazer o favor de lhe transmitir uma mensagem minha?
       Naturalmente.
       Diga que Anthony est na cidade.
       S isso?
       Ele entender. Marigold... Hesito em dizer isso, porque pode ser que voc pense que sou maluca, mas acho que devo. Acredito que Luke esteja em perigo.
       Da parte desse Anthony?
       Exatamente. Voc acredita em mim?
       Coisas mais estranhas j aconteceram. Isso tudo tem a ver com a perda de memria que ele sofreu?
       Sim. Se voc fizer essa mensagem chegar a ele, pode ser que salve sua vida. Estou falando srio.
       Farei o que puder, doutora.
       Muito obrigada  Billie desligou.
      Haveria mais algum para quem Luke pudesse telefonar? Ela pensou em Elspeth.
      Discou interurbano e pediu  telefonista uma ligao para Cabo Canaveral.

15:45

Depois de descartar o primeiro estgio, o mssil seguir no vcuo uma trajetria que o sistema de controle de altitude espacial ir alinhar exatamente na horizontal 
em relao  superfcie da Terra.
Todo mundo estava de mau humor em Cabo Canaveral. O Pentgono ordenara um alerta de segurana. Quando chegaram para trabalhar naquela manh, ansiosos por ultimar 
os testes finais para o to importante lanamento de foguete, tinham sido obrigados a esperar em fila diante do porto. Houve quem ficasse trs horas sob o sol da 
Flrida. Tanques de gasolina secaram, radiadores ferveram, aparelhos de ar-condicionado deixaram de funcionar e motores enguiaram, recusando-se depois a pegar de 
novo. Todos os carros foram examinados  caps levantados, bolsas de golfe retiradas das malas, rodas sobressalentes removidas de seus respectivos lugares. Os temperamentos 
se desgastaram mais ainda quando todas as pastas foram abertas e todas as embalagens com lanches desembrulhadas. Cada bolsa de mulher teve seu contedo despejado 
em cima de uma mesa de cavalete para que a polcia do Exrcito comandada pelo coronel Hide pudesse vasculhar batons, cartas de amor, tampes e Rolaids.
      Mas no ficou nisso. Quando chegaram nos laboratrios, escritrios e oficinas de engenharia, foram interrompidos de novo por equipes de homens que examinaram 
suas gavetas e armrios de arquivos, esquadrinharam o interior dos seus osciladores, aspiraram seus armrios e tiraram as placas de inspeo de suas ferramentas.
       Estamos aqui tentando lanar a droga de um foguete  as pessoas repetiam isso vezes sem conta, mas os homens da segurana limitavam-se a cerrar os dentes. 
A despeito da interrupo, a hora prevista para o lanamento foi mantida para as 10:30 da noite.
      Elspeth ficou satisfeita com a confuso. S assim ningum seria capaz de perceber como estava perturbada. Cometeu erros no cronograma e apresentou tardiamente 
as atualizaes, mas Willy Frederickson tambm estava irrequieto demais para repreend-la. No tinha idia de onde Luke se encontrava e no sabia mais se podia confiar 
em Anthony.
      Quando o telefone da sua mesa tocou, a poucos minutos das quatro horas, teve a impresso de que seu corao ia parar. 
      Levantou bruscamente o aparelho. 
       Sim?
       Aqui  a Billie. 
       Billie?
      Elspeth foi tomada de surpresa.
       Onde voc est?
       Estou em Huntsville, tentando localizar Luke.
       E o que ele est fazendo a?
       Procurando uma pasta com documentos que deixou aqui na segunda-feira.
      O queixo de Elspeth caiu.
       Ele foi a Huntsville na segunda-feira? Eu no sabia.
       Ningum sabia, exceto Marigold. Elspeth, voc entende o que est acontecendo?
      Elspeth riu, sem alegria.
       Achei que entendia... mas no acho mais.
       Acredito que a vida de Luke esteja em perigo.
       O que a faz dizer isso?
       Anthony atirou nele em Washington, ontem  noite.
      Elspeth gelou.
       Oh, meu Deus.
        complicado demais para explicar agora. Se Luke telefonar, voc diz a ele que Anthony est em Huntsville?
      Elspeth ainda tentava se recuperar do episdio.
       Bem... claro, naturalmente. Eu digo. 
       Pode salvar a vida dele.
       Eu entendo, Billie... uma coisa mais.
       Sim.
       Tome conta de Luke, sim? 
      Pausa.
       Como assim?  disse Billie.  Voc fala como se fosse morrer.
      Elspeth no respondeu. Aps um instante desligou. Lutou com todas as foras para se controlar. Lgrimas no iam ajudar ningum, disse a si mesma, severamente. 
Obrigou-se a se acalmar.
      S ento ligou o nmero de sua casa em Huntsville.

16:00

A rbita elptica do Explorer o levar a penetrar 2.800 quilmetros no espao e o trar a 300 quilmetros da superfcie da Terra. A velocidade do satlite em rbita 
 de 29 mil quilmetros por hora.
Anthony ouviu um carro. Olhou pela janela da frente da casa de Luke e viu um txi de Huntsville parar encostado na calada. Com o polegar, liberou o fecho de segurana 
da pistola. Sua boca ficou seca.
      O telefone tocou.
      Ficava em uma das mesas laterais triangulares situadas ao lado do sof em curva. Anthony olhou para o aparelho, horrorizado. Tocou uma segunda vez. Ele se 
viu paralisado pela indeciso. Olhou de novo pela janela e viu Luke saltando do txi. O telefonema podia ser trivial, nada, um engano. Ou podia ser uma informao 
vital.
      O terror borbulhou dentro dele. No podia atender ao telefone e atirar em algum ao mesmo tempo.
      O telefone tocou uma terceira vez. Em pnico, ele agarrou o aparelho.
       Sim? 
       Aqui  Elspeth. 
       O qu? O qu?
      A voz dela era baixa e contida.
       Ele est procurando uma pasta com papis que escondeu em Huntsville na segunda-feira.
      Anthony compreendeu tudo numa frao de segundo. Luke copiara as plantas que levara para Washington. Tinha feito uma parada clandestina em Hairtsville para 
esconder a cpia.
       Quem mais sabe disso?
       A secretria dele, Marigold. E Billie Josephson  ela prpria me disse. Pode ser que haja outros.
      Luke estava pagando ao motorista. Anthony estava ficando sem tempo.
       Tenho que pegar essa pasta  disse a Elspeth.
       Foi o que pensei.
       No est aqui. Esquadrinhei a casa de cabo a rabo.
       Ento tem que estar na base.
       Terei que segui-lo enquanto ele procura. 
      Luke se aproximava da porta da frente.
       No tenho mais tempo  disse Anthony, batendo com o telefone.
      Ouviu a chave de Luke girar na fechadura enquanto atravessava o hall correndo e entrava na cozinha. Saiu pela porta dos fundos e fechou-a delicadamente. A 
chave ainda estava na fechadura, pelo lado de fora. Girou-a em silncio, abaixou-se e colocou-a debaixo do jarro com a buganvlia.
      Atirou-se ao cho e rastejou ao longo da varanda, mantendo-se perto da casa e abaixo do nvel das janelas. Foi nessa posio que fez a curva e chegou na frente 
da casa. Dali at a rua no tinha onde se esconder. Teria simplesmente que se arriscar.
      Parecia que o melhor era se arriscar logo enquanto Luke largava a mala em algum canto e tirava o casaco. Era menos provvel que olhasse pela janela agora.
      Cerrando os dentes, Anthony lanou-se para a frente.
      Andou rapidamente at o porto, resistindo  tentao de olhar para trs e esperando ouvir a qualquer segundo Luke gritar, Ei! Pare! Pare seno atiro!
      No aconteceu nada. 
      Ele chegou na rua e se afastou.

16:30

O satlite contm dois minsculos radiotransmissores alimentados por baterias de mercrio no maiores que pilhas de lanterna. Cada transmissor tem quatro canais 
simultneos de telemetria.
Em cima da TV console na sala de estar, ao lado de um abajur de bambu, havia uma moldura tambm de bambu com uma fotografia em cores. Mostrava uma ruiva notavelmente 
bela trajando um vestido de casamento em seda cor de marfim. Ao seu lado, de fraque cinza e colete amarelo, estava Luke.
      Estudou Elspeth no retrato. Podia ter sido uma estrela do cinema. Era alta e elegante, com um corpo voluptuoso. Felizardo, pensou, por ter se casado com ela.
      No gostou tanto da casa. Quando a vira de fora, com a glicnia subindo pelos pilares da varanda sombreada, seu corao se alegrara. Mas do lado de dentro 
tudo eram quinas retas, superfcies reluzentes e tinta brilhante. Tudo organizado demais, perfeito demais. Soube, de repente, que gostava de morar numa casa onde 
os livros sobravam das prateleiras e o cachorro dormia atravessado no meio do corredor, em que havia marcas de xcaras de caf em cima do piano e na qual era preciso 
tirar um velocpede largado de cabea para baixo na entrada de carro para poder guardar o automvel na garagem.
      No havia crianas naquela casa. Tampouco animais de estimao. Nada jamais ficava desarrumado. Era como um anncio em uma revista feminina ou um cenrio de 
televiso. Fazia com que ele sentisse que as pessoas que aparecessem naqueles cmodos seriam atores.
      Comeou a procurar. Uma pasta do Exrcito de cor creme devia ser bastante fcil de achar  a menos que ele tivesse removido o contedo e jogado a pasta fora. 
Sentou-se  escrivaninha do estdio  seu estdio  e examinou as gavetas. No encontrou nada significativo.
      Subiu a escada.
      Gastou alguns segundos contemplando a grande cama de casal coberta por uma colcha azul e amarela. Era difcil acreditar que compartilhara aquela cama todas 
as noites com a criatura arrebatadora da foto de casamento.
      Abriu o armrio e viu, com um choque de prazer, o cabide cheio de ternos azul-marinho e cinza, alm dos casacos esporte de tweed, as camisas de listras finas 
e em tecido xadrez de tons pastel, as pilhas de suteres e os sapatos engraxados nas devidas prateleiras. Estava usando aquele terno roubado fazia mais de vinte 
e quatro horas, e sentiu-se tentado a gastar cinco minutos para tomar um banho e vestir uma de suas roupas. Mas resistiu. No tinha tempo de sobra.
      Fez uma busca minuciosa na casa. Em cada lugar que olhava, aprendia alguma coisa a seu prprio respeito e de sua mulher. Gostavam de Glen Miller e Frank Sinatra, 
liam Hemingway e Scott Fitzgerald, bebiam scotch da marca Dewars, comiam All-Bran e escovavam os dentes com Colgate. Elspeth gastava muito dinheiro com roupa de 
baixo luxuosa, descobriu ao examinar o armrio dela. Luke devia adorar sorvete, porque o freezer estava abarrotado, mas com a cintura de Elspeth sendo to pequena 
ela certamente no devia comer muito coisa alguma.
      Finalmente Luke desistiu.
      Em uma gaveta da cozinha encontrou as chaves do Chrysler na garagem. Iria at a base procurar l.
      Antes de sair, pegou a correspondncia no hall e passou em revista os envelopes. Tudo parecia oficial, contas e coisas do gnero. Desesperado por uma pista, 
rasgou todos os envelopes e leu cada carta.
      Uma era de uma mdica de Atlanta.
      Comeava: 
       Prezada sra. Lucas
       Os resultados dos exames de sangue realizados por ocasio do seu check-up de rotina foram enviados pelo laboratrio e tudo est normal.
       No entanto...
      Luke parou de ler. Algo lhe disse que no tinha o hbito de ler correspondncia alheia. Por outro lado, tratava-se de sua mulher e aquela expresso No entanto 
era sinistra. Talvez houvesse um problema mdico do qual tinha que tomar conhecimento imediatamente.
      Leu o pargrafo seguinte.
       No entanto, a senhora est com deficincia de peso, sofre de insnia e, quando a vi, era evidente que tinha chorado, embora tivesse dito que no havia nada 
de errado. Esses so sinais de depresso.
      Luke franziu a testa, preocupado. Aquilo era perturbador. Por que Elspeth estaria deprimida? Que tipo de marido ele era?
       A depresso pode ser causada por alteraes na qumica do corpo, por problemas mentais no resolvidos tais como dificuldades conjugais, ou por um trauma infantil 
como, por exemplo, a morte prematura de um dos pais. O tratamento pode incluir medicao antidepressiva e/ou terapia psiquitrica.
      A coisa piorava. Estaria Elspeth mentalmente enferma?
       No caso, no tenho dvida de que sua condio  relacionada com a laqueadura a que a senhora se submeteu em  1954.
      O que era exatamente uma laqueadura? Luke foi at o estdio, acendeu o abajur da escrivaninha, pegou na estante a Enciclopdia da Sade da Famlia e procurou. 
O que achou deixou-o atnito. Era o mtodo mais comum de esterilizao para mulheres que no querem ter filhos.
      Arriou pesadamente na cadeira e colocou o livro em cima da mesa. Lendo os detalhes da operao, deu-se conta de que era aquilo que as mulheres se referiam 
quando falavam em ligar as trompas.
      Relembrou a conversa que tivera com Elspeth naquela manh. Perguntara-lhe por que no podiam ter filhos. Ela dissera: No sabemos. No ano passado voc foi 
a um especialista em fertilidade, mas ele no encontrou nada de errado. Poucas semanas atrs fui ver uma mdica em Atlanta. Ela fez alguns exames. Estamos aguardando 
os resultados.
      Tudo mentira. Ela sabia perfeitamente bem por que no podiam ter filhos. Fora esterilizada.
      Tinha ido, sim, a uma mdica em Atlanta, mas no para exame de fertilidade  fizera simplesmente um check-up de rotina.
      Luke sentiu-se enojado. Era uma decepo terrvel. Por que Elspeth mentira? Leu o pargrafo seguinte.
       Esse procedimento pode causar depresso em qualquer idade, mas no seu caso, tendo sido seis semanas antes do seu casamento...
      O queixo de Luke caiu. Havia algo de terrivelmente errado ali. A burla de Elspeth comeara pouco tempo antes de eles se casarem.
      Como ela conseguira isso? Ele no conseguia se lembrar, claro, mas podia adivinhar. Elspeth devia ter lhe dito que ia se submeter a uma pequena cirurgia. Podia 
inclusive ter vagamente se referido a um desses probleminhas de mulher.
      Luke leu o pargrafo inteiro.
       Esse procedimento pode causar depresso em qualquer idade, mas no seu caso, tendo sido seis semanas antes do seu casamento, era quase inevitvel, e a senhora 
devia ter retornado ao seu mdico para consultas regulares.
      A raiva de Luke acalmou quando ele se deu conta de como Elspeth sofrera. Leu de novo um outro trecho: A senhora est com deficincia de peso, sofre de insnia 
e, quando a vi, era evidente que tinha chorado, embora tivesse dito que no havia nada de errado. Ela se metera num verdadeiro inferno pessoal.
      Mas embora tivesse pena de Elspeth, permanecia o fato do casamento deles ter sido uma mentira. Pensando na casa que acabara de revistar, viu que no parecia 
um lar para ele. Sentia-se confortvel ali no pequeno estdio e sentira um sobressalto de reconhecimento ao abrir seu armrio, mas o resto apresentava um quadro 
de vida conjugai que lhe era estranho. No se interessava por aparelhos eletrodomsticos na cozinha e moblia moderna. Preferia ter velhos tapetes e heranas de 
famlia. Acima de tudo, queria filhos  e, no entanto, filhos eram justo aquilo que Elspeth deliberadamente lhe negara. E continuara mentindo a esse respeito durante 
quatro anos.
      O choque o paralisou. Permaneceu sentado  sua mesa, o olhar fixo pela janela, enquanto a noite ia caindo sobre as castanheiras do ptio dos fundos da casa. 
Como deixara a vida seguir por um caminho to errado? Considerou o que aprendera a seu prprio respeito nas ltimas trinta e seis horas, com base no que lhe disseram 
Elspeth, Billie, Anthony e Bern. Teria perdido o rumo lenta e gradualmente, como uma criana que se perde e cada vez mais se afasta de casa? Ou tinha havido um momento 
crucial, um momento em que ele tomara a deciso errada, optando pela estrada errada? Seria ele um homem fraco que se deixara levar para a desgraa por no ter um 
propsito definido na vida? Ou tinha alguma falha de carter crucial?
      Devia ser um mau avaliador de pessoas, pensou. Permanecera ntimo de Anthony, que tentara mat-lo, e, no entanto, rompera com Bern, que mostrara ser um amigo 
fiel. Tinha brigado com Billie e se casado com Elspeth mas Billie deixara tudo para ajud-lo enquanto Elspeth o enganara.
      Uma mariposa grande bateu no vidro da janela e o barulho assustou Luke, despertando-o do seu devaneio. Deu uma olhada no relgio e ficou chocado ao ver que 
j passava das sete.
      Se tinha esperana de decifrar o mistrio de sua vida, precisava comear com a pasta misteriosa. Se no estava aqui, teria que estar no Arsenal. Apagaria as 
luzes e trancaria a casa, depois tiraria o carro preto da garagem e iria at a base.
      A presso do tempo era cada vez maior. O lanamento do foguete estava marcado para as dez e meia. Tinha apenas trs horas para descobrir se havia alguma trama 
destinada a sabot-lo. Mesmo assim, continuou sentado  sua escrivaninha, o olhar fixo no jardim escuro do outro lado da janela, sem ver nada.

19:30

Um radiotransmissor  potente, mas de vida curta  emudecer em duas semanas. O sinal mais fraco do segundo durar dois meses.
No havia luzes acesas na casa de Luke quando Billie passou de carro. Mas o que significava aquilo? Havia trs possibilidades. Uma: a casa estava vazia. Duas: Anthony 
estava sentado no escuro, esperando para atirar em Luke. Trs: Luke estava deitado em uma poa de sangue, morto. Essa incerteza a deixou louca de medo.
      Tinha estragado tudo em grande estilo, talvez fatalmente. Poucas horas atrs estava bem localizada para avisar Luke e salv-lo  mas deixara-se tapear por 
um estratagema muito simples. Gastara horas para voltar a Huntsville e encontrar a casa de Luke. No fazia a menor idia se sua mensagem de alerta chegara at ele. 
Alm de furiosa consigo prpria por ter sido to incompetente, estava aterrorizada com a idia de que Luke podia ter morrido por sua causa.
      Virou a esquina seguinte e estacionou. Respirou fundo e obrigou-se a pensar com calma. Tinha que descobrir o que se passava na casa. Mas e se Anthony estivesse 
l? Pensou em esgueirar-se, na esperana de surpreend-lo, mas isso tambm era muito perigoso. Nunca  uma boa idia assustar um homem com uma pistola na mo. Podia 
ir direto at a porta da frente e tocar a campainha. Ser que ele atiraria nela a sangue-frio, s por ter aparecido ali? Era possvel. E Billie no tinha o direito 
de arriscar sua vida despreocupadamente  tinha um filho que precisava dela.
      No banco ao seu lado estava a pasta. Abriu-a e tirou o Colt. Achou desagradvel o contato do ao escuro na palma da sua mo. Os homens sentiam prazer sensual 
em fechar o punho em torno do cabo de uma pistola, girar o tambor de um revlver ou ajustar a coronha de um fuzil no cncavo do ombro. Billie no sentia nada disso. 
Para ela, as armas eram brutais e cruis, feitas para rasgar e esmagar carne e ossos de pessoas vivas, que respiravam. Davam-lhe arrepios.
      Com a pistola no colo, virou o carro e retornou  casa de Luke. Freou ruidosamente, abriu a porta do carro, agarrou a arma e saltou. Antes que algum do lado 
de dentro tivesse tempo para reagir, pulou o muro baixo e atravessou correndo o gramado na direo da lateral da casa.
      No ouviu qualquer som vindo de dentro.
      Correu at os fundos, abaixou-se ao passar pela porta e espiou pela janela. A iluminao mortia de uma distante luz de rua permitiu que visse que se tratava 
de um caixilho simples com um nico trinco. O aposento parecia vazio. Segurou a pistola ao contrrio e quebrou o vidro com a coronha, esperando o tempo todo pelo 
tiro que acabaria com a sua vida. Meteu a mo pelo buraco que abrira no vidro, soltou o trinco e abriu a porta. Passou para o lado de dentro, segurando a pistola 
com a mo direita e achatou-se de encontro a uma parede. Distinguia vagamente as formas dos mveis, uma mesa e algumas estantes. Era um pequeno estdio. Seu instinto 
lhe disse que estava sozinha. Mas estava aterrorizada com a possibilidade de esbarrar no corpo de Luke na escurido.
      Movendo-se vagarosamente, atravessou o estdio e localizou a porta. Com os olhos agora acostumados ao escuro, viu o hall vazio. Adiantou-se cautelosamente, 
a pistola pronta para atirar. E assim deslocou-se por toda a casa, aterrorizada com a perspectiva de ver Luke estendido no cho a cada passo que dava. Mas todos 
os aposentos estavam vazios.
      Terminou a busca no quarto principal da casa, contemplando a cama onde Luke dormia com Elspeth e se perguntando o que fazer a seguir. Com os olhos marejados, 
sentia-se grata por no ter encontrado Luke morto. Mas onde estaria ele? Teria mudado de planos e decidido no vir  sua casa? Ou o corpo fora levado embora? Teria 
Anthony, de algum modo, no conseguido mat-lo? Ou um dos seus avisos teria chegado ao conhecimento de Luke?
      Uma pessoa que podia ter algumas respostas era Marigold.
      Billie retornou ao estdio de Luke e acendeu a luz. Uma enciclopdia mdica estava em cima da mesa, aberta na pgina que tratava de esterilizao feminina. 
Billie estranhou, mas ps a curiosidade de lado. Ligou para Informaes e pediu o telefone de Marigold Clark. Receou que Marigold no tivesse um telefone no seu 
nome, mas aps um momento a voz da telefonista lhe deu um nmero de Huntsville.
      Quem atendeu foi um homem.
       Ela foi para o ensaio do coro  disse ele. Billie adivinhou que seria o marido de Marigold.  Dona Elspeth est na Flrida, de modo que Marigold est regendo 
o coro at que ela volte.
      Billie lembrou que Elspeth regera o coral de Radcliffe e, mais tarde, uma orquestra de garotos negros em Washington. Tudo indicava que fazia o mesmo aqui em 
Huntsville, e Marigold era sua assistente.
       Preciso muito, mas muito mesmo, falar com Marigold  disse Billie.  Acha que eu poderia interromper o coro por um minuto?
       Acho que sim. O ensaio  na igreja do Calvrio, em Mill Street.
       Muito obrigada. Fico-lhe muito grata.
      Billie foi pegar o carro. Encontrou a rua no mapa da Hertz e foi para l. A igreja era um belo prdio de tijolinhos em um bairro pobre. Ouviu o coro assim 
que abriu a porta. Quando entrou na igreja, a msica a envolveu como uma onda. Os cantores estavam bem na frente. Eram apenas cerca de quarenta homens e mulheres, 
mas soavam como se fossem cem. O hino seguia: Todos vo ser muito felizes l em cima  Oh, Glria, aleluia! Batiam palmas e balanavam o corpo enquanto cantavam. 
Um pianista tocava um acompanhamento rtmico tpico de jazz. Uma mulher grande, de costas para Billie, regia com movimentos vigorosos.
      Os bancos na verdade eram fileiras bem arrumadas de cadeiras de madeira dobrveis. Billie sentou-se no fundo, consciente de ser a nica pessoa branca ali presente. 
A despeito de sua ansiedade, a msica atingiu seu corao. Nascera no Texas e, para ela, aquelas harmonias representavam a alma do Sul.
      Estava impaciente para interrogar Marigold, mas tinha certeza de que conseguiria uma reao melhor se mostrasse respeito e esperasse pelo fim da cano.
      Terminaram num acorde alto e a regente imediatamente olhou em torno.
       Queria saber o que atrapalhou a concentrao de vocs  disse ela ao coro.  Vamos fazer um rpido intervalo.
      Billie levantou e adiantou-se.
       Desculpe-me interromper. Voc  Marigold Clark?
       Sim, sou  respondeu ela, receosa. Era uma mulher de cerca de cinqenta anos, de culos um tanto escandalosos.  Mas no conheo a senhora.
       Ns nos falamos ao telefone h algum tempo. Sou Billie Josephson.
       Oh, como vai, dra. Josephson.
      As duas mulheres afastaram-se um pouco do grupo.
       Teve notcias de Luke?  perguntou Billie.
       No, desde hoje de manh. Esperava que aparecesse na Base de tarde, mas nada. Acha que ele est bem?
       No sei. Fui at sua casa, mas no tinha ningum. Tenho medo de que possa ter sido morto.
      Marigold sacudiu a cabea, atordoada.
       Trabalho h vinte anos no Exrcito e nunca ouvi falar em coisa igual.
       Se ele estiver vivo, corre grande perigo  disse Billie. Encarou Marigold, olho no olho.
       Voc acredita em mim?
      Marigold hesitou por um longo momento.
       Sim, senhora, eu acredito  decidiu-se, finalmente.
       Ento tem que me ajudar  disse Billie.

21:30

O sinal de rdio do transmissor mais potente pode ser captado por radioamadores licenciados do mundo todo. O sinal mais fraco do segundo transmissor pode ser captado 
apenas por estaes especialmente equipadas.
No Redstone Arsenal, sentado em seu Ford do Exrcito, Anthony tentava enxergar na escurido, com os olhos fixos ansiosamente na porta do Laboratrio de Computao. 
Ele se encontrava no estacionamento em frente ao prdio do quartel-general, a uns duzentos metros de distncia.
      Luke estava no laboratrio, procurando sua pasta. Anthony sabia que no a encontraria ali, exatamente como soubera que no a encontraria em casa, e pelo mesmo 
motivo: ele, Anthony, vasculhara inutilmente os dois lugares. Mas Anthony no era mais capaz de antecipar os movimentos de Luke. Tinha que esperar at que Luke decidisse 
aonde ir em seguida e a ento tentar segui-lo.
      O tempo, contudo, estava do seu lado. A cada minuto que se passava Luke tornava-se menos perigoso. O foguete seria lanado em uma hora. Poderia Luke arruinar 
tudo em uma hora? A nica coisa que Anthony sabia era que nos ltimos dois dias seu velho amigo provara repetidas vezes que no devia ser subestimado.
      Quando pensava nisso, a porta do laboratrio abriu-se, derramando luz amarela dentro da noite, e um vulto saiu e aproximou-se do Chrysler preto estacionado 
na beira da calada. Como Anthony antecipara, estava de mos vazias. Ele entrou no carro e foi embora.
      O corao de Anthony comeou a bater mais depressa; ele deu a partida no motor, ligou os faris e seguiu.
      A rua seguia para o sul numa linha reta. Aps uns mil e quinhentos metros, Luke reduziu a marcha em frente a um prdio comprido de um nico andar e parou no 
seu estacionamento. Anthony passou direto, acelerando dentro da noite. Quinhentos metros depois, fora das vistas de Luke, fez a volta. Quando se aproximou de novo 
do prdio comprido, viu que o carro ainda estava l, mas Luke havia desaparecido.
      Antony entrou tambm no estacionamento e desligou o motor.
      
> > > < < <
      
Luke estava seguro de que encontraria a pasta no Laboratrio de Computao, onde ficava sua sala de trabalho. Por isso passara tanto tempo l. Verificara arquivo 
por arquivo em sua sala e depois no escritrio principal, onde ficavam as secretrias. E no encontrara nada.
      Mas havia mais uma possibilidade. Marigold dissera que ele tambm fora ao prdio da Engenharia na segunda-feira. Tinha que ter havido uma razo para isso. 
De qualquer forma, era sua ltima esperana. Se no estivesse l, no sabia mais onde procurar. E, de qualquer forma, seu tempo j teria acabado. Em poucos minutos 
mais o foguete seria lanado  ou sabotado.
      A Engenharia tinha uma atmosfera bastante diferente do Laboratrio de Computao. A computao era imaculadamente limpa, por causa dos imensos computadores 
que calculavam empuxo, velocidade e trajetrias. Por comparao, a engenharia era imunda, cheirando a leo e borracha.
      Apressou o passo no corredor. As paredes eram pintadas de verde-escuro na parte de baixo e verde-claro na parte de cima. A maior parte das portas tinha placas 
com nomes comeando com Dr. e ele presumiu que fossem as salas dos cientistas, mas para sua frustrao nenhuma dizia Dr. Claude Lucas. O mais provvel era que 
no tivesse um segundo escritrio ali no prdio, e sim apenas uma escrivaninha.
      Ao final do corredor deu com uma sala grande onde havia meia dzia de mesas de ao. Na parede mais afastada, uma porta aberta dava para um laboratrio com 
os tampos das bancadas de granito encimando gavetas de metal verde e, depois, uma grande porta dupla que parecia dar em uma rea externa de carga e descarga.
      Ao longo da parede imediatamente  esquerda havia uma fileira de armrios, cada um com uma placa de nome. Um era seu. Talvez tivesse escondido a pasta ali.
      Pegou o chaveiro e encontrou uma chave que provavelmente serviria. Serviu, e ele abriu a porta. Dentro havia um capacete na prateleira de cima. Embaixo, pendurado 
num cabide, um macaco. No cho do armrio um par de botas de borracha preta que pareciam ser do seu tamanho.
      Ali, ao lado das botas, havia uma pasta creme, padro do Exrcito. Tinha que ser o que estava procurando.
      A pasta continha um envelope grande de papel pardo, j aberto. Dentro dele, alguns papis. Quando os retirou, viu imediatamente que se tratava de projetos 
de partes de um foguete.
      Com o corao batendo com fora no peito, deslocou-se rapidamente para uma das mesas de ao e espalhou os papis debaixo de uma lmpada. Aps uns poucos momentos 
de rpido estudo soube, sem sombra de dvida, que os desenhos mostravam o mecanismo de autodestruio do Jupiter C.
      Ficou horrorizado.
      Todo foguete tinha um mecanismo de autodestruio, de modo que, se fosse sair da rota e ameaasse vidas humanas, poderia ser explodido no ar. No estgio principal 
do Jupiter, um estopim de Primacord percorria toda a extenso do mssil. Uma espoleta era presa na extremidade superior do estopim ligada a dois fios. Se fosse aplicada 
energia eltrica nesses fios, Luke podia ver pelos desenhos, a espoleta explodiria o Primacord, que rasgaria o tanque, fazendo com que o combustvel se incendiasse 
e se dispersasse, destruindo o foguete.
      A exploso era desencadeada por um sinal de rdio codificado. As plantas mostravam plugues gmeos, um para o transmissor no solo e o outro para o receptor 
no satlite. Um transformava o sinal de rdio em um cdigo complexo; o outro recebia o sinal e, se o cdigo estivesse correto, aplicava a voltagem nos dois fios. 
Um diagrama separado, no uma cpia fotogrfica do projeto, mas um diagrama desenhado rapidamente, mostrava exatamente como os plugues eram ligados para que qualquer 
pessoa que dispusesse daquele diagrama pudesse duplicar o sinal.
      Brilhante, decidiu Luke. Os sabotadores no precisavam de explosivos ou dispositivos de tempo  podiam usar o que estava embutido no foguete. No precisavam 
ter acesso ao foguete. Uma vez tendo o cdigo, no tinham, inclusive, nem que entrar em Cabo Canaveral. O sinal de rdio podia ser transmitido por um aparelho a 
quilmetros de distncia.
      Examinou novamente o envelope. Estava endereado a Theo Packman, no Vanguard Motel. Presumivelmente Packman estava, naquele instante, instalado em um ponto 
qualquer de Cocoa Beach com um radiotransmissor, pronto para explodir o foguete segundos depois que fosse lanado.
      Mas agora Luke podia impedir que isso acontecesse. Deu uma olhada no relgio eltrico na parede. Dez e quinze. Tinha tempo para ligar para Cabo Canaveral e 
mandar adiar o lanamento. Pegou o telefone em cima da mesa.
      Uma voz disse:
       Larga isso a, Luke.
      Luke virou-se lentamente, telefone na mo. Anthony estava parado na porta, no seu casaco de plo de camelo, com dois olhos negros e um lbio inchado, empunhando 
uma pistola com silenciador apontada para Luke.
      Lenta e relutantemente, Luke recolocou o telefone no gancho.
       Voc estava no carro atrs de mim  disse.
       Imaginei que voc estivesse com muita pressa para verificar.
      Luke olhou para o homem a quem julgara to erradamente. Haveria nele algum sinal que devesse ter notado, algum trao que o tivesse advertido que estava lidando 
com um traidor? Anthony tinha um rosto agradavelmente feio que sugeria considervel fora de carter e no duplicidade.
       H quanto tempo voc vem trabalhando para Moscou?  perguntou Luke.  Desde a guerra?
       Antes. Desde Harvard.
       Por qu?
      Os lbios de Anthony retorceram-se num sorriso estranho.
       Por um mundo melhor.
      Houve um tempo, e Luke sabia disso, em que muita gente sensata acreditara no sistema sovitico. Mas tambm sabia que a f dessas pessoas fora minada pelas 
realidades da vida sob Stalin.
       Voc ainda acredita nisso?  perguntou, incrdulo.
       Mais ou menos. Ainda  a melhor esperana, a despeito de tudo o que aconteceu.
      Talvez fosse. Luke no tinha como julgar. Mas no era essa a verdadeira questo. Para ele, a traio pessoal de Anthony  que era to difcil de compreender.
       Somos amigos h vinte anos  disse ele.  Mas voc atirou em mim ontem  noite.
       Sim.
       Voc mataria seu mais antigo amigo? Por esta causa em que voc s acredita pela metade?
       Sim, e voc tambm mataria. Na guerra, ns dois arriscamos nossas vidas, no s as nossas como as de outras pessoas, porque era o certo.
       No penso que tenhamos mentido, e muito menos atirado um no outro.
       Teramos, se necessrio.
       Acho que no.
       Escuta. Se eu no matar voc agora voc vai tentar impedir que eu fuja  no vai?
      Luke estava com medo, mas disse a verdade, furiosamente.
       Claro que sim!
       Mesmo que saiba que se eu for apanhado terminarei na cadeira eltrica.
       Acho que sim... Sim. 
       Ento voc tambm est querendo matar o seu amigo. 
      Luke foi apanhado de surpresa. Certamente no podia ser classificado na mesma categoria de Anthony, podia?
       Posso levar voc  justia. No  assassinato.
       Mas serei morto da mesma forma. 
      Luke balanou a cabea lentamente.
       Acho que sim.
      Anthony levantou a pistola com a mo firme, mirando no corao de Luke.
      Luke caiu atrs da mesa de ao.
      A pistola com silenciador tossiu e quase que ao mesmo tempo ouviu-se o barulho metlico da bala batendo no topo da mesa. A moblia era barata, de ao fino, 
mas foi o bastante para desviar a bala.
      Luke rolou para debaixo da mesa. Sem enxergar o que se passava, imaginou que Anthony tinha entrado correndo na sala e ia atirar de novo, agora mais de perto. 
Mantendo as costas de encontro  parte interna do tampo da mesa, agarrou duas pernas, levantou-se, lanou-se para a frente, correndo s cegas mas se conservando 
ereto. Sua esperana era chocar-se com Anthony.
      A mesa caiu no cho, de cabea para baixo, mas Anthony no estava debaixo dela.
      Luke tropeou e desabou em cima da mesa. Caiu sobre as mos e os joelhos e bateu com a testa numa das pernas de ao. Rolou de lado e ficou sentado, machucado 
e aturdido. Levantou a cabea para ver Anthony encarando-o, emoldurado pela porta que dava no laboratrio, com os ps afastados, empunhando a pistola com as duas 
mos. Tinha se desviado da desajeitada investida de Luke e sara por trs dele. Luke agora era um alvo fcil e o fim de sua vida estava por um segundo.
      Foi quando se ouviu uma voz:
       Anthony! Pare!
      Era Billie.
      Anthony ficou imvel, a arma apontada para Luke. Luke virou lentamente a cabea e olhou para trs. Billie estava junto da porta, seu suter uma mancha vermelha 
de encontro  parede verde. Tinha os lbios cerrados em uma linha determinada. Empunhava uma pistola automtica na mo firme, apontada para Anthony. Atrs dela havia 
uma negra de meia-idade, parecendo chocada e amedrontada.
       Largue a arma!  gritou Billie.
      Luke meio que esperava que Anthony fosse atirar nele de qualquer maneira. Se fosse um comunista verdadeiramente dedicado, talvez estivesse disposto a sacrificar 
a prpria vida. Mas de nada adiantaria, porque Billie ainda teria os projetos e eles contavam toda a histria.
      Lentamente, Anthony abaixou os braos, sem, no entanto, largar a arma.
       Largue ou eu atiro!
      Anthony sorriu o seu sorriso torto de novo.
       No, voc no vai atirar  disse ele.  No a sangue-frio. 
      Ainda apontando a arma para o cho, ele comeou a andar de costas na direo da porta do laboratrio. Luke lembrou de ter notado l uma porta que parecia dar 
na rua.
       Pare!  gritou Billie.
       Voc no acredita que um foguete valha mais que a vida de um ser humano, mesmo que seja a vida de um traidor  disse Anthony, sempre andando para trs. Estava 
agora a dois passos da porta.
       No me ponha  prova!
      Luke olhou para Billie, sem saber se ela iria atirar ou no.
      Anthony virou-se e disparou para a porta.
      Billie no atirou.
      Anthony pulou por cima de uma bancada e depois se atirou de encontro a uma porta de duas folhas. Ela se escancarou e ele desapareceu dentro da noite.
      Luke ps-se de p de um salto. Billie adiantou-se para ele com os braos abertos. Luke olhou para o relgio da parede. Dez e vinte e nove. Tinha um minuto 
para avisar a Cabo Canaveral.
      Deu as costas para Billie e pegou o telefone.

22:29

Os instrumentos cientficos o bordo do satlite foram projetados para resistir a uma presso de lanamento equivalente a mais de cem vezes a fora da gravidade.
Quando atenderam ao telefone em Cabo Canaveral, Luke disse:
       Aqui  Luke, me ligue com o diretor de lanamento.
       Neste exato momento ele est...
       Eu sei o que ele est fazendo! Ponha-o na linha, depressa! 
      Houve uma pausa. Ao fundo, Luke podia ouvir a contagem regressiva.
       Vinte, dezenove, dezoito...
      Uma nova voz surgiu na linha, tensa e impaciente.
       Aqui  o Willy  de que diabo se trata?
       Algum tem o cdigo de autodestruio. 
       Que merda! Quem ?
       Estou absolutamente seguro que  um espio. Vo explodir o foguete. Voc tem que abortar o lanamento.
      A voz no fundo continuou: 
       Onze, dez...
       Como  que voc sabe?  indagou Willy.
       Encontrei diagramas da fiao dos plugues codificados e um envelope endereado a um sujeito chamado Theo Packman.
       Isso no  prova. No posso cancelar o lanamento com uma base to frgil.
      Luke suspirou, sentindo-se subitamente fatalista.
       Oh, Cristo, o que  que eu posso fazer? Eu lhe disse o que sei. A deciso  sua.
       Cinco, quatro...
       Droga!  Willy levantou a voz.  Pare a contagem! 
      Luke arriou na cadeira. Tinha conseguido. Levantou os olhos para os rostos ansiosos de Billie e Marigold.
       Abortaram o lanamento  disse ele.
      Billie levantou a bainha do suter e enfiou a pistola na cintura de suas calas de esquiar.
       Bem  disse Marigold, perdida, sem ter o que falar.  Bem...
      Pelo telefone Luke ouviu uma gritaria, com um monte de perguntas furiosas sendo formuladas, simultaneamente, no centro de controle. Uma terceira voz se fez 
ouvir na linha.
       Luke? Aqui  o coronel Hide. O que diabo est acontecendo?
       Descobri o que me fez ir a Washington to precipitadamente na segunda-feira. Voc sabe quem  Theo Packman?
       Acho que sim. Um jornalista free-lance que cobre assuntos referentes a msseis para jornais europeus.
       Encontrei um envelope endereado a ele contendo cpias dos projetos do sistema de autodestruio do Explorer, inclusive com um diagrama dos plugues codificados.
       Jesus! Quem quer que tenha acesso a esta informao ser capaz de explodir o foguete em pleno ar!
       Foi por isso que persuadi Willy a abortar o lanamento.
       Graas a Deus.
       Escuta, voc tem que encontrar esse tal de Packman agora. O envelope estava endereado para um motel chamado Vanguard, pode ser que voc o encontre l.
       Deixa comigo.
       Packman estava trabalhando com algum da CIA, um agente duplo chamado Anthony Carroll. Foi quem me interceptou em Washington antes que eu conseguisse chegar 
no Pentgono com a informao.
       E eu falei com esse sujeito!  exclamou Hide, parecendo incrdulo.
       Tenho certeza que sim.
       Vou telefonar para a CIA e falar com eles.
       timo.
      Luke desligou. Fizera tudo o que podia. 
      Billie disse:
       E agora?
       Acho que vou para Cabo Canaveral. O lanamento ser adiado para a mesma hora amanh. Gostaria de estar l.
       Eu tambm. 
      Luke sorriu.
       Voc merece. Voc salvou o foguete  ele se levantou e abraou-a.
       Sua vida, seu bobo. Ao inferno com o foguete. Eu salvei a sua vida  ela o beijou.
      Marigold tossiu.
       Vocs perderam o ltimo avio que saa do aeroporto de Huntsville  disse ela, em um tom de voz profissional.
      Luke e Billie separaram-se relutantemente.
       O prximo vo  um do Exrcito que sai da base s 5:30 da manh  prosseguiu Marigold.  H tambm um trem do Southern Railway System que sai de Cincinnati 
para Jacksonville e pra em Chattanooga por volta da uma da tarde. Vocs podem chegar em Chattanooga em duas horas, nesse seu belo carro.
       Gosto da idia do trem  disse Billie. 
      Luke concordou.
       OK  ele olhou para a mesa de pernas para cima.  Algum vai ter que falar com a segurana do Exrcito a respeito desses buracos de bala.
       Farei isso amanh de manh  prometeu Marigold.  Vocs no querem ficar esperando aqui os investigadores, querem?
      Saram. O carro de Luke e o alugado por Billie estavam no estacionamento. O de Anthony tinha desaparecido. 
      Billie abraou Marigold.
       Muito obrigada. Voc foi maravilhosa.
      Marigold ficou nervosa e refugiou-se mais uma vez no seu lado prtico.
       Quer que eu devolva seu carro  Hertz?
       Seria timo, obrigada.
       Podem ir, deixem tudo por minha conta.
      Billie e Luke entraram no Chrysler e foram embora. 
      Quando estavam na estrada, ela falou.
       H uma questo sobre a qual no falamos.
       Eu sei  concordou Luke.  Quem mandou os desenhos para Theo Packman?
       Deve ter sido algum de dentro de Cabo Canaveral, algum que faa parte da equipe cientfica.
       Exatamente.
       Voc tem alguma idia de quem seja? 
      Luke estremeceu.
       Tenho.
       Por que no contou a Hide?
       Porque no tenho o menor indcio, ou mesmo uma razo para as minhas suspeitas.  s instinto. Mas assim mesmo tenho certeza.
       Quem foi?
      Com o corao cheio de mgoa, Luke respondeu: 
       Acho que foi Elspeth. 

23:00

O codificador de telemetria utiliza o fenmeno da histerese apresentado pelos materiais do seu ncleo a fim de estabelecer a srie de parmetros dos dados recebidos 
dos instrumentos do satlite.
Elspeth no podia acreditar. A poucos segundos da ignio o lanamento fora adiado! Ela estivera to perto do sucesso... O triunfo de sua vida estivera ao seu alcance 
 e escapara por entre os dedos.
      Elspeth no estava na rea de servio, junto do foguete  onde o acesso era restrito ao pessoal chave  e sim no teto plano de um edifcio da administrao, 
junto com uma pequena multido de secretrias e auxiliares de escritrio, observando com binculos a plataforma de lanamento iluminada. A noite da Flrida era clida, 
o ar marinho mido. O medo de todos foi aumentando  medida que os minutos se passavam e o foguete permanecia no cho, at que, finalmente, fez-se ouvir um gemido 
coletivo quando tcnicos de macaco saram aos magotes dos seus abrigos e deram incio ao complexo procedimento de desligar todos os sistemas. A confirmao final 
veio quando a torre mvel de servio deslocou-se para a frente sobre os trilhos de trem a fim de pegar o foguete branco de volta para seus braos de ao.
      Elspeth sentia a agonia da frustrao. O que diabo sara errado?
      Deixou os outros sem uma palavra e retornou ao Hangar R, as pernas compridas vencendo a distncia com passadas decididas. Quando chegou na sua sala, o telefone 
estava tocando. Pegou o aparelho num movimento brusco.
       Sim?
       O que est acontecendo?  a voz era a de Anthony.
       Abortaram o lanamento. No sei o porqu  voc sabe?
       Luke encontrou os papis. Ele deve ter avisado.
       Voc no conseguiu impedi-lo?
       Eu o tinha sob minha mira  literalmente  mas Billie apareceu, armada.
      Elspeth sentiu um frio na boca do estmago ao pensar em Anthony apontando uma arma para Luke. O fato de Billie ter intervindo s tornava as coisas piores.
       Luke est bem?
       Est  e eu tambm. Mas o nome do Theo est naqueles papis, lembra?
       Droga!
       J devem estar indo prend-lo. Voc tem que encontr-lo primeiro.
       Deixa-me pensar... ele est na praia... posso chegar l em dez minutos... conheo o carro dele,  um Hudson Hornet...
       Ento v andando!
       Estou indo!
      Ela bateu com o telefone e saiu correndo do prdio.
      Atravessou correndo o estacionamento e entrou em seu carro. Era um Bel Air conversvel branco, mas que ela mantinha com a capota armada e as janelas totalmente 
fechadas por causa dos mosquitos que infernizavam a regio de Cabo Canaveral. Seguiu depressa para o porto e mandaram que passasse: a segurana era severa na entrada, 
mas no na sada. Seguiu para o sul.
      Na verdade no havia uma estrada propriamente dita. A partir da rodovia diversas trilhas estreitas no pavimentadas seguiam por entre as dunas at a praia. 
Planejou pegar a primeira trilha e depois continuar para o sul pela praia. Desse modo no podia perder de vista o carro de Theo. Contemplou a massa densa de arbustos 
ao longo da estrada, tentando distinguir a trilha  luz dos faris. Tinha que seguir devagar, mesmo que estivesse com muita pressa, com medo de perder a sada. Foi 
ento que viu aparecer um carro.
      Foi seguido por outro, e mais outro. Elspeth sinalizou o pisca da esquerda e reduziu a marcha. Um fluxo constante de carros vinha da praia. Os espectadores 
deduziram que o lanamento fora cancelado  e nem podia ser diferente, pois tinham visto de binculo a torre de servio retornando  posio original  e estavam 
indo embora.
      Ficou aguardando sua vez de virar  esquerda. Para sua raiva, a pista era estreita demais para duas mos de direo. Um carro que estava atrs buzinou impacientemente. 
Gemeu de irritao quando viu que no seria capaz de chegar na praia daquele modo. Desligou o pisca e meteu o p no acelerador.
      Logo chegava em outro retorno, mas o quadro era o mesmo: uma fila contnua de carros saindo de uma via estreita demais para comportar um carro ao lado do outro. 
Que inferno! exclamou em voz alta. Suava, a despeito do ar-condicionado no interior do Bel Air. No havia como chegar na praia. Teria que pensar em outra coisa. 
Poderia permanecer na estrada, na esperana de ver o carro dele? Muito arriscado. O que Theo faria depois de sair da praia? Elspeth achou que a hiptese mais provvel 
seria ele ir para o motel e aguardar l.
      Acelerou, seguindo velozmente dentro da noite. Ser que o coronel Hide e a segurana do Exrcito j estariam no Vanguard Motel? Podia ser que primeiro tivessem 
chamado a polcia ou o FBI. Precisavam de um mandado para prender Theo, tinha certeza disso  embora os agentes do governo geralmente no se deixassem tolher por 
tal inconvenincia. Fosse como fosse, precisariam de alguns minutos para se reunir. Tinha uma chance de venc-los se andasse depressa.
      The Vanguard era um trecho ao longo da rodovia com forte presena de estabelecimentos comerciais. Era curto, ficando entre um posto de gasolina e uma loja 
de artigos de pesca. Dispunha de uma grande rea de estacionamento. No havia sinal de polcia ou segurana do Exrcito: ela chegara a tempo. Mas o carro de Theo 
no se encontrava ali. Estacionou perto do escritrio do motel, de onde tinha certeza de que veria quem entrasse ou sasse, e desligou o motor.
      No teve que esperar muito. O Hudson Hornet amarelo e marrom apareceu minutos depois. Theo ocupou uma vaga afastada, perto da estrada, e saltou, um homem pequeno 
com pouco cabelo, de cala de brim e camisa de praia.
      Elspeth saltou do carro.
      Justo no momento em que abriu a boca para cham-lo, chegaram dois carros patrulhas.
      Elspeth ficou imvel.
      Eram viaturas da polcia do condado de Cocoa. Chegaram em alta velocidade, mas sem sirenes ou luzes. Atrs vinham dois carros descaracterizados. Estacionaram 
bem na entrada, fechando a sada.
      A princpio Theo no percebeu nada e foi andando na direo onde Elspeth se encontrava e do escritrio do motel.
      Ela soube num relmpago o que tinha que fazer  mas precisaria de muita calma. Fique tranqila, disse a si mesma. Respirou fundo e comeou a caminhar na direo 
dele.
      Quando se aproximou, ele a reconheceu e exclamou, em voz alta:
       O que diabos aconteceu? Abortaram o lanamento? 
      Elspeth respondeu falando baixo.
       Passe as chaves do seu carro  ela estendeu a mo.
       Para qu?
       Olha atrs de voc.
      Ele olhou por cima do ombro e viu os carros da polcia.
       Porra, o que  que eles querem?  perguntou, trmulo.
       Voc. Fica calmo. Passa as chaves. 
      Ele largou-as na mo aberta de Elspeth.
       Continue andando. A mala do meu carro no est trancada. Entre dentro dela.
       Dentro da mala?
       Sim!  Elspeth seguiu adiante, deixando-o para trs. 
      Ela reconheceu o coronel Hide e outro rosto vagamente familiar de Cabo Canaveral. Com eles estavam dois policiais da rea e dois homens altos e bem vestidos 
que deveriam ser agentes do FBI. Nenhum olhava na sua direo, reunidos em torno de Hide. De longe, Elspeth ouviu o que ele dizia:
       Precisamos de dois homens para verificar as placas dos carros no estacionamento enquanto os demais entram.
      Elspeth alcanou o carro de Theo e abriu a mala. Dentro estava a valise de couro contendo o radiotransmissor  poderoso e pesado. No tinha certeza se seria 
capaz de carreg-la. Puxou-a at a beirada da mala do carro e arrastou-a por cima dela. Caiu no cho com um baque surdo. Fechou rapidamente a mala do Bel Air.
      Olhou em torno. Hide ainda dava instrues a seus homens. No outro lado do estacionamento, viu a mala do seu carro se fechando lentamente, como se por vontade 
prpria. Theo se escondera. Metade do problema estava resolvida.
      Cerrando os dentes, empunhou a ala da valise com o rdio e levantou. Parecia cheia de chumbo. Andou uns poucos metros, segurando-a tanto quanto foi capaz. 
Quando os dedos ficaram dormentes com o esforo, largou a valise no cho e pegou-a de novo com a mo esquerda. Conseguiu andar mais dez metros antes que a dor fosse 
mais forte que sua vontade e ento a largou de novo.
      Atrs dela, o coronel Hide e seus homens atravessavam o estacionamento na direo do escritrio do motel. Rezou para que ele no a encarasse, embora a escurido 
tornasse menos provvel que a reconhecesse. Claro que podia inventar alguma desculpa para estar ali, mas e se ele pedisse para ver a valise?
      Uma vez mais teve que trocar de lado e segurar a valise com a mo direita. S que desta vez no conseguiu levant-la de novo. Desistindo, comeou a arrast-la 
pelo cho de concreto, esperando que o barulho no atrasse a ateno dos policiais.
      Finalmente, chegou. Quando abriu a mala do Bel Air, um dos guardas uniformizados aproximou-se, com um sorriso alegre.
       Quer que a ajude, madame?  perguntou, polidamente. 
      Theo olhou-a fixamente de dentro da mala do carro, muito branco e apavorado.
       Eu consigo  disse ao policial, com o canto da boca. Usando ambas as mos ergueu o radiotransmissor e largou-o dentro da mala do carro. Theo teve que conter 
um gemido de dor quando um canto da valise com o transmissor bateu nele. Com um movimento rpido, Elspeth bateu com a tampa da mala do Bel Air e se apoiou nela. 
A impresso que tinha era de que seus braos iam cair.
      Levantou os olhos para o policial. Teria visto Theo? Seu sorriso era intrigado.
       Papai me ensinou  disse Elspeth  a nunca fazer uma mala que eu no conseguisse carregar.
       Garota forte  disse o policial, com um sorriso ligeiramente ressentido.
       De qualquer forma, muito obrigada.
      Os outros homens passaram por eles, dirigindo-se resolutamente ao escritrio do motel. Elspeth tomou cuidado para no encarar Hide. O policial ao seu lado 
demorou-se mais um instante.
       Est indo embora?  perguntou. 
       Estou.
       Sozinha?
       Exatamente. Sozinha.
      Ele inclinou-se na janela, examinou o carro, bancos da frente e de trs, e endireitou o corpo.
       Dirija com cuidado  disse, afastando-se. 
      Elspeth entrou no prprio automvel e ligou o motor. Dois outros policiais uniformizados que tinham ficado para trs verificavam as placas dos carros. Ela 
deu uma paradinha perto de um deles.
       Vocs vo me deixar sair ou vou ter que ficar aqui a noite inteira?  disse, tentando exibir um sorriso amistoso.
      Ele examinou a placa do carro dela.
       Est sozinha? 
       Estou.
      Ele olhou pela janela e verificou o banco de trs. Elspeth conteve a respirao.
       OK  disse o policial por fim.  Pode ir.
      Ele assumiu a direo de um dos carros patrulha e abriu caminho.
      Ela passou pelo intervalo e pegou a rodovia, quando meteu o p no acelerador at o fundo.
      De repente sentiu-se completamente sem energia, tamanho o alvio que a invadiu. Seus braos tremiam e teve que reduzir a velocidade.
       Meu Deus do cu  murmurou , foi por muito pouco.

Meia-noite
       
Quatro antenas de chicote, que se projetam do cilindro do satlite, transmitem sinais de rdio para estaes receptoras situadas em todo o mundo. O Explorer vai 
irradiar na freqncia de 108 MHz.
Anthony tinha que sair do Alabama. A ao agora decorria na Flrida. Tudo por que ele trabalhava havia vinte anos seria decidido em Cabo Canaveral nas prximas vinte 
e quatro horas e ele precisava estar presente.
      O aeroporto de Huntsville ainda estava aberto, as luzes demarcadoras da pista de pouso acesas. O que significava que haveria pelo menos mais um avio saindo 
ou chegando naquela noite. Estacionou o Ford do Exrcito diante do prdio da terminal, atrs de uma limusine e de dois txis. O lugar parecia deserto. Correu para 
o interior do edifcio sem se dar ao trabalho de trancar o carro.
      O lugar era silencioso, mas no estava vazio. Atrs do balco de uma companhia area, uma garota escrevia em um livro. Duas negras de macaco passavam um esfrego 
no piso. Trs homens aguardavam de p, um com uniforme de motorista particular e os outros com as roupas amarrotadas e os bons pontudos caractersticos de taxistas. 
Pete estava sentado num banco.
      Anthony tinha que se livrar dele, para seu prprio bem. A cena no prdio da Engenharia do Redstone Arsenal fora testemunhada por Billie e Marigold e uma delas 
logo a relataria. O Exrcito se queixaria  CIA e George Cooperman j dissera que no mais podia proteger Anthony. Anthony tinha que desistir da farsa de que estava 
desempenhando uma misso legtima da CIA. O jogo terminara e o melhor era Peter ir para casa antes de se machucar.
      Pete devia estar entediado depois de doze horas de espera no aeroporto, mas, ao contrrio, parecia excitado e tenso ao pr-se de p de um salto.
       Finalmente!  disse.
       Qual  o vo que sai daqui hoje de noite?  perguntou Anthony, bruscamente.
       Nenhum. H mais um vo esperado, com origem em Washington, mas nada sair daqui at amanh s sete horas.
       Droga. Tenho que ir para a Flrida.
       H um vo militar saindo do Arsenal s cinco e meia com destino  Base Patrick da Fora Area, perto de Cabo Canaveral.
       Ter que ser esse.
      Pete ficou sem graa. Parecendo forar a emisso das palavras, disse:
       Voc no pode ir para a Flrida. 
      Ento era por isso que estava to tenso.
       Como assim?  perguntou Anthony, friamente.
       Falei com Washington. Carl Hobart, em pessoa. Temos que voltar  sem discusso, para citar as palavras de Hobart.
      Anthony ficou furioso, mas fingiu estar meramente frustrado.
       Aqueles panacas  disse ele.  No se pode dirigir uma operao de campo sentado no escritrio!
      Pete no estava aceitando aquilo.
       O sr. Hobart diz que temos que aceitar que no h mais qualquer operao. O Exrcito assumiu a direo de tudo a partir de agora.
       No podemos deixar que isso acontea. A Segurana do Exrcito  totalmente incompetente.
       Eu sei, mas no penso que tenhamos uma alternativa, senhor.
      Anthony fez um esforo para respirar com calma. Aquilo tinha que acontecer mais cedo ou mais tarde. A CIA ainda no acreditava que ele fosse um agente duplo, 
mas sabia que sara da linha e queria coloc-lo fora de ao to discretamente quanto possvel.
      S que havia cultivado cuidadosamente a lealdade de seus homens atravs dos tempos e ainda lhe deveria restar algum crdito.
       Vamos ento fazer o seguinte  disse para Pete.  Voc volta para Washington, e diz que me recusei a obedecer s ordens. Voc fica de fora  agora a responsabilidade 
 s minha.
      Anthony comeou a se virar, como se tomasse como certo o consentimento de Pete.
       Tudo bem  concordou Pete.  Acho que eu esperava mesmo que voc fosse dizer algo assim. E eles no podem querer que eu o seqestre.
       Exatamente  disse Anthony com naturalidade, escondendo o alvio que sentia ao ver que Pete no ia questionar seu plano.
       Mas tem uma outra coisa.
      Anthony virou-se, deixando transparecer sua irritao.
       O que  agora?
      Pete enrubesceu e a marca de nascimento que tinha no rosto ficou roxa.
       Eles me disseram para ficar com sua arma.
      Anthony comeou a achar que no ia ser fcil sair daquela situao. No havia como desistir da arma. Forou um sorriso.
       Diga a eles que me recusei a entregar a arma.
       Desculpe, senhor, no tenho palavras para lhe dizer como lamento tudo isto. Mas o sr. Hobart foi muito especfico. Se o senhor no me entregasse a arma, 
eu teria que chamar a polcia local.
      Anthony viu que tinha que matar Pete.
      Por um momento foi dominado por enorme pesar. A que abismos de traio tinha sido levado. Dificilmente parecia possvel que aquela fosse a concluso lgica 
do seu compromisso, feito duas dcadas atrs, de dedicar a vida a uma causa nobre. Mas nesse ponto, ento, uma calma mortal abateu-se sobre ele. Tinha aprendido 
a respeito de escolhas difceis na guerra. Podia ser uma guerra diferente, mas os imperativos eram os mesmos. Uma vez que se entrava nela, era preciso vencer, custasse 
o que custasse.
       Neste caso, acho que est tudo acabado  disse, com um suspiro, que era genuno.  Acho que  uma deciso burra, mas acredito que fiz tudo que estava a meu 
alcance.
      Pete no tentou ocultar seu alvio.
       Obrigado  disse.  Fico muito satisfeito em ver que o senhor est encarando isso desse modo.
       No se preocupe. Sei que voc tem que obedecer a uma ordem direta de Hobart.
      O rosto de Pete assumiu uma expresso determinada.
       Quer dizer ento que o senhor vai me dar sua arma agora?
       Claro  a pistola estava no bolso do casaco de Antony, mas ele disse outra coisa.
       Ela est na mala do carro.
      Queria que Pete fosse com ele at o carro, mas fingiu o contrrio.
       Espera aqui que eu vou buscar.
      Como esperara, Pete teve medo de que fugisse.
       Vou com o senhor  apressou-se a dizer.
      Anthony fingiu hesitar e em seguida desistir.
       Como queira  dirigiu-se para a porta, com Pete atrs. O carro estava estacionado a trinta metros da entrada do aeroporto. No havia ningum  vista.
      Anthony comprimiu o boto da tranca da mala do carro e ela se abriu.
       A est  disse.
      Pete inclinou-se para olhar.
      Anthony sacou a pistola com o silenciador armado do bolso do casaco. Por um momento viu-se tentado, por um louco impulso, a enfiar o cano na prpria boca e 
puxar o gatilho, pondo fim ao pesadelo.
      O momento de atraso foi um erro crucial.
      Pete disse que no via arma alguma e virou-se.
      Ele reagiu depressa. Antes que Anthony pudesse apontar a pistola com seu incmodo silenciador, Pete deu um passo de lado, afastando-se do cano da arma, e pegou 
Anthony com um soco violentssimo no lado da cabea. Anthony cambaleou. Pete atingiu-o com outro soco, desta vez no queixo, e Anthony tropeou para trs e caiu, 
mas assim que tocou no cho conseguiu levantar a pistola. Pete viu o que ia acontecer. Com o rosto contorcido de medo, ergueu as mos, como se elas fossem capazes 
de proteg-lo de uma bala. Anthony puxou o gatilho trs vezes em rpida sucesso.
      As trs balas acertaram o peito de Pete e o sangue jorrou dos trs buracos no palet de casimira cinza. Ele caiu no asfalto com um baque surdo.
      Anthony ps-se de p com algum esforo e guardou a arma no bolso. Olhou para um lado e para o outro. Ningum tinha chegado ao aeroporto e ningum tinha sado 
do prdio. Debruou-se sobre o corpo de Pete.
      Pete olhou para ele. No estava morto.
      Lutando contra a nusea que sentia, Anthony pegou o corpo que sangrava, largou-o dentro da mala do carro, e sacou a arma de novo. Pete se contorcia de dor, 
olhando fixamente para ele, aterrorizado. Ferimentos de bala no peito nem sempre eram fatais. Pete poderia sobreviver se tratado com urgncia num hospital. Anthony 
apontou a arma para a cabea dele. Pete tentou falar e o sangue jorrou de sua boca. Anthony puxou o gatilho.
      Pete desabou e seus olhos se fecharam.
      Anthony bateu com a tampa da mala e desmoronou em cima dela. Tinha sido atingido seriamente pela segunda vez no mesmo dia, e sua cabea estava rodando, mas 
pior que o dano fsico era o conhecimento do que tinha feito.
       Est se sentindo bem, companheiro?  perguntou uma voz atrs dele.
      Anthony levantou a cabea, ao mesmo tempo que metia a arma no bolso, e virou-se. Um txi tinha parado perto e o motorista se aproximou, parecendo preocupado. 
Era um negro de cabea branca.
      Quanto ele teria visto? Anthony no sabia se teria coragem de matar tambm aquele homem.
       Seja o que for que tenha posto na mala do seu carro, parece que era pesado demais.
       Um tapete  disse Anthony, respirando com dificuldade. 
      O homem olhou para ele com a curiosidade inocente das pessoas de cidades pequenas.
       Algum lhe deu um soco no olho? Nos dois olhos?
       Um pequeno acidente.
       Entre, vamos tomar um caf ou qualquer coisa.
       No, obrigado, estou bem.
       Fique  vontade  o taxista saiu caminhando vagarosamente na direo da terminal.
      Anthony entrou no seu carro e foi embora.

1:30

A primeira tarefa dos radiotransmissores  garantir a emisso de sinais que capacitem o satlite a ser seguido por estaes de rastreamento na Terra  provando, 
assim, que o satlite est em rbita.
O trem saiu lentamente da cidade de Chattanooga. Na cabine apertada, Luke tirou o palet e pendurou. Depois se sentou no leito de baixo e desfez o lao dos sapatos. 
Billie deixou-se ficar de pernas cruzadas, observando-o. As luzes da estao piscaram e desapareceram quando a locomotiva ganhou velocidade, avanando sobre a noite 
do sul, buscando Jacksonville, na Flrida. 
      Luke tirou a gravata e Billie comentou:
       Se isso for um strip-tease, est meio sem graa.
      Luke sorriu melancolicamente. Despia-se devagar porque no se decidira. Tinham sido forados a compartilhar aquela cabine por ser a nica disponvel. Ansiava 
por tomar Billie nos braos. Tudo que descobrira sobre si prprio e sua vida lhe dizia que Billie era a mulher com quem devia estar. No entanto, assim mesmo, hesitou.
       O qu?  quis saber ela.  Em que est pensando?
       Isto est acontecendo muito depressa.
       Voc acha que dezessete anos  pouco tempo?
       Para mim so poucos dias,  tudo o que consigo recordar.
       Parece que  uma eternidade.
       Ainda estou casado com Elspeth. 
      Billie balanou solenemente a cabea.
       Mas ela vem mentindo h anos para voc.
       Quer dizer ento que eu devo pular direto da cama dela para a sua?
      Billie pareceu ficar ofendida.
       Voc deve fazer o que quiser, Luke. 
      Ele tentou se explicar.
       No gosto da sensao de que estou me aproveitando de uma desculpa  como Billie nada respondeu, ele acrescentou:  No concorda?
       Claro que no. Quero fazer amor com voc nesta noite. Lembro de como foi antes e quero de novo, agora.
      Ela deu uma olhada pela janela quando o trem passou voando por uma cidadezinha: dez segundos de um desfilar rpido de luzes e logo se viram novamente no escuro.
       Mas eu conheo voc  ela prosseguiu , nunca foi do tipo que vivesse o momento, nem quando ramos garotos. Precisa de tempo para examinar tudo e se convencer 
de que est fazendo a coisa certa.
       E isso  assim to ruim? 
      Billie sorriu.
       No, fico feliz de voc ser do jeito que . Torna-o cem por cento confivel. Se voc no fosse assim, acho que no teramos...
      Ela no conseguiu completar a frase.
       O que  que voc ia dizer? 
      Ela o encarou.
       Eu no o teria amado tanto, e por tanto tempo  estava envergonhada e disfarou com um fecho inteligente:
       De qualquer modo, voc precisa de um banho.
      Era verdade. Luke estava usando as mesmas roupas desde que as roubara, trinta e seis horas atrs.
       Toda vez que eu pensava em me trocar, aparecia algo mais urgente para fazer  disse ele.  Tenho roupa limpa na mala.
       No faz mal. Por que no sobe e me d espao para eu tirar o sapato?
      Obediente, ele galgou a pequena escada e deitou-se no beliche de cima. Virou-se para o lado, cotovelo sobre o travesseiro, cabea repousando na mo.
       Perder a memria  como um novo comeo de vida  disse.  Como nascer de novo. Toda deciso tomada anteriormente pode ser reformulada.
      Ela se livrou dos sapatos e ficou de p.
       Eu odiaria isso  afirmou. Com um rpido movimento, tirou as calas pretas justas e ficou s de suter e calcinhas brancas. Percebendo o interesse dele, 
sorriu.
       Tudo bem, pode olhar  disse.
      Em seguida, Billie levou as mos s costas por baixo do suter e soltou o suti. Livrou o brao esquerdo da manga, com a mo direita puxou a tira por cima 
do ombro, enfiou de novo o brao esquerdo dentro da manga e puxou o suti pela manga direita com um floreio.
       Bravo  aplaudiu ele.
      Ela olhou, pensativa, para ele.
       Quer dizer ento que agora vamos dormir?
       Acho que sim.
       OK.
      Ela ficou de p na beira do beliche, erguendo-se ao nvel dele, e ofereceu o rosto para ser beijado. Luke inclinou-se um pouco para a frente e beijou-lhe de 
leve os lbios. Billie fechou os olhos. Ele sentiu o roar da ponta de sua lngua e logo em seguida ela abaixou-se e seu rosto desapareceu.
      Luke, deitado de costas, pensou em Billie deitada to perto, com as pernas nuas e os seios redondos dentro do macio suter angor. Em poucos instantes estava 
dormindo.
      Teve um sonho intensamente ertico. Ele era Bottom em Sonho de uma noite de vero, tinha orelhas de burro e estava sendo beijado em todo o rosto peludo pelas 
fadas de Titnia, que eram garotas de pernas esbeltas e seios redondos. Titnia, a rainha das fadas em pessoa, desabotoava as calas dele, enquanto as rodas do trem 
marcavam um compasso insistente...
      Luke acordou devagar, relutando em deixar o reino encantado das fadas e retornar ao mundo das estradas de ferro e dos foguetes. Tinha a camisa aberta e as 
calas desabotoadas. Billie estava deitada do seu lado, beijando-o.
       Est acordado?  murmurou com a boca encostada na sua orelha  uma orelha normal, no de burro.  No quero desperdiar isto com um sujeito que esteja dormindo.
      Ele passou a mo no lado do corpo de Billie. Ainda estava de suter, mas as calcinhas tinham sumido.
       Estou acordado  murmurou.
      Billie apoiou-se nas mos e nos joelhos e passou para cima dele, aproveitando o espao estreito sob o teto da cabine. Fitando-o nos olhos, abaixou o corpo 
sobre o dele. Luke suspirou com intensa satisfao quando a penetrou. O trem balanou de um lado para outro e os trilhos cantaram num ritmo ertico.
      Ele meteu a mo sob o suter para acariciar os seios de Billie. Sua pele era suave e quente.
       Eles estavam sentindo sua falta  murmurou ela.
      Luke sentiu-se como se ainda estivesse meio sonhando, enquanto o trem balanava e Billie o beijava, com a Amrica voando pela janela da cabine quilmetro aps 
quilmetro. Ele a envolveu com os braos e apertou com fora para se convencer de que ela era de carne e osso e no do tecido difano de que so feitas as fadas. 
E justo no instante em que estava pensando que queria que aquilo durasse para sempre, seu corpo assumiu o controle e ele agarrou-se a Billie, sacudido por ondas 
de prazer.
      Assim que acabou, ela disse:
       Fique quieto e me aperte com fora.
      Luke no se moveu. Billie enterrou o rosto no seu pescoo, a respirao quente na pele dele. Enquanto Luke permaneceu deitado como estava, ainda dentro dela. 
Billie contraiu o corpo com um espasmo interno, muitas e muitas vezes, at que por fim soltou um suspiro profundo e relaxado.
      Continuaram deitados assim por mais alguns minutos, mas Luke no se sentia mais sonolento. Billie evidentemente tambm estava bem acordada porque disse:
       Tenho uma idia. Vamos nos lavar. 
      Ele riu.
       Eu certamente estou precisando.
      Ela rolou por cima de Luke e desceu, seguida por ele. No canto da cabine havia uma pia pequena embaixo de um armrio, onde Billie encontrou uma toalha de mo 
e um sabonete. Encheu a pia de gua quente.
       Eu lavo voc e depois voc me lava  disse ela. Encharcou a toalha de gua, esfregou o sabonete e comeou.
      Foi deliciosamente ntimo e sexy. Ele fechou os olhos. Ela ensaboou sua barriga e depois se ajoelhou para lavar suas pernas.
       Voc pulou um pedao  disse ele.
       No se preocupe, estou deixando a melhor parte para o fim. 
      Quando Billie terminou, ele fez o mesmo, numa sesso ainda mais excitante. Deitaram-se de novo, desta vez no beliche de baixo.
       Agora  disse Billie , lembra como  sexo oral?
       No. Mas acho que posso imaginar.

PARTE SEIS

8:30

A fim de ajudar a rastrear com preciso o satlite, o Laboratrio de Propulso a Jato desenvolveu uma nova tcnica, baseada em modulao de fase, chamada de Microlock. 
As estaes Microlock usam um sistema capaz de captar um sinal de rdio de apenas 1 milsimo de watt emitido a 30.000 quilmetros de distncia e acompanh-lo sem 
lhe dar oportunidade de escapar.
Anthony seguiu para a Flrida num avio pequeno que pulou e sacudiu com cada rajada de vento no percurso sobre o Alabama e a Gergia. Estava acompanhado por um general 
e dois coronis que o teriam abatido a tiros na hora se soubessem o objetivo da sua viagem.
      O pouso foi na Base Area Patrick, poucos quilmetros ao sul de Cabo Canaveral. O terminal areo consistia de algumas salas pequenas na parte de trs de um 
hangar. Em sua imaginao ele viu um destacamento de agentes do FBI, com seus ternos bem cuidados e sapatos reluzentes, esperando para prend-lo, mas s havia Elspeth.
      Ela parecia exausta. Pela primeira vez viu em Elspeth a meia-idade que se aproximava. A pele clara do rosto exibia os primeiros sinais de rugas e a postura 
do corpo longilneo estava um pouco inclinada. Ela o levou para o lado de fora, onde o Bel Air branco ficara parado no sol quente.
      Assim que se viram dentro do carro, ele disse:
       Como est Theo?
       Bastante abalado, mas vai ficar bem.
       A polcia local tem a descrio dele?
       Tem  o coronel Hide forneceu.
       Onde ele est escondido?
       No motel, no meu quarto. Ficar l at escurecer  ela saiu da base, pegou a rodovia e virou para o norte.  E voc? A CIA vai dar sua descrio para a polcia?
       Acho que no.
       Quer dizer ento que vai poder se deslocar livremente por a.  timo, porque vai ter que comprar um carro.
       A Agncia gosta de resolver seus prprios problemas. Neste instante, o que pensam  que eu fugi por completo ao controle deles e se preocupam apenas em me 
tirar de circulao antes que os envergonhe. Assim que comecem a ouvir o que Luke tem a dizer, percebero que estavam dando abrigo a um agente duplo h muitos anos, 
o que talvez os faa ficarem ainda mais preocupados em abafar a coisa toda. No posso garantir, mas meu palpite  que vo me procurar discretamente.
       E no caiu sobre mim uma sombra de suspeita. Assim, ns trs ainda estamos no jogo. O que nos d uma boa chance. Ainda podemos conseguir o que nos propusemos.
       Luke no suspeita de voc?
       No tem motivo.
       Onde ele est agora?
       Num trem, de acordo com a Marigold  um toque de amargura surgiu na voz de Elspeth.  Com Billie.
       Quando chegar aqui?
       No sei ao certo. O trem noturno o leva a Jacksonville, mas de l ele tem que pegar um trem vagaroso at a costa. Deve chegar hoje de tarde.
      Seguiram em silncio por algum tempo. Anthony tentou acalmar-se. Dentro de vinte e quatro horas tudo estaria acabado. Teriam conseguido desfechar um golpe 
histrico pela causa a que tinham devotado suas vidas e teriam entrado para a histria  ou teriam falhado e a corrida espacial seria mais uma vez uma disputa entre 
dois concorrentes.
      Elspeth desviou o olhar para ele.
       O que  que voc vai fazer depois desta noite?
       Deixar o pas  Anthony deu um tapinha na pasta que carregava no colo.  Tenho aqui tudo de que preciso  passaporte, dinheiro, alguns disfarces simples.
       E depois?
       Moscou  ele passara quase que o vo todo pensando naquilo.  A carteira de Washington na KGB, imagino.
      Anthony era major na KGB. Elspeth, que trabalhava como agente deles h mais tempo  fora ela, na verdade, quem o recrutara ainda em Harvard , era coronel.
       Eles me daro uma funo snior qualquer, de assessoria e consulta  prosseguiu Anthony.  Afinal de contas, sei mais sobre a CIA do que qualquer outra pessoa 
no bloco sovitico.
       Voc vai gostar da vida na URSS?
       No paraso dos trabalhadores,  o que voc quer dizer? 
      Ele deu um sorriso amargo.
       Voc leu George Orwell. Alguns animais so mais iguais do que outros. Acho que muita coisa vai depender do que acontecer hoje. Se tivermos xito, seremos 
heris. E se no...
       Voc no est nervoso?
       Claro que estou. No princpio vou me sentir s  sem amigos, sem famlia e no falo russo. Mas talvez me case e crie uma ninhada de pequenos camaradas.
      Suas respostas animadas disfaravam a ansiedade que sentia.
       Decidi, h muito tempo, sacrificar minha vida pessoal a algo mais importante.
       Tambm tomei a mesma deciso, mas ainda assim estaria com medo s de pensar em me mudar para Moscou.
       No vai acontecer com voc.
       No. Eles querem que eu permanea onde estou de qualquer maneira.
      Obviamente ela havia falado com seu supervisor, quem quer que ele fosse. Anthony no se surpreendeu com a deciso de deixar Elspeth atuando na mesma posio. 
Durante os ltimos quatro anos os cientistas russos tinham sabido tudo a respeito do programa espacial dos Estados Unidos. Viram todos os relatrios importantes, 
todos os resultados de testes, todos os projetos produzidos pela Agncia de Msseis Balsticos do Exrcito  graas a ela. Era to bom quanto ter a equipe do Redstone 
trabalhando para o programa sovitico. Elspeth era a razo pela qual os soviticos tinham vencido os americanos na corrida espacial. Era, facilmente, a espi mais 
importante da Guerra Fria.
      O trabalho dela tinha sido feito  custa de enorme sacrifcio pessoal, Anthony sabia. Casara-se com Luke a fim de espionar o programa espacial, mas seu amor 
por ele era genuno e partira-lhe o corao o fato de t-lo trado. No entanto, o seu triunfo era a vitria sovitica na corrida espacial, que seria selada naquela 
noite, que faria com que tudo tivesse valido a pena.
      J o triunfo dele perdia apenas para o de Elspeth. Como agente sovitico, penetrara nos mais altos nveis da CIA. O tnel pelo qual fora responsvel em Berlim, 
atravs do qual foram grampeadas as comunicaes soviticas, na verdade tinha sido um canal de desinformao. A KGB o usara para fazer com que a CIA desperdiasse 
milhes de dlares seguindo homens que no eram espies, penetrando em organizaes que nunca tinham sido frentes comunistas e desacreditando polticos do terceiro 
mundo que na verdade eram pr-Estados Unidos. Se ficasse sozinho em seu apartamento de Moscou, pensaria no que tinha conseguido realizar e isso aqueceria seu corao.
      Em meio s palmeiras  margem da estrada que se estendia diante deles, Anthony viu um imenso modelo de um foguete espacial acima de uma placa que dizia Starlite 
Motel. Elspeth reduziu a marcha e encostou o Bel Air. O escritrio ficava em um prdio baixo com esteios angulosos que lhe davam um aspecto futurista. Elspeth estacionou 
o mais longe possvel da estrada. Os quartos eram num edifcio de dois andares que cercava uma piscina em que uns primeiros passarinhos madruga-dores j tomavam 
banho de sol. Alm da piscina, Anthony podia ver o mar.
      A despeito da segurana que demonstrara na conversa com Elspeth, ele quis ser visto pelo menor nmero de pessoas possvel, de modo que abaixou o chapu e apertou 
o passo quando saram do carro e se dirigiram para o quarto dela, no segundo andar.
      O motel aproveitava ao mximo o programa espacial. As lmpadas tinham a forma de foguetes e havia quadros de planetas estilizados e estrelas nas paredes. Theo 
estava de p junto  janela, olhando para o mar. Elspeth apresentou os dois homens e pediu caf e donuts ao servio de quarto. Theo perguntou a Anthony:
       Como foi que Luke me descobriu  ele explicou isso a voc?
      Anthony balanou a cabea afirmativamente.
       Ele estava usando a mquina de Xerox no Hangar R. H um livro de registro de utilizao ao lado da mquina, por motivos de segurana.  preciso anotar a 
data, a hora e o nmero de cpias feitas, alm de assinar o livro. Luke notou que doze cpias tinham a assinatura WvB, significando Wernher von Braun.
       Sempre usei o nome de von Braun  disse Elspeth  porque ningum iria se atrever a questionar o chefe sobre nmero de cpias de que precisava.
       Mas Luke sabia  continuou Anthony  algo que nem voc nem ningum sabia  que von Braun estava em Washington naquele dia. A intuio dele disparou um alarme. 
Foi at a sala do correio e encontrou as cpias dentro de um envelope endereado a voc, Theo. Mas no encontrou nenhuma pista quanto ao remetente. Decidiu que no 
podia confiar em ningum em Canaveral e pegou um avio para Washington. Por sorte Elspeth telefonou para mim e pude intercept-lo antes que pudesse falar com algum.
       Mas agora  disse Elspeth  voltamos ao ponto exato em que estvamos na segunda-feira. Luke descobriu aquilo que tnhamos feito com que esquecesse.
       O que voc acha que o Exrcito far agora?  perguntou Anthony a Elspeth.
       Podem lanar o foguete com o mecanismo de autodestruio desativado. Mas e se vier a ser sabido que isso foi feito vai haver o diabo e a confuso pode estragar 
o triunfo. Assim, meu palpite  que eles vo mudar o cdigo, de modo que seja necessrio um sinal diferente para desencadear a exploso.
       E como fariam isso?
       No sei.
      Bateram  porta. Anthony ficou tenso, mas Elspeth disse:
       Eu pedi caf.
      Theo entrou no banheiro e Anthony sentou-se de novo.
       O que podemos fazer?  perguntou Anthony.  Se trocarem o cdigo no poderemos fazer com que o foguete se auto-destrua.
      Elspeth ps a bandeja do caf em cima da mesa.
       Tenho que descobrir qual  o plano deles e imaginar um modo de contornar o que vo fazer.
      Ela pegou a bolsa e ajeitou o casaco por cima dos ombros.
       Compre um carro. V para a praia assim que escurecer. Estacione o mais perto que puder da cerca de Cabo Canaveral. Encontro voc l. E bom apetite.
      Com estas palavras ela saiu e, aps um momento, Theo disse:
       A gente tem que dar o devido valor a ela  tem um bocado de coragem.
      Anthony concordou.
        do que precisa.

16:00

Uma srie de estaes de rastreamento estende-se de norte a sul, aproximadamente ao longo da linha de longitude 65 graus a oeste do meridiano de Greenwich. A rede 
recebe sinais do satlite cada vez que ele passa.
A contagem regressiva estava em X-390 minutos.
      A contagem at aquele momento se fazia segundo a passagem do tempo real, mas Elspeth sabia que isso no tinha carter definitivo. Se acontecesse algo de inesperado, 
causando um atraso, a contagem seria interrompida. Depois que o problema fosse resolvido, a contagem retornaria ao ponto em que parara, muito embora tivessem se 
passado dez ou quinze minutos. Ao se aproximar o momento da ignio, a diferena geralmente aumentava e o tempo da contagem ficava bem para trs do tempo real.
      Naquele dia a contagem comeara meia hora antes do meio-dia. Elspeth deslocou-se incansavelmente por toda a base, atualizando seu cronograma, atenta para qualquer 
mudana de procedimento. At aquela hora no conseguira nenhuma pista sobre como os cientistas planejavam se proteger da sabotagem  e comeava a sentir-se desesperada.
      Todo mundo sabia que Theo Packman era um espio. O funcionrio do Vanguard espalhou que o coronel Hide dera uma batida no motel com quatro policiais e dois 
agentes do FBI e perguntara qual era o nmero do quarto de Theo. A comunidade voltada para o programa espacial rapidamente fizera a ligao da notcia com a suspenso 
de ltimo segundo do lanamento. A explicao dada, de que um boletim meteorolgico indicara um agravamento dos ventos de grande altitude, no foi aceita por ningum 
no interior do permetro da cerca de Cabo Canaveral. De manh todo mundo falava em sabotagem. Mas ningum parecia saber o que estava sendo feito a respeito; caso 
soubessem, a notcia no fora divulgada. Com o cair da tarde, a tenso de Elspeth aumentou. At aquela hora ela no havia feito perguntas diretas, com medo de despertar 
suspeitas, mas antes que se passasse muito tempo teria que abandonar a cautela. Se no descobrisse o plano logo, seria tarde demais para agir.
      Luke ainda no aparecera. Ansiava por v-lo, ao mesmo tempo que tinha medo. Sentia falta de Luke quando ele no estava a seu lado  noite. Mas quando estava, 
pensava o tempo todo sobre como trabalhava para destruir o seu sonho. Envenenara o casamento deles com sua vida dupla, sabia disso. Assim mesmo, tinha saudades do 
rosto de Luke, de ouvir sua voz grave e polida, de pegar na sua mo e fazer com que sorrisse.
      Os cientistas estavam fazendo uma pausa, comendo sanduches e tomando caf em seus postos de trabalho, diante dos painis de instrumentos. Havia, normalmente, 
uma certa algazarra quando uma mulher atraente aparecia, mas naquele dia a atmosfera silenciosa e tensa no foi alterada. Eles estavam esperando que alguma coisa 
sasse errada: uma luz de advertncia, uma sobrecarga, uma pea quebrada ou o mau funcionamento de um sistema. Assim que aparecesse alguma coisa, o estado de esprito 
mudaria: todos se tornariam mais animados  medida que mergulhassem no problema, tentando explicaes, discutindo solues, improvisando reparos. Eram homens que 
se sentiam mais felizes consertando coisas.
      Willy dirigiu-lhe um olhar de reprovao, coisa que Elspeth entendeu como um sinal de que sabia exatamente do que ela estava falando. Antes que ele pudesse 
responder, um tcnico sentado no fundo da sala chamou-o pelo nome e indicou o prprio fone.
      Willy ps o sanduche de lado, recolocou o fone e disse:
       Fredrickson falando.
      Ficou algum tempo em silncio, s ouvindo.
       OK  disse, por fim, no bocal.  To depressa quanto possvel.
      Em seguida olhou para cima e disse:
       Parem a contagem regressiva.
      Elspeth sentiu-se tensa. Seria o sinal que esperava? Ergueu o bloco e o lpis, na expectativa. 
      Willy tirou os fones.
       Haver um atraso de dez minutos  disse ele. Seu tom de voz traa a irritao normal com qualquer falha. Ele deu outra mordida no sanduche.
      Tentando obter mais informaes, Elspeth disse:
       Eu poderia saber o motivo?
       Temos que substituir um capacitor que parece estar vibrando.
      Era possvel, pensou Elspeth. Os capacitores eram essenciais ao sistema de rastreamento, e as vibraes  pequenas descargas eltricas aleatrias  podiam 
ser um sinal de que o mecanismo ia falhar. Mas no se convenceu. Tomou a deciso de verificar, caso fosse possvel.
      Rabiscou qualquer coisa no bloco, levantou-se e foi embora com um aceno alegre. Do lado de fora, as sombras da tarde iam ficando mais compridas. A haste branca 
do Explorer I apontava para os cus. Ela imaginou como seria o lanamento, aquele enorme engenho com a cauda em chamas, subindo com agonizante lentido para cortar 
a noite. Em seguida viu um claro mais intenso que o sol quando o foguete explodiu, fragmentos de metal se espalhando como cacos de vidro, uma bola de fogo vermelha 
e preta no cu da noite e um som que lembrava um urro, o grito de triunfo de todos os pobres e miserveis da Terra.
      Ela atravessou com passos bruscos o gramado ressecado, atingiu o piso de concreto da plataforma de lanamento, contornou a imensa estrutura vertical usada 
para trabalhar no foguete e, na parte de trs, entrou na cabine de ao que ficava na base e que abrigava escritrios e maquinaria. O supervisor, Harry Lane, falava 
ao telefone, ao mesmo tempo que tomava notas com um lpis grosso. Esperou que desligasse para perguntar: 
       Dez minutos de atraso?
       Pode ser mais.
      Harry Lane no olhou para ela, mas isso no queria dizer nada. Ele era sempre rude, no gostava de ver mulheres na plataforma de lanamento.
      Escrevendo no seu bloco, Elspeth prosseguiu:
       Motivo?
       Substituio de um componente defeituoso.
       Seria o caso de me dizer qual componente? 
       No.
      Era de enlouquecer. Ainda no podia dizer se ele procurava disfarar por razes de segurana ou se estava sendo simplesmente bruto. Virou-se. Foi exatamente 
neste instante que entrou um tcnico vestindo macaco sujo de leo.
       Aqui est o velho, Harry.
      Na mo suja ele segurava um plugue.
      Elspeth sabia exatamente de que se tratava: era o receptor do sinal codificado de autodestruio. Os pinos que se destacavam dele eram ligados de um modo to 
complexo de modo que somente o sinal de rdio correto permitiria disparar a cpsula detonante.
      Ela saiu rapidamente antes que Harry pudesse ver a expresso triunfante do seu rosto. O corao batendo forte, correu de volta para o jipe.
      Ficou sentada no banco do motorista, raciocinando. Para impedir sabotagem, estavam substituindo o plugue. O novo receberia fiao diferente para trabalhar 
com um cdigo diferente. Um plugue de transmisso correspondente devia ter sido ajustado ao transmissor. Os novos plugues provavelmente tinham sido trazidos de avio 
de Huntsville algumas horas antes.
      Fazia sentido, pensou ela com satisfao. Finalmente sabia o que o Exrcito estava fazendo. Mas como poderia manobrar agora?
      Os plugues eram sempre fabricados em conjuntos de quatro, com um par sobressalente para caso de mau funcionamento. Fora o par sobressalente que Elspeth examinara, 
no ltimo domingo, para desenhar a ligao dos fios, de modo que Theo pudesse imitar o cdigo do rdio e deflagrar a exploso. Tinha que fazer a mesma coisa novamente: 
encontrar o conjunto sobressalente, desmontar o plugue transmissor e fazer um desenho da sua fiao.
      Deu a partida no motor do jipe e voltou rapidamente para o hangar. S que, em vez de ir para o Hangar R, onde ficava sua mesa, entrou no Hangar D e foi para 
a sala de telemetria. Fora onde encontrara as duplicatas dos plugues na ltima vez.
      Hank Mueller estava debruado sobre uma bancada com dois outros cientistas, avaliando, com expresso solene, um aparelho eltrico complexo. Quando a viu, o 
rosto dele iluminou-se e ele exclamou:
       Oito mil.
      Seus colegas gemeram, fingindo estarem desesperados, e se afastaram.
      Elspeth conteve a impacincia. Teria que jogar o jogo dos nmeros com ele antes de qualquer outra coisa.
        o cubo de vinte  ela falou. 
       No basta.
      Ela pensou por um momento.
       Tudo bem,  a soma de quatro cubos consecutivos. O de 11, 12, 13 e 14.
       Muito bem  ele lhe deu uma moeda de dez centavos e dirigiu-lhe um olhar de expectativa.
      Elspeth deu tratos  bola em busca de um nmero curioso e disse:
       O cubo de 16.830.
      Ele franziu a testa, parecendo ofendido.
       No posso fazer essa operao. Preciso de um computador!  exclamou, indignado.
       Nunca ouviu falar?  a soma de todos os cubos consecutivos de 1.134 a 2.133.
       Eu no sabia!
       Quando eu estava no ginsio, o nmero da casa dos meus pais era 16.830,  por isso que sei.
       Esta  a primeira vez que voc fica com a minha moeda  ele parecia comicamente deprimido.
      No podia revistar o laboratrio. Por sorte os outros homens estavam a uma distncia tal que no poderiam ouvi-la. Elspeth foi direto ao ponto:
       Voc est com as duplicatas do novo conjunto de plugues mandado por Huntsville?
       No  respondeu ele, parecendo ainda mais deprimido.  Dizem que a segurana aqui no  boa. Puseram tudo num cofre.
      Foi um alvio para Elspeth ele no questionar sua curiosidade.
       Que cofre?
       No me disseram.
       No faz mal  ela fingiu fazer uma anotao no seu bloco e saiu.
      Elspeth foi rapidamente para o Hangar R, correndo na areia com seus sapatos de salto alto. Sentia-se otimista. Mas ainda tinha muito o que fazer. J estava 
escurecendo.
      O nico cofre de que tinha conhecimento ficava na sala do coronel Hide.
      De volta  sua mesa, enfiou na mquina de escrever um envelope padronizado do exrcito e bateu: Dr. W. Fredrickson  Secreto Pessoal Em seguida dobrou duas 
folhas de papel em branco, enfiou-as no envelope e selou-o.
      Foi at a sala de Hide, bateu  porta e entrou. Ele estava sozinho, sentado  sua mesa, fumando um cachimbo. Levantou a cabea e sorriu: como a maioria dos 
homens, ficava satisfeito ao ver um rosto bonito.
       Elspeth  disse, no seu modo arrastado de falar.  O que posso fazer por voc?
       D para guardar isso aqui para o Willy? 
      Ela lhe passou o envelope.
       Claro. O que ?
       Ele no me disse.
       Naturalmente.
      Hide girou na cadeira e abriu um armrio s suas costas. Olhando por cima do ombro dele, Elspeth viu uma porta de ao com um disco. Ela aproximou-se mais. 
O disco era graduado de 0 a 99, mas apenas os mltiplos de 10 eram marcados com um nmero, sendo os demais indicados por um entalhe. Firmou a vista, mas mesmo que 
a sua vista fosse excelente, no poderia ver exatamente onde Hide parara o disco. Adiantou-se ainda mais, apoiando-se na mesa. O primeiro nmero foi fcil: 10. Em 
seguida Hide foi para um ponto imediatamente abaixo de 30, 29 ou 28. Finalmente girou o disco para um ponto qualquer entre 10 e 15. A combinao seria qualquer coisa 
como 102913. Devia ser o dia do aniversrio dele, 28 ou 29 de outubro de 1911, 1912, 1913 ou 1914. O que lhe dava um total de oito possibilidades. Se pudesse entrar 
ali sozinha, poderia experimentar todas em poucos minutos.
      Hide abriu a porta. No interior do cofre havia dois plugues.
       Eureka  murmurou Elspeth.
       Como?  indagou Hide.
       Nada. 
      Ele deixou escapar um gemido, jogou & envelope dentro do cofre e girou o dial. 
      Elspeth j estava saindo.
       Muito obrigada, coronel.
       Disponha sempre.
      Agora Elspeth tinha que esperar que ele sasse da sala. Da sua mesa, ela no via direito sua porta. Mas como ficava no fim do corredor, teria que passar por 
ali quando sasse. Elspeth deixou aberta a porta da sua sala.
      O telefone tocou. Era Anthony.
       Vamos sair daqui dentro de alguns minutos  disse ele.  Voc tem o que precisamos?
       Ainda no, mas vou ter  ela gostaria de ter tanta certeza quanto parecia.  Que carro voc comprou?
       Um Mercury Monterey verde-claro, modelo 54, estilo antigo, nada de muito chamativo.
       Eu reconheo. E o Theo?
       Est me perguntando o que dever fazer depois da noite de hoje.
       Eu tinha pensado que ele iria para a Europa e continuaria a trabalhar para o Le Monde.
       Ele tem medo de que possam segui-lo at l.
        possvel. Pode ir ento com voc para a Rssia.
       Ele no quer.
       Prometa qualquer coisa  disse Elspeth, impaciente.   preciso que ele esteja pronto para o que tem a fazer hoje.
       OK.
      O coronel Hide passou pela porta.
       Tenho que ir  disse Elspeth, desligando.
      Ela saiu, mas Hide no desapareceu. Parou na porta do lado, conversando com as garotas do pool de datilografia. De onde estava podia ver a porta da sua sala, 
o que significava que Elspeth no podia entrar l. Ela remanchou um pouco, na esperana de que Hide sasse. S que, quando o fez, foi para voltar para sua sala.
      Onde ficou por duas horas.
      Elspeth quase enlouqueceu. Tinha a combinao, s precisava entrar e abrir o cofre e ele no saa! Mandou a secretria pegar caf na cantina mvel que eles 
chamavam de Roach Coach. No foi sequer ao banheiro. Elspeth comeou a imaginar meios e modos de tir-lo do caminho. Tinha aprendido na OSS a estrangular uma pessoa 
usando uma meia de nilon, mas nunca tentara. De qualquer modo, Hide era um homem enorme e lutaria muito.
      Elspeth no saiu da sala. Seu cronograma ficou esquecido. s oito e vinte e cinco Hide finalmente passou. Ela levantou-se de um pulo e foi at a porta. Viu 
que ele se encaminhava para a escada. O lanamento deveria ser dali a umas duas horas, de modo que ele devia estar indo assistir de perto.
      Outro homem vinha avanando pelo corredor na sua direo. Ele disse: Elspeth? numa voz incerta que ela reconheceu. Seu corao parou e ela o fitou nos olhos.
      Era Luke.

20:30

Os instrumentos de gravao do satlite transmitem informaes via rdio por intermdio de um tom musical. Os diferentes instrumentos usam tons de diferentes freqncias, 
a fim de que as vozes possam ser separadas eletronicamente quando recebidas.
Luke receara aquele momento.
      Ele tinha deixado Billie no Starlite. O plano dela era refrescar-se, trocar de roupa e pegar um txi para a base, a fim de assistir  subida do foguete. Luke 
fora direto para a plataforma, onde o informaram de que a hora prevista para o lanamento era 22:45. Willy Frederickson explicou as precaues que a equipe tomara 
para impedir a sabotagem do foguete. Luke, no entanto, no se sentiu completamente seguro. Queria que Theo Packman tivesse sido preso e gostaria de saber que Anthony 
estava na cadeia. No entanto, nenhum dos dois podia fazer nada com o cdigo errado. E os novos plugues estavam trancados em um cofre, segundo informao de Willy.
      Ele se sentiria menos preocupado uma vez que tivesse visto Elspeth. No falara com ningum acerca de suas suspeitas  em parte porque no conseguia arcar com 
o peso de fazer uma acusao daquelas, em parte porque no tinha indcios. Mas quando a encarasse diretamente nos olhos e lhe pedisse para falar a verdade, saberia.
      Luke subiu os degraus do Hangar R com o corao pesado. Tinha que falar com Elspeth sobre a traio dela, ao mesmo tempo que tambm tinha que confessar que 
lhe havia sido infiel. No sabia qual dos dois seria pior.
      Quando atingiu o topo da escada passou por um homem uniformizado que falou sem se deter.
       Ei, Luke, que bom ter voc de volta, a gente se v no lanamento.
      Logo em seguida Luke viu uma ruiva alta sair de uma sala no corredor, parecendo ansiosa. Havia uma tenso equilibrada no seu corpo esbelto quando ela parou 
na porta, olhando para o coronel que passou por Luke e desceu a escada. Era mais bonita que na foto de casamento. Seu rosto plido tinha um leve brilho, como a superfcie 
de um lago ao amanhecer. Ele sentiu um choque de emoo, como uma injeo aplicada no brao, um forte sentimento de ternura por ela.
      Elspeth s o viu quando ele falou com ela.
       Luke!
      Elspeth aproximou-se rapidamente dele. O sorriso de boas-vindas demonstrava prazer genuno, mas ele viu medo em seus olhos. Ela o abraou e beijou na boca. 
Ele se deu conta de que no devia se surpreender  ela era sua esposa e ele ficara ausente a semana inteira. Um abrao seria a coisa mais natural do mundo. Elspeth 
no tinha idia de que ele desconfiava dela, de modo que continuava a agir como uma esposa comum.
      Ele interrompeu o beijo e soltou-se do seu abrao. Elspeth franziu a testa e o olhou fixamente, tentando ler a expresso do seu rosto.
       O que ?  ela perguntou. Em seguida fungou e uma raiva sbita invadiu-lhe o rosto.  Voc comeu a Billie Josephson, no foi, seu filho da me?
      Um cientista que passava pareceu espantado ao ouvir tal linguagem, mas ela no ligou.
       Voc comeu a Billie na porra do trem!
      Ele no sabia o que dizer. A traio dela era pior do que a dele, mas assim mesmo sentia vergonha pelo que fizera. Qualquer coisa que dissesse ia parecer uma 
desculpa e ele odiava pedidos de desculpas. Tornam pattico o homem que pede.
      O estado de esprito de Eslpeth mudou de novo, com a mesma rapidez.
       No tenho tempo para isto. A gente conversa mais tarde.
       Acho que no  retrucou ele, com firmeza.
      Ela reagiu ao seu tom de voz.
       Como assim, voc acha que no?
       Quando fui em casa abri uma carta destinada a voc  ele tirou a carta do bolso e entregou-a a ela.  De uma mdica em Atlanta.
      O sangue sumiu do rosto de Elspeth. Ela tirou a carta do envelope e comeou a ler.
       Oh, meu Deus  murmurou.
       Voc teve as trompas ligadas seis semanas antes de nosso casamento  disse ele. Mesmo agora mal podia acreditar naquilo.
      Os olhos dela encheram-se de lgrimas.
       Eu no queria. Fui obrigada a fazer.
      Ele relembrou o que a mdica dissera sobre o estado de Elspeth  insnia, perda de peso, choros sbitos, depresso  e sentiu pena. Quando falou de novo, sua 
voz no passou de um murmrio.
       Sinto muito que voc tenha se sentido to infeliz  disse.
       No seja delicado comigo, eu no poderia agentar.
       Vamos para a sua sala.
      Ele pegou-a pelo brao e a conduziu para a sala dela, fechando a porta. Elspeth foi automaticamente at sua mesa e sentou-se, catando um leno na bolsa. Luke 
puxou a cadeira grande de trs da mesa do chefe e puxou-a para se sentar perto dela.
      Elspeth soou o nariz.
       Eu quase no fiz a operao  disse ela.  Partiu meu corao.
      Ele fitou-a cautelosamente, tentando ser frio e distante.
       Acho que a devem ter forado  disse, fazendo uma pausa. Ela arregalou os olhos.  A KGB  prosseguiu Luke, e ela o encarou.  Mandaram que voc se casasse 
comigo a fim de que pudesse espionar o programa espacial e a obrigaram a se esterilizar para que no tivesse filhos e assim dividisse sua lealdade.
      Luke viu um sofrimento terrvel nos olhos dela e soube que estava certo.
       No minta  ele apressou-se a dizer.  No acreditarei em voc.
       Est certo  disse ela.
      Elspeth tinha admitido. Luke recostou-se na cadeira. Sentia-se sem flego e machucado, como se tivesse cado de uma rvore.
       Eu mudava de idia a toda hora  disse ela, e as lgrimas escorriam pelo seu rosto enquanto falava.  De manh eu estava determinada a fazer. Na hora do 
almoo voc ligava dizendo qualquer coisa sobre uma casa com um terreno grande para as crianas correrem e eu me decidia a desafi-los. Depois, sozinha na cama  
noite, pensava em como eles precisavam desesperadamente da informao que eu poderia obter se estivesse casada com voc e resolvia de novo fazer o que queriam.
       Voc no podia fazer as duas coisas? 
      Ela sacudiu a cabea.
       Do jeito como era eu mal podia agentar, amar e espionar ao mesmo tempo. Se tivssemos filhos, jamais seria capaz de espionar voc.
       O que a fez decidir, no fim de tudo? 
      Ela fungou e esfregou o rosto.
       Voc no vai acreditar. Foi a Guatemala  ela deu uma risadinha.  Aquela gente miservel s queria escolas para os filhos, um sindicato para proteg-los 
e uma oportunidade para ganhar a vida. Mas isso teria aumentado alguns centavos no preo das bananas e a United Fruit no queria, de modo que o que foi que os Estados 
Unidos fizeram? Derrubamos o governo deles e instalamos um fantoche fascista no lugar. Eu trabalhava para a CIA naquele tempo, de modo que sabia da verdade. Aquilo 
me enfureceu  aqueles homens gananciosos de Washington podiam ferrar um pas pobre e se safar impunemente, ainda mentindo a respeito e fazendo a imprensa contar 
aos americanos que o que acontecera tinha sido uma revolta dos anticomunistas locais. Voc dir que  estranho se emocionar com uma coisa dessas, mas no tenho como 
lhe dizer o quanto fiquei furiosa.
       Furiosa o suficiente para prejudicar o prprio corpo.
       E trair voc e arruinar meu casamento  ela levantou a cabea e uma expresso orgulhosa surgiu no seu rosto.  Mas que esperana pode haver para o mundo 
se uma nao de camponeses miserveis no pode tentar tirar o p da lama sem ser esmagada pelas botas de Tio Sam? A nica coisa que lamento  ter-lhe negado os filhos 
que voc queria. Isso foi uma perversidade. Do resto, s sinto orgulho.
      Ele balanou a cabea.
       Acho que compreendo.
       J  alguma coisa  ela suspirou.  O que  que voc vai fazer agora? Chamar o FBI?
       Devo?
       Se chamar, terminarei na cadeira eltrica, como os Rosenbergs.
      Ele estremeceu, como se tivesse sido apunhalado.
       Cristo.
       H uma alternativa.
       Qual?
       Deixar que eu fuja. Pego o primeiro avio que saia do pas. Vou para Paris, Frankfurt, Madri, qualquer lugar na Europa. De l sigo para Moscou.
        isso o que voc quer? Terminar seus dias em Moscou?
         ela deu um sorriso amargurado.  L eu sou coronel, sabe? Nunca fui coronel aqui nos Estados Unidos.
       Voc teria que ir agora, neste instante. 
       OK.
       Eu a levo at o porto e voc vai ter que me entregar seu passe para que no possa voltar.
       OK.
      Ele olhou para ela, tentando registrar seu rosto na memria.
       Acho que isso  o adeus. 
      Ela pegou a bolsa.
       Posso ir primeiro ao toalete feminino?
       Claro  concordou ele.

21:30

O principal objetivo cientfico do satlite  medir os raios csmicos, numa experincia projetada pelo dr. James Van Allen, da Universidade Estadual de Iowa. O instrumento 
mais importante dentro dele  um contador Geiger.
Elspeth saiu da sua sala, virou  esquerda, passou pela porta do toalete feminino e entrou na sala do coronel Hide.
      Estava vazia.
      Fechou a porta e encostou-se nela, tremendo de alvio. Viu a sala rodando, com os olhos cheios de lgrimas. O triunfo da sua vida estava ao alcance de suas 
mos, mas acabara de terminar o casamento com o melhor homem que conhecera e se comprometera a deixar o pas onde nascera para passar o resto dos dias em uma terra 
que nunca vira.
      Fechou os olhos e obrigou-se a respirar fundo e vagarosamente: um, fora, dois, fora, trs, fora. Aps um momento sentiu-se melhor.
      Passou a chave na porta da sala e foi para o armrio atrs da mesa de Hide. Ajoelhou-se diante do cofre. Suas mos tremiam. Com um esforo de vontade, obrigou-as 
a se firmarem. Por alguma razo lembrou das aulas de latim na escola e o provrbio festina lente  apressa-te lentamente  voltou-lhe  memria.
      Repetiu as aes que Hide executara quando o vira abrir o cofre. Primeiro girou o dial quatro vezes no sentido anti-horrio, parando no 10. Depois, girou-o 
trs vezes na direo contrria, parando no 29. Em seguida, mais duas vezes no sentido anti-horrio, parando no 14. Tentou acionar o puxador. Nada.
      Ouviu passos do lado de fora e a voz de uma mulher. Os barulhos vindos do corredor pareciam anormalmente altos, como se fossem os barulhos de um pesadelo. 
Mas os passos desapareceram e a voz foi perdendo a fora.
      Sabia que o primeiro nmero era 10. Discou de novo. O segundo nmero podia ser 28 ou 29. Desta vez discou o 28 e logo em seguida o 14 novamente.
      O puxador continuou imvel.
      Ela havia tentado apenas duas possibilidades de um total de oito. Tinha os dedos escorregadios por causa do suor e secou-os na bainha da saia. Em seguida discou 
10, 29, 13 e logo 10, 28 e 13.
      Chegara na metade da lista.
      Ouviu uma buzina ao longe dar um toque de advertncia  dois toques longos e um curto, trs vezes em sucesso. Aquilo significava que todos deviam desimpedir 
a plataforma de lanamento, o qual deveria ser concretizado dentro de uma hora. Ela deu uma olhada na porta, involuntariamente, e retornou a ateno ao dial. A combinao 
10-29-12 no funcionou.
      Mas a 10-28-13 sim.
      Exultante, girou o puxador e abriu a porta pesada.
      Os dois plugues ainda estavam l. Elspeth permitiu-se um sorriso de triunfo.
      No havia tempo para desmont-los e desenhar o esquema da fiao. Tinha que lev-los para a praia. Theo faria a cpia ou mesmo usaria os prprios plugues na 
sua transmisso.
      Ocorreu-lhe um perigo. Seria possvel que algum notasse a ausncia das duplicatas na prxima hora? O coronel Hide tinha ido para o local do lanamento e era 
improvvel que voltasse antes que tudo terminasse. Tinha que correr o risco.
      Ela ouviu barulho de passos do lado de fora da sala, e algum experimentou a porta.
      Elspeth conteve a respirao.
      Uma voz de homem exclamou:
       Ei, Bill, voc est a dentro?
      Parecia ser Harry Lane. Que diabos ele queria? A maaneta sacudiu. Elspeth conservou-se quieta e em silncio.
       Bill normalmente no tranca a porta, tranca?  insistiu Harry.
       No sei  replicou outra voz.  Acho que o chefe da segurana tem direito a trancar sua porta se quiser.
      Ela ouviu o barulho dos passos se afastando e depois a voz queixosa de Harry:
       Segurana uma ova, ele no quer que roubem seu usque escocs.
      Elspeth tirou os plugues do cofre e enfiou na bolsa. Fechou o cofre, girou o dial e recolocou o armrio no lugar. 
      Em seguida foi at a porta, girou a chave e abriu-a. 
      Deu com Harry Lane parado na sua frente.
       Oh!  exclamou, chocada.
      Ele fechou a cara, numa expresso acusadora.
       O que  que voc estava fazendo a dentro?
       Oh, nada  respondeu ela, num fio de voz, e tentou passar por ele.
      Harry Lane agarrou-a com firmeza pelo brao.
       Se no estava fazendo nada, por que trancou a porta? 
      Ele apertou-lhe o brao at doer.
      Aquilo a enfureceu e ela parou de agir culpadamente.
       Larga o meu brao, seu urso desmiolado, se no quiser que eu arranque a droga dos seus olhos.
      Assustado, ele largou e recuou um passo, mas disse:
       Continuo querendo saber o que voc estava fazendo a dentro.
      Elspeth teve uma inspirao.
       Tive que ajustar minha cinta-liga e o toalete feminino estava cheio, de modo que usei a sala de Bill na ausncia dele. Tenho certeza de que ele no se incomodaria.
       Oh  Harry fez uma cara de idiota.  No, acho que no. 
      Elspeth abrandou o tom de voz.
       Sei que temos que nos preocupar com a segurana, mas no havia necessidade de machucar meu brao.
       Desculpe.
      Ela passou por ele, respirando fundo.
      Elspeth voltou para sua sala. Luke continuava sentado no mesmo lugar onde o deixara, parecendo desgostoso.
       Estou pronta  disse ela. 
      Ele se levantou.
       Depois que sair daqui, voc ir direto para o motel.
      Luke tentava parecer enrgico e prtico, mas pelo seu rosto ela podia ver que estava contendo poderosas emoes. Elspeth limitou-se a dizer que sim.
       De manh voc seguir de carro para Miami e l pegar um avio para sair dos Estados Unidos.
       Sim.
      Ele balanou a cabea, satisfeito. Eles desceram juntos a escada e saram na noite quente. Luke acompanhou-a at o carro. Quando abriu a porta, ele disse:
       Vou ficar com o seu passe agora.
      Ela abriu a bolsa e passou por um momento de pnico. Os plugues estavam bem ali, em cima de uma bolsa de maquiagem amarela de seda, escandalosamente visveis. 
Mas Luke no viu. Estava olhando para o lado, polido demais para se interessar pelo interior da bolsa de uma mulher. Ela pegou o passe de segurana de Cabo Canaveral, 
entregou e fechou a bolsa com um estalo.
      Luke guardou o passe no bolso e disse:
       Seguirei voc at o porto no jipe.
      Ela viu que aquilo era o adeus e no conseguiu falar. Entrou no carro e bateu a porta.
      Elspeth engoliu as lgrimas e arrancou. As luzes do jipe de Luke se acenderam e a seguiram. Passando pela plataforma de lanamento, ela viu a plataforma de 
servio recuando nos trilhos. Com isso o imenso foguete branco ficou sozinho iluminado pelos refletores, parecendo instvel, como se uma cotovelada descuidada de 
um passante pudesse derrub-lo. Consultou o relgio. Um minuto para as dez. Tinha quarenta e seis minutos.
      Saiu da base sem parar. Os faris do jipe de Luke diminuram no retrovisor e finalmente desapareceram quando ela fez uma curva.
       Adeus, meu amor  disse, em voz alta, e comeou a chorar. 
      Desta vez no conseguiu se segurar. Enquanto dirigia pela estrada que seguia paralela  costa, chorou incontrolavelmente, as lgrimas escorrendo pelo rosto, 
o peito sacudido pelos soluos angustiados. As luzes dos outros carros passavam em listras embaadas. Quase passou pela estrada que demandava o litoral. Quando viu, 
meteu o p no freio e derrapou, ficando na frente do trfego que vinha na direo contrria. Um txi deu uma freada violenta e desviou, buzinando e derrapando, quase 
batendo na traseira do Bel Air. Elspeth prosseguiu aos solavancos at a pista irregular de areia da estrada da praia e conseguiu parar, o corao batendo na boca. 
Quase tinha arruinado tudo. Enxugou as lgrimas na manga do vestido e seguiu mais devagar, para a praia.
      
> > > < < <
      
Depois que Elspeth saiu, Luke permaneceu no porto com o  jipe, esperando que Billie chegasse. Sentia-se ofegante e abalado, como se tivesse batido a toda velocidade 
numa parede e agora estivesse deitado no cho tentando recobrar os sentidos. Elspeth admitira tudo. Nas ltimas vinte e quatro horas ele tivera plena convico de 
que ela trabalhava para os soviticos. Mesmo assim, fora chocante ter sua crena confirmada. Claro que havia espies, todo mundo sabia disso, e Ethel e Julius Rosenberg 
tinham morrido na cadeira eltrica por espionagem, mas ler essas coisas no jornal no era a mesma coisa que conviver com elas. A questo  que ele fora casado com 
uma espi durante quatro anos. Mal podia acreditar nisso.
      Billie chegou s dez e quinze num txi. Luke registrou-a na Segurana, depois entraram no jipe e seguiram para o local do lanamento.
       Elspeth foi embora  disse Luke.
       Acho que eu a vi  replicou Billie.  O carro dela  um Bel Air branco?
       , sim.
       Meu txi quase bateu no carro dela. Atravessou a estrada bem na nossa frente. Vi o rosto de Elspeth iluminado  luz dos faris. No a pegamos por uma questo 
de centmetros. 
      Luke franziu a testa, preocupado.
       Por que ela virou na frente de vocs?
       Estava saindo da estrada.
       Ela me disse que ia direto para o Starlite. 
      Billie sacudiu a cabea.
       No, estava indo para a praia.
       Para a praia?
       Pegou uma daquelas trilhas estreitas que atravessa as dunas.
       Que merda!
      Luke fez meia-volta com o jipe.
      
> > > < < <
      
Elspeth seguiu vagarosamente ao longo da praia, olhando fixamente os grupos de pessoas que tinham se reunido para o lanamento. Quando via mulheres ou crianas, 
seus olhos movimentavam-se rapidamente. Mas havia muitos grupos s de homens fs de foguetes, circulando em torno dos carros, de mangas de camisa, com binculos 
e cmeras, fumando cigarros e bebendo. Concentrou-se nos automveis, procurando um Mercury Monterey de quatro anos. Anthony tinha dito que o carro era verde, mas 
no havia luz bastante para distinguir cores.
      Ela comeou no lado mais perto da base, apinhado de gente, mas Anthony e Theo no estavam l, e concluiu que deviam ter escolhido um local mais isolado. Apavorada 
ante a possibilidade de se perder deles, foi se deslocando gradualmente para o sul.
      At que por fim viu um homem alto, de suspensrios antiquados, encostado em um carro de cor clara e apreciando, de binculo, o brilho das luzes de Cabo Canaveral. 
Parou o carro e saltou.
       Anthony!  exclamou.
      Ele abaixou o binculo e Elspeth viu que no se tratava de Anthony.
       Desculpe  disse ela, seguindo em frente.
      Outra olhada no relgio. Dez e meia. Quase no havia mais tempo. Tinha os plugues, tudo estava pronto, s faltava encontrar dois homens na praia.
      Os automveis foram escasseando e os espaos entre eles passaram a ser de mais ou menos cem metros. Elspeth acelerou. Passou perto de um carro que parecia 
corresponder  descrio do Mercury, mas parecia vazio. No entanto, quando acelerou de novo, ouviu uma buzina.
      Reduziu a marcha e olhou para trs. Um homem saltara do carro e acenava para ela. Era Anthony.
       Graas a Deus!  exclamou Elspeth. Deu marcha a r at perto dele e saltou.  Tenho a duplicata dos plugues  anunciou.
      Theo saltou do outro carro e abriu a mala.
       Passe para c os plugues, Elspeth  disse ele.  Rapidamente, pelo amor de Deus.

22:48
     
A contagem regressiva atinge a zero.
     O responsvel pelo lanamento diz, Comando de fogo! Um homem da equipe puxa um anel de metal e torce. Esta  a ao que dispara o foguete.
     Vlvulas se abrem para que o combustvel possa comear a fluir. A abertura que permite a passagem do oxignio lquido  fechada e o halo de fumaa branca em 
torno do foguete de repente desaparece.
     O responsvel pelo lanamento diz, Tanques de combustvel pressurizados.
     Durante os onze segundos seguintes, nada acontece.
O jipe foi avanando ao logo da praia a toda velocidade, desviando-se dos grupos de famlias. Luke examinou os carros, ignorando os gritos de protesto quando os 
pneus jogavam areia nas pessoas. Billie ia de p a seu lado, agarrada na parte superior do pra-brisa. Ele gritou, sobrepondo-se ao barulho do vento:
       V um Bel Air branco? 
      Ela sacudiu a cabea.
       Devia ser fcil de localizar!
       Devia  concordou Luke.  Ento, onde diabos  que eles esto?
A ltima mangueira de conexo cai do mssil. Um segundo mais tarde, o combustvel se inflama e o motor do primeiro estgio ganha vida ruidosamente. Uma imensa lngua 
de fogo cor de laranja brota da base do foguete e o empuxo vai se acumulando.
       Pelo amor de Deus, Theo, depressa!  disse Anthony.
       Cala a boca  disse Elspeth.
      Estavam debruados sobre a mala aberta do Mercury, observando Theo mexendo no radiotransmissor. No momento prendia fios aos pinos de um dos plugues que Elspeth 
lhe dera.
      Quando ouviram um som que lembrava um trovo distante, todos levantaram a cabea.
Com dolorosa lentido, o Explorer I se ergue da plataforma de lanamento. Algum, numa das posies de controle, grita, Vai, baby, vai!
      Billie viu um Bel Air branco estacionado ao lado de um sed mais escuro. 
       Ali!  gritou ela.
       J vi!  respondeu Luke.
      Na parte de trs do sed, trs pessoas estavam reunidas em torno da mala aberta. Billie reconheceu Elspeth e Anthony. O outro homem devia ser Theo Packman. 
Mas eles no estavam olhando para dentro da mala. Todos tinham as cabeas erguidas e voltadas na direo de Cabo Canaveral.
      Billie percebeu imediatamente do que se tratava. O transmissor estava dentro da mala do automvel e eles o ajustavam para emitir o sinal destinado a explodir 
o foguete. Mas por que olhavam para l? Billie tambm se virou para a direo de Cabo Canaveral. No havia nada para ver, mas ela ouviu um rudo surdo que lembrava 
o barulho feito pelos altos-fornos de siderrgicas.
      O foguete estava subindo.
       Chegamos atrasados!  gritou Billie.
       Segura firme!  disse Luke.
      Ela se agarrou no pra-brisa enquanto ele virava o jipe num arco amplo.
O foguete ganha velocidade subitamente. Em um instante parece estar pairando hesitantemente sobre a plataforma. No instante seguinte ele se desloca com a velocidade 
de uma bala ao sair da boca do cano, penetrando no cu da noite com a sua cauda de chamas.
      Acima do ronco do foguete, Elspeth ouviu outro barulho, o rudo tpico de um motor de automvel acelerado ao mximo. Um segundo depois o facho de faris caiu 
sobre o grupo reunido em torno da mala do Mercury. Ela levantou a cabea e viu um jipe se aproximando a toda velocidade e percebeu que ia bater neles.
       Depressa!  gritou.
      Theo conectou o ltimo fio. 
      No transmissor havia dois interruptores, um marcado Armar e o outro Destruir. 
      O jipe estava em cima deles. 
      Theo acionou o interruptor Armar.
Na praia, milhares de rostos se inclinaram para trs, vendo o foguete subir reto, e ouviu-se um enorme clamor de regozijo.
      Luke acelerou direto sobre a traseira do Mercury.
      O jipe tinha diminudo de velocidade quando ele fez a volta, mas ainda assim estava a uns bons quarenta quilmetros por hora. Billie pulou fora, atingiu o 
cho correndo e depois caiu e rolou.
      No ltimo segundo Elspeth saiu da frente do jipe com um pulo e logo em seguida ouviu-se um estrondo ensurdecedor, e o barulho caracterstico de vidro quebrado.
      A traseira do Mercury foi amarrotada, o carro deu um pulo de um metro para a frente e a tampa da mala fechou com uma pancada. Luke achou que ou Theo ou Anthony 
tinha ficado esmagado entre os dois carros, mas no podia ter certeza. Ele prprio foi lanado  frente com violncia. A parte de baixo do volante o atingiu na parte 
inferior do trax e ele sentiu a dor aguda das costelas quebradas. No momento seguinte sua testa bateu na parte de cima do volante e ele sentiu o sangue quente escorrer 
pelo rosto.
      Luke endireitou-se e olhou para Billie. Parecia ter se sado melhor que ele. Sentada no cho, esfregava os cotovelos, mas no parecia estar sangrando.
      Olhou por cima do cap do jipe. Theo estava deitado no cho, de braos e pernas esparramados, sem se mover. Anthony estava de quatro, parecendo abalado, mas 
inclume. Elspeth, que no chegou a se machucar, levantou-se com algum esforo e disparou para o Mercury, onde tentou abrir a tampa da mala.
      Luke pulou do jipe e correu para ela. Quando a tampa da mala do carro foi aberta ele a empurrou de lado e ela caiu na areia.
       No se mexa!  gritou Anthony.
      Luke olhou para ele. Estava de p sobre Billie com uma pistola encostada na parte de trs da cabea dela.
      Quase que na mesma hora, Luke olhou para cima. A cauda vermelha do Explorer era um meteoro cintilante cruzando o cu da noite. Enquanto estivesse assim visvel, 
o mssil podia ser destrudo. O primeiro estgio estaria consumido quando o foguete atingisse 100 quilmetros de altura. Neste ponto se tornaria invisvel  pois 
o fogo menos intenso do segundo estgio no era brilhante o suficiente para ser visto da terra  e este seria o sinal de que o sistema de autodestruio no mais 
funcionaria. O primeiro estgio, que continha o detonador do explosivo, teria que se separar e cair, vindo a mergulhar no Oceano Atlntico. Depois da separao no 
seria mais possvel danificar o satlite.
      E a separao teria lugar dois minutos e vinte e cinco segundos aps a ignio. Luke calculou que a ignio tivesse ocorrido cerca de dois minutos antes. Em 
outras palavras, o sistema de autodestruio s poderia funcionar dentro do prazo mximo de vinte e cinco segundos.
      Tempo de sobra para acionar um interruptor.
      Elspeth levantou-se de novo.
      Luke olhou para Billie. Estava apoiada sobre um joelho, como um corredor na linha de partida, imobilizada pelo silenciador comprido da arma de Anthony, enfiado 
no seu cabelo cacheado. A mo de Anthony parecia firme como uma rocha.
      Luke perguntou a si prprio se estava pronto a sacrificar a vida de Billie pelo foguete.
      A resposta foi no.
      Mas o que aconteceria se ele se movesse? Anthony atiraria em Billie? Podia ser.
      Elspeth debruou-se de novo sobre a mala do carro.
      Foi ento que Billie se moveu.
      Ela sacudiu a cabea para o lado e atirou o corpo para trs, batendo com os ombros nas pernas de Anthony.
      Luke mergulhou sobre Elspeth e empurrou-a para longe do carro.
      A arma com silenciador tossiu quando Anthony e Billie caram juntos.
      Luke ficou apavorado. Anthony tinha atirado, mas ser que atingira Billie? Ela rolou para longe dele, aparentemente ilesa, e Luke voltou a respirar. Anthony 
ento levantou a pistola e apontou para Luke.
      Luke enfrentou a morte cara a cara e uma calma peculiar se apoderou dele. Tinha feito tudo o que podia.
      Houve um longo momento de hesitao. Por fim Anthony tossiu e uma golfada de sangue saiu de sua boca. Luke viu que, ao puxar o gatilho quando caiu, tinha atirado 
em si prprio. Agora sua mo inerte largou a arma e ele caiu de costas na areia, os olhos arregalados para o cu, sem nada verem.
      Elspeth levantou-se e, pela terceira vez, debruou-se sobre o transmissor.
      Luke levantou os olhos. A cauda de fogo era um vaga-lume no espao. Enquanto olhava, ela se apagou.
      Elspeth acionou o interruptor e olhou para o cu, mas fora tarde demais. O primeiro estgio tinha se consumido e se separado. O Primacord provavelmente detonara, 
mas no havia mais combustvel para queimar, e, de qualquer maneira, o satlite no estava mais conectado com o primeiro estgio.
      Luke suspirou. Estava acabado. Tinha salvo o foguete.
      Billie ps a mo no peito de Anthony e checou seus batimentos cardacos.
       Nada  disse ela.  Est morto.
      No mesmo instante, Luke e Billie olharam para Elspeth.
       Voc mentiu de novo  disse Luke.
      Elspeth o encarou com um brilho histrico nos olhos.
       Ns no estvamos errados!  gritou.  Ns no estvamos errados!
      Atrs dela, as famlias de espectadores e turistas comeavam a guardar seus pertences. Ningum estivera perto o bastante para reparar na briga; todos os olhos 
tinham ficado voltados para o cu.
      Elspeth olhou para Luke e Billie como se tivesse algo mais para dizer, mas depois de um longo momento virou de costas, entrou no Bel Air, bateu a porta e deu 
a partida no motor.
      Em vez de seguir para a estrada, contudo, dirigiu-se para o mar. Luke e Billie viram-na, horrorizados, seguir direto para mergulhar na gua.
      O Bel Air parou, as ondas marulhando no pra-choque, e Elspeth saltou. Luke e Billie a viram quando comeou a nadar mar adentro.
      Luke deu um passo, disposto a segui-la, mas Billie agarrou-lhe o brao e o segurou.
       Ela vai se matar!  exclamou ele, aflito.
       Voc no consegue peg-la mais  disse Billie.  Acaba se matando!
      Ainda assim, Luke gostaria de tentar. Mas Elspeth ultrapassou a faixa iluminada pelos faris dos carros, nadando vigorosamente, e ele se deu conta de que nunca 
a encontraria no escuro. Baixou a cabea, derrotado.
      Billie o abraou. Aps um momento, ele tambm a envolveu com seus braos.
      De repente, a tenso dos ltimos trs dias caiu sobre ele como uma rvore. Luke cambaleou, prestes a cair, e Billie o sustentou na vertical.
      Aps um momento, sentiu-se melhor. De p, ali na praia, abraados, Billie e Luke levantaram os olhos.
      O cu estava cheio de estrelas.

EPLOGO 
     
1968
     
O contador Geiger do Explorer I registrou radiao csmica mil vezes mais alta que o esperado. Esta informao possibilitou aos cientistas mapear os cintures de 
radiao acima da Terra, que vieram a ser conhecidos como cintures de Van Allen, em homenagem ao cientista da Universidade de Iowa que planejou a experincia.
     A experincia dos micrometeoritos determinou que cerca de 2.000 toneladas de poeira csmica caiam na Terra anualmente.
     Foi visto que a forma da Terra era um por cento mais achatada do que se pensava anteriormente.
     Mais importante que tudo, para os pioneiros das viagens no espao, os dados de temperatura recolhidos no Explorer I demonstraram que  possvel controlar o 
calor dentro de um mssil de modo a permitir a sobrevivncia no espao.
Luke integrou a equipe da NASA que levou a Apollo 11 a pousar na Lua.
      A essa altura, ele morava em uma casa grande e confortvel, em Houston, com Billie, que chefiava a psicologia cognitiva em Baylor. Tinham trs filhos: Catherine, 
Louis e Jane. (Larry, seu enteado, tambm morava com eles, mas naquele vero estava visitando o pai, Bern).
      Aconteceu de Luke estar de folga na noite de 20 de julho. Conseqentemente, quando faltavam poucos minutos para as nove horas, hora local, ele estava assistindo 
 televiso, como metade do mundo. Ele se sentou no sof enorme com Billie ao lado e Jane, a mais moa, no colo. Os outros garotos ficaram no carpete com o cachorro, 
um Labrador amarelo chamado Sidney.
      Quando Neil Armstrong pisou na Lua, uma lgrima rolou pelo rosto de Luke.
      Billie pegou a mo dele e apertou-a, carinhosamente.
      Catherine, de nove anos e com as mesmas cores da me, olhou para ele com solenes olhos castanhos e perguntou, num cochicho:
       Me, por que o papai est chorando?
        uma longa histria, querida  respondeu Billie.  Um dia eu conto.
      
Esperava-se que o Explorer I permanecesse no espao dois ou trs anos. Na verdade, orbitou em torno da Terra durante doze anos. No dia 31 de maro de 1970, finalmente 
reentrou na atmosfera sobre o Oceano Pacfico, perto da Ilha da Pscoa, e incendiou-se s 5:47, tendo circulado em volta da terra 58.376 vezes e viajado um total 
de 2,66 bilhes de quilmetros.


AGRADECIMENTOS
Muitas pessoas se empenharam generosamente, dando seu tempo e esforos para me ajudar a conseguir os detalhes de fundo corretos para esta histria. A maioria foi 
encontrada por Dan Starer, da Pesquisa para Escritores da Cidade de Nova York, que tem trabalhado para mim em todos os livros desde The Man from St. Petersburg, 
de 1981. Agradecimentos especiais aos que se seguem:
      Em Cambridge, Massachusetts: Ruth Helman, Isabelle Yardley, Fran Mesher, Peg Dyer, Sharon Holt, juntamente com as estudantes da Pforzheimer House e Kay Stratton;
      No hotel St. Regis, antigamente chamado de Carlton, em Washington, D.C: o concierge Louis Alexander, o mensageiro Jose Muzo, e o gerente-geral, Sr. Peter Walterspiel, 
com sua assistente, Pat Gibson;
      Na Universidade de Georgetown: arquivista Jon Reynolds, professor aposentado de fsica Edward J. Finn e Val Klump, do Clube de Astronomia;
      Na Flrida, Henry Magill, Ray Clark, Henry Paul e Ike Riggel, que trabalharam nos primeiros programas espaciais, e tambm Henri Landworth, antigo gerente do 
Starlite Motel;
      Em Huntsville, Alabama: Tom Carney, Cathey Carney e Jackie Gray, da revista Old Huntsville; Roger Schwerman, do Redstone Arsenal; Michael Baker, historiador 
do Comando de Aviao e de Msseis do Exrcito; David Aslberg, Curador do U.S Space & Rocket Center; e o dr. Ernst Stuhlinger.
      Diversos membros da minha famlia leram o rascunho e fizeram crticas, entre os quais minha mulher, Barbara Follett, minhas enteadas Jann Turner e Kim Turner 
e meu primo John Evans. Muito devo tambm aos editores de texto Phyllis Grann, Neil Nyren e Suzanne Baboneau, aos agentes Amy Berkower, Simon Lipskar e, acima de 
tudo, Al Zuckerman.
      
      







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compr-la ou queles que necessitam de meios eletrnicos para ler. Dessa forma, a venda deste e-book ou at mesmo a sua troca por qualquer contraprestao  totalmente 
condenvel em qualquer circunstncia. A generosidade e a humildade  a marca da distribuio, portanto distribua este livro livremente.
Aps sua leitura considere seriamente a possibilidade de adquirir o original, pois assim voc estar incentivando o autor e a publicao de novas obras.
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